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Avesso do Avesso


LITERATURA - As vozes de “A Boca da Verdade”

sexta-feira, 21 de agosto de 2009 | 3:37

a-boca-da-verdade

Este blog tem esta seção, chamada Avesso do Avesso, onde eu pretendia publicar regularmente textos sobre… sobre “não-política” — assim é melhor. Mas lá me ficou a ambição pelo meio do caminho, e alguns artigos sobre literatura, cinema, cultura acabaram estacionados no meu primeiro livro, Contra o Consenso. Outros tantos se perderam por aí. Esta página é hoje aquilo em que se transformou: um blog de política apenas. De vez em quando, percebe o leitor que não me contento e fujo da sina. Mas volto sempre — sei lá por quê. A Boca da Verdade, o mais recente livro de contos de Mario Sabino, é um desses bons motivos para revirar o avesso do avesso. Se a política parece lidar com o irremediável que está além de nós, este livro lida impiedosamente com o irremediável de cada um.

Sabino, como sabem, é redator chefe da revista VEJA, em cuja página eletrônica este blog está hospedado. Concordamos em muita coisa, temos outras tantas discordâncias, e é bem possível que, ao fim deste texto, ele pense lá consigo ou me telefone: “Sabe aquele finzinho do seu artigo, Reinaldo Azevedo? Pode esquecer!”. A Boca da Verdade percorre os muitos caminhos do “belo horrível” de que trata a arte e é um exemplo de elaboração culta da língua portuguesa. O autor evidencia que é possível ter uma escrita “contemporânea”, que reflita na linguagem a melodia de um tempo, sem se entregar, no entanto, a malabarismos sintáticos. Não é preciso voltar na leitura à cata de algum ponto, alguma vírgula, alguma dica que nos diga, enfim, quem fala ou do que se fala. As vozes de seu texto são sempre muito claras, ainda que possam dizer coisas um tanto assustadoras.

Em 11 contos divididos em três escrituras distintas — “Inexistências”, “Recortes” e “Representações” —, Sabino radicaliza abordagens e experiências dos dois livros anteriores, o romance O dia em que matei meu pai, de 2004, traduzido em sete idiomas, e O antinarciso (2005), de contos. E avança. Do primeiro, temos a figura onipresente do pai, aquele que nos torna a todos irmãos em Édipo. De O Antinarciso, persiste a competente elaboração metalingüística, que faz o texto olhar também para si mesmo, mas sem mostrar, como diria Olavo Bilac, os “andaimes do edifício”. Uma das maiores qualidades da literatura de Sabino é operar com referências, vá lá, da alta cultura (sei, não se deve escrever assim em tempos de guerra, não é?) sem que isso se torne um jogo aborrecido ou pernóstico, risco que sempre existe. Quem identifica a citação ganha uma chave nova. Sem ela, também é possível avançar. E sempre cabe indagar quantas pistas vão nos escapando na trajetória. Assim, os textos certamente vão sendo reescritos à medida que o leitor ganha novas referências.

Não há confortos em A Boca da Verdade. No 12º elemento do livro, “Uma Palavra”, Sabino fala com sua própria voz, numa espécie de posfácio:
“O mundo pode ser divertido e proporcionar momentos de alegria genuína, mas o que faz a boa literatura é a infelicidade. Ela, a infelicidade, é a roda do mundo do escritor. Os melhores romances e contos são aqueles em que os protagonistas são movidos por angústia, tormento, sofrimento. A dor de existir, enfim”.
Fiquei aqui tentando discordar. Se conseguir, aviso.

Dois contos reproduzem pontos de vista espelhados de uma mesma relação: A Boca da Verdade, que dá título ao livro, e Essência, ambos em “Inexistências”. No primeiro, um filho experimenta todos os relevos da repulsa ao pai, ao seu próprio e àquele que matamos para escrever a nossa própria e nem sempre edificante história. No outro, inverte-se o ponto de vista: um pai deixa um testamento aos filhos, que considera meio idiotas, embora os ame, com o inteiro legado de sua miséria moral — que ele chama “existencial”. Somos confrontados com isto:
“(…)Nas visitas a escolas e orfanatos mantidas por mim, por trás do sorriso protocolar, nauseavam-me aqueles pequenos bichos a que ajudava a prover por força da obrigação social (…). Sempre interpretei a bondade como um desvio, uma patologia recessiva da espécie - e incurável, visto que, evidentemente, não houve nem haverá ninguém disposto a remediá-la: a colméia humana gosta de fantasias a respeito de si própria, o que torna tais doentes da bondade muito úteis, afinal.”

Nesses dois contos, as referências à psicanálise e ao olhar com que ela filtra o mundo são explícitas, sem que o autor caia na tentação da tese — não há “a” resposta.

O “pai” — ou um seu substituto; às vezes, o próprio Deus — quase sempre está na raiz dessa “Antilira da Infelicidade”. Fica bem essa dupla negação? Não seria “Lira da Infelicidade”? Não. Não há qualquer tentação elegíaca nos contos de A Boca da Verdade. Não se encontra ali o regaço acolhedor da tristeza para chorar o que o autor chama a “dor de existir”. Elegia é um universo materno. Estamos num território mais hostil, o do pai edipiano, em que ou se mata para existir ou se é castrado, reduzido ao silêncio. As palavras vêm a palo seco, sem gordura, descarnadas às vezes, decorrência do fato de que as personagens também não alimentam ilusões sobre si mesmas e parecem ter perdido a sintaxe que pede e que concede perdão. Metáforas são raras, não vão muito além daquelas incorporadas à língua e que já passaram a ser denotação — o autor devorou “a metáfora que se queria verdade”. Curiosamente, no entanto, ele jamais abandona o território dos símbolos, da representação. Os quatro textos curtos de Recortes — Ser, Taxidermia, Genética e Não as deixe entrar — atingem o extremo da alegoria. Neste último, somos uma espécie de castigo bíblico de nossas próprias ambições.

Na primeira parte do livro, “Inexistências”, o apelo à filosofia e à psicanálise disputam lugar com a carpintaria narrativa. Em Recortes, a alegoria pura. Os três textos de “Representações”, a terceira e ultima parte de A Boca da Verdade, são mais longos e ocupam dois terços do livro. A linguagem está numa outra voltagem. O narrador é mais paciente, sem jamais aspirar à mansidão. Demônio com coração de mármore aborda o mito da revolta da criatura contra o criador, transplantando o conflito para a esfera das relações corporativas e sociais. O ritmo desacelera, e a alegoria vira a roupa de baixo do conto, presente, mas não à mostra. O horror brota das hipocrisias delicadas das convenções; o refinamento, amigo, vira a véspera do escarro moral. O Grande Impostor conta a história de um papa que não acredita no Pai, o Eterno. E da descrença fez a sua obra, necessária, mas não encantada.

A Visita que Edward Hopper Recebeu Dois Anos Antes de Morrer, que fecha o livro, aborda a relação do artista com a sua obra. Sabino evoca e desmoraliza vários mitos ou clichês da criação artística por meio do encontro do diabo com Edoardo Arcatella. De início, o texto remete ao Pestana, personagem do conto Um Homem Célebre, de Machado de Assis. Só que Arcatella é pintor, não músico; à diferença de Pestana, tem consciência da sua mediocridade. Como sempre, haverá uma proposta tentadora, a queda e o preço a ser pago. E o pintor americano Edward Hopper com isso? Também ele teria sido visitado pelo estranho anjo, que aparece como Agraimanio para Arcatella e que teria, nessa figuração, aparecido como Angelico Dappertutto, o presente em toda parte, para Hopper. O desfecho é surpreendente, mas a constatação pode ser esta: não se iludam; nem a beleza salvará o mundo.

A descrença é tão totalizante quanto o fanatismo; o cinismo é o outro extremo da intolerância sectária. A fé e as escolhas políticas são feitas das humanas precariedades, que tanto nos constrangem. A Boca da Verdade escancara algumas feiúras humanas. E eu ousaria dizer que o faz por amor ao Homem — o autor rirá dessa maiúscula. Um amor que tem de ser desentranhado. Porque um dia haveremos de perdoar o nosso pai. E haveremos de perdoar o Pai por nos te dado a consciência sem, no entanto, nos ter concedido a imortalidade. Daí nasceu tanta feiúra.  Daí nasceu tanta beleza.

Vai lá, Sabino, desentranhar.
*
A Boca da Verdade, de Mario Sabino, Editora Record, 144 páginas, R$ 29,90
*
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Por Reinaldo Azevedo

“Garapa?” - Um artigo de Ali Kamel

terça-feira, 8 de julho de 2008 | 19:01

O cineasta José Padilha, diretor dos premiados “Tropa de elite” e “Ônibus 174”, está terminando de rodar “Garapa”, um documentário que mostra o dia-a-dia de três famílias famintas do interior do Ceará. Em relação ao filme, ele disse à Folha de S. Paulo: “É eticamente inadmissível que alguém, no grupo dos beneficiados históricos deste país, olhe para os miseráveis que não têm o que comer e diga que os R$ 58 que o governo dá a eles são uma política errada”. Mais adiante, acrescentou que o valor do benefício era insuficiente para matar a fome daquelas famílias.

Ele está absolutamente certo ao fazer as duas afirmações.

Mas absolutamente errado ao acreditar que o Bolsa Família, tal como está posto, seja a solução do problema. A enorme abrangência do programa pode ser contraproducente.

Citando uma pesquisa sobre segurança alimentar, feita pelo Ibase entre os beneficiários do Bolsa Família, divulgada há pouco, Padilha disse que 11,5 milhões de brasileiros estão na mesma situação daquela em que vivem as três famílias de “Garapa”. Esse tipo de pesquisa, porém, ao contrário do que o nome sugere, não é capaz de comprovar se a fome existe de fato na população pesquisada. Com perguntas que comportam apenas um “sim” ou “não”, a pesquisa apenas registra o que informam os entrevistados sobre a própria segurança alimentar. Há uma ou duas perguntas bem objetivas, como esta: “Nos últimos três meses, os alimentos acabaram antes que os moradores tivessem dinheiro para comprar mais comida?” Mas, na maior parte, as perguntas medem mais expectativas, temores, frustrações. Dou um exemplo: “Nos últimos três meses, os moradores deste domicílio tiveram a preocupação de que os alimentos acabassem antes de poderem comprar ou receber mais comida?” Outra pergunta: “Nos últimos três meses, os moradores deste domicílio ficaram sem dinheiro para ter uma alimentação saudável e variada?”

Com perguntas assim, a pesquisa concluiu que 21% dos beneficiários (11,5 milhões de pessoas), têm insegurança alimentar grave (fome), 34%, moderada (restrição na quantidade de alimentos) e 28%, leve (não há falta de alimentos, mas o temor de que venha a faltar). Feita exclusivamente entre os beneficiários do Bolsa Família, a pesquisa pode gerar uma distorção: conhecendo os objetivos do programa, talvez os beneficiários respondam de modo a continuar a merecer o benefício. Não considero esse ponto decisivo, porém. Pesquisas de segurança alimentar são feitas de tal modo que, mesmo quando feitas na população geral, o índice dos que se declaram em situação de insegurança alimentar é sempre alto. Aqui e no mundo.

A pesquisa brasileira é inspirada numa metodologia aplicada anualmente nos EUA desde 1995. Lá, o governo federal gastou no ano passado US$ 53,3 bi com programas de distribuição de comida aos mais pobres, sendo US$ 33,2 bi com o Food Stamps, um programa que distribui cartões magnéticos a quem esteja abaixo da linha de pobreza, utilizados para adquirir apenas comida em lojas credenciadas (no Bolsa Família, o beneficiário pode comprar o que quiser). São 26,5 milhões de beneficiários, que recebem, em média, US$ 214 por família. Mesmo assim, em 2006, os números da pesquisa americana foram desconcertantes: lá existem 35,5 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, sendo que 11,1 milhões em insegurança alimentar grave (em termos absolutos, o mesmo resultado encontrado aqui). Já disse antes, e repito: se nem na nação mais próspera do planeta, com os seus programas assistenciais multimilionários, a insegurança alimentar foi resolvida, o problema não é do país, mas do conceito de insegurança alimentar.

O único método viável de comprovar a existência de fome em grandes grupos populacionais é pesando e medindo as pessoas. Porque, se a ingestão de calorias for menor do que a necessária, o indivíduo emagrecerá: a relação peso/altura mostrará esse emagrecimento, e, se ele for superior a certos limites, a fome estará comprovada. Para adultos, a OMS considera aceitável um índice de até 5% de emagrecidos, porque, estatisticamente, esta é a proporção de indivíduos magros por natureza em qualquer grupo. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, realizada entre 2002 e 2003 (antes, portanto, do Bolsa Família) mediu e pesou os brasileiros e encontrou um índice de magros de 4%, dentro da normalidade abaixo do permitido, portanto (no Haiti, o índice foi de 19%, na Etiópia, de 38% e, na Índia, de 49%).

