29/10/2010
às 20:50Monteiro Lobato - O Voltaire da Botocúndia*
Segue um pequeno ensaio que escrevi em 1998 sobre a obra de Monteiro Lobato, publicado no livro “Contra o Consenso”
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Uma impostura faz aniversário junto com os cinqüenta anos da morte de Monteiro Lobato (1882-1948), neste mês [julho de 1998]: a classificação de sua obra, e de outros, como pré-modernista, embora não se saiba direito - e nunca ninguém explicou - o que isso quer dizer. Esse “pré” pode ter um sentido cronológico (veio antes do modernismo), demiúrgico (antecipou o modernismo) ou o que acabou prevalecendo: Lobato é quase moderno, como se tivesse produzido uma obra tão manca quanto a classificação, na qual falta em rigor o que excede em má vontade com o escritor de Urupês (1918) e Cidades Mortas (1919), dentre tantos outros livros. Se Lobato - assim como Lima Barreto ou Graça Aranha - era um “quase”, pelo menos metade de seu corpo ou de sua obra deveria estar a olhar para o passado. Para onde? Naturalista não era. Parnasiano tampouco. Que diabo, afinal, era o Lobato? Avisos não faltaram. Alguns vindos de personagens insuspeitas.
“Você foi o Gandhi do modernismo brasileiro, jejuou e produziu, quem sabe, nesse e noutros setores, a mais eficaz resistência passiva de que se pode orgulhar uma vocação patriótica. No entanto, martirizaram você por falta de patriotismo.” Com essas palavras, em uma carta, Oswald de Andrade, o pai da propaganda modernista brasileira, referia-se aos 25 anos de Urupês.
O livro, de certo modo, selou a sorte de Lobato para a posteridade longínqua, não importa quanto tenha feito pela cultura nacional nos anos subseqüentes. Dentre os quatorze textos selecionados pelo autor para publicação, estavam “Velha Praga” e “Urupês”, que dá nome ao conjunto. Em ambos, aparece o Jeca Tatu. Escreve o autor no primeiro: “Este funesto parasita [urupê] da terra é o caboclo, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização (…). O caboclo é uma quantidade negativa. Tala cinqüenta alqueires de terra para extrair deles o com que passar fome e frio durante o ano (…). Quando se exau¬re a terra, o agregado muda de sítio (…) nada mais lembra a passagem por ali do Manoel Peroba, do Chico Marimbondo, do Jeca Tatu ou outros sons ignaros, de dolorosa memória para a natureza circunvizinha”.
Na quarta edição, pediu desculpas ao caipira, ferozmente responsabilizado pela própria miséria e indolência. Reconheceu que seu estado era fruto de doenças endêmicas e da falta de educação, decorrentes da desatenção do poder público, o mesmo que o mandaria para a cadeia em 1941. O texto - originalmente uma carta enviada a O Estado de S. Paulo e publicada pelo jornal no dia 12 de novembro de 1914 - já tinha provocado, no entanto, os estragos que poderia provocar.
A figura do Jeca marcava o livro de tal modo - muito em razão da virulência do autor - que os avanços formais do texto lobatiano e a sua abrangência temática acabaram solenemente ignorados. Ficou sendo para sempre o reaça que crucificou o jeca de cócoras (até ser ele próprio contaminado pelo ruído da personagem que criou). Lobato não fez uma “revolução” formal, é certo. Tal termo empregado ao que quer que seja que não uma coletividade realmente armada para subverter o statu quo não passa de metáfora idealista. Arte não faz revolução. Há, em todo tempo, produção “de reação” tão boa ou superior à de qualquer vanguarda. Lobato só foi empilhado no armazém fantasma dos “prés” porque dois de seus livros importantes foram produzidos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, que se quis (e foi querida) um marco revolucionário à força do muito panfletear.
O que o modernismo brasileiro teve de programático e libertário - mormente na poesia, apesar de tanto estrago… -, Lobato realizou em sua prosa discreta sem, por exemplo, o barulho de um Andrade e a vocação para “desescrever” manifestos do outro. Assim começa “Urupês”, o texto:
“Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriand na cabeça e a Iracema aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho. Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas (…). Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci. A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora”.
