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FHC

03/08/2015

às 4:57

FHC cobra, sim, o “mea-culpa” do PT, mas não para fazer conchavo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não é padre. Não consta que tenha exercido a Presidência, ao longo de oito anos, com dons sacerdotais. Tem apreço demais pela ironia informada para se fazer de pregador ou de confessor. Assim, a hipótese de que esteja a exigir de Lula ou do PT um “mea-culpa” para, então, perdoá-los e dar início ao conchavo me parece um tanto ridícula.

Não é o que está escrito em seu artigo no Estadão neste domingo. Ao contrário. Prestem atenção ao que FHC conta em seu texto:

“Na ocasião da viagem que a presidente Dilma e os ex-presidentes fizemos juntos à África do Sul, em dezembro de 2013, para assistir ao funeral de Mandela, disse a todos que a descrença da sociedade no sistema político havia atingido limites perigosos. Ainda não era possível antecipar o tamanho da crise em gestação, mas não restava dúvida de que o País enfrentaria dificuldades econômicas e que essas seriam ainda maiores se as suas lideranças políticas não dessem resposta ao problema da legitimidade do sistema político. Disse também que todos nós ali presentes, independentemente do grau maior ou menor de responsabilidade de cada um, deveríamos nos entender e propor ao País um conjunto de reformas para fortalecer as instituições políticas. A sugestão caiu no esquecimento.”

O ex-presidente vai adiante e escreve sobre Lula:
“Naquela ocasião, como em outras, a resposta do dirigente máximo do PT foi ora de descaso, ora de reiteração do confronto, pela repetição do refrão autorreferente de que antes dele tudo era pior. Para embasar tal despautério, o mesmo senhor, no afã de iludir, usou e abusou de comparações indevidas. Mais uma vez agora, sem dizer palavra sobre a crise moral, voltará à cantilena de que a inflação e o desemprego de hoje são menores do que em 2002, omitindo que, naquele ano, a economia sofreu com o medo do que poderia vir a ser o seu governo, um sentimento generalizado que, em benefício do País, meu governo tratou de atenuar com uma transição administrativa que permitiu ao PT assumir o poder em melhores condições para governar. Sobre a crise de hoje nenhuma palavra…”

Sim, FHC cobra de Lula e de seu partido o mea-culpa, deste modo:

“É hora de reconhecerem de público que a política democrática é incompatível com a divisão do País entre ‘nós’ e ‘eles’. Para dialogar, não adianta se vestir em pele de cordeiro. Fica a impressão de que o lobo quer apenas salvar a própria pele. (…) Em suma, cabe aos donos do poder o mea-culpa de haver suposto sempre serem a única voz legítima a defender o interesse do povo.”

O ex-presidente lembra a condição que ele impôs para uma eventual conversa com Lula e com o PT:
“ (…) desde que seja para uma discussão de agenda de interesse nacional e pública. Por que isso? Porque não terá legitimidade qualquer conversa que cheire a conchavo ou, pior, que permita a suspeita de que se deseja evitar a continuidade nas investigações em marcha, ou que seja percebida como uma manobra para desviar a atenção do País do foco principal, a apuração de responsabilidades.”

Portanto, meus caros, fim de papo. Não haverá conchavo. Mas todos fiquem adicionalmente tranquilos: porque também não haverá mea-culpa. Não é nem da natureza do PT nem da natureza de Lula.

Por Reinaldo Azevedo

26/07/2015

às 8:00

FHC afasta o cálice da impostura e se nega a ajudar a salvar “o que não tem de ser salvo”. Agenda de consenso na democracia é a Constituição

“O momento não é para a busca de aproximações com o governo, mas sim com o povo. Qualquer conversa não pública com o governo pareceria conchavo na tentativa de salvar o que não deve ser salvo.”

O texto acima é da lavra do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e foi publicado no Facebook. Na mosca! É precisamente disto que se trata: qualquer conversa que não seja pública será mesmo conchavo. O governo Dilma não “tem de ser salvo”. O statu quo não “tem de ser salvo”. Nenhum governo “tem de ser salvo”. As instituições, estas sim, têm de ser preservadas, com tudo o que há nelas, inclusive as hipóteses em que o chefe do Executivo pode ser afastado.

Tão logo Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, anunciou seu rompimento com o governo, os petistas, com medo do que possa acontecer no Congresso, passaram a gritar: “Fogo! Fogo na floresta! Crise institucional!”. Cadê? Quem está em crise é o governo Dilma. Sim, o Brasil também está, e sua única saída está nas instituições.

O PT, que sempre se alimentou da luta do “Nós” (eles) contra “Eles” (todos os que não se ajoelham diante do partido), agora decidiu que é hora de fazer um grande acordo nacional. É mesmo? Para salvar quem? Para salvar o quê? Autoridades fazem proselitismo contra o impeachment até quando explicam as pedaladas fiscais, a exemplo do que fez Luís Inácio Adams, numa das falas mais ridículas dos últimos tempos. Ameaçou recorrer ao Supremo caso o TCU recomende a rejeição das contas, como se um tribunal constitucional tivesse o poder de impedir um ministro de tribunal de contas de rejeitar os números oficiais.

Isso, sim, caracteriza um evidente desprezo pelas leis. O que o STF tem a ver com isso? Caso a Câmara decida dar sequência a uma denúncia contra a presidente por crime de responsabilidade, o que poderá fazer a instância máxima do Judiciário além de nada?

Os únicos a acreditar e a sustentar que uma eventual deposição, pela via legal, da presidente é golpe são os petistas e as esquerdas que lhes servem de satélites. Na verdade, até eles próprios sabem que se trata de uma farsa. No dia 14 de julho, numa manifestação de esquerdistas em defesa de Dilma e do PT, Rui Falcão, presidente do partido, deixou escapar:
“Não se esqueçam, companheiros e companheiras, que gritamos ‘Fora Collor’ e gritamos ‘Fora FHC’. E o ex-presidente Collor saiu da Presidência num processo legal, dentro da democracia, e é isso que eles pretendem fazer agora: expelir a Dilma dentro de um processo democrático”.

É isso mesmo! Desconhece-se força relevante no país que defenda uma saída que não esteja contemplada pelo “processo democrático”. Aliás, quando ministros de estado, como José Eduardo Cardoso e Pepe Vargas, insistem na tese de que um eventual processo de impeachment é golpe, temos de deixar claro com todas as letras: golpista é querer deslegitimar a Constituição e as leis.

Sem agenda
Que curioso!

O governo não tem agenda nem para manter unida a base aliada. Qual é? Se você perguntar a qualquer petista o que pretende Dilma nos próximos três anos e meio, ninguém saberá responder. Ela tampouco sabe. Quem abriu o ano prometendo economizar R$ 66,3 bilhões a título de superávit primário e, sete meses depois, baixa a expectativa para R$ 8,5 bilhões, anunciando um corte adicional no Orçamento de R$ 8,6 bilhões, não sabe, como se diz em Dois Córregos, nem “fazer o ‘O’ com o copo”.

Se Dilma não tem agenda para segurar os seus, quer conversar com a oposição precisamente o quê? A resposta: “Nada!”. Ela só tem a intenção de impedir o avanço de um eventual processo de impeachment, como se a sua deposição trouxesse consigo o risco de uma grave crise institucional. Ou, nas palavras de FHC, ela quer salvar “o que não tem de ser salvo”.

Consta que alguns tucanos se viram tentados a cair na conversa… Quais? Se existe tucano defendendo o diálogo, que diga publicamente, ora essa! E que exponha as suas razões. Se falta coragem para dizer com clareza o que quer, vai ver está tentando salvar “o que não tem de ser salvo”.

É isso aí, FHC! Afaste esse cálice! O melhor serviço que a oposição pode prestar ao Brasil é cobrar o cumprimento das leis e da Constituição.

