Panfleto didático 3 – Uma nova batalha antiga

Numa atitude bastante elegante, o Estadão reproduziu na página 2 desta quinta artigo que Ali Kamel publicou anteontem no Globo sobre a esquerdopatia (o termo é meu) nos livros escolares. O assunto rendeu ainda um editorial do jornal e outro da Folha, conforme se pode ver abaixo. O assunto é sério, e é bom que […]

Numa atitude bastante elegante, o Estadão reproduziu na página 2 desta quinta artigo que Ali Kamel publicou anteontem no Globo sobre a esquerdopatia (o termo é meu) nos livros escolares. O assunto rendeu ainda um editorial do jornal e outro da Folha, conforme se pode ver abaixo. O assunto é sério, e é bom que a chamada grande imprensa tenha acordado para o fato. Anteontem, ao longo do dia, publiquei aqui posts sobre os absurdos dos vestibulares e novos trechos da tal “história crítica”.

O problema é gigantesco e de solução muito mais difícil do que parece à primeira vista. Até porque o livro e o que se diz em sala de aula são resultado de uma distorção anterior: o que foi que o professor aprendeu na universidade? Lendo tópicos da tal “história crítica”, percebemos ali o que já foi marxismo um dia – o que não quer dizer coisa, destaque-se. Mas, ao menos, trata-se de uma teoria sobre a sociedade e sobre o poder. Por mais que eu possa considerá-la, e considero, essencialmente errada, ainda se tem um conjunto teórico que pode ao menos ser combatido.

Mas vocês diriam que os nossos marxistas acadêmicos formam professores com uma leitura mínima que lhes permita ao menos uma abordagem racional da história? Não! O que já é nefasto – e, entendo eu, moralmente criminoso – é tingido, ao ser reproduzido pelos simples de espírito para outros ainda mais simples, pelas tintas da vulgaridade e da asnice.

Entendam. Estou longe de dizer: “Ainda se fosse marxismo, tudo bem”. Não estaria tudo bem, não. Mas o combate poderia se estabelecer um pouco acima do esgoto. O que dizer a alguém que expõe crianças a coisas como “A princesa Isabel era feia como a peste e estúpida como uma leguminosa”? Como combater esse tipo de grosseria?

Em vez de debater ou tentar se explicar, a editora Nova Geração preferiu atacar Ali Kamel. Mas não só: eu e Olavo de Carvalho também viramos alvo, além de nossos supostos discípulos, “os/as “reinaldetes e olavetes”. Somos o David Carradine da “nova direita”, o Pat Morita dos jovens reacionários.

Acreditem: no dia 17 deste mês, fez oito anos que Olavo de Carvalho publicou um artigo sobre o mesmo tema – e até a mesma coleção – no Jornal da Tarde (íntegra aqui). Há um lado chato em ter razão com tanta antecedência: é uma forma de solidão. Mas que não assusta àqueles que não repudiam o pensamento com medo do que podem encontrar.

Naquele texto, Olavo começa ironizando, com a mordacidade e o humor característicos, as diretrizes do ministério para a educação sexual nas escolas. Escreveu:

“Em matéria de instrução sexual, os professores devem assumir [segundo o MEC] uma atitude de neutralidade moral verdadeiramente weberiana. Sem dizer uma palavra contra ou a favor, devem descrever diante da classe, com sublime indiferença científica, ‘as orientações sexuais existentes’, para que as criancinhas, livres de pressões autoritárias, ‘façam suas próprias opções’. Não sei o que é aí mais comovente: o respeito devoto pela liberdade dos infantes ou o rigor da isenção científica que inspira as diretrizes do ministério.”