No Brasil, em alguns poucos estratos populacionais, o índice foi levemente superior a 5%: sempre mulheres, de uma maneira geral da zona rural (o pico foi o Nordeste, com 7,2%) das faixas de renda mais baixas (o pico foi a faixa de 1/4 de salário mínimo, com 8,5%). Assim, nesses dois casos extremos, podia-se falar em fome em 2,2% das mulheres da zona rural do Nordeste e em 3,5% das mulheres na faixa de renda mais baixa. Os dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), realizada em 2006 e divulgada na última quinta-feira, mostram, porém, que essa situação já foi superada. No Brasil, o índice de mulheres emagrecidas foi de 3,5% e em nenhuma região alcançou 5%. O índice só ultrapassou ligeiramente os 5% entre as mulheres sem escolaridade (5,3%) e com mais de seis filhos (6%).

Mesmo entre as crianças, a notícia é excelente. A desnutrição aguda é também medida pela relação peso/altura, mas, para elas, o índice aceitável é de até 3%, o que corresponderia a crianças geneticamente magras. O índice encontrado pela PNDS foi de apenas 1,6%, ou seja: é virtualmente nula a fome em crianças no Brasil. A desnutrição crônica é medida pela relação altura/idade, que, segundo a pesquisa, “expressa o crescimento linear da criança e, nesta medida, sintetiza a história do seu estado nutricional, do nascimento (ou mesmo antes) até o momento atual, refletindo o aporte de energia, de macronutrientes e de vitaminas e minerais.” Em outras palavras, é uma relação que traz mais as marcas do passado. O índice aceitável é de até 3%, o que corresponde à proporção de crianças geneticamente pequenas. No Brasil, o índice despencou de 13,4%, em 1996, para 6,8% em 2006, menos da metade do índice do México (15,5%) e menor do que o da Argentina (8,2%). Ainda há fome no Brasil? Sim, o que é uma tragédia, mas uma tragédia na casa das centenas de milhares, nunca na casa dos milhões.

O filme de Padilha chama-se “Garapa” porque este é o nome da mistura de água e açúcar que as famílias como a que ele retratou dão a seus filhos quando não há alimentos. Uma pesadelo. Mas que não tem as dimensões que ele acredita. A POF não detectou em nenhum estrato da população (nem mesmo nos de baixíssima renda) dietas à base de garapa.

Por que a abrangência do Bolsa Família pode estar sendo contraproducente? Porque o programa distribui um dinheiro pequeno a 46 milhões de pessoas, na suposição de que todas passam fome. Se o programa fosse mais bem dimensionado, o dinheiro dado aos que, de fato, não tem comida poderia ser substancialmente maior a um custo total substancialmente menor. Em vez de R$ 10,8 bi, o Bolsa Família poderia gastar, sei lá, 20% disso, dando muito mais a quem precisa e investindo o restante em educação, único instrumento que tira de fato o pobre da pobreza.

Se em seu novo filme, Padilha usar três famílias que passam fome como exemplo de 11 milhões, terá sido induzido a erro pela leitura equivocada de uma pesquisa. Se não fizer as ressalvas, o filme não será a sua volta ao documentário, mas a sua permanência na ficção.

(*) Artigo publicado originalmente em O Globo Online, no dia 7 de julho de 2008

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Por Reinaldo Azevedo

Amores Expressos: o cinismo com mão de veludo da intelligentsia brasileira

sábado, 24 de março de 2007 | 12:36

Vocês já devem ter ouvido falar de um projeto chamado “Amores Expressos”. Na Veja desta semana, Jerônimo Teixeira escreve um texto exemplar a respeito, de que segue um trecho: “Na semana passada, o anúncio de um projeto chamado Amores Expressos causou rebuliço nos meios literários brasileiros. Os blogues de escritores não falaram de outro tema: dezesseis autores brasileiros vão viajar cada um para uma cidade diferente do mundo, de Nova York a Xangai, em busca de inspiração para – vejam que coisa mais singela – uma história de amor. Os dezesseis romances resultantes serão publicados pela Companhia das Letras. O produtor Rodrigo Teixeira, criador do projeto, espera que os livros se prestem a adaptações cinematográficas. Cada autor, além do passeio com estadia de um mês e uma ajudinha de custo média de 100 euros por dia, receberá 10.000 reais pelos direitos audiovisuais de seus livros. A grita contra a iniciativa centrou-se em dois pontos: o critério de seleção dos autores e a notícia de que o projeto contaria com aporte de dinheiro público, via Lei Rouanet. Incapazes de produzir uma polêmica propriamente literária, os escritores brasileiros agora brigam por passagens aéreas. Pagas por você, contribuinte.” Assinante lê íntegra aqui.

Não descarto que os escritores possam produzir boas histórias. Há, entre os agraciados, gente boa. E há também os marqueteiros da esquisitice. Incapazes de se impor pelo talento, fazem praça de um modo de vida. Isso não é novo. Artistas gostam de afetar uma vida interessante.

No ensaio que escrevi sobre Mário Faustino, que está neste Avesso do Avesso, falo que a literatura brasileira, em particular a poesia, se dividia em partidos políticos. Bons tempos aqueles em que os concretistas acusavam os poetas-em-prosa de ignorar a base material do verso. Bons tempos aqueles em que os poetas-em-prosa acusavam os concretistas de produzir explicações para seus trocadilhos superiores a seus não-versos. Uau! Ainda era uma polêmica, vejam só!, literária. A reportagem sobre “Amores Expressos” deveria estar no caderno de economia ou de polícia. Ou se noticia a coisa junto, sei lá, com as linhas de financiamento que o BNDES vai abrir para os usineiros ou nas páginas destinadas a estelionatos e golpes na praça.

A história da produção artística se confunde com a história do mecenato. O substantivo, sabem disso, vem de Mecenas (69 a.C. – 3 a.C), um cavaleiro romano rico que serviu como uma espécie de ministro da Cultura do imperador Otávio Augusto. Patrocinava escritores com seu próprio dinheiro — os gigantes Virgílio e Horácio estavam entre eles — e também convencia o amigo ainda mais poderoso a agraciá-los com algumas prebendas oficiais. O nome virou sinônimo da generosidade dos ricos com as artes. Artistas os mais diversos sonham encontrar um “Mecenas” para chamar de seu. Talvez haja um Virgílio ou Horácio entre os viajantes, coisa de que duvido um pouco…

As leis de incentivo à cultura — seja a Rouanet, seja o do audiovisual — são um capítulo do farisaísmo das, como é mesmo?, “elites conscientes” do Brasil. Na maioria das vezes identificadas com teses consideradas “progressistas”, assaltam os cofres públicos com mãos de veludo e, não raro, dizem fazê-lo para o bem dos brasileiros. Por que escritores querem escrever histórias? Boa parte deles diria que é para nos salvar. Por que um cineasta quer fazer um filme? Alguns seriam capazes de jurar que, sem eles, a identidade do Brasil se perderia. As explicações são as mais diversas, mas jamais se assume o óbvio: nada é mais egoísta, pessoal e privado do que a relação do artista com a sua obra. “Arte social” é um capítulo da política (às vezes, da polícia), não da estética. Quem tem de financiar os artistas, suas escolhas e os filmes, livros, CDs, peças de teatro ou exposições de artes plásticas? Os pagantes. Ou um Mecenas.

Fazê-lo por meio da renúncia fiscal corresponde a eleger os agraciados representantes de aspirações coletivas, coisa que se viu de modo organizado apenas nos regimes comunistas, que produziram uma cultura sabidamente vagabunda. Quais são os grandes escritores, dramaturgos ou artistas plásticos que marcaram o auge do poder soviético? Inexistem. A arte é uma atividade da vida privada, não do Estado. Editora, produtor e escritores querem histórias de amor inspiradas em várias cidades do mundo? Que o façam. Com os recursos que conseguirem amealhar na iniciativa privada. Por que um romance inspirado em Xangai ou em Paris é mais importante para a sociedade do que parafuso? Por que os brasileiros têm de arcar com os custos de um e não de outro? Escritores podem até se achar superiores a gente que faz parafuso, mas o que pensa quem paga a conta?

Na Folha deste sábado, alguns escritores estão chiando. Ricardo (Nunca Li Nada Dele) Lísias indaga: “Por que ninguém vai para a África Negra? Não há amor na Faixa de Gaza? Nem na favela cite Soleil, no Haiti?” É… O Brasil está caminhando para um buraco intelectual, político e moral. Lísias acha que o erro do projeto não está em dividir a conta da iniciativa com os brazucas desavisados. Houvesse na proposta a marca legitimadora da miséria, entende-se, ele seria favorável. Muito ético, exige uma contrapartida para a prebenda: que pelo menos o escritor sofra um pouco. Defende o turismo engajado. Ademir Assunção, por sua vez, acha que não haveria problema se a grana fosse empregada para enviar escritores a feiras de livros e debates em universidades no exterior. Pergunta: por que eu tenho de pagar a ida de um Ademir Assunção a um debate no exterior? Quem responde às críticas? Sérgio Sant’Anna, com aquela sua linguagem deixa-que-eu-chuto: “As pessoas só aceitam o escritor se ele estiver fodido. Parece que só isso legitima o que ele faz. Se essa grana fosse para um cineasta, ninguém ia falar nada”. Entenderam? O “outro” de Sant’Anna são os cineastas. Ele está defendendo o “direito” de os escritores entrarem também na corrida para tomar o dinheiro do Seu Zé. E tem mais: eu não tou nem aí se Sant’Anna vive como mendigo ou nababo. Se ele é escritor, só seus livros interessam.

Ah, não. Os jornalistas não estão fora dessa, não. Alguns vagabundos deram agora para defender o que chamam de ”jornalismo público” — mas não estatal, eles advertem. Consiste, do mesmo modo, em enfiar a mão no bolso da sociedade para, por exemplo, criar TVs que ficarão fora de qualquer controle, seja o do Estado (gerenciado, afinal, por um governo eleito), seja o do público propriamente dito, que diz se gosta ou desgosta do que lhe é apresentado sintonizando ou não o canal. Os “coleguinhas” querem algo menos comercial, na suposição de que “esses brasileiros”, deixados à própria sorte, só vêem bobagem. Eles querem assaltar os telespectadores para lhes oferecer “jornalismo de qualidade”, ainda que ninguém veja. De resto, notem: é mentira que a população tem especial predileção pela baixaria. A Globo, líder de audiência, tem uma programação média de qualidade — educar é tarefa da escola, não da TV. A Record, para ser a segunda, teve de deixar seus demônios de brinquedo de lado e imitar a líder. Silvio Santos, com sua opção preferencial pelo popularesco, está naufragando.

O que isso quer dizer? Que os bacanas brasileiros resistem bravamente a uma evidência que chega a ser escandalosa: o mercado educa e civiliza muito mais do que qualquer intervenção estatal. Financiar cultura, universidade ou jornalismo com dinheiro público, seja por meio de verba do orçamento, seja por meio da renúncia fiscal, é só uma forma de assaltar os brasileiros. Em nome dos oprimidos, da arte e do saber, é claro.

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Por Reinaldo Azevedo

O Avarento

domingo, 18 de março de 2007 | 5:31

Há muito, muito tempo, deixei de ir ao teatro. Há uma coincidência interessante: quando era moleque, mocinho, militante de esquerda, quase dava plantão. Falsificava carteirinha de escola para entrar nos espetáculos a que não podia assistir. Cheguei a flertar com o teatro amador etc e tal. Depois me desencantei. À medida que ia me livrando dos preconceitos da esquerda, também fui me desinteressando da coisa. Isso talvez valesse um texto, mas de outra natureza.

Fui neste sábado ver O Avarento, de Molière, dirigido por Felipe Hirsch, que tem o grande Paulo Autran no papel do avarento Harpagon. Um casal de amigos que não é de São Paulo estava aqui, e resolvemos, eu e dona Reinalda, acompanhá-los, já que tinham reservado os ingressos. Depois de uns 20 minutos, eu só torcia para que o restaurante escolhido para depois do espetáculo não me decepcionasse. Não decepcionou. E a conversa foi muito agradável. Que bom!

Acho que não agüento mais teatro.

O maior encenador brasileiro, talvez eu surpreenda muita gente, é José Celso Martinez Corrêa. Sim, o próprio. Não fossem as suas obsessões, incluindo as (homo)sexuais, que são um porre, seria um exemplo — se a obsessão fosse heterossexual, chatearia do mesmo jeito. Obsessões são chatas. Zé Celso rompeu com a coisa que mais me irrita em teatro: aquela fala impostada, pecado em que o veterano Autran, 85 anos, não incorre. Mas todos os outros atores da peça, fraquíssimos — Karen Rodrigues está afastada —, sim. Salvam-se a cenografia, de Daniela Thomas, e a iluminação. Sim, Autran vai bem na maioria das vezes. Mas é um espetáculo fraco de um homem só.

Hirsch adaptou Molière ao público acostumado com humorísticos de televisão. Não tenho nada contra a TV. Ninguém me pegará naquele papo careta de antropólogo sobre os males que ela provoca na formação cultural do Brasil e das nossas crianças. Quem tem de educar as nossas crianças é a escola, não a Globo. Conversa mole. A televisão faz mais bem do que mal às pessoas. Civiliza. Com ela, o país é menos selvagem.