Por Reinaldo Azevedo

15/05/2015

às 7:03

Minha coluna na Folha – “Lula e FHC. Ou: De Senectude”

Leiam trechos:

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu na terça, dia 12 de maio, em Nova York, o prêmio “Pessoa do Ano”, conferido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA. Fez um discurso duro, mas sereno. A reparação histórica começou, quero crer, mais cedo do que ele imaginava.
(…)
Como Cícero recomendava em “De Senectude”, FHC, 84 anos no mês que vem, descobriu os prazeres da maturidade. O espírito de alguns livros, de alguns vinhos e, acrescentaria eu, de alguns uísques requer um repertório que é dado pela experiência, não pelo ímpeto. Nota à margem: o próprio Cícero, coitado!, se foi bem antes, aos 63, com cabeça e mãos literalmente cortadas.

E Lula? Ah, Lula… À beira dos 70 anos, poderia ele também estar pacificado. Embora repudie a sua obra, reconheço-lhe a trajetória invulgar. Por que não faz do prateado do rosto e da cabeça o retrato da temperança? Se não o socorre outro saber que não a disputa pelo poder –e assim é por escolha, não por determinação; é ele que foge dos livros, não o contrário–, que as virtudes do conselheiro se sobreponham às do guerreiro. Mas não!
(…)
Fora do poder há 13 anos, mesmo tendo a sua biografia política cotidianamente esmagada pela máquina de propaganda petista, FHC fala a um país nascente. E o faz com discrição e sem pretensões de exercer alguma forma de liderança. Lula, ao contrário, tornou-se apenas um velho reacionário, que busca, desesperadamente, um modo de calar as ruas. Fala à terra dos mortos.
(…)
Íntegra aqui

Por Reinaldo Azevedo

13/05/2015

às 5:15

FHC em Nova York: “Perdi em vários momentos a popularidade, nunca a credibilidade”

Por Cláudia Trevisan e Alamiro Silva Jr., no Estadão:
A uma plateia de 1.200 pessoas reunidas em um jantar de gala ontem em Nova York, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que os avanços construídos no Brasil a partir da Constituição de 1988 pareciam “desfazer-se no ar” nos últimos anos. Defendendo que o País se guie por “uma lanterna na proa, e não na popa”, o tucano disse esperar que os caminhos percorridos até hoje “não se percam”.

Para Fernando Henrique, essa “construção” de décadas foi feita por gerações e não permite que se diga “nunca neste País antes de mim fez-se tal e tal coisa” – uma referência ao bordão que marca os discursos de seu sucessor, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. “Um país não se constrói senão pondo tijolo sobre tijolo, obra de gerações.”

FHC foi um dos dois homenageados em jantar oferecido no hotel Waldorf-Astoria pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos em Nova York. Desde 1970, a entidade dá o prêmio Pessoa do Ano a um brasileiro e a um americano que atuaram pela melhoria nas relações entre os dois países. O outro homenageado foi o ex-presidente Bill Clinton, cujo mandato coincidiu com grande parte do governo do tucano. O evento de ontem foi o mais concorrido das 45 edições do prêmio concedido pela câmara, que reúne 450 empresas dos dois países. 
(…)
Sem mencionar o nome da presidente Dilma Rousseff, o tucano criticou a política econômica do primeiro mandato da petista por manter medidas anticíclicas adotadas em resposta à crise de 2008. “O governo interpretou o que era política de conjuntura como um sinal para fazer marcha à ré”, observou. “Paulatinamente fomos voltando à expansão sem freios do setor estatal, ao descaso com as contas públicas, aos projetos megalômanos que já haviam caracterizado e inviabilizado o êxito de alguns governos do passado.”
(…)
Para Clinton, FHC está entre os quatro ou cinco líderes mais extraordinários que conheceu. “Ele era a pessoa certa para o seu tempo. Ele é a pessoa certa para qualquer tempo.”

Política externa
Fernando Henrique fez a primeira parte do discurso em inglês e retornou ao português quando falou de questões brasileiras. O aplauso mais longo veio ao dizer: “Perdi em vários momentos a popularidade, nunca a credibilidade”. 

O ex-presidente criticou a omissão do governo brasileiro diante de violações de “práticas democráticas” na Venezuela e atacou o que considera uma tímida repulsa ao terrorismo. “Não há sequer como pensar em negociar com quem exibe as cabeças cortadas dos ‘infiéis’”, declarou, em referência indireta ao discurso de Dilma na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) do ano passado, no qual ela defendeu o diálogo para solução da crise gerada pela emergência do Estado Islâmico.“Se quisermos participar da mesa decisória do mundo, temos de nos comprometer com os valores democráticos e dar-lhes consequência”, afirmou FHC. Para ele, em um mundo globalizado não há lugar para a “mudez solidária” em nome da autodeterminação.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

10/04/2015

às 22:20

FHC: “Saída para o Brasil passa por protestos”

No Estadão:
Ao fazer um diagnóstico sobre o atual momento político brasileiro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou a capacidade de liderança de Dilma Rousseff. A escolha do vice-presidente Michel Temer (PMDB) para comandar a articulação política do governo é um sinal, segundo o tucano, de que a presidente está com a capacidade de liderança “muito abalada”.

“Nós estamos, por circunstâncias, em um momento em que capacidade de liderança da pessoa que ocupa a Presidência está muito abalada.”, criticou. “Tanto que entregou a chave do cofre para alguém que pensa o oposto (Joaquim Levy). E entregou para ele fechar o cofre, ela não pode mexer mais no cofre. E agora entregou o comando político a outro que também pensa diferente, para outro partido”, completou, falando de Michel Temer.

Em palestra na manhã desta sexta-feira, 10, para uma plateia formada por empresários e trabalhadores do setor de tecnologia, FHC foi aplaudido diversas vezes quando criticava o governo. O tucano classificou a situação atual do Brasil como “delicada”. “Neste momento a saída passa pelos protestos de rua, pela justiça funcionar e a mídia dizer o que está acontecendo. Ampliar a informação, não fazer conchavo, não fazer conciliação”, disse o ex-presidente, amenizando, em seguida, a afirmação. “Mas em algum momento sempre tem de haver algum acordo. A sociedade não funciona em pé de guerra o tempo todo”, disse, emendando que tal acordo “não pode ser embaixo do pano”.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

26/03/2015

às 7:38

Uma boa entrevista de FHC e a questão do impeachment. E ainda: Dilma como refém

Gostei da entrevista de Fernando Henrique Cardoso à Folha. E concordo com boa parte do que vai lá. Escrevi neste blog, no dia 24, que a presidente Dilma Rousseff é refém de Joaquim Levy (texto aqui), afirmação que ele faz à Folha. É claro que ela segue sendo a chefe. Mas cabe a pergunta: pode demiti-lo? A Standard & Poor’s deixou claro que o país só não foi rebaixado porque confia no pacote fiscal do ministro…  Na atual situação, depois de Levy, só dilúvio.

Leiam essas duas perguntas, com suas respectivas respostas, sobre o impeachment:
Setores que defendem o impeachment dizem que o sr. poupa Dilma e reedita o que fez em 2005 por Lula…
Em 2005 havia possibilidade legal de pedir impeachment. Por que não teve? Porque a rua não estava nessa posição. O impeachment não é um ato simplesmente técnico. Cria um fosso, um mal-estar historicamente ruim. Agora, quem está processando a Dilma por algo que ela fez? Não tem. Quer dizer que não venha a acontecer? Não sei. Estamos numa situação de ponto de interrogação. Dependemos do calor da rua, do avanço do processo judicial e da mídia. Seria irresponsável nessa situação eu sair com uma bandeira fora de hora.

Mas o sr. acha que hoje um pedido de impeachment de Dilma teria o mesmo problema que viu no de Lula em 2005?
Não, é diferente. E vou dizer uma coisa arriscada: o Lula perde hoje. Hoje [se Dilma cai e fazem novas eleições], o Lula perde. Mas não penso eleitoralmente. Sou democrata. Não vou dizer: ‘Então vamos fazer o impeachment porque o Aécio [Neves] ganha, o Geraldo [Alckmin] ganha, ou eu ganho’. Não estou dizendo que nunca vai se chegar a tal ponto [do impeachment]. Não sei.