Eis aí o melhor de uma prosa desempolada, crítica, interessada em questionar as raízes brasileiras. Na seqüência, Lobato diz que o “caboclismo” sucedeu ao indianismo e, de novo, lá estávamos no “por que me ufano de minha terra”, brandindo, em vez do tacape, uma arma de gatilho. E segue demonstrando a sua versão de caboclo, “de cócoras” para a história, “sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas”.
Mas o livro é muito mais que isso. Contos como “Pollice Verso”, “Chóóó! Pan!” e “Meu Conto de Maupassant” incorporam de fato a fala popular ao texto culto, exploram a tal metalinguagem sem qualquer receio e olham para a gente brasileira sem piedade nem orgulho.
Alguns desses procedimentos, realizados silenciosamente pelo “Gandhi do modernismo”, virariam estandartes de galhofeira estridência pouco tempo depois. Cidades Mortas, de 1919, reúne contos e crônicas, alguns escritos na década anterior, sobre a decadência das cidades do Vale do Paraíba, antiga região cafeeira do Estado de São Paulo, onde ficava a sua Taubaté natal. Na região, herdou e vendeu, em 1917, na falência, a fazenda onde assistiu às queimadas feitas pelo Jeca, que tanto horror lhe causaram.
Não tinha jeito. Lobato estava destinado a ficar à sombra de sua criatura. Foi o autor, aliás, ainda antes de Urupês ser publicado, o primeiro a usar o nome Jeca como adjetivo e metáfora:
“Somos todos uns Jecas Tatus [escreveu em 1915] com mais ou menos letras, mais ou menos roupas, na Presidência da República sob o nome de Wenceslau [Brás] ou na literatura com a Academia de Letras (…). O Brasil é uma Jecatatuásia de oito milhões de quilômetros quadrados”.
E - quem diria - nem ele próprio escapou. Articulista de O Estado, em 1917, Lobato fez um comentário demolidor (”Jeca”, alguns diriam) e certamente pouco informado de uma exposição da pintora Anita Malfatti. Depois de uma introdução em que clarifica a sua predileção por uma arte plástica de inspiração clássica (o que não correspondia à sua literatura), viu nos quadros de Malfatti “produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência” e uma pintora tocada por uma “atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e Cia”. Para o autor, aquilo era “paranóia” ou “mistificação”.
Foi o bastante. Na boca dos desafetos, o Lobato-Jeca passou a ser o símbolo de um homem nacionalista, fechado às influências externas, xenófobo e conservador. Tinha lá seus pés de barro, mas passavam longe da questão Anita. Lobato tornou-se, por exemplo, um entusiasta criterioso da cultura econômica e política dos Estados Unidos, onde morou, na condição de adido comercial, entre 1927 e 1931. Sobre aquele país, ainda no Brasil, em 1926, escreveu “O Presidente Negro” (ou O Choque das Raças), um livro de ficção científica - “meio à H. G. Wells”, admitia - que se passa em 2028. Numa espécie de adivinhação que ficaria muito bem na boneca Emília, o seu alterego infantil, Lobato prevê o fim da era da roda, substituída pela comunicação eletromagnética, e imagina uma engenhoca muito parecida com a televisão. No choque das raças, porém, não conseguiu ir muito além de um norte-americano médio da época ou das vagas da eugenia influente: a luta seria vencida pela superioridade branca. Infelizmente, estava mais próximo do pensamento de um Oliveira Vianna do que de um Alberto Torres.
No mais, Lobato é a sua monumental obra infantil, um capítulo quase à parte, ou nem tanto, em toda essa história. No Sítio do Pica-pau Amarelo estão, mais ou menos esquematizados, uma Emília-Lobato que não perdoa as hipocrisias alheias, um Visconde implacável com a ignorância e com o conformismo científico, uma Dona Benta tolerante com o futuro e uma Tia Nastácia ainda a ser, por assim dizer, civilizada. Não é, como se vê até o fim, uma obra que deva ser lida sem reparos, como não deve o autor ser considerado independentemente de seus próprios erros. A Lobato, no entanto, o que lhe pertence. Muito do que se considerou conquista do chamado modernismo já está ali evidente em sua obra, que não é “pré-coisa alguma” e só presta tributo a sua própria coerência.
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