Meu ponto é outro: certos produtos culturais não são mesmo para a maioria. O Avarento está em cartaz, parece, desde agosto do ano passado. Não existe tanta gente assim interessada em Molière em São Paulo. Por isso, o Molière de Hirsch lembra, às vezes, A Praça é Nossa (nunca vi, mas deve lembrar). Não é Molière.

O autor é uma referência obrigatória, por conta de suas farsas, a quem, como eu, escreve sobre política. As sutilezas e gags do teto original desaparecem numa coleção impressionante de facilidades do diretor, que também adaptou o texto. Por qualquer razão inexplicável, o filho do avarento, que, na peça abusa de uma linguagem excessivamente melosa quando fala do amor, é caracterizado, por exemplo, como uma bichona afetada, o que arranca risos da platéia — e como a platéia de teatro ri fácil, não? Ela só não ri tanto quanto tosse, mas ri muito — ao dar dois ou três passos largos. Por quê? Pra quê? Não entendi.

A história de O Avarento é também a história de uma terrível solidão, que não mostra as caras. A lei do menor esforço — do espectador — torna-se o grande elemento redutor do espetáculo. Não fiz pesquisa, é claro, mas intuo: boa parte deve ter deixado o teatro achando que, no fim das contas, tudo acabou. O velhote termina agarrado a seu dinheiro. Não era o que ele queria? Talvez não…

O que não fica claro, nem de longe, nesta montagem de O Avarento? Que Harpagon é um pobre diabo. Um dado da montagem colabora para tanto — ao menos na versão que vi. É tal a diferença de talentos entre Autran e seus colegas de cena, que não resta ao espectador outra coisa que não se identificar com Harpagon. Ou com Autran.

Na montagem que está no Cultura Artística, Harpagon venceu. No texto de Molière, ele é um perdedor.

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Por Reinaldo Azevedo

Mário Faustino - De volta ao eterno*

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007 | 1:33

No dia 22 deste mês de outubro [2002], se vivo fosse, Mário Faustino, nascido em Teresina e criado no Rio, completaria 72 anos. Poderia ainda estar a produzir maravilhas. Outros com essa mesma idade têm maiores e mais graves responsabilidades de curto prazo do que aquelas reservadas a um poeta. Mas talvez tenham menos compromisso com a eternidade. Ocorre que Faustino não está vivo, não! No dia 27 de novembro de 1962, de madrugada, embarcou num Boeing da Varig, no aeroporto do Galeão, no Rio, com destino à Cidade do México. Eram 5h30 da manhã quando o avião espatifou-se no cerro de la Cruz, perto de Lima, no Peru. Os registros daquele dia apontam a morte de oitenta passageiros e dezesseis tripulantes. De Faustino, que se foi aos 32 anos e cujos restos mortais não puderam ser reconhecidos, havia um único livro de poesias, O Homem e Sua Hora (Livros de Portugal, 1955), alguns inéditos e poemas traduzidos, que foram depois reunidos pelo crítico e amigo Benedito Nunes. “Bateu-se delicado e fino, com/ Tanta violência, mas tanta ternura!”

Os leitores menos habituados à poesia ou os mais jovens talvez nunca tenham ouvido falar no seu nome. Têm agora mais uma oportunidade, com a publicação, pela Companhia das Letras, de O Homem e Sua Hora e Outros Poemas. Depois daquela edição de 1955, hoje raríssima, reeditada em 1966 pela Civilização Brasileira com acréscimo de alguns poemas, a editora Max Limonad publicou, em 1985, Mário Faustino: Poesia Completa, Poesia Traduzida. Há longuíssimos dezessete anos, portanto, têm sido escassas as notícias sobre aquele que foi, em muitos sentidos, o mais criativo, inventivo e culto (com perdão de essa palavra parecer pernóstica nestes tempos de proselitismo antiintelectualista) poeta brasileiro da geração pós-1945. Segundo a Companhia das Letras, a nova edição trará ainda alguns poemas inéditos.

Os que eventualmente já conhecem sua obra se espantam — e os que vão conhecê-la agora hão de espantar-se — que se tenha criado em torno de Faustino uma bolha de silêncio, enquanto nulidades que vagam entre o prosaísmo mais vagabundo e a poesia-como-arte-plástica — ou,
ainda, de pretensões ideogramáticas — ocupem os cadernos de cultura dos jornais e tomem o tempo dos professores universitários das faculdades de letras, gastando com inutilidades os já parcos recursos públicos.

Jornalistas e mestres fazem crer a seus leitores e alunos que o verso se esgotou com Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto e que tudo o mais ou é a empulhação dos epígonos do Concretismo, ainda valorizado como etapa intermediária entre a civilização e a barbárie, ou é confessionalismo feminil de moças arredias à autoridade paterna ou de rapazes desligados do sentido do épico.

(Leitor, farei em seguida um parêntese sobre a política da poesia. Se quiser entrar já no universo de Faustino, pule o trecho abaixo e continue a leitura a partir do intertítulo “Tradição e Vanguarda”.)

O tom em que escrevo é mesmo algo agressivo. Está na hora de, também na cultura, desafinar esse coro da camaradagem e da conciliação que entroniza nulidades influentes, que acabam reconhecidas como gênios porque outros, tão estúpidos quanto elas próprias, sentem-se bem em entender o que dizem. Sustento, em suma, que o silêncio a respeito de Faustino e até mesmo a demora em republicar a sua obra — merecedora de uma cátedra em qualquer faculdade de letras que se prezasse — constituem uma espécie de decisão política.

Já escrevi uma vez na revista Bravo!, para escândalo de certa casta universitária, que a poesia brasileira se divide em partidos: à esquerda, um Roberto Schwarz, aquele das idéias fora do lugar, é capaz de pegar um livro como Elefante, de Francisco Alvim, e submetê-lo a um trabalho de desconstrução à luz do marxismo. Fragmentos do cotidiano, observações tolas do dia-a-dia, anotações feitas no joelho do descompromisso, dispostos na forma de versos, mereceram do crítico um longuíssimo texto que refaz a trajetória das classes populares do inferno à redenção, publicado parcialmente no Jornal de Resenhas e, mais tarde, na íntegra, no suplemento Mais!, da Folha de S. Paulo. Só lendo!

Para Schwarz, a poesia de Alvim é uma espécie de comentário ou ilustração de uma ideologia redentora. Como os, por assim dizer, versos são por demais anêmicos para sustentar a dialética marxista-schwarziana, o professor não tem receio de recorrer a perífrases para preencher os claros do original. O fantasma ainda é o da arte engajada, em que o poeta entra com o fato revolucionário — como se a poesia tivesse força instrumental para mudar o mundo —, e o crítico, com a exegese. Pfui…

No centro, fica a turma da verborragia oca, que só quer ser feliz e se livrar das amarras, dos convencionalismos, dos formalismos. Sua realização plena é a poesia como confissão, o texto como diário, a banalidade dita com solenidade fingidamente distraída, como se fosse fácil ser simples. Todos leram A Teus Pés, de Ana Cristina Cesar, e nunca mais se levantaram da genuflexão. Nesse caso, poesia nada mais é do que citação marcada pelo testemunho. Algo como: “O que aconteceu comigo depois que li, sei lá, Elizabeth Bishop”. E tome sub-bishopices a pretexto de fazer texto literariamente informado.

E, julgando-se à esquerda, ainda resiste a turma do tatibitate (por favor, vejam no dicionário o sentido dessa palavra para saber quão precisa é sua escolha neste texto), que pretende emprestar a aliterações sofríveis, a trocadilhos ginasianos, a desenhos imprestáveis, a gravidade humana de hesitações verdadeiramente hamletianas.

Entre eles, pode-se ouvir: “Viu o último Arnaldo Antunes?”. É a turma que usa livros para ver, quando não os “pendura” na parede. Junto com os criadores de instalações do Partido das Artes Plásticas, vivem em busca de um novo suporte. Dos três Partidos da Poesia, esse é o mais visível. Seu “trabalho” (como eles chamam aquilo…) carrega certa aura de complexidade, e eles sempre têm um “olhar” (adoram substantivar verbos) benevolente para aqueles que não entendem “a proposta”.

Como considero truque sujo chamar algo de “incompreensível” — porque pretendo ser pouco complacente com a minha própria ignorância —, sempre que posso, convido-os a dissertar sobre a tal “proposta”. Declinam do convite. Acostumados à imagem que se impõe pelo silêncio, consideram que o mundo se divide entre os que já entenderam e os que nunca vão entender. Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari são, por assim dizer, a tríade, os três coronéis desse sertão mental ainda poderoso. A exemplo do coronelismo político ressuscitado
pelo PT, o Concretismo resiste cada vez mais nos grotões das mentalidades, mas ainda tem lá o seu poder. Faustino sobreviveu à arte como capítulo do engajamento redentor, ao prosaísmo distraído de gente preguiçosa o bastante para estudar o verso e ao coronelismo concretista.
Importante tentar entender por quê.

Tradição e vanguarda
O jovem Mário Faustino incomodava já as vanguardas suas contemporâneas — e, depois, morto, sua obra como testemunho de sua genialidade continuou a perturbar, daí que tenha sido banida — porque ele mesmo nunca reivindicou para si tal estatuto. E incomodava não porque as rejeitasse, mas porque era capaz de compreender o código que elas compreendiam e ter um talento que jamais tiveram.

Foi o responsável, entre 1956 e 1959, pela página Poesia-Experiência, do Jornal do Brasil, cujo lema era “Repetir para aprender, criar para renovar” (não deixa de ser miserável que o Brasil viva, até na política, quarenta anos depois, tempos que fazem a apologia do improviso). Ali publicou tanto jovens poetas — alguns de vanguarda, sim, a exemplo dos concretistas — como nomes já consagrados da literatura. Numa única página podiam-se encontrar o então iniciante José Lino Grunewald, um experimentalista como Antonin Artaud e ninguém menos que Sá de Miranda.

Sá de Miranda, poeta português, nasceu pelo menos três décadas antes de Camões na mesma Coimbra, em fins do século XV. Foi um dos mestres do criador de Os Lusíadas e o verdadeiro introdutor das formas italianas de verso em Portugal, como o soneto. Na história, sua bela obra foi esmagada pelo gigante que o sucedeu. Ao recuperá-la, Faustino buscava o diálogo com a tradição, o que as vanguardas — qualquer vanguarda tem sempre um lado boçal e obscurantista — nunca souberam fazer. Repetir para aprender. Criar para renovar. Como Sá de Miranda fez com Petrarca. Como Camões fez com Petrarca e Sá de Miranda.

Poesia-Experiência foi a página literária de maior prestígio de seu tempo, e Faustino a conduzia sem poupar reputações. Paulo Francis — outro que não tinha medo de fazer inimigos e de não influenciar pessoas, que está a fazer falta — contou a história de um poetastro que foi buscar a intercessão da condessa Pereira Carneiro, dona do jornal, para que ela impedisse Faustino de criticar um livro seu que ainda seria lançado. Delicada, mas firme, a altiva senhora teve espírito para perguntar como o autor sabia de antemão que Faustino não gostaria do livro se ele ainda nem o havia publicado.

O tal poetastro certamente sabia o que o aguardava, e o melhor testemunho das exigências do crítico era o que já estava escrito em O Homem e Sua Hora. Impressiona que um jovem de 25 anos tenha, como diria o poeta latino Horácio, criado um monumento mais perene do que o bronze, evidenciando a um só tempo tal riqueza de conceitos, tal virtuosismo melódico e complexidade técnica e tal variedade de imagens.

Entrelaçados os três procedimentos, o conceito, o rigor formal (ainda que variado) e as imagens — categorias que o poeta americano Ezra Pound chamava, respectivamente, logopéia, melopéia e fanopéia —, fica evidente, como afirmou Benedito Nunes, que Faustino desenvolveu uma “poética que aceita a tríade de Pound”. Ezra Pound foi, indubitavelmente, um daqueles que ele tentou repetir para aprender e que inspiraram a sua vertiginosa criação de novidades. Caso se quisesse aqui voltar a comprar mais algumas boas confusões, seria de lembrar que, bem antes
de Os Cantos de Pound se tornarem uma espécie de livro sagrado com que os fariseus do Concretismo buscavam justificar a morte do verso, Faustino já os havia devorado para “aprender” e, então, poder “criar para renovar”. Deu-nos poesia, não um discurso ideológico sobre o verso.