Comento
Eu estou entre aqueles que acham que existem elementos, com base na Lei 1.079, para fazer a denúncia à Câmara. Notem que o ex-presidente nem entra nesse mérito: diz apenas que inexiste esse processo, o que é fato. De resto, com efeito, isso não se faz da noite para o dia.

É claro que o PSDB poderia apresentar a petição à Câmara. Haveria o risco de ser rejeitada já na primeira comissão. Um dos requisitos — leiam a Lei 1.079 — é que a denúncia se faça acompanhar de provas. Será que, hoje, a Câmara daria andamento à denúncia com base apenas em testemunhos de pessoas em processo de delação premiada e tendo como premissa a quebra do decoro, conforme o Inciso 7º do Artigo 9º da referida lei? No atual estágio, a resposta é esta: muito provavelmente, não! Uma rejeição, nesse caso, tenderia a afastar do horizonte o impeachment, independentemente do que ainda virá pela frente.

Cumpre ler com cuidado o que disse FHC. Essa sua declaração me parece bem mais ajustada do que outras que deu a respeito. De resto, meus caros, é evidente que um processo de impeachment requer determinadas circunstâncias políticas, sim, além das jurídicas.

“Ah, mas você não disse achar que já existem motivos?” Sim, eu acho. Mas quem também precisa achar — além da maioria dos brasileiros, que pensa o mesmo — é a Câmara dos Deputados. É por isso que, nesse caso, a rua é a serventia da democracia. Entenderam?

Por Reinaldo Azevedo

10/03/2015

às 3:15

As declarações infelizes e erradas de tucanos sobre o impeachment

Ai, ai, vamos lá.

Em 2005, logo depois de Duda Mendonça ter confessado na CPI que o PT depositou o que lhe devia numa conta no exterior — e na vigência do mandato de Lula —, houve quem dissesse no próprio PT que um processo de impeachment seria inevitável. Um ministraço do então presidente chegou a sugerir que ele fosse a público para declarar que não se candidataria à reeleição no ano seguinte para tentar salvar o mandato.

Atribui-se a FHC, e ele nega que isso tenha acontecido, a tese do “deixar Lula sangrar no cargo” em vez de apoiar um processo de impedimento. Seria menos traumático para o país. Como o ex-presidente era, sim, contra o impeachment e segue defendendo aquela opinião até hoje, suponho que a tese do “sangramento” não seja mesmo sua. Mas foi, sim, adotada pelo PSDB. Deu no que deu. Lula foi reeleito. Elegeu sua sucessora, que se reelegeu.

Pois bem… Essa expressão infeliz voltou a ser ouvida nesta segunda num evento no Instituto FHC. Aloysio Nunes Ferreira, senador por São Paulo e vice na chapa de Aécio Neves, afirmou apoiar as manifestações de protesto marcadas para o dia 15, disse que são legítimas, mas ponderou: “Não quero que ela saia. Quero sangrar a Dilma. Não quero que o Brasil seja presidido pelo Michel Temer”.

Aloysio exerce com muita dignidade e correção o seu mandato, mas a fala é, de vários modos, infeliz. A um senador cabe defender o cumprimento da lei. Se ele acha que não há motivo legal para Dilma ser impedida, que diga. Juristas respeitáveis acham a mesma coisa, embora eu discorde. Defender o “sangramento” como estratégia quer dizer o quê? Ele acha que o custo da saída é maior do que o da permanência? Ele acha que, desse modo, os tucanos podem chegar com mais facilidade ao poder? Qual é a tese? Esse último cálculo já brinda o país com o quarto mandato consecutivo do PT.

Segundo o jornal Valor Econômico, “o senador também previu um quadro de crise política sem perspectivas de saída dada a falta de capacidade da presidente em liderar esse processo. Segundo ele, Dilma está desvinculada da realidade nacional”. Quanto tempo o senador Aloysio calcula que pode durar, então, essa sangria?

FHC também se disse contrário ao impeachment: “Não adianta nada tirar a presidente”. De fato, “não adianta nada” se os métodos continuarem os mesmos. Mas o que me pergunto é se a tarefa dos tucanos, num momento como o que vivemos, é essa. E a resposta é “não”.

Em primeiro lugar, de FHC, Aloysio e de quaisquer outros defensores de um regime democrático, o que eu espero é que defendam o cumprimento da lei. Se ficar caracterizado que a presidente cometeu crime de responsabilidade, “sangrar no cargo” deixa de ser matéria de gosto, de escolha ou de estratégia política. Se a voragem não colher Michel Temer, ele será o presidente da República — e também não há “querer” quanto a isso.

Em segundo lugar, é escancaradamente evidente que os tucanos, de fato, nada têm a ver com os protestos do dia 15. Declarações como essas parecem adotar a tese mentirosa do PT de que o debate sobre o impeachment tem um viés golpista. E, obviamente, não tem. Golpe é fazer de conta que a lei não existe.

Em terceiro lugar, declarações assim parecem fazer pouco caso, embora não creio que tenha sido a intenção, da insatisfação de milhões de brasileiros. Se os tucanos defenderem o cumprimento da Constituição e das leis, estarão fazendo a coisa certa.

Por Reinaldo Azevedo

20/02/2015

às 16:29

FHC compara Dilma ao batedor de carteira que rouba e sai gritando “pega ladrão”

Líderes da oposição reagiram à absurda entrevista da presidente Dilma Rousseff. A fala mais dura partiu do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que emitiu uma nota oficial. O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), também falou: “Depois de um conveniente silêncio que durou cerca de dois meses, certamente para se distanciar das medidas econômicas tomadas por seu governo, a presidente reaparece parecendo querer zombar da inteligência dos brasileiros ao atribuir o maior escândalo de corrupção da nossa história patrocinado pelo PT a um governo de 15 anos atrás. Na verdade, parece que a presidente volta a viver no país da fantasia”. 

Indignado, FHC comparou Dilma ao batedor de carteira, que rouba e sai gritando “pega-ladrão”. Leiam a nota:

Até agora, salvo lamentar o caráter de tsunami que a corrupção tomou no caso do “Petrolão”, não adiantei opiniões sobre culpados ou responsáveis, à espera do resultado das investigações e do pronunciamento da Justiça. Uma vez que a própria Presidente entrou na campanha de propaganda defensiva, aceitando a tática infamante da velha anedota do punguista que mete a mão no bolso da vitima, rouba e sai gritando “pega ladrão”!”, sou forçado a reagir.

1. O delator a quem a Presidente se referiu foi explícito em suas declarações à Justiça. Disse que a propina recebida antes de 2004 foi obtida em acordo direto entre ele e seu corruptor; somente a partir do governo Lula a corrupção, diz ele, se tornou sistemática. Como alguém sério pode responsabilizar meu governo pela conduta imprópria individual de um funcionário se nenhuma denúncia foi feita na época?

2. do mesmo modo, a delação do empreiteiro da Setal Engenharia reafirma que o cartel só se efetivou a partir do governo Lula.

3. no caso do “Petrolão” não se trata de desvios de conduta individuais de funcionários da Petrobras, nem são eles, empregados, em sua maioria, os responsáveis. Trata-se de um processo sistemático que envolve os governos da Presidente Dilma (que ademais foi presidente do Conselho de Administração da empresa e Ministra de Minas e Energia) e do ex- presidente Lula. Foram eles ou seus representantes na Petrobras que nomearam os diretores da empresa ora acusados de, em conluio com empreiteiras e, no caso do PT, com o tesoureiro do partido, de desviar recursos em benefício próprio ou para cofres partidários.