Pois bem. Olavo notava que as instruções neutras do MEC não valiam, no entanto, para a história e as ciências sociais. Deixemos que ele mesmo fale:

“Mas, em contraste com a neutralidade e frieza que devem imperar na escolha dos objetos de desejo, o MEC não julga que idêntica objetividade científica deva prevalecer em outros domínios do conhecimento, como por exemplo a história e as ciências sociais. Aqui, não apenas é desnecessário examinar com imparcialidade as várias escolas, estilos e teorias explicativas, mas, bem ao contrário, a escolha pode ser dada por pressuposta sem que seja preciso sequer informar às crianças que houve alguma escolha. A interpretação marxista da História deve ser ensinada não como uma teoria entre outras, mas como a única teoria possível, a ortodoxia suprema jamais contestada. É o que se vê em vários textos aprovados pelo ministério para o ensino dessas disciplinas, como por exemplo a Nova História Crítica, de Mário Schmidt, para o 2.º grau (Editora Nova Geração), Iniciação à Sociologia , de Nelson Dacio Tomazzi, e outros (Atual Editora), Estudando as Paisagens , de Oswaldo Piffer, para a 7.ª série (Ibep) e dezenas de outras obras do mesmo teor. Nessas cartilhas sacramentadas pelo aval mequiano, o predomínio absoluto dos fatores econômicos, a luta de classes, a conveniência de uma aliança operário-camponesa para liquidar os malditos capitalistas, bem como outros itens do cardápio marxista tradicional, não são ensinados como opiniões de uma determinada corrente ideológica contestadíssima por muitas outras, mas como verdades universais primeiras e últimas que jamais foram ou serão objeto de dúvida.”

Sim, estamos falando de 1998, antes de o PT chegar formalmente ao poder, mas já com os seus tontons-macoutes infiltrados em todas as instâncias do estado. A esquerda vem construindo há muito tempo a sua hegemonia cultural, ditando seus valores, transformando-os numa ética coletiva. No começo de seu artigo, Kamel observa: “Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo.” Para quem sabe ler, o autor está dizendo mais ou menos o seguinte: “Demonstrarei na prática o que é a construção de uma hegemonia cultural segundo, sim, as teorias de Gramsci”.

Então chegamos a um ponto bem interessante. Olavo percebeu quase uma década antes o que viria a ser prática corriqueira nas escolas porque via o fenômeno orientado pelo conhecimento de uma teoria de poder: a do comunista italiano Antonio Gramsci. Não foi com uma, com duas ou três, mas com todas as letras, talvez bilhões delas, que ele desenhou os caminhos da conquista do “estado burguês” sem revolução. E a educação era um dos instrumentos.

Apocalíptico

Já ouço daqui o brado: “Apocalíptico! Filhote da Guerra Fria! Reacionário!” O resultado está aí. Esse marxismo porco, esse “militantismo didático”, essa constante depredação da história e das tradições acabam, é certo, por contaminar a mentalidade das crianças. Não serão necessariamente militantes do “partido”. Mas se constituirão na sua mais dócil massa de manobra.

Em 1998, o poder não estava com o PSDB? Estava, sim. E quem disse que os tucanos, que fogem da pecha de “conservadores” ou “direitistas” como o diabo foge da cruz, tem disposição para travar o bom combate com essa súcia?Ao contrário até: a atitude média do partido tende a ser compassiva, num misto de medo e arrogância: “Não exagere, Reinaldo! Eles não são tão perigosos”. São, sim. Por quê? Farão a luta armada? Não. É mais fácil, mais barato e mais produtivo fraudar a história. Tenho cá as minhas curiosidades: como essa “história crítica” vai retratar os anos Lula?

O combate é duro. Até porque temos o mestre dos mestres em ação. Ontem, numa solenidade, Lula explicou a crise americana a índios, quilombolas e alguns branquelos que estavam por ali: “Esta crise que está envolvendo a Europa, está envolvendo os bancos americanos, está envolvendo, na verdade, todos aqueles que compraram títulos que não eram de qualidade, achando que iam ganhar dinheiro como se estivessem num cassino. A porca entortou o rabo, não deu certo e agora eles estão perdendo”.

Viram só? Ninguém faz história crítica como ele.

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