“Ego de Mona Kateudo”
Faustino explorou como poucos — certamente atingindo resultado único — a chamada intertextualidade, que, numa definição rápida para tema tão abrangente, poderia se contentar com, vá lá, o mínimo de palavras com o máximo de significação, de maneira que o verbo informe, mas também evoque, designe e seja capaz de suscitar inferências. Reparem, a propósito da intertextualidade e das categorias poundianas, o poema “Ego de Mona Kateudo”, que segue adiante (sirva o texto de caso exemplar para que apenas se comece a entender Faustino, que é o propósito deste texto; impossível ser suficiente nesse caso). Vamos ao poema, que integra o grupo “Sete Sonetos de Amor e Morte”:

Dor, dor de minha alma, é madrugada
E aportam-me lembranças de quem amo.
E dobram sonhos na mal-estrelada
Memória arfante donde alguém que chamo
Para outros braços cardiais me nega
Restos de rosa entre lençóis de olvido.
Ao longe ladra um coração na cega
Noite ambulante. E escuto-te o mugido,
Oh vento que meu cérebro aleitaste,
Tempo que meu destino ruminaste.
Amor, amo, enquanto luzes, puro,
Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,
Ouvindo as asas roucas de outro dia
Cantar sem despertar minha alegria.

O título, que Faustino escreve em grego no manuscrito, é uma citação de um verso de Safo de Lesbos, uma de suas referências constantes: “Déduke mèn a selánna/ kái Pléiades; mésai dè/ núktes, parà d’ erchet’ óra,/ égo dè móna katéudo” (“A lua já se pôs, as Plêiades também;/ É
meia-noite;/ A hora passa, e estou deitada, sozinha
”). A solidão expressa no verso sáfico, que nomina o poema, será então desenvolvida no soneto, cujo título em português seria, na tradução escolhida, “E Estou Deitada, Sozinha”. As palavras que pontuam o poema informam a condição do “eu” cuja dor não pode ser percebida por ninguém: madrugada, lembranças, memória, vento, tempo, escuro. Por mais confessional e passional que se mostre o poema, mantém intacto o eixo de significados. Não pode haver bom poema com seleção ruim de palavras.

Nesse, como em outros poemas, ninguém como Faustino usou tão belamente o enjambement, aquele recurso em que o sentido de um verso, traduzido mesmo por sua complementação sintática, se realiza no verso seguinte: “E dobram sonhos na mal-estrelada/ Memória arfante donde alguém que chamo”. No papel, as rimas estão dispostas ao fim de cada verso, num entrelaçamento que tem história na literatura, mas convencional de qualquer modo. Se o poema for declamado segundo a demanda da sintaxe e do sentido, o que é rima final assume a característica de rimas internas, que, por sua vez, vão se compondo com rimas e assonâncias
internas a cada verso, num ritmo vertiginoso: minha alma/ madrugada; aportam-me/ lembranças; dobram/ arfante/chamo.

O ritmo que Faustino impõe a seus versos vai constituindo, por assim dizer, uma espécie de base harmônica sobre a qual ele superpõe uma melodia do estranhamento, que se dá já no terreno das imagens: outros podem ter feito sonetos tão técnicos quanto ele; outros podem ter sido tão rigorosos na escolha do eixo vocabular quanto ele, mas ninguém soube ser tão original na elaboração das figuras, na composição de metáforas de tal sorte únicas, que sua poesia corresponde mesmo a uma verdadeira reeducação da percepção. Vejamos: “aportam-me lembranças”; “mal-estrelada memória arfante”; “braços cardiais”; “noite ambulante”; “vento que (…) aleitaste”; “tempo que (…) ruminaste”; “ouvindo as asas roucas”. Curiosamente, a metaforização que reeduca o ouvido, que instaura um novo sentido para as palavras, também as
devolve a seu sentido original. Em Faustino, o extremo da subjetividade encontra a plena objetividade.

Lírico, não banal
Caso se faça um inventário dos temas e das preocupações constantes de Faustino, fica difícil fugir à categorização de Benedito Nunes no pequeno e excelente ensaio que abre a edição de 1966: “amor e morte, sexo, carne e espírito, vida agônica, salvação e perdição, pureza e impureza, Deus e o homem, tempo e eternidade”. Leitor de várias línguas, o que incluía o latim e o grego clássicos, e tradutor dos mais promissores, sua voracidade intelectual reunia, como fez no poema “O Homem e Sua Hora”, emblemas e símbolos do cristianismo e do paganismo, fundindo a vocação dionisíaca que hauria deste à culpa e ao remorso que experimentava daquele. Por isso, acrescentaria à lista de Nunes a palavra “perdão”, o mais alto vocábulo da hierarquia de valores cristãos. Os opostos parecem sempre prontos a se reconhecer e a se fundir. Leia-se, a propósito, o soneto “Estava lá Aquiles, que Abraçava”:

Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da cítara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado.

Se, da lista de Nunes, tivéssemos de escolher dois temas preponderantes em sua curta mas intensa obra, o sexo e a morte mereceram, sem dúvida, maior número de referências. Com esta teve uma relação que ia da investigação intelectual ao fatalismo místico, passando pelo anedótico, com conclusão trágica. Consta que, em Nova York, insistentes ligações para a casa de um amigo caíam por engano no número da casa de uma astróloga, que teria previsto uma tragédia nos anos vindouros. Faustino contou o fato a amigos em tom de pilhéria. Tentou adiar a viagem que teria de fazer, já de volta ao Jornal do Brasil como editorialista. Não conseguiu. “(…) Os derradeiros astros nascem tortos/ E o tempo na verdade tem domínio/ Sobre o morto que enterra os próprios mortos/ O tempo na verdade tem domínio,/ Amém, amém vos digo, tem domínio/ E ri do que desfere verbos, dardos/ De falso eterno que retornam para/ Assassinar-nos num mês assassino”.

O sexo, igualmente, ocupa lugar central em sua lírica. Faustino não apenas cultuava o amor que, no seu caso, ousava dizer seu nome como o prodigalizava em praticamente todos os poemas em que a tentação erótica é vivida como imposição da matéria, como caminho da transcendência, mas também como queda e perdição romântica, como em “Balatetta”.

Por não ter esperança de beijá-lo
Eu mesmo, ou de abraçá-lo,
Ou contar-lhe do amor que me corrói
O coração vassalo,
Vai tu, poema, ao meu
Amado, vai ao seu
Quarto dizer-lhe quanto, quanto dói
Amar sem ser amado,
Amar calado.
Beijai-o vós, felizes
Palavras que levíssimas envio
Rumo aos quentes países
De seu corpo dormente, rumo ao frio
Vale onde vaga a alma
Liberta que na calma
Da noite vai sonhando, indiferente
À fonte que, de ardente,
Gera em meu rosto um rio
Resplandecente.
No sonolento ramo
Pousai, palavras minhas, e cantai
Repetindo: eu te amo.
Ele, que dorme, e vai
De reino em reino cavalgando sua
Beleza sob a lua,
Encontrará na voz de vosso canto
Motivo de acalanto;
E dormirá mais longe ainda, enquanto
Eu, carregando só, por esta rua
Difícil, meu pesado
Coração recusado,
Verei, nesse seu sono renovado,
Razão de desencanto
E de mais pranto.

Entretanto cantai, palavras: quem
Vos disse que chorásseis, vós também?

Celebração e derrota, tentação dionisíaca e pessimismo filosófico, vontade de ordenar a criatura e egoísmo radical são exemplos de uma poesia que se move entre extremos, cuja expressão perfeita está no poema “Carpe Diem” (aproveite o dia), irônico já desde o título. Nos três primeiros versos, o poeta indaga: “Que faço deste dia, que me adora?/ Pegá-lo pela cauda, antes da hora/ Vermelha de furtar-se ao meu festim?”. E nos dois últimos conclui: “Já nele a luz da lua — a morte — mora,/ De traição foi feito: vai-se embora”.

Aspirações épicas
O poema que dá título ao único livro que Faustino escreveu em vida, O Homem e Sua Hora, pode, sem dúvida, ser lido como fragmento de um poema épico. Feita tal leitura, a propósito, todos os textos do autor parecem apelar para a busca de uma dimensão da existência humana que a lírica, por si mesma, não comporta.

Morto aos 32 anos e tendo deixado o que deixou, é justo supor que Faustino teria ousadia o bastante para se aventurar pelos caminhos do épico. Quando Eliot, um dos poetas da primeira infância intelectual de Faustino, pensa Virgílio como autor completo, supõe não apenas aquele que traduziu o sumo de uma civilização triunfante, mas também aquele que pôde narrar a sua essência, digamos, metafísica numa grande e poderosa narrativa em versos, Eneida.

É quase truísmo afirmar que a civilização contemporânea não suporta o poema épico porque, para usar expressão de Faustino, talvez lhe falte o “cálice que una” tamanha desordem filosófica. O gênero também supõe, em que pesem tanta desdita e desgraça, um sentido de triunfo. Faustino, em “O Homem e Sua Hora”, ensaia uma ousada história da civilização que funde símbolos de várias mitologias, mas que tem como pilares a mitologia grega (Delfos) e o cristianismo (João). O poema se realiza em estações, em mininarrativas. Mas oh desdita: Faustino ainda não encontrara o sentido do triunfo.

Os heróis antigos que desfilam em O Homem e Sua Hora vão se esfarelando no choque com o tempo. Uma espécie de melancolia cósmica percorre o texto, e o fatalismo cristão se impõe sobre a vontade augusta: “Uma cruz, um talento de ouro, um preço,/ Um prêmio, uma sanção… Desaba a noite,/ A noite tomba, Iésus, e no céu/ Da tarde, onde os revôos de mil pombas/ Soltas pelo desejo de teu reino?/ Todo este caos, Homem, para dizer-te/ Não seres deus nem rei nem sol nem sino/ Dos animais, das pedras — ou dizer-te/ Ser débil cana o cetro que não podes/ Quebrar, ser de ervas más o diadema/ Que não podes cortar com teus cabelos! (…)”.

Se Mário Faustino tivesse sobrevivido ao “mês que o assassinou”, outros certamente teriam sido os destinos da poesia brasileira. Era também um crítico de primeira qualidade, ofício que exerceu com brilho em Poesia-Experiência. Tinha um sentido claro de militância cultural, mas tendo a literatura como centro, não o proselitismo ideológico, que considerava uma das madrastas más do talento. Entre outras impertinências, cobrou do já santificado Carlos Drummond de Andrade que participasse do debate cultural. Traduziu de várias línguas, tinha como referências alguns dos autores que se tornaram oráculos do coronelismo concretista que tomou a produção poética de um só golpe.

Lembra Benedito Nunes no já referido ensaio: “Por volta de 1959, após haver repensado Mallarmé e Pound, Jorge de Lima e os concretistas, Mário Faustino escrevia: ‘A cibernética, graças aos deuses, nunca poderá produzir poesia: a área multifária de cada palavra é incomensurável; célula de N átomos, incalculável, imponderável, indirigível. A poesia será sempre mágica, metafísica, jamais uma ciência exata, pura ou aplicada. Isto eu já sei, profundamente. Um saber para toda a existência, irretifícável, confundindo-se com a própria existência, agindo sobre ela e modificando-a à sua imagem’”.

Dizer o que mais? Entenderam por que os coronéis da poesia, a turma do tatibitate e aqueles que vivem aos pés da mediocridade tentaram esconder Mário Faustino? Mas ele ressurge, gigante diante de nossos olhos, resistindo “à pulhice dominante à nossa volta”, para lembrar Francis outra vez.

* Texto originalmente publicado na revista Primeira Leitura nº 8, de outubro de 2002, e que integra o livro Contra o Consenso (Editora Barracuda).

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Por Reinaldo Azevedo

Estréia

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 | 6:31

Caros,
Estréia esta nova seção no blog, com textos sobre literatura, cinema, política cultural etc e tal. Não será atualizada diariamente porque, vejam só, me falta tempo… Escolhi, para começar, quatro artigos, três deles publicados na revista BRAVO!, e um, na extinta Primeira Leitura. Integram o livro Contra o Consenso (da Editora Barracuda). Falo de Fernando Pessoa, de Edward Hopper, do filme Diários de Motocicleta e do antiamericanismo. Creio que mantêm a atualidade, embora não se refiram a fatos culturais recentes. Na medida do meu tempo, pretendo tratar também de assuntos contemporâneos. Mas não esperem deste blogueiro a adesão à agenda dos cadernos de cultura. Nunca ouvi falar de boa parte das pessoas que brilham nas capas e que críticos de rock e música pop classificam de “revolucionários”, “seminais”, “ícones”. Sou um homem inatual. E uso chapéu. Ah, sim: como verão, os textos podem ser longos, muito longos, incompatíveis, talvez, com a celeridade de um blog.

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Por Reinaldo Azevedo

Fernando Pessoa - Virgílio no espelho*

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 | 6:30

Retrato do Poeta Fernando Pessoa, de Almada Negreiros (1954)
A apreciação crítica da obra de Fernando Pessoa esbarra, de cara, numa dificuldade. De tal sorte já se tentou apreender a sua especificidade que, ao fim, o trabalho resulta ou em redundância ou em impotência crítica, como se jamais avançássemos além da periferia da obra, passando por caminhos excessivamente conhecidos ou então nos fixando em arrabaldes de irrelevância. É o correspondente crítico da sensação de encantamento basbaque que experimentamos depois de ler cada poema: “Como alguém conseguiu ser tão grande, intenso, inteiro, personalista e, ao mesmo tempo, dialogar com toda uma era, traduzir sentimentos e sensações que dizem respeito a todos e a cada um de nós?”.