4. diante disso, a Excelentíssima Presidente da Republica deveria ter mais cuidado. Em vez de tentar encobrir suas responsabilidades, jogando-as sobre mim, que nada tenho a ver com o caso, ela deveria fazer um exame de consciência. Poderia começar reconhecendo que foi no mínimo descuidada ao aprovar a compra da refinaria de Pasadena e aguardar com maior serenidade que se apurem as acusações que pesam sobre o seu governo e de seu antecessor.”

Por Reinaldo Azevedo

10/10/2014

às 16:31

FHC diz que Lula está mentindo e que o povo não é bobo

Por Gustavo Uribe e Marina Dias, na Folha:
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) divulgou nesta sexta-feira (10) um vídeo (assista abaixo) para rebater a crítica indireta de seu sucessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de que ele teria criticado a população nordestina por ter votado na presidente Dilma Rousseff no primeiro turno da sucessão presidencial. O tucano acusou o petista de ter mentido e lamentou que a presidente tenha, “embarcado nessa”. O material foi feito por colaboradores da campanha do presidencial Aécio Neves (PSDB) para ser divulgado em grupos de WhatsApp, aplicativo de mensagens instantâneas de celular. “O Lula mentiu. Eu não falei de Nordeste, nordestino, nada disso. E lamento que a presidente Dilma Rousseff, sem saber, tenha embarcado nessa. Não é verdade, o povo não é bobo”, disse.

 O tucano acusou ainda o PT de fazer “demagogia” e de querer jogar o PSDB contra o povo brasileiro. Segundo ele, a sociedade sabe que foi o partido quem fez o Plano Real, que controlou a inflação no país. “É assim que se combate a pobreza, não é deixando a inflação voltar e depois aconselhando o povo a não comer carne e a comer tomate, frango e ovo. Não é assim que se resolve. Nós, do PSDB, fizemos o que dissemos. E deu certo”, afirmou.

 Na quarta-feira (8), o petista divulgou comentário nas redes sociais lamentando o ódio contra os nordestinos depois do resultado do primeiro turno da disputa presidencial. O texto foi publicado dois dias depois do tucano ter dito, em entrevista ao portal UOL, empresa do Grupo Folha, que edita a Folha, que o PT está “fincado nos menos informados”. “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados”, afirmou.

 Lula voltou a atacar a declaração de FHC sobre os eleitores do PT na noite desta quinta-feira (9) diante de uma plateia de sindicalistas, políticos e membros de movimentos estudantis.
 “Aquilo não é o pensamento dele. Aquilo é uma cultura deles, de dizer que quem não vota neles é mais burro porque não vota neles e quem vota neles são os sabidos e quem vota em nós são os ignorantes”, discursou, acrescentando que “na cabeça dele, o Nordeste brasileiro e a periferia ainda hoje é como era no tempo em que ele era o presidente da República”.

Por Reinaldo Azevedo

22/09/2014

às 17:53

“É preciso restabelecer a decência no Brasil”, diz FHC

Por Luís Lima, na VEJA.com:
Em almoço com empresários promovido pelo Grupo Lide nesta segunda-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) cobrou responsabilidade do governo federal em relação aos escândalos de corrupção na Petrobras. O ex-presidente manifestou indignação com as denúncias envolvendo diretores e partidos políticos — e a indiferença do governo federal em relação ao material revelado pela imprensa. “Ou (o governo) é conivente ou é incompetente”, disse o ex-presidente. “(O governo) Tem de ser cobrado, pela razão de que é preciso restabelecer a decência do Brasil. Acredito na decência da presidente Dilma Rousseff, mas isso não a exime de sua responsabilidade”, disse.

Questionado sobre possível apoio do PSDB a Marina no segundo turno, caso o tucano Aécio Neves não avance na disputa, FHC desconversou: “Uma coisa aprendi na política. Cada passo na sua hora. E o passo agora é Aécio”, afirmou. Depois de recuar ao longo do mês de agosto, o candidato tucano vem recuperando pontos nas pesquisas de intenção de voto. No últimolevantamento do Datafolha, Aécio tinha 17% das intenções, diminuindo a distância em relação á segunda colocada, Marina Silva, que se manteve com 30 pontos.

FHC também aproveitou a oportunidade para alfinetar Dilma Rousseff. Ele lembrou as críticas que a candidata à reeleição fez de que o governo FHC quebrou duas vezes por causa de ter pedido empréstimos ao Fundo Monetário Internacional (FMI). “Dilma não sabe economia, por isso que não foi doutora pela Unicamp”, disparou.

O ex-presidente voltou a criticar o conhecimento de Dilma na área econômica. Questionado sobre a fala da presidente de que o Brasil não cresce tanto por conta do cenário de desaceleração da atividade econômica dos Estados Unidos, dada em entrevista à TV Globo na manhã desta segunda, ele afirmou: “Os EUA já estão se recuperando. Há cinco anos os EUA vão para frente e o Brasil vai para trás. Não sei como Dilma é economista”, rebatou.

Segundo FHC, o Brasil está, aos poucos “perdendo o rumo”, ou seja sua “visão estratégica”, e que o país já não sabe mais onde está. “No âmbito da política externa, perdemos a noção de que pertencemos a um lado, do Ocidente. Hoje, o país não sabe onde está”, afirmou. “Escolhemos o ‘sul’, mas não tem razão para escolher ficar de um lado só. Esquecemos o Ocidente e fomos nos isolando”, afirmou, exemplificando sua fala com a falta de acordos comerciais do Brasil. Ainda de acordo com FHC, hoje há um “mal marketing” por parte do governo, que pinta um cenário perfeito”O governo cria uma ilusão de que está tudo maravilhoso”, concluiu.

Para tentar recuperar espaço na corrida, o PSDB tem lançado mão do discurso de indignação, sobretudo em relação aos acontecimentos envolvendo a Petrobras e outros escândalos de corrupção no governo. Sobre isso, o ex-presidente disse que é preciso dramatizar alguns fatos para que a população entenda o que está acontecendo no âmbito do poder. “O que acontece na Petrobras é passível de dramatização. Ela exemplifica o que acontece em muitos outros lugares (da política). A gente, que está informado da vida pública, sabe disso. Então é preciso mais indignação”, disse.

Para o ex-presidente, ou o Brasil passa a limpo casos como o da estatal, ou os mesmos erros se repetirão no futuro. “Pessoalmente não gosto de atacar ‘A’, ‘B’ ou ‘C’, mas é o Brasil que está em jogo. Houve um assalto aos cofres públicos”, disse. Segundo ele, os recursos desviados da estatal estão sendo usados, no mínimo, para fins político-partidários, e, na pior das hipóteses para fins pessoais. Ele lembra que Dilma foi presidente do conselho da Petrobras e ministra de Minas e Energia e disse que ela também deve se mostrar indignada com o caso. “Tem que apurar, se não passa para história uma dúvida”, finalizou.

Em coletiva após o evento, FHC foi questionado sobre a importância da “dramatização” no discurso, como forma de captar a atenção do eleitor. “Não sou marqueteiro, eu não sei. A dramatização é um modo de comunicação, que é importante”, afirmou, usando como exemplo a resposta de Marina ao PT sobre um possível fim do Bolsa Família. Em propaganda veiculada desde a semana passada na TV, a candidata falou sobre ter passado fome quando criança. “Por que o Aécio não pode também? Pode!”, disse.

Por Reinaldo Azevedo

16/07/2014

às 16:05

“Não leio FHC”, diz Lula, que já confessou que a leitura lhe dá sono. Entendo!

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu num artigo que Lula, que o sucedeu na Presidência, promove “baixarias e falsas acusações” em suas andanças políticas e que é incapaz de “fazer autocrítica”. Afirmou ainda que, na viagem que fizeram juntos ao funeral de Mandela, no avião presidencial, em companhia de Dilma, ele sugeriu ao petista que virasse a página do mensalão. “Mas não, Lula insiste em continuar distorcendo fatos para dizer que todos fizeram algo parecido. Eu não caio nessa cilada.” Escreveu mais: “Em nenhum momento Lula explicou de forma detalhada os acontecimentos que levaram ao maior escândalo de corrupção da história republicana”.

Nesta quarta, o jornalistas quiseram saber o que Lula pensava a respeito do artigo de seu antecessor. O petista não respondeu. Ou respondeu apenas o seguinte: “Eu não leio o Fernando Henrique Cardoso”.

Huuummm… Se não lesse apenas FHC, não seria tão grave. Eu tenho memória. Em 2009, ele confessou em conversa com jornalistas que lia muito pouco: “Me dá sono”. E o que fazia num tempo livre ou outro? “Vejo bobagens na televisão”. À época, estava lendo, disse, o livro “Leite Derramado”, de Chico Buarque. Concordo: vale por uma cartela de Stilnox, hehe.

Lula não reconhece até hoje o papel central que teve o Plano Real no país. Poderia ser apenas falta de leitura. Mas aí já se trata de algo ainda mais grave: é falta de apreço pela verdade.

Por Reinaldo Azevedo

16/06/2014

às 15:59

Lula deveria é ser grato a FHC, que o livrou de uma ação de impeachment

Lula soltou os cachorros ontem, no evento petista que oficializou a candidatura de Alexandre Padilha ao governo de São Paulo. Acusou a oposição de fazer a campanha do ódio e dirigiu um ataque específico a FHC, seu antecessor. Na convenção do PSDB, no dia anterior, o ex-presidente tucano havia falado que queria os corruptos longe da política.

Muito bem! Neste domingo, Lula acusou FHC de ter comprado votos que garantiram a reeleição. Não contente, afirmou que o tucano não aprendeu a ter sentimentos na universidade. Ai, ai… Lula acha que só alguém com o seu próprio grau de ignorância — que nada tem a ver com burrice (inteligente ele é) — é capaz de ter coração.

Nesta segunda, FHC emitiu uma nota a respeito. Leiam. Volto em seguida.
“Lamento que o ex-presidente Lula tenha levado a campanha eleitoral para níveis tão baixos. Na convenção do PSDB, não acusei ninguém; disse que queria ver os corruptos longe de nós. Não era preciso vestir a carapuça. A acusação de compra de votos na emenda da reeleição não se sustenta: ninguém teve a coragem de levar essa falsidade à Justiça. Não é verdade que a oposição pretendesse derrubar o presidente Lula em 2005. Na ocasião, pedimos justiça para quem havia usado recursos públicos e privados na compra de apoios no Congresso, o que foi feito pelo Supremo Tribunal Federal. Apelo às lideranças responsáveis, do governo e da oposição, para que a campanha eleitoral se concentre na discussão dos problemas do povo e nos rumos do Brasil.”

Retomo
É a fala de uma pessoa sensata. Cumpre lembrar um fato que é de amplo conhecimento da imprensa e dos políticos. FHC cometeu, sim, a meu ver, um erro em 2005. Ele foi uma das lideranças que desaconselharam a oposição a pedir o impeachment de Lula, o que até os petistas julgaram que estava na iminência de acontecer. Cabeças coroadas do partido chegaram a debater a hipótese da renúncia. O momento mais dramático se deu quando Duda Mendonça confessou na CPI que o PT pagara por seus serviços com dinheiro do caixa dois. Pior: o depósito havia sido feito numa conta que ele mantinha no exterior.

E quem foi que desaconselhou a oposição a seguir na trilha do impeachment? Justamente FHC! Acreditava — e, até hoje, muitos críticos do PT acham que ele estava certo; não é o meu caso — que a deposição de um presidente que havia sido operário um dia e que ainda contava com apoio considerável na sociedade seria ruim para a democracia.

Assim, à diferença do que diz Lula, a oposição nunca tentou derrubá-lo, a não ser por intermédio das urnas. Ao contrário: quando condescendeu com a sua permanência no poder, acabou lhe dando a chance de o PT obter mais dois mandatos.

Lula deveria ser grato a seu antecessor. Mas quê… Até hoje não perdoa o fato de que o outro o venceu duas vezes nas urnas — e no primeiro turno. De resto, é preciso deixar claro: a disputa em 2014, no que diz respeito aos dois partidos, é entre Dilma e Aécio, não entre Lula e FHC.

Por Reinaldo Azevedo

14/06/2014

às 15:36

PSDB oficializa a candidatura de Aécio à Presidência da República

Aécio Neves e José Serra, juntos na convenção do PSDB: união

Aécio Neves e José Serra, juntos na convenção do PSDB: união

No Globo. Comento no próximo post.
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) teve sua candidatura à Presidência da República oficialmente formalizada na manhã deste sábado, durante convenção nacional do PSDB, realizada no Pavilhão Azul do Expo Center Norte, em São Paulo. A candidatura foi aprovada por 447 dos 451 delegados da legenda. Aécio chegou de mãos dadas com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, acompanhado pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin e por José Serra. Ele disse ter chegado a hora do “reencontro com a decência no país” e afirmou acreditar que uma “tsunami” poderá tirar o PT do governo em outubro:

“A cada dia que passa, a cada região por onde ando, percebo não só uma brisa, mas uma ventania por mudanças. Um tsunami que vai varrer do governo federal aqueles que lá não têm se mostrado dignos e capazes de atender às demandas da população brasileira”, disse Aécio.

Na convenção, Fernando Henrique foi tratado como um dos principais cabos eleitorais da campanha tucana. Logo após sua chegada, foi exibido um vídeo exaltando conquistas de seu governo, como o Plano Real e o início de programas sociais de combate à pobreza. O mesmo filme afagou José Serra (…). Foram mencionadas conquistas de seu período à frente do Ministério da Saúde, como a política de combate à Aids e de fomento aos medicamentos genéricos. Os dois temas foram citados no discurso do candidato.

O ex-presidente e avô de Aécio, Tancredo Neves, morto em 1985, também foi lembrado no encontro: no meio do discurso de Aécio, foi exibido um vídeo com imagens do poeta Ferreira Gullar lendo texto escrito em homenagem a Tancredo. “Se o presidente Juscelino (Kubitschek) permitiu 60 anos atrás o reencontro do Brasil com o desenvolvimento e a modernidade, coube a Tancredo, 30 anos depois, permitir que a gente se reencontrasse com a democracia e a liberdade. Outros 30 anos se passaram, e vamos conduzir o Brasil ao reencontro com a decência”, afirmou Aécio, que defendeu a paternidade do PSDB em programas sociais e fez duras críticas à atuação do governo federal na área econômica.

“Quem foi contra o Plano Real é quem hoje permite a volta da inflação”, disse o tucano, que acusou o PT de aniquilar “o mais valioso patrimônio construído por gerações de brasileiros, a Petrobras”, e convocou a militância para ir às ruas “por um tempo novo”.

Para Aécio, a história do país ainda será revisitada: “Pelo menos numa coisa nossos adversários mantiveram a coerência. Quem foi contra o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal é quem hoje permite a volta da inflação e assina a maldita contabilidade criativa. São os que dividem o Brasil de forma perversa entre nós e eles”, discursou Aécio.

O tucano afirmou ver no governo “inegável pendor autoritário e intervencionista”, elementos que seriam motivo de desalento para a população. Disse que o povo teria acreditado no discurso da ética, defendido no passado pelos adversários. Para ele, hoje o PT e o governo protagonizam os mais “vergonhosos casos de corrupção” no país. “O Governo do PT vive da propaganda daquilo que não fez”, disse Aécio.

FHC
Em um dos discursos mais aguardados da convenção, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o país está cansado de “empulhação” e fez um chamamento ao PSDB para que se aproxime do povo. “As urnas clamam, querem mudança. Elas cansaram de empulhação, corrupção, mentira e distanciamento entre o governo e o povo. Nós temos que ouvir o povo, estar mais próximos do povo. Ganhar a confiança do povo. A caminhada do Aécio será essa – afirmou o tucano que usou palavras fortes para se referir ao PT, como “ladrões” e “farsantes”.