Com a possível exceção do irlandês Yeats (1865- 1939), um caso eventualmente mais complexo, não há na poesia de nenhuma outra língua moderna quem tenha sido tão ambicioso nos horizontes e tão radicalmente solitário. Na impossibilidade de flagrar em todos os seus contornos o bicho interno que corrói a alma do poeta, resta a tentativa de localizar Fernando Pessoa no seu tempo, afinal e sempre um poeta português.

Pessoa foi o autor completo de um país decadente. Um dos maiores poetas de uma língua moderna só se pôde fazer num país então — e por muitas décadas — obscurecido pela sombra de um passado glorioso. De Pessoa, pode-se dizer praticamente o inverso do que dizia Eliot de Virgílio (71-19 a.C.). No ensaio O que é um Clássico?, o poeta inglês via no latino o sumo e a síntese, o ápice e o vórtice de uma civilização — o poeta completo de um império triunfante, diria eu. As preocupações e formulações de Virgílio estavam destinadas a estender a sua perenidade e eram uma espécie de conclusão de uma civilização que o antecedera. Talvez seja útil avançar ainda um pouco nesse espelho ao avesso, e — quem sabe? — se comece a delinear um pouco mais do vulto pessoano.

Quando Virgílio mira o tempo, seja nas Bucólicas, nas Geórgicas ou na Eneida, era o conforto de um presente de glória e poder que se afigurava eterno o que se via refletir em seus versos. A glória mítica de Enéias, que foge à destruição de uma civilização para fundar outra, é pura aposta no porvir. A Eneida virgiliana, se traz o rumor ancestral das batalhas e o suor do périplo do herói, heranças, respectivamente, da Ilíada e da Odisséia homéricas, que a inspiram, mostra-se, ao mesmo tempo, como a afirmação da diferença. Ao escrevê-la sob os auspícios de Otávio Augusto, Virgílio assistia ao pleno funcionamento de uma sociedade que se queria — e era — o retrato fiel da mecânica celeste imaginada.

Quando Virgílio ensaia alguma utopia, ela tem até mesmo um caráter regressivo — bem típico de impérios cujos valores são hegemônicos —, numa espécie de volta saudosa à sociedade primitiva de agricultores (Geórgicas) e pastores (Bucólicas), embora estes já fossem cultos, refinados e quase amaneirados. Em sua trilogia, o poeta cumpriu as três palavras imaginadas para seu epitáfio (“pascua, rura, duces”): cantou os campos, o trabalho na terra e os heróis nacionais. Pessoa foi, diz-se aqui, segundo a linha eliotiana, esse Virgílio pelo avesso. Vejamos. Sua estréia crítica nas letras portuguesas se dá em abril de 1912 com um artigo para a revista A Águia, órgão de um movimento literário chamado Renascença Portuguesa. Ainda que boa parte da crítica queira ver nesse texto — A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada — não mais que a manifestação petulante e irresponsável de um jovem autor de 24 anos, nessa estréia estão resumidas algumas das preocupações que marcaram para sempre a sua obra.

Não era ainda o poeta maduro que Eliot exigia. Para Pessoa, naquele texto, a vitalidade de uma nação não está em sua riqueza comercial, mas na “exuberância de alma”, em sua capacidade de criar “novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”. Depois de algumas digressões sobre as literaturas inglesa e francesa, ele diz (como o Eliot de há pouco) que “o valor dos criadores literários corresponde ao valor criador das épocas”. E conclui: “O valor da literatura, perante a história literária, corresponde ao valor da época perante a história da civilização”.

Na seqüência, Pessoa permite-se um salto sofístico. Olha em torno e enxerga a mediocridade da sociedade e da política portuguesas, a condição deprimente de um país irrelevante na Europa, o que deveria levá-lo, pela lógica elementar, a concluir pela impossibilidade do surgimento de um grande vulto literário. Nada disso. Ao vislumbrar o que considera uma literatura de teor nacionalista, com destaques individuais que contrastam com a pequenez do país, ele supõe a antecipação de um período de glória: “Tornemos essa crença, afinal, lógica, num futuro mais glorioso do que a imaginação o ousa conceber, a nossa alma e o nosso corpo, o cotidiano e o eterno de nós” para “criar o supra-Portugal de amanhã”. E vem a suprema heresia: “E isto leva a crer que deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões”.

É claro que o autor estava atento à contradição e concede: “Pode-se objetar (…) que o atual momento político não parece de ordem a gerar gênios poéticos supremos”. Então, vem a conclusão, que, se afrontava a lógica, iria premiar a posteridade: “Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um supra-Camões (…). Porque a corrente literária (…) precede sempre a corrente social nas épocas sublimes de uma nação (…). Prepara-se em Portugal uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso”.

Passado como desterro
O artigo gerou barulho. Pessoa afrontava — irresponsavelmente, é fato — a santidade; não por acaso, o Virgílio português, o autor de Os Lusíadas, a Eneida lusitana, o sumo literário do período em que o país salgou os mares com as lágrimas das mães e das noivas portuguesas, o cantor da civilização onde o sol nunca se punha. O bardo e o demiurgo de um povo e seus valores triunfantes deveriam ser superados, já agora numa era decadente, por um poeta que, parafraseando o próprio Pessoa num texto sobre política, na impossibilidade de ser o resultado da vontade de todos os poetas, resumisse as qualidades de todos eles. Estava anunciado o fenômeno da heteronimia: diante da impossibilidade de um só poeta conseguir ser todos, todos em um só resultariam no supra-Camões. Se Pessoa não logrou seu intento, é certo que está sentado à direita de Deus-pai.

Se Pessoa não conseguiu navegar águas tão extensas quanto Camões — faltou-lhe o poema épico? —, o pertencer a uma era decadente certamente o fez avançar por verbos até então ignotos. É de se perguntar: a civilização moderna seria capaz de sustentar a aventura épica? Provavelmente, não. Nos fragmentos lírico-históricos de Mensagem, o poeta reconta, magnifica e lamenta o passado português segundo o ponto de vista do narrador de uma epopéia, é fato, mas cada herói é, por assim dizer, privatizado pela dor de quem olha. Camões concluiu o seu poema épico no desterro. Pessoa deu à luz seu Mensagem desterrado do tempo. A sua pátria era lugar nenhum, e a sua terra estrangeira era o passado. Muito já se falou no que há de distinto e radicalmente disforme nas várias vozes poéticas de Pessoa. Mas a questão relevante, parece, é saber como essas várias vozes se harmonizam num coro que ecoa um tempo.

Esse Virgílio da queda enfeixou nos seus heterônimos um só e mesmo sentimento de desconformidade com o mundo, que se traduz no sensacionismo modernista de Álvaro de Campos, na poesia culta de inspiração clássica de Ricardo Reis, na negação dos maneirismos poéticos de Alberto Caeiro, na recuperação do Portugal tragicamente heróico de Pessoa-ele-próprio ou na metafísica cinza, entristecida e reflexiva dos Poemas Ingleses. A dor de Pessoa é uma aventura do espírito. Mesmo o Camões mais tristemente reflexivo, que lamenta a crueza de seu destino, aquele poetizado por Bocage, que destaca num soneto não apenas seus “dons do pensamento”, mas também “os transes da ventura”, que lembra que ele teve de “arrostar o sacrílego gigante” e viver “junto ao Ganges sussurrante” — referências à atribulada e quase heróica vida do poeta em seu exílio —, mesmo esse Camões não eleva o desconforto às alturas pessoanas.

Camões fundia magnificamente suas desventuras pessoais à herança petrarquiana, ao que se poderia chamar “uma maneira de sentir”. O Pessoa de Mensagem inventou um passado — e uma forma de expressá-lo — ao qual se sente intelectualmente vinculado, mas muito mais inóspito do que qualquer terra estrangeira, porque irremediavelmente perdido. Ao recuperar, na dor, esse Eldorado onde o sol só se põe, que não é lugar, mas tempo, vaza a herança clássica (“Os Deuses vendem quando dão”), o catolicismo medieval (“Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça/ A sua santa guerra”), o limite entre o humano e o divino do Renascimento (“Deus quere, o homem sonha, a obra nasce”), a saga épica de um povo traduzida em minimalismo lírico (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!”).

Todos os poemas de Mensagem, a mais espetacular obra pessoana — a única publicada em vida e talvez, de fato, concluída —, podem ser resumidos no poema “A Última Nau”, em homenagem a dom Sebastião:

“Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ancia e de presago
Mystério.
(…)
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna. (…)”.

Os múltiplos interesses de Fernando Pessoa, que passeavam pela astrologia e pelo ocultismo, e suas preferências políticas francamente reacionárias ajudaram a consolidar a imagem do poeta sebastianista. É de se desconfiar. Desde seu primeiro texto público, o que se vê é antes um poeta com ânsia de futuro (aquele que esperava pelo “supra-Portugal”) do que saudoso do passado. A poetização de uma história tão estreitamente portuguesa e, ao mesmo tempo, tão largamente universal parece antes a rejeição de um dia-a-dia “cotidiano e tributável”, concessão, diga-se, em que se perdem muitos poetas contemporâneos. Até mesmo um Carlos Drummond de Andrade — simbolicamente, o nosso Pessoa — se deu às bobajadas jornalísticas de Versiprosa (se bem que nem ele as considerasse poesia), quando já nos tinha dado Brejo das Almas, Sentimento do Mundo e Rosa do Povo, entre outras lições de coisas e brancuras impuras.

De certo modo, nas mesmas águas ousadas navegou o futurista Álvaro de Campos, talvez o mais popular dos heterônimos pessoanos, porque supostamente mais fácil, mais inteligível. Além da adesão ao verso livre — por oposição à miscigenação formal entre clássica e medieval de Pessoa-ele-mesmo — e ao ritmo quase prosaico dos poemas, Álvaro de Campos, parece alçar às alturas uma sensibilidade destrambelhada, sem freios, que pode ser confundida com certa poesia marginal, que faz a apologia do destampatório sentimental. Mas há uma insuspeitada e exata correspondência entre o Pessoa de Mensagem e Álvaro de Campos, da qual o poema “Ode Marítima” é o exemplo perfeito.

O mar de Mensagem — de onde surge inteira e redonda a Terra — é metonímia, e o da “Ode Marítima”, metáfora; aquele afigura todas as dificuldades da civilização que foi “muito além da Taprobana”, este outro transporta uma alma sem cura; aquele existe para que, por intermédio dele, se vislumbre uma nesga de glória e se experimente o desterro no presente, este para que continue, metáfora ativa, a despertar em nós desejos de viagem, de fuga para dentro de nós mesmos, entre nossas misérias íntimas e nossos limites. No mar da metonímia, navega o vulto de dom Sebastião; no mar da metáfora, vê-se

“A ânsia do ilegal unido ao feroz,
A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis,
Que rói como um cio abstrato os nossos corpos franzinos,
Os nossos nervos femininos e delicados,
E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios!”.

Na “Saudação a Walt Whitman”, três versos dão conta da natureza futurista de que era feito Álvaro de Campos. Assim ele classifica o poeta americano:
“Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquina,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura”.
Cada um dos autores citados, de algum modo luminares do mundo das idéias, se resume num Whitman que prenuncia a democracia e suas conquistas técnicas. O futurismo de Álvaro de Campos não é do tipo que empresta às banalidades da vida moderna o estatuto de poesia ou que tenta consolidar novos cânones em detrimento de outros fundadores do pensamento que lhe é contemporâneo — alô, moderneiros de 1922 e de 1998! Álvaro de Campos extrai do moderno o perene, atualiza a idéia e o conceito na matéria viva, revela o eterno no aparentemente transitório. A saudação a Whitman, destaque-se ainda, não é acidental. O poeta americano e seu pansexualismo — “sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões” — se afiguram uma revelação feliz e bem resolvida de uma certa palpitação erótica — insatisfeita, sofrida, impotente — que se percebe em todos os poemas de Álvaro de Campos. Em seu caso, no entanto, o desejo, sem definição de gênero, como o de Whitman, parece jamais ter encontrado um lugar, um objeto em que se fixar, um corpo em que se exercer.

É na poesia de feição pastoril de Ricardo Reis, o pagão culto, e de Alberto Caeiro, o pastor rústico, que Fernando Pessoa, aparentemente ao menos, se reconcilia com o mundo. Aparentemente. Os poemas do primeiro seguem de muito perto as odes e os epodos do latino Horácio (65-8 a.C.). Escreve o latino:

“Não queiras saber, Leocone, é um sacrilégio
Que destino os deuses a mim e a ti nos concederam”
Ao que responde Ricardo Reis:
“Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado. (…)”.
Horácio conclui o seu poema com um ambíguo “carpe diem, quam minima credula postero” (“aproveita o tempo e desconfia do futuro”), sem deixar claro se devemos nos entregar irresponsavelmente aos prazeres ou não perder um minuto que seja no pleno domínio de nossa própria vida. A julgar pela obra que deixou, à qual se refere no verso-divisa “Exigi monumentum aere perennius” (“Ergui um monumento mais duradouro do que o bronze”), a segunda interpretação parece fazer mais sentido. Mas Horácio era o outro poeta de uma era triunfante.