Para FH, “não dá mais” para lidar com os adversários à frente do governo: “Não dá mais. Ninguém aguenta mais isso. Chega. A gente sente que não adianta mais. Não adianta mais repetir o que sabemos que não é certo. A mudança está começando a se concretizar. Não são ideias só, são ideias encarnadas em pessoas. Hoje é Aécio o futuro presidente”, disse Fernando Henrique, para quem Aécio seria “um líder jovem” para sentir “de perto o pulsar das ruas e se dedicar de corpo e alma ao povo”.

O líder tucano tocou também num tema que já custou muito caro ao PSDB em eleições passadas e acusou o PT de mentir quando acusa os tucanos de serem privatistas. “O povo quer respeito e consideração. O povo cansou de comiseração. Quantas vezes ouvi que eu queria privatizar a Petrobras. Mentira. Eles sabem que é mentira. Nos queríamos transformar a Petrobras de uma repartição pública numa empresa dos brasileiros. O que eles fizeram? Nós queremos de novo que as estatais sejam em benefício do povo “, afirmou.

Serra
O ex-governador de São Paulo José Serra chamou Aécio de “futuro presidente do Brasil” e garantiu que partido está unido em torno da candidatura do senador. “O Aécio sempre a qualidade de juntar as melhores pessoas para seu governo. Damos aqui um passou muito importante para a vitória. O PSDB e seus aliados chegam unidos para essa disputa. Quanto mais mentiras eles disseram sobre nós, mais verdades diremos sobre eles”.

Serra disse que o país vive um “milagre perverso” com o governo do PT e, ao final de seu pronunciamento, foi recebido por Aécio, que levantou-se e foi até o púlpito onde ele estava para agradecer com um abraço e poses para fotos. “Economia estagnada, inflação aumentando e investimento caindo. Vamos convir que para, se chegar a isso tudo, é preciso que o governo atue com incompetência metódica, convicta e com muito talento”, criticou Serra.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

23/03/2014

às 19:00

FHC emite nota em que defende a instalação da CPI da Petrobras

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso emitiu uma nota neste domingo em que defende a instalação de uma CPI para investigar os malfeitos na Petrobras. Inicialmente, o tucano afirmou que a apuração poderia ser conduzida por outros órgãos competentes do Estado, mas mudou de ideia. Leia íntegra da nota.
*
Os acontecimentos revelados pela imprensa sobre malfeitos na Petrobras são de tal gravidade que a própria titular da Presidência, arriscando-se a ser tomada como má gestora, preferiu abrir o jogo e reconhecer que foi dado um mau passo no caso da refinaria de Pasadena. Pior e fato único na história da empresa: um poderoso diretor está preso sob suspeição de lavagem de dinheiro.

Sendo assim, mais do que nunca se impõe apurar os fatos. Embora, antes desse desdobramento eu tivesse declarado que a apuração poderia ser feita por mecanismos do Estado, creio que é o caso de ampliar a apuração. O presidente do PSDB, senador Aécio Neves, conduzirá o tema, em nome do partido, podendo mesmo requerer, com meu apoio, uma CPMI.

Afinal é preciso saber por que só depois de tudo sabido foi demitido o responsável pelo parecer que induziu a compra desastrada da refinaria nos Estados Unidos e que relações havia entre o diretor demitido e o que está preso. Afinal, trata-se da Petrobras, empresa símbolo de nossa capacidade técnica e empresarial.

Fernando Henrique Cardoso

Por Reinaldo Azevedo

18/03/2014

às 21:36

FHC como vice de Aécio? Não! Esta tem de ser uma disputa sobre o futuro, não sobre o passado

O pré-candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, disse o óbvio nesta terça-feira: seria uma honra ter o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como vice em sua chapa, “mas isso não se cogita, pelo menos por enquanto”. E cabe a pergunta: por que se cogitaria?

A imagem de FHC, nem é preciso ter pesquisa para constatá-lo, está em franca recuperação — e, estou certo, quanto mais passar o tempo, maior se tornará, até que chegue ao tamanho que realmente tem. A máquina de destruir reputações do PT está perdendo eficiência, mas ainda é muito forte.

Ocorre que a “mudança” — por enquanto, ainda intransitiva e sem um objeto muito definido — será um dos valores dessa eleição. Uma insatisfação ainda difusa, mas muito presente, é o que hoje mais incomoda a presidente Dilma Rousseff e o petismo.

Se o PSDB fizer de FHC vice na chapa de Aécio, estará eliminando esse fator de indeterminação do presente, mais perigoso para quem já está no poder, e caindo na armadilha petista: uma disputa sobre o passado, mais uma vez, pela quarta vez!

Ora, dada a ruindade do governo Dilma e considerando-se as muitas insatisfações acumuladas, tudo o que o PT mais quer é uma disputa não entre Dilma e Aécio — sim, considere-se também o fator Eduardo Campos —, mas uma disputa entre Lula e FHC. E o ex-presidente petista, no caso, nem precisaria figurar como vice.

Nada disso! A disputa deste 2014 tem de ser sobre o futuro — aquele mesmo que foi ignorado pelo PT em 2010, o que tornou o Brasil que aí está bem mais frágil do que estava então.

 

Por Reinaldo Azevedo

10/12/2013

às 6:17

Dilma desce a ripa em antecessores antes de viajar com eles. Ou: Um sanguinário numa cerimônia fúnebre

Ai, ai… Escrevi neta segunda um post afirmando que a viagem da presidente Dilma Rousseff, acompanhada de quatro ex-presidentes, era só material de propaganda para ofuscar a truculência política interna. E, claro, levei algumas bordoadas. Eu seria, entre outras coisas, muitas impublicáveis, um sujeito de maus bofes, incapaz de reconhecer atos de grandeza… É? Então… Leio na Folha que, antes da viagem, a petista desceu o sarrafo nos governos que antecederam os do PT, em especial no de FHC. E na presença do tucano. Falava no seminário promovido pela fundação liderada pelo ex-presidente americano Bill Clinton, num hotel do Rio. E ainda fez uma, digamos, reflexão sobre a América Latina. Reproduzo trecho da Folha:
Ela afirmou que os países do continente foram vítimas de ditaduras e, em seguida, de governos “conservadores” que os “infelicitaram”. “Frearam nosso crescimento, aumentaram a desigualdade social e provocaram desequilíbrios macroeconômicos”, afirmou.

Pois é… Certamente a presidente não acha que o Chile, a Colômbia e o Peru (governado por um esquerdistas, mas sem mudar um milímetro do que herdou) sejam experiências bem-sucedidas. Bacanas mesmo, hoje em dia, são os governos companheiros da Venezuela, da Bolívia, do Equador e da Argentina,  certo? Não tem jeito! São quem são. E vocês podem aguardar mais falação, digamos, redentora e de resistência…

Cerimônia fúnebre
Seis presidentes vão discursar na cerimônia fúnebre de Mandela. Dilma está entre eles. Também falarão os presidente de Cuba, Raúl Castro; dos EUA, Barack Obama; da própria África do Sul, Jacob Zuma, além dos da Namíbia e Índia. Por que Dilma? Porque o Brasil é, efetivamente, um país regionalmente relevante, pouco importa quem o governe.

África do Sul, Brasil e Índia integram, por exemplo, o chamado BRICS, o grupo de emergentes. Barack Obama discursará por razões óbvias, e o presidente da Namíbia é convidado porque o país só se tornou independente da África do Sul em 1990, mesmo ano em que Nelson Mandela deixou a prisão. Dá para entender perfeitamente bem por que pelo menos cinco mereceram a deferência. Mas e o sexto? O que faz lá o ditador sanguinário  Raúl Castro?