A retomada da Antiguidade em Reis é uma busca sem esperança (jamais ele demonstra a autoconfiança horaciana) do locus amoenus (o lugar aprazível) e da aurea mediocritas (o equilíbrio de ouro, o ideal de tranqüilidade) para dar curso ao seu desalento, posto que seus temas são claramente portugueses, a saudade que sente é da mesma glória que constitui a matéria de Mensagem, a desconformidade com o mundo tem o mesmo matiz dos poemas de Álvaro de Campos, que poderia assinar, por exemplo, o fatalismo dos versos que seguem, mas não seu comedimento:

“Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino”.

Caeiro é o fecho de ouro de nosso Virgílio às avessas: não se dedica à recuperação de um passado improvável, não se entrega às dores incuráveis de uma alma passível de todas as sensações, não se redime na busca estóica do equilíbrio e da medida; Caeiro simplesmente nega, ao fazê-la, a poesia. Seus versos têm um norte estético que é também uma espécie de norte moral: inutilia truncat — a busca da simplicidade. O poeta é sucinto no expressar-se, mas ainda mais no sentir. A verborragia de Campos lhe cheira a desequilíbrio; o equilíbrio de Reis, a afetação, e a afetação culta de Pessoa, a fuga da realidade natural, a única matéria da poesia para Caeiro. Não é sem certa ironia que ele se volta para ninguém menos que o próprio Virgílio:
“Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras cousas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois — eu nunca li Virgílio.
Para que o havia eu de ler?)
Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a Natureza é bela e antiga”.

Desprezava tudo o que lembrasse poesia. Não partiu Caeiro para a desconstrução do verso (jamais flertou com tolices afins…), mas fez uma poesia na contramão do fluxo influente das figuras de linguagem disponíveis, em oposição aos desejos reformadores e lamentos lacrimosos de que nenhum autor escapa (especialmente Álvaro de Campos), em contraste com qualquer utopia restauradora, de que Pessoa foi mestre. Seu refúgio é o alheamento:
“Ontem à tarde um homem das cidades
(…)
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
(…)
e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos.
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(…)
(Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu,
não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros (…)”.

Um único monossílabo, nesse poema, resume a poesia de Caeiro:
“Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até as lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
NÃO parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.”
Eis aí: para ele, a verdadeira poesia liberta a realidade da metáfora. Caeiro também era um fingidor. Mentiu ao dizer que não lera Virgílio. A IV Bucólica virgiliana, a do menino que viria para anunciar a Idade do Ouro (e que o imperador Constantino e Santo Agostinho achavam prenunciar a vinda do Messias…) — “Sem trato algum, menino, a terra te oferecerá/ Como primícia as heras que se alastram, mais o bácar (…)/ Por si, cheias de leite, as cabras voltarão ao aprisco,/ E os rebanhos não mais terão pavor dos grandes leões (…)”—, mereceu uma versão de Caeiro. Em seu poema, ele dá curso à leitura impossível de que Virgílio previu o Cristo, torna o garoto, de fato, o Menino Jesus, mas lhe dá uma feição pagã:
“(…) Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte,
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
(…)
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
(…)
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
(…)
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
(…)”.

Há ainda muitos outros Pessoas, o dos poemas ingleses, o dos poemas dramáticos, o das poesias coligidas, e inéditos devem sair ainda do famoso baú de madeira onde ele abrigou toda a sua obra, que, a cada novidade, obriga a que se releia o que já se conhece. Portugal esperou quase quatrocentos anos, e das águas não emergiram dom Sebastião ou o supra-Camões que anunciariam a era de ouro. O país — o “rosto da Europa” a “fitar o Occidente, futuro do passado” — deu-nos, no entanto, Fernando Pessoa. Agora reintegrado à Europa, partilhando, com justiça, do quinhão de civilização que espalhou pelos quatro cantos da Terra, Portugal pode esperar outros quatrocentos anos até que um supra-Pessoa surja do azul profundo.

A eternidade não tem pressa.

*Texto originalmente publicado na revista BRAVO! nº 13, de outubro de 1998, e que integra o livro Contra o Consenso, publicado pela Editora Barracuda.

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Por Reinaldo Azevedo

Edward Hopper*

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 | 6:29

Excursão Filosófica (1959), de Edward Hopper: solidão, janela e individualismo
Satisfeitas algumas necessidades básicas, que não deveriam servir de moeda de troca para eleger ninguém (ou o resultado inescapável é mesmo demagogia), dedicamo-nos todos a alguns debates, no fundo, inúteis, carentes que somos, numa vida mais ou menos besta, de grandes questões: sei lá, integrar ou não a Resistência (qualquer uma), invadir a Bastilha, cravar o punhal em Marat… O meu debate besta se deu por causa de Edward Hopper (1882-1967), o ilustrador e pintor americano de que gosto muito, a despeito das reservas que lhe fazem os especialistas.

Hopper pintava paisagens mudas. A maioria delas mudas até mesmo de qualquer natureza. Esta, quando presente, é mera coadjuvante de uma casa, sem gente, perdida na multidão de muitos nadas. Ou, então, vê-se um casal, uma mulher, um homem, sempre poucas pessoas, invariavelmente alheias a qualquer foco de atenção, flagradas num desvão da história ou de suas respectivas lendas pessoais. Aquela solidão me agrada. Atentem para o que chamaria de manifesto antidemagógico de seus quadros, de suas ilustrações.

O apelo quase naturalista de sua pintura se combina com narrativas sempre interrompidas, elementos postos fora do quadro, dados que resistem ao que seria o eixo natural da visão. É a vida que escapa. Assim como a minha, a sua, hipócrita leitor, a daqueles que nos cercam. Todos nós pedintes de algum afeto, de alguma atenção, tentando magnificar o prosaico, o cotidiano, emprestar alguma solenidade àquilo que, no fundo, sabemos despido de importância.

Janelas são onipresentes nos desenhos de Hopper. Quando o elemento humano aparece em sua tela, ou as pessoas estão de frente para elas ou lhes dão as costas. Ou procuram caminhos, saídas, atalhos, ambicionam encontrar quem as aceite em sua causa. Ou, então, já se deram por vencidas. Um ponto alternativo é, por assim dizer, um olhar em terceira pessoa, onisciente: somos convidados a espiar suas personagens através da janela. O vidro é espelho.

Num dos quadros mais tristes e mais belos, Excursão Filosófica (1959), um homem, sentado na cama, braço pendido entre as pernas, olha fixamente para um tapete. Atrás dele, deitada, uma mulher seminua. É dia. O sol reflete na parede, ilumina o tapete, joga um ponto veloz de luz nas batatas das pernas e nas nádegas da moça. A janela aberta, a hora imprópria para o encontro no leito, o sono dela… É provável que tenham feito amor. E estão tão sozinhos quanto vieram ao
mundo. E sobre a cama jaz o livro aberto em página incerta. A “excursão” se dá à volta do quarto, nas perigosas paisagens do umbigo de cada um.

Não há, no trabalho de Hopper, um só apelo a qualquer forma de engajamento. É uma obra despida de sentido de coletivo e livre de qualquer retórica humanista, generalista, abstrata. Mesmo nas paisagens campestres sem casas (quase infalíveis), o inescapável horizonte tem curta duração. O artista parece ter levado a pintura a um grau zero do anseio. E por que alguém gostaria disso — e foi mais ou menos essa a pergunta que me foi feita — se até na descrição de um admirador parece coisa tão sem graça?

Não sei responder a essa pergunta em particular. Se toda a interpretação já não nascesse morta diante de todas as outras possibilidades, me arriscaria a dizer que aquela gente de Hopper parece cria de uma democracia consolidada e tenta fugir do único impasse que realmente conta: a “excursão filosófica” e a busca de um sentido para a própria vida. Tanta imagem descarnada talvez esconda o verdadeiro anseio irrealizável, a verdadeira utopia, o verdadeiro lugar-nenhum…

O Brasil, em suma, jamais daria um Hopper à luz. Somos o país da solidariedade organizada pelo Estado. Somos o país do Indivíduo Zero.

* Originalmente publicado na revista Primeira Leitura nº 21, de novembro de 2003. Integra o livro Contra o Consenso

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Por Reinaldo Azevedo

Diários de Motocicleta ou O Bom Selvagem da Esquerda*

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 | 6:28

Che Guevara no trabalho de Andy Warhol: o assassino se tornou um ícone pop

Diários de Motocicleta, de Walter Salles, celebra o encontro de alguns dos mais caros clichês da esquerda cultural, ora explícitos, ora apenas sugeridos por aquilo que se sabe da história (não a das telas, mas a outra). O filme conta a viagem que o então jovem argentino Ernesto Guevara, o Che, empreendeu dos pampas argentinos à Venezuela, passando por Chile, Peru e Colômbia. Estamos em 1952, sete anos antes da Revolução Cubana. Viajou em companhia do amigo Alberto Granado e escreveu um diário da aventura que serve de fonte para irrigar o roteiro, a narrativa e nossos sonhos juvenis. Num filme que tem tudo para apaixonar as platéias mundo afora, a América Latina deixa a vida para entrar no mito.

Fundem-se o clichê da rebeldia sem causa (um road movie afinal), o da ousadia romântica e o da revolta política. E é essa terceira matriz a verdadeira doadora da legitimidade da obra, embora não apareça na tela. Se Che, depois da viagem, tivesse ido criar galinhas, quem se interessaria por ele? Esperto, Salles consegue sustentar, com o pilar ausente e sempre presente da Revolução Cubana, o tal “olhar humano” sobre a personagem. Olhares humanos não dividem pessoas. Revoluções, sim. Daí que a mensagem política apareça liofilizada em lirismo narrativo.

Não é um procedimento novo na obra do diretor. Se agora se vê o bom selvagem da motocicleta, via-se em Central do Brasil a oposição simplória entre o campo e a cidade, entre a vida comunitária e a impessoalidade das metrópoles, entre a violência e amoralidade do Brasil mercadista e a pureza telúrica do país que se guardou de cair na vida. A “volta ao interior” do menino de Central… tem um quê de regressivo e de utópico no sentido rigorosamente negativo: aquele sertão é o “lugar nenhum” da economia política. Esse país descolado do outro, do oficial, que é o locus edênico da ficção, é, na realidade, a pátria abandonada, onde o que falta é justamente mercado.

Mas e daí? Se Salles fosse um revolucionário, o dilema se resolveria na luta de classes. Como é só um cineasta lidando com valores pasteurizados da esquerda, sua resposta é um anódino “só o amor constrói”. Em Central, há a tentação óbvia de fazer o garoto órfão de mãe encarnar o destino do país. Pior para nós se o diretor estiver certo: afinal, não há um “pai” para salvar o Brasil. No caso de Che, a história havida, e não a idealizada, se encarregou de tornar mais cruenta a solução amorosa. Em Diários de Motocicleta, vê-se aquela que é a gramática do autor, pouco importando a natureza do apelo ideológico: a câmera lambe a paisagem em longos planos, onde transitam personagens que tangenciam essencialidades, com falas que querem mais “significar” do que comunicar um conteúdo reconhecível. O conjunto compõe um mural de geografia física e humana na qual parece palpitar uma verdade ainda a ser descoberta, a ser desentranhada da pedra, da mata, do céu, e então lapidada. O diretor nos desvela “O Homem” e “A Terra”. A verdadeira gema que buscava, Guevara a encontrou em Cuba, onde experimenta “A Luta”.

Nascido em 1928, Guevara tinha, à época, 24 anos. Um pouco taludinho para ser só um Jacinto ou Cândido perdido na paisagem. Mas esse é outro clichê que seduz. As muitas biografias-panegíricos do revolucionário, somadas a seus diários, ajudaram a criar a farsa de que ele não se distinguia de um de nós. A realidade à sua volta, as circunstâncias, as injustiças sociais em sua própria matriz, no entanto, teriam forjado a têmpera do futuro revolucionário. Se a ideologia é uma escolha racional, no caso de Che, ela surge como revelação. Aquele belo jovem a olhar impávido o futuro da humanidade na foto de Alberto Korda, que deve ser a mais reproduzida da história — não raro, acompanhada do famoso adágio sobre como endurecer sem perder a ternura (o que bem poderia ser a divisa de uma forma de sadomasoquismo político) —, seria nada mais do que o resultado óbvio de umas tantas variáveis determinadas pelas leis da natureza e da sociedade. O Che revolucionário brota dessa conspiração de fatores como um resultado necessário e inescapável.

Em dois momentos, entre muitos, Salles cede à tentação. Num leprosário no meio da selva amazônica, em San Pablo, na Venezuela, o quase-médico Guevara trata os acometidos da doença, ainda que não contagiosa, sem a proteção das luvas, contrariando as freiras que cuidavam do lugar. Em outra situação, enfrenta um rio a nado para chegar aos doentes. Quem ali praticava alguma forma de ciência? O médico ou as procuradoras de Deus? Como quer a revista Variety, o filme atende ao gosto de quem não tem inclinação política na medida em que se prende aos relevos humanos da personagem. Mas quem disse que a ideologia precisa falar a linguagem explicitamente política para se impor? De fato, é melhor até que se dispense de fazê-lo. Não posso deixar de lembrar aqui a magistral (para quem gosta) síntese de Gramsci quando fala do “partido” como o “Moderno Príncipe”: “O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”.

O inequívoco elogio que Diários de Motocicleta faz a Che e, por conseguinte (e omissão), à sua obra maior, que é a revolução, está justamente em desidratar as suas vivências do discurso político. O homem demasiadamente humano que se vê nas telas — humano, mas sem máculas, e, portanto, além-do-homem — se preparava ali para ir ao encontro de seu destino. A freira, exigindo as luvas, e Che, dispensando-as, remetem ao encontro de duas totalidades: a religião e a ideologia. Que se mostram com sinais invertidos. O cientista é que faz a sua profissão de fé no povo, sem a assepsia das luvas. A ideologia é que toma o lugar da “revelação”, de que a freira deveria ser depositária.

Dirão alguns que procedo aqui a uma crítica política, ideológica, e não estética, como seria o desejável. Dos frankfurtianos a esta data, é mera militância obscurantista querer separar a gramática de uma obra de sua relevância ou irrelevância política — o que não quer dizer o assentimento para uma “arte política”. Quem escolheu filmar o bom selvagem da América Latina foi Salles. Por que não as agruras do jovem Churchill? A façanha do político britânico, beberrão e recendendo a charuto, talvez nos pareça irrelevante…

O fato é que não dá para dissociar o Che de Salles do “partidário do autoritarismo implacável”, segundo as palavras de Régis Debray (Loués Soient Nos Seigneurs), seu companheiro na jornada “foquista” da Bolívia. Ainda em 1956, comandando uma das colunas de revolucionários cubanos, o homem que não temia tocar em Lázaro, Cristo pagão de nossas fantasias, manda fuzilar, sem processo, um rapaz acusado de roubar comida. Também foi idéia sua criar o primeiro campo de trabalho forçado na ilha, já em 1960. E, então, chegamos ao clichê essencial. Guevara entrou para a história como aquele que, sendo o Saint-Just da Revolução Cubana — a
metáfora é de Fidel —, dela teria sido apeado pela burocracia.

Nos dois primeiros anos, a dupla Fidel-Che matou, exilou, expurgou, impôs, enfim, aquela que se consolidava como uma das mais severas e fechadas ditaduras do planeta. Nada menos de 50 mil pessoas, todas apoiadoras iniciais da revolução, haviam deixado o país no primeiro biênio do novo regime. Che não era o poeta que aparece em Diários… Era, sim, um de seus mais ferozes assassinos. Ainda segundo Debray, exaltava o “ódio eficaz, que faz do homem uma eficaz, violenta, seletiva e fria máquina de matar”. Danem-se os fatos. Entrou para a história como o enfant terrible traído. O pensamento politicamente correto não resiste ao charme da derrota. Imaginem um Che que tivesse ficado em Cuba, hoje com 76 anos, levado a defender uma ditadura decrépita, que mantém o povo na miséria e prende poetas, escritores, jornalistas e cineastas. Escreveu Fernando Pessoa: “Morre cedo o que os deuses amam”. Nesse caso, os deuses do cinema amam os que morrem cedo.

E encerro de volta à última linha de meu primeiro parágrafo. O apelo final de Diários de Motocicleta está na suposição de que a América Latina de 2004 ainda é aquela mesma de 1952, com seus mesmos problemas. É o que nos dizem, por exemplo, João Pedro Stédile ou dom Tomás Balduíno. Eis uma fantasia influente da esquerda e dos “padres de passeata” que confere especial sabor ao filme de Salles. A ser assim, ainda surgirá por aqui um novo poeta, um novo profeta. Que Deus nos livre desse destino!

*Texto originalmente publicado na revista BRAVO! nº 80, de maio de 2004 e que integra o livro Contra o Consenso, da Editora Barracuda

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Por Reinaldo Azevedo

Antiamericanismo: o recalque do oprimido*

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 | 5:33

Edward Gibbon: ele entendeu o Império Romano. E pode nos tirar da ignorância
A invasão do Iraque evidenciou que o antiamericanismo pulsa no mundo como um recalque do oprimido. À menor possibilidade, aflora, exacerba-se, ganha as ruas, os sites, a mídia. A “velha Europa”, na expressão de Donald Rumsfeld (a terceira das Parcas), limpa o sangue derramado nos últimos dois séculos para entoar uma cantilena que faz a mímica do pacifismo. As ditaduras muçulmanas ameaçam alçar Samuel Huntington ao panteão de segundo profeta e acenam para o Ocidente com um choque de civilizações. No Brasil, até a CUT esconde sua vergonhosa e pusilânime subserviência ao governo Lula com um grito de guerra: “Imperialistas, fora do Iraque! Não se troca sangue por petróleo”.

Tais reações têm um pretexto bastante verossímil: cada um dos motivos alegados por George W. Bush para empreender a sua expedição punitiva a Bagdá foi desmoralizado pelos fatos. Restou a obviedade de que Saddam Hussein era um ditador. Ok, mas, como ele, quantos há? E a grande maioria formada por aliados de Washington. É preciso, para que se possa avançar, fazer a distinção entre a razão prática dos Estados e governos e a voz rouca das ruas, eventualmente irmanadas no mesmo antiamericanismo.

A Jacques Chirac, por exemplo, pouco importa a moralidade do ato americano — e a melhor prova é a lei de imigração que ele defende para a França. Não é um humanista; quer-se estrategista. Seu interesse objetivo é organizar um pólo europeu de resistência a uma bipolaridade que os estudiosos americanos já dão como certa. Em trinta anos, restará um adversário dos Estados Unidos no planeta: a China, que cresce a uma taxa entre 7% e 9% ao ano e poderá concentrar, no prazo dado, 25% do PIB mundial. Chirac e alguns outros líderes forçam para que se crie um triângulo e querem atrair a Rússia — que passaria a ser européia pela primeira vez em sua história — para esse terceiro vértice europeu.

As ditaduras muçulmanas, especialmente as árabes, cobram a ajuda do “porco imperialista” para conter seus fundamentalistas, mas rejeitam os “valores decadentes” do Ocidente, como a democracia. Até o governo brasileiro tirou uma casquinha. Num discurso contra a guerra, o presidente Lula conjugou o verbo quatorze vezes na primeira pessoa. Duda Mendonça não teve dúvida: “A nossa guerra é contra a fome”. Os Estados Unidos, ao menos, venceram a deles…

Já a reação das ruas, essa foi pautada, claro!, por bons sentimentos, mas também por recalque e ignorância, compartilhados, muitas vezes, por todos nós — a menos que estivéssemos ideologicamente convencidos de que se travava no Iraque um dos prenúncios do Armagedon. A
verdade é que, cidadãos comuns, repugna-nos a constatação de que os impérios têm uma essência amoral. Tendemos a reagir mal à obviedade de que, não impusessem a sua vontade, seriam outra coisa. O nosso primeiro impulso, anterior à compreensão, é o furor judicioso, a sentença moral. Cada bomba que caía sobre Bagdá parecia querer confirmar a impressão de que os Estados Unidos só chegaram a ser a maior potência da Terra porque se impuseram pelo terror, pela guerra, pela morte, pela violência, pelo assassinato, pela força, pelas armas. E tudo isso é mentira! Reagíamos como tolos, embora as nossas motivações fossem boas e justas — tolice e boas intenções não se excluem e costumam arder juntas no inferno.

Aqui, é forçoso lembrar Edward Gibbon (1737-1794) e de sua magnífica obra Declínio e Queda do Império Romano. Num dado momento, o autor aborda o que chama “tríplice aspecto” sob o qual “o progresso das sociedades” pode ser avaliado: 1) o talento extraordinário e individual; 2) a formação de indivíduos ou pequenos grupos voltada para a conhecimento; e, finalmente, o terceiro aspecto, de que reproduzo alguns trechos: “(…) Felizmente para a humanidade, as artes mais úteis (…) podem ser exercidas sem a necessidade de talentos extraordinários (…), sem os poderes de um só ou a união de muitos. (…) Desde a descoberta primeva das artes, a guerra, o comércio e o ardor religioso difundiram entre os selvagens do Velho e do Novo Mundo esses dons inestimáveis. Eles se propagam aos poucos e jamais poderão perder-se. Podemos, portanto, chegar todos à aprazível conclusão de que cada época da história do mundo aumentou e continua a aumentar efetivamente a riqueza, a felicidade, o saber e quiçá a virtude da raça humana”.

O autor se debruçou sobre treze séculos de um império que conjugou domínio territorial e inquestionável poder de impor uma visão de mundo, o que se estendeu das artes à religião, passando pelo direito. Nem guerras amorais nem imperativos éticos o impediram de reconhecer
que, com ou sem gênios individuais, o sumo das conquistas dos impérios restou para a espécie humana. Quantos de nós, os humanistas de pé quebrado, temos claro que a tecnologia de guerra serviu — e serve ainda, a exemplo da Internet — para prolongar e tornar ainda mais venturosa a trajetória humana na Terra? Quantas foram as conquistas científicas que o capital americano (ou a concupiscência da indústria farmacêutica) gerou neste tempo e quanto isso contribuiu para elevar a expectativa de vida mesmo em países pobres como o Brasil?

Uma nação que se negasse a pressionar Kruchev com o fim do mundo, na chamada crise dos mísseis cubanos, ou que se abstivesse de impor sua vontade a Bagdá teria feito o primeiro transplante de coração ou reproduzido, desta feita no éter, as grandes navegações do século XVI? Um Portugal ou uma Espanha que reconhecessem os valores dos “povos da floresta” teriam se lançado ao mar? Um líder que tivesse obedecido ao princípio senatorial e se deixado intimidar pelo Rubicão teria nos legado o direito romano como herança? A única nação com poder de dissuasão e de ataque forte o bastante para impor sua vontade deveria se eximir de fazê-lo como se o que existe — o seu poderio — devesse ainda reivindicar o estatuto de realidade de fato?

Reparem, leitores, não estou aqui a defender os Estados Unidos, muito menos o horror da guerra. Se tenho de matar uma barata, luto entre minha hesitação e sua repugnante rapidez. Ocorre que faz crer o antiamericanismo de ocasião, formado por verdadeiros “anticândidos” consumidos pela ignorância e pelos bons sentimentos, que rumamos para o pior dos mundos, para o abismo. Junto com Gibbon, apesar de tudo, convido-os a distinguir uma linha inextinguível de contínuo aprimoramento da civilização humana. Quando foi mesmo que a espécie viveu dias melhores? A saudade do que não tivemos, o Eldorado perdido, nem mesmo reacionária é. É só uma bobagem.

Sim, o mundo parece ser maior e mais complexo do que pode alcançar a compreensão de George W. Bush. O ataque ao Iraque, sem a clara concordância do Conselho de Segurança da ONU e por motivos comprovadamente mentirosos, jogou as nações num vazio jurídico. É tudo verdade. Mas Gibbon nos socorre e nos faz lembrar que a tragédia da vez pode ser uma quase aborrecida repetição de circunstâncias, preenchida com atores novos. É claro que isso não absolve os Estados Unidos de um ato imoral. Mas nem a guerra nem seus desdobramentos são julgados por tribunais morais, ainda que assim eles se queiram. Considero um imperativo ético que todos prefiramos a paz à guerra, desde que a primeira não seja a qualquer preço. Ameaças finalistas sempre semelham o apocalipse brandido por profetas de si mesmos.

Temos muito a aprender com aquela mesma América onde Tocqueville concluiu que os males da democracia se curavam com ainda mais democracia — e, quem sabe?, algo a ensinar. Sobre o antiamericanismo, crescente também por aqui, talvez nos cumprisse responder por que, tendo tão poucos motivos para nos identificar tanto com o “agressor” como com o “agredido”, escolhemos logo a “vítima”. Mas isso fica para outra hora.