Cuba é o único país das Américas que mantém, oficialmente, presos de consciência. Até os regimes protoditatoriais bolivarianos procuram inventar uma acusação criminal contra alguns adversários para poder persegui-los. Já é imoral, já é indecente. Cuba nem se dá esse trabalho. Prende os opositores quando julga necessário e pronto. Há na ilha presos políticos, como Mandela foi. Nos últimos três anos, dois deles morreram na cadeia em greve de fome: Orlando Zapata Tamayo, em 2010, e Wilman Villar Mendoza, em 2012. A liberdade pela qual Mandela lutou é tudo o que não existe no país. Eis aí um dos aspectos detestáveis do Congresso Nacional Africano — que nunca repudiou a companhia de ditadores.

Volto a Dilma
Lamento por aqueles que ficaram bravinhos com o meu primeiro texto, não é? Fazer o quê? Os que me leem esperam, como diria Padre Vieira, que eu veja a realidade “com mais aguda vista” do que o amor pelo oficialismo que anda em alta em certas esferas da imprensa; esperam que eu enxergue um tantinho além da fotografia.

É claro que eu não serviria para ser político. Sou muito primitivo para certas coisas, sabem? Não tenho aquela sofisticação da hipocrisia, que a política parece exigir. Que “estadista” é essa que usa um seminário internacional para desmerecer a obra alheia, para fazer proselitismo político vulgar e, em seguida, viaja em companhia do agravado em nome dos interesses da nação?

Por Reinaldo Azevedo

09/12/2013

às 19:11

Planalto usa a morte de Mandela para propaganda e para ofuscar a truculência política do Brasil real

Bem, a morte de Nelson Mandela anda a produzir mistificações, como escrevi há pouco, mundo afora. E serve até ao proselitismo interno. Vejam esta foto, divulgada pelo Palácio do Planalto.

Dilma com ex-presidentes

A presidente Dilma e os quatro ex-presidentes embarcam para a África do Sul para o velório do líder sul-africano. Todos com um ar, assim, sorridente mesmo. Tenho cá as minhas desconfianças se o decoro não pediria outra coisa. Afinal, não estão rumando para a posse de Mandela, não é? — não, ao menos, aqui na terra; parece que um trono o aguarda no Reino dos Céus; se é que já não chegou a hora de depor Aquele Lá, né?

No Twitter, a equipe de marketing de Dilma aproveita para fazer proselitismo político. Vejam:

Dilma Twitter Mandela 

Que engraçado!!!

Lula e Dilma foram adversários políticos dos três outros ex-presidentes que aparecem na foto, né? O Babalorixá de Banânia esculhambou impiedosamente cada um deles.  E acabou se compondo politicamente com todos eles, menos com… FHC!

Sim, senhores! Vejam a foto. Todos ali, exceto FHC, fazem parte da base aliada. Não por acaso, o tucano é o único que representa um partido que pode ser uma alternativa real de poder. O PT decidiu incorporar as qualidades de Sarney. O PT decidiu incorporar as qualidades de Collor. O PT só não quer saber das qualidades de… FHC!

Eu sou chato mesmo! Acho que sempre é tempo de pensar. Essa gente unida e sorridente da foto não espelha o Brasil real. Acaba de vir a público uma história escabrosa sobre a forma como o PT usa a estrutura do estado para destruir adversários. Até Ruth Cardoso, mulher de FHC, foi alvo da baixaria. Há dois ou três dias, num evento público, Lula se referiu à cocaína encontrada no helicóptero da família Perrella como “coisa do lado de lá” — como se fosse um problema da oposição.

Dilma diz no Twitter que a viagem é um exemplo de que “as divergências do dia-a-dia não contaminam as questões de Estado”. Com a devida vênia, não caio nessa. Fazer dossiê contra adversários e vazá-los não é coisa de “divergência do dia-a-dia”; sugerir que os adversários estão ligados ao tráfico de drogas também não. Nesse caso, seria melhor não fazer a viagem coletiva e ter mais respeito pelos adversários.

A morte de Mandela não me impede de ver o que acontece na África do Sul.

A morte de Mandela não me impede de ver o que acontece no Brasil.

Por Reinaldo Azevedo

17/06/2013

às 16:37

FHC e os protestos: uma mensagem no Facebook com uma penca de equívocos, que ajudam a explicar por que o PSDB está na areia

Vejam esta foto da Praça da Sé, de 25 de janeiro de 1984. Volto em seguida.

A turma que faz o Facebook do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu emprestar ao Passe Livre e a seus associados um viés sociologizante, ligando a manifestação, acreditem!, às Diretas-Já. Lê-se lá o seguinte:

“Os governantes e as lideranças do país precisam atuar entendendo o porquê desses acontecimentos nas ruas. Desqualificá-los como ação de baderneiros é grave erro. Dizer que são violentos nada resolve. Justificar a repressão é inútil: não encontra apoio no sentimento da sociedade. As razões se encontram na carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro”.

Comento
Enquanto o Anonymous e o Passe Livre não mandarem no Brasil, as pessoas são livres para escrever a besteira que lhes der na telha, e eu sou livre para apontar: “É besteira!”.

Vamos ver:
1: Associar o protesto às Diretas-Já é uma tolice. Ainda que esculhambada, para todos os efeitos, o Brasil vivia, em 1984, sob uma ditadura. As eleições diretas, por exemplo, só seriam restauradas cinco anos depois;

2: Não houve um só ato de depredação e de vandalismo nas manifestações em favor das Diretas.

3: O movimento era feito em praças públicas, de preferência em feriados (como 25 de janeiro, Dia de São Paulo) e fins de semana. Havia a preocupação de não levar as cidades que abrigavam os protestos ao colapso.

4: O movimento das Diretas-Já reivindicava um direito fundamental, pilar de qualquer regime democrático: o direito de eleger seus governantes.

5: Quem lutava pelas Diretas-Já pedia que se recriassem os instrumentos institucionais de interlocução democrática. Era um movimento contra a ditadura.

6: Os que estão nas ruas agora, na prática, descartam justamente os instrumentos democráticos de negociação. Não reconhecem a autoridade de pessoas eleitas legitimamente pelo povo.

7: FHC — quem quer que tenha escrito esse texto por ele, já que não o imagino sentadinho, cuidando de sua página no Facebook… — está emprestando ao movimento uma pauta que ele não tem.

8: O ex-presidente endossa o equívoco de entender o protesto — liderado por um grupo político chamado “Passe Livre”, com o apoio de partidos de extrema esquerda como PSOL, PSTU e PCO — como uma espécie de mal-estar ainda difuso, que acabará revelando a sua real natureza: “carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro”. Antes fosse assim. A atual oposição estaria mais perto do poder…

9: Então FHC acha que “dizer que [os atos] são violentos nada resolve”? Pergunto: nos protestos havidos em São Paulo e Brasil afora, há ou não violência? O que quer dizer “justificar a repressão é inútil”? Não se deve reprimir quem vai às ruas com coquetéis molotov?

10: FHC acha legítimo que uma minoria — nem que fosse uma minoria de 200 mil pessoas — paralise a cidade e imponha a sua vontade a 11,5 milhões de pessoas?

11: Os petistas estão apoiando o protesto de hoje em São Paulo. Noto que FHC gostaria que os tucanos fizessem o mesmo. Então está certo. Vou resgatar dois versinhos dos meus tempos de Libelu: “Se estamos todos juntos/ contra quem vamos lutar?”.

12: Trata-se de um texto infeliz e oportunista.

13: Estes que hoje lideram esse protesto estiveram com o PT nas eleições recentes (no primeiro, no segundo ou nos dois turnos). E voltarão à nave-mãe quando a eleição virar “isso ou aquilo”.

14: Mais: confundem-se duas realidades distintas, fenômenos diferentes, mas combinados: os que protestam contra o uso de dinheiro público na Copa do Mundo não têm a mesma origem e a mesma motivação do Passe Livre e associados.

15: Essa mensagem, atribuída a FHC, explica por que, sem a força do Real, os tucanos perderam três eleições seguidas — e podem perder mais 10 (sempre dependerá da fadiga de material do petismo): o partido tenta disputar com o PT um eleitorado que jamais será deles, ignorando aquele que jamais será petista. Ao agir assim, o PSDB não gera valores de resistência à ordem vigente nem estabelece vínculos fortes com seu eleitorado.

16: Pior: na forma como aparece a mensagem, ela acaba resultando meio hostil ao governo Geraldo Alckmin, a quem coube e cabe manter a ordem na cidade.

17: Finalizo lembrando que ninguém precisa justificar eventuais excessos da polícia. Mas cumpre lembrar que a democracia é o regime em que nem tudo é permitido. Só nas ditaduras o único limite é não haver limites.

Para encerrar: “Pô, você já falou tão bem de FHC aqui…” Já! E o farei de novo sempre que achar necessário e merecido. Mas eu não tenho compromisso com o equívoco de ninguém. Nesse e em outros casos, discordo do ex-presidente e deixo isso claro. Se eu fosse militante partidário, sentir-me-ia impelido a justificar as considerações do “líder”. Ocorre que, por mais que os detratores tentem me impor essa pecha, eu não tenho partido. Tenho valores, convicções, crenças etc., que não estão, no seu conjunto, representados por nenhuma legenda — muito menos pelo PSDB. Quando o petismo faz a coisa certa — e raro, mas acontece —, aplaudo. Se um homem admirável como FHC diz — ou assina — a coisa errada, só me resta dizer “não”. Esse é um compromisso com os leitores deste blog, tanto com os que gostam da página como com os que a odeiam.

Por Reinaldo Azevedo

01/05/2013

às 18:17

Leitora está inconformada com as críticas que fiz a FHC. Então falemos a respeito

Sou um crítico duro das opiniões de Fernando Henrique Cardoso sobre a descriminação das drogas. Recebo da leitora Ana de Almeida (o comentário está publicado) a seguinte mensagem. Leiam. Volto em seguida.

“Você também não precisa demonizar o Fernando Henrique por causa dessa questão. Esqueceu que ele é sociólogo? Pode ser que ele esteja errado nessa tese, mas não creio que ele tenha más intenções para com o país que ele tirou do atoleiro. Você está jogando no lixo a história política do Fernando Henrique por causa de um único tema.”

Voltei
Errado, minha cara Ana! Não estou jogando nada no lixo. No tempo em que FHC tinha virado quase um anátema na imprensa — e se falava alegre, gostosa e bucefalamente sobre a suposta herança maldita de seu governo ou sobre a “privataria” —, fui das poucas, bem poucas!, vozes a sair em sua defesa. E defendo ainda. E, por aqueles mesmos motivos e critérios, eu o defenderia e, se for o caso, defenderei de novo. É matéria de convicção. É matéria de fato.

Mas eu não pertenço a partido político nenhum. Também não sou adorador ou adulador de biografias por princípio. A melhor definição sobre o meu texto, acho, foi dada pelo crítico e poeta Nelson Ascher: se gosto, digo, sim; se não, então não! E pouco me importa quem está do outro lado do “sim” e do “não”. Se, ao longo da minha carreira de jornalista, mais falei bem de FHC do que mal; mais elogiei do que critiquei, é porque mais concordei com ele do que discordei dele. Não porque ele era ele, mas porque as ideias e as práticas eram aquelas.

Há mais: o equívoco de um homem inteligente é, considero, sempre mais grave do que o de um homem estúpido. As opiniões de FHC sobre as drogas são, a meu ver, desinformadas, rasas, antiquadas (com um certo sabor dos anos 1960) e não resistem a um confronto com os fatos e com a lógica. As dele e as dos que pensam como ele. E é sobre isso que tenho escrito.

Há, por exemplo, pessoas na tal Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia por quem tenho genuína admiração. Há gente lá com quem mantive — e, suponho, possa manter ainda — conversas amistosas e fraternas. Mas ninguém exigiria de mim, porque não obteria, um “sim” àquilo que deve, segundo o meu juízo, merecer um “não”.

FHC está entre aqueles que estão ajudando a demonizar o deputado Osmar Terra (PMDB-RS) por ter apresentado um projeto que endurece a lei de combate às drogas. Terra está sendo massacrado sem direito de defesa. Sempre que isso acontece, eu tendo a me solidarizar com quem está sendo alvo do achincalhe. Como me solidarizei com FHC no passado.

FHC talvez já seja o governante mais injustiçado do Brasil pela máquina de sujar reputações do petismo. Cobro dele que não ajude a fazer com um deputado o que a engrenagem petista fez com ele.

Por Reinaldo Azevedo

27/03/2013

às 22:06

Lula para a Academia Brasileira de Letras, pela obra de ficção, e também para a Academia Brasileira de Ciências

Xiii…

Agora o bicho vai pegar. Ou o PT mobiliza os seus simpatizantes para promover um quebra-quebra na Academia Brasileira de Letras, ou é grande a chance de FHC, candidato à cadeira nº 36, ser eleito. Essa cadeira diz alguma coisa de mais perto a este escriba. João de Scantimburgo, que morreu na sexta-feira, era de Dois Córregos. Onde fica? Procurem ali pelo centro do estado de São Paulo — todo o resto é periferia, não sei se me fiz entender, hehe.

E agora? FHC vai ter uma honraria que Lula não pode ambicionar… Em tese ao menos. Se a Academia busca distinguir a produção intelectual, literária ou não, poucos são tão merecedores da láurea como FHC, não é?, goste-se ou não do seu pensamento. A sua carreira política acabou deitando uma sombra na obra do intelectual.

Todo mundo que está lá ou que passou por lá merecia a distinção? Vamos ser francos: nem todos honraram ou honram Machado de Assis. Se a academia, no entanto, só distinguir os bons, acabará sendo um bom lugar.

Alguém conte a Lula, por favor, que é a obra de FHC que o autoriza a sentar lá, não a condição de ex-presidente. Como Sarney também é acadêmico, o Apedeuta pode começar a ter ideias.

Leiam o que vai na VEJA.com. Volto em seguida.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é candidato a ocupar a cadeira de número 36 da Academia Brasileira de Letras, que ficou vaga em virtude da morte do jornalista João de Scantimburgo, na última sexta-feira. A formalização da candidatura foi feita na tarde desta quarta-feira, após a sessão da saudade em homenagem a Scantimburgo, que se encerrou por volta das 17 horas.

O acadêmico Celso Lafer levou de São Paulo a carta formalizando a candidatura de FHC. O secretário geral da academia, Geraldo Holanda Cavalcanti, no exercício da presidência da ABL, determinou à secretaria que considere oficialmente inscrito ex-presidente.

Conforme adiantou a coluna Radar on-line, de Lauro Jardim, a candidatura de FHC partiu de um convite feito por José Sarney, que levou o assuntos para análise dos demais acadêmicos. O ex-presidente já teria garantidos os votos de Eduardo Portellaos, Celso Lafer, Paulo Coelho, Merval Pereira, Geraldo Hollanda Cavalcanti, Antônio Carlos Secchin, Sergio Paulo Rouanet, Alberto da Costa e Silva, Sábato Magaldi, Hélio Jaguaribe, Marcos Villaça e José Murillo de Carvalho.

Voltei
Se bem que estou cá a pensar. Se é a obra do sociólogo FHC que o habilita a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, não merecerá também Lula a distinção por sua obra de ficção? Nunca antes na história destepaiz alguém inventou tantas histórias, não é mesmo? E imaginação não falta. Por esta intervenção (ver vídeos), ele deveria integrar também a Academia Brasileira de Ciências. Há dois vídeos: Lula por Lula e Lula por mim mesmo, hehe.

 


Por Reinaldo Azevedo
 

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