* Originalmente publicado na revista BRAVO! nº 69, de junho de 2003. Integra o livro Contra o Consenso (Editora Barracuda)

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Por Reinaldo Azevedo

Folha 1 - Datafolha 1 - Nordeste, pobres e baixa escolaridade garantem a vantagem de Lula

sexta-feira, 30 de junho de 2006 | 3:10

Este blog foi o primeiro a dar os números corretos da pesquisa Datafolha. Conforme foi noticiado, o president Luiz Inácio Lula da Silva tem 46% das intenções de voto (tinha 45% há um mês), e Geraldo Alckmin, 29% (tinha 22%). Mas há um detalhamento importante, que segue, em texto assinado por Fernando Canzian na Folha de hoje: “Lula tem 52% das intenções de voto entre os eleitores com apenas o ensino fundamental. Alckmin tem 23%. Entre os com ensino superior, o tucano vence por 42% a 31%. Na divisão por classificação econômica, o petista lidera por 54% a 20% entre eleitores das classes D e E. Entre os das classes A e B, Alckmin aparece com 39%. Lula, com 34%. Finalmente, o petista bate Alckmin por 64% a 17% no Nordeste. Mas perde no Sul por 37% a 30%. A maior proximidade entre Lula e Alckmin ocorre no Sudeste, maior colégio eleitoral do país: 39% a 34%. ” Os demais candidatos têm os seguintes índices: ” (…) Heloísa Helena (PSOL), com 7%. Cristovam Buarque (PDT) tem 1%, mesmo percentual que José Maria Eymael (PSDC) e Rogério Vargas (PSC). Luciano Bivar (PSL) e Rui Pimenta (PCO) foram citados, mas não chegaram a 1%. ” Leia íntegra do texto

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Por Reinaldo Azevedo

Datafolha: Alckmin salta de 22% para 29%, e Lula oscila de 45% para 46%; diferença, que era de 23 pontos, agora é de 17. Veja por que isso aconteceu

quinta-feira, 29 de junho de 2006 | 22:06

Estes são os números que valem da pesquisa Datafolha que sai publicada na Folha de S. Paulo nesta sexta-feira: Lula oscilou, em relação ao levantamento anterior, de 45% para 46%; Alckmin saltou de 22% para 29%. A diferença, portanto, que era de 23 pontos percentuais, passou a ser de 17. A pesquisa anterior do Datafolha foi feita nos dias 24 e 25 de maio; o campo desta foi realizado entre ontem e hoje. Este blog apurou que aumentou ainda a votação espontânea no candidato do PSDB. Se o comando do PSDB souber entender os números, há salvação; se não souber, adeus. O que houve neste meio tempo?
PROGRAMA DO PFL NA TELEVISÃO – O partido bateu sem dó em Lula e identificou todos os seus aliados que o procurador-geral da República acusa de terem formado uma quadrilha. Não foi uma linguagem meio oposicionista; foi oposicionista inteira;
ALCKMIN NA TV – Alckmin também apareceu no horário político. Aí com o perfil do administrador. Perigo: achar que este programa teve mais efeito no comportamento do eleitor do que aquele do pefelê que chama as coisas e as pessoas pelo nome;
LINGUAGEM DURA – Alckmin também passou a falar uma linguagem mais dura com Lula no confronto do dia-a-dia. Parou de seguir aquela máxima tola do “quem bate sempre perde”.
FHC – O petismo não plantou nos jornais que estava eufórico com as críticas de FHC? Eis aí. O candidato tucano ainda está muito longe do petista, mas a mudança é bastante sensível. TOMAR CUIDADO – Os números são, sim, auspiciosos para Alckmin. Resta agora saber se os tucanos e pefelistas saberão o que fazer. Esta é a hora exata em que entram em campo os prudentes: agora é só posar de bom moço,ficar falando da redução do ICMS do pãozinho, e tudo está resolvido. Errado: esta é a hora de partir para o desmonte do governo Lula. Alckmin cresceu porque a oposição parou de ter medo de falar como oposição. É preciso falar à maioria silenciosa: ela está aí.

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Por Reinaldo Azevedo

Samba-enredo: O dia em que o Babalorixá da Banânia adentrou os portais dos Bandeirantes da elite branca e perversa, olerê, prugurundum

quinta-feira, 29 de junho de 2006 | 20:13

Quando assumiu, Lula disse que daria aula aos cientistas políticos. Com raras exceções, até poderia. Afinal, leram mais ou menos a mesma quantidade. Não chegou lá. Mas dá aula de provocação política às oposições. Ele se encontrou, nesta quinta, com Cláudio Lembo (PFL), governador de São Paulo. Foi ao Palácio dos Bandeirantes para assinar convênios para a urbanização de favelas e a construção de casas. E não teve dúvida: “Isso aqui não é uma casa tucana; é uma casa do povo de São Paulo, pois existia muito antes do PSDB e também do PT”, Pronto! Mandou o seu recado. O seu candidato ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante, presente, fala por aí os diabos da política de Segurança do Estado. Só não ataca os bandidos. Diante de um Lembo que o recebia com um ar diligentemente aristocrático, que parecia lhe cair bem, o outro, encarnou o papel do bárbaro civilizado: “Dois seres humanos podem conviver com ideologia, religião e clube de futebol diferentes, pois, quando se trata de coisas institucionais, a pequenez tem de ser deixada de lado”. O Babalorixá da Banânia sabe fazer política, embora não saiba o que diz. Segundo se entende, futebol, ideologia e religião se inserem no seu rol de pequenezas (eta plural dos diabos!). E foi adiante na mitificação de si mesmo: “Dois seres de berço e de concepções ideológicas diferentes podem ser amigos e conviver na adversidade (sic). Este é um símbolo que os democratas de nosso país não podem esquecer”. Eu acho que ele quis dizer “diversidade”. É a hora em que o berço não faz falta, mas só alguma leitura. Lembo também foi gentil e, sei lá, em nome da “elite branca” talvez, saudou as divergências que convergem para o bem do Brasil e nulidades retóricas afins, que tão bem caracterizam o liberalismo à moda da casa. A platéia estava mais para um comício petista: Mercadante; o mensaleiro João Paulo Cunha (também ali em nome do bem comum…); Elói Pietá, prefeito de Guarulhos, e o senador Eduardo Suplicy. Do PFL, estavam presentes o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o presidente da Assembléia Legislativa, Rodrigo Garcia.

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Por Reinaldo Azevedo

Um papo quase pessoal

quinta-feira, 29 de junho de 2006 | 19:49

Caros, por enquanto, estou sozinho nesta empreitada, e o volume de informações é enorme. É preciso ser rápido. E alguns erros são publicados, sobretudo de digitação. Conto com vocês para me advertir quando toparem com um deles. Releio o que escrevo na medida do meu tempo. Acho que a média está razoável, mas o ideal é zerá-los. Ah, sim, os petralhas continuam. Um deles manda me dizer que Primeira Leitura também era financiada com dinheiro público: anúncios da Nossa Caixa. Não era, não. A agência Full Jazz já veio a público afirmar que a escolha foi dela, agência. Mais ainda: o pacote de acusações da Folha afirmava que revistas que apoiavam a candidatura de Geraldo Alckmin receberam especial apoio. Site e revista defendiam que o candidato do PSDB fosse José Serra. A Nossa Caixa anuncia, ainda hoje, em publicações de esquerda com público infinitamente menor do que o de Primeira Leitura. E o que se diz a respeito? Nada. Já algumas estatais que anunciavam até numa revistinha do cunhado de Luiz Gushiken não queriam conversa com a gente. Se a Nossa Caixa se recusasse a estampar seu nome em veículos de esquerda, que fazem campanha aberta para Lula, seria acusada de preconceito; já uma estatal federal, ao recusar Primeira Leitura e escolher circulações quase clandestinas, praticava um ato de resistência. Sabem em que medida essa canalha me faz bem? Ela prova, a cada relincho, que sempre estivemos certos.

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Por Reinaldo Azevedo

CNBB manda bem, mas ainda falta coisa

quinta-feira, 29 de junho de 2006 | 19:34

Eu não gosto muito de padre se metendo em política, como sabem. Assim como não gosto de político se metendo em sacristia. Mas é positivo que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), por meio de dom Geraldo Majella Agnello, tenha sugerido que sanguessugas e mensaleiros sejam varridos da vida política. É o que todos queremos. Falta agora que a CNBB pegue os seus padres de passeata e os devolva à vida religiosa, uma vez que, por exemplo, a corrupção mensaleira está ligada a uma visão escatológica e finalista de mundo que justifica qualquer crime. Invadir terras alheias, fazer reféns, meter fogo em pastagens, tudo isso também é crime. E eles ganham a chancela da Igreja Católica no Brasil e da própria CNBB. Ou, então, que dom Tomás Balduíno seja posto sob o controle da Bíblia e da Santa Madre Igreja.

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Por Reinaldo Azevedo

Acionei a tecla SAP na fala de Marco Aurélio

quinta-feira, 29 de junho de 2006 | 19:16

“Apenas sinalizei quanto à minha concepção sobre a norma, colocando em segundo plano o aspecto simplesmente literal, verbal da norma, para buscar o espírito dessa mesma norma, o objetivo. Qual é o objetivo? Se nós perguntarmos se esse aceno é tão produtivo ao cidadão comum quanto àquele que está numa caminhada pela reeleição, ele vai afirmar que sim. Não somos ingênuos”, É o ministro Marco Aurélio de Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e membro do STF (Supremo Tribunal Federal) comentando a decisão do presidente Lula de reajustar o salário dos servidores por meio de MP. Marco Aurélio foi delicado em suas meditações. Submetendo a fala à tecla SAP, ele está dizendo que a ação de Lula é útil, antes de tudo, a Lula. O presidente do TSE disse ainda que o presidente tem uma equipe que pode esclarecê-lo sobre o que pode e o que não pode. E meditou de novo: “E a melhor diretriz é o preço que se paga por se viver em um estado democrático de direito. É o respeito irrestrito às regras existentes”. Xiii, ministro. A natureza do petismo é justamente avessa a esse princípio. Quando eles dão de cara com um limite legal, a primeira coisa que fazem é imaginar um by pass. Numa nota abaixo, falo da vocação do petismo para a “desinstitucionalização”.

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Por Reinaldo Azevedo

Quércia e Maluf juntos. E ainda com Attila…

quinta-feira, 29 de junho de 2006 | 18:53

Quis o destino que dois adversários históricos — ou nem tanto, a depender do critério que se use — viessem a se juntar em São Paulo. Agora é para valer. O peemedebista Orestes Quércia disputa o governo de São Paulo tendo como vice o vereador Attila Russomanno, do PP de Paulo Maluf. A quercista histórica Alda Marcoantonio disputará uma vaga para o Senado. Encerra-se, assim, qualquer chance de um entendimento dos quercistas com tucanos ou petistas no primeiro turno. Caso o quadro eleitoral mude, e Serra não vença logo na primeira rodada, aí Quércia começa a vender o seu apoio do zero. Depois de se unir a Maluf, será interessante verificar se seu endosso mais dá do que tira votos.

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Por Reinaldo Azevedo

Tesoureiro do PT: silêncio no dia da transparência

quinta-feira, 29 de junho de 2006 | 18:32

O novo tesoureiro da campanha de Lula, José de Filippi Jr., participou, nesta quinta, de um seminário sobre transparência no financiamento de partidos políticos — sei, parece uma nota de humor… — e preferiu não falar com a imprensa. Ele é prefeito de Diadema, a mais antiga cidadela petista, e suas contas são contestadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). O nome do seminário também é um desses emblemas que marcam uma era: “Transparência política, fortalecimento da democracia e financiamento dos partidos políticos do Cone Sul”. O PT é realmente um partido surpreendente. Depois de tudo, do tsunami delubiano, o razoável, para que o vício prestasse seu tributo à virtude, é que se escolhesse para o cargo uma mulher de César, que não só fosse, mas também parecesse honesta; sobre quem não pesasse qualquer dúvida. É claro que o TCE pode estar errado em relação às contas de Filippi Jr. Mas, dado o contexto, a hora seria de demonstrar uma certa reverência à… transparência. Mas que nada! E esse é, curiosamente, um dos segredos do partido: os petistas não dão a menor bola para o que dizem deles. Basta ver o comportamento durante a crise do mensalão: não deixaram de atacar seus adversários nem um miserável dia. Já as oposições vivem na defensiva até quando têm razão. É uma questão de estilo. Posso achar o partido um desastre para o país. Mas lhe reconheço um mérito: ele tem método.

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Por Reinaldo Azevedo

Vêm aí as MPs ilegais do reajuste dos servidores

quinta-feira, 29 de junho de 2006 | 18:16

A lei que se dane. Se ela proíbe um petista de fazer alguma coisa, basta encontrar um jeito de reinterpretá-la. Até amanhã, o governo edita seis medidas provisórias que vão reajustar o salário de 1,5 milhão de servidores. O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, diz que elas são absolutamente constitucionais. Como a legislação proíbe o aumento concedido na boca da urna, as MPs vestirão a roupagem de reestruturação de carreira. E pronto: está criada uma questão, que pode ir parar no Supremo. Quantos terão a coragem de afrontar o governo ali, especialmente depois que as MPs já tiverem gerado efeitos? Podem esquecer. Sempre afirmei, e já escrevi dezenas de texto a respeito, que o mais grave do petismo é essa permanente”desinstitucionalização” do país, o que é um método. A democracia compreende uma ética, mas também uma moralidade pessoal. O que Lula pretende? Levar as oposições a recorrer contra o reajuste, o que também lhe renderia dividendos eleitorais. Há uma fronteira da atuação do político, a despeito de qualquer barreira legal, que é aquilo que os nossos pais chamam ou chamavam “vergonha na cara”. O próprio Tarso lembra o óbvio: no limite, o STF decide. Se o reajuste, por hipótese, fosse rejeitado, o Babalorixá da Banânia, mais uma vez, a exemplo do que fez ontem, diria que as leis impedem um homem justo como ele de governar o Brasil como deve.

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Por Reinaldo Azevedo


 
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