Blogs e Colunistas
Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles. (Dylan Thomas — Tradução de Mário Faustino)

31/07/2015

às 6:23

Desconstruindo Beatriz Catta Preta 1: uma história da carochinha. Ou: Quem será a Beatriz de Beatriz? Ou ainda: A quem ela anunciou que não vai fugir?

Vamos lá. Começo pelo óbvio e não mudei de ideia: continuo a me opor à convocação da doutora Beatriz Catta Preta pela CPI da Petrobras porque acho que isso abre a porta para relativizar o direito de defesa. E fui o primeiro na grande imprensa a me insurgir contra isso. Como me insurgi contra a tentativa de transformar Dora Cavalcanti em ré. Mas daí a acreditar no conteúdo da entrevista de Beatriz, concedida a Cesar Tralli, que foi ao ar no Jornal Nacional desta quinta, vai uma diferença abissal.

A criminalista Beatriz poderá procurar com lupa nos meus posts uma só acusação contra ela. Não haverá. Não é do meu feitio. Não sou procurador, delegado ou juiz. Eu lido com a lógica e com os fatos que apuro. Não acreditei em uma palavra do que ela disse. Nada! E esse é um direito que eu tenho. E não acreditei porque a sua narrativa é um apanhado de absurdos e de despropósitos. Mais: serve para demonizar a CPI da Petrobras — e, por consequência, o Congresso. Quer dizer que doutora Beatriz acha um absurdo falar a uma CPI, mas pensa ser razoável jogar acusações ao vento no Jornal Nacional?

Antes que avance: tudo certo com a entrevista de Cesar Tralli. Fez boas perguntas, não todas as boas que poderia, e, a meu juízo, intencionalmente ou não, contribuiu para revelar o que acho ser peça de ficção. De saída, eu tenho uma questão para a doutora Beatriz. Se ela quiser responder, publico. É um dos pontos centrais do imbróglio.

Se Julio Camargo, seu ex-cliente, falou a verdade quando afirmou ter pagado US$ 5 milhões em propina ao deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, então esse mesmo Camargo mentiu nos depoimentos iniciais, já sob delação premiada. Doutora Beatriz, me conte: ele mentiu para a senhora ou vocês dois mentiram para a Corte? Essa resposta precisa ser dada, não é mesmo?

Eu sou muito atento à linguagem. Eu tenho apreço pelo sentido das palavras. Tralli quis saber por que Camargo negava antes o pagamento de propina a Cunha e só o admitiu depois. Ela respondeu: “Receio. Ele tinha medo de chegar ao presidente da Câmara”. E pergunta o JN: “E por que ele muda de ideia? O que o faz mudar de ideia?”. Aí Beatriz dá a resposta impossível, leiam: “A colaboração dele, a fidelidade, a fidedignidade da colaboração, o fato de que um colaborador não pode omitir fatos, não pode mentir, o levaram então a assumir o risco. Aquele risco que ele temia, e levar todos os fatos então à Procuradoria-Geral da República”.

Entendi. O medo fez Camargo mentir. E uma súbita coragem, saída sabe-se lá de onde, o fez falar a verdade? É nesse ponto que caberia e cabe a pergunta que não quer calar: “A senhora sabia que ele estava mentindo?”. A propósito: quem mente por medo uma vez não pode mentir uma segunda em razão de um medo ainda maior? Pergunta agora ao mundo jurídico: uma delação premiada pode ser um “work in progress”? Um advogado acerta os termos de uma delação premiada ou de uma conta de chegada, alterando a narrativa ao sabor dos ventos e da metafísica influente? É assim que se faz no resto do mundo? Ninguém precisa me responder. Eu sei a resposta. Não é.

O verbo “fugir”
Doutora Beatriz estava logo ali, em Miami. Como diria Gilberto Gil na excelente música “Parabolicamará”, para ela mandar uma mensagem ao Brasil, leva “o tempo que levava a Rosa para ajeitar o balaio, quando sentia que o balaio ia escorregar”. Deixou que prosperasse por aqui a informação de que havia fechado o escritório, que se mudaria para aquela cidade americana, de que trabalharia lá, onde tem (ou tinha?) um escritório. E nada de desmentido.  Ao contrário: foram se acumulando os boatos de que teria sido ameaçada por Cunha etc. — versão que ela endossa, ainda que de forma enviesada.

Bastou que começassem a surgir por aqui notícias sobre a sua impressionante proximidade com a força-tarefa de Curitiba, sobre o modo como trabalharia alinhada com o Ministério Público — de sorte que seu escritório é chamado por alguns de “anexo da força-tarefa” — e sobre a abordagem algo heterodoxa que seu marido faz com os clientes, e ela decide desmentir, então, a informação de que deixaria o país, o que poderia ter feito logo no primeiro dia.

E, ora vejam, a primeira pergunta feita a ela — o que pode ser parte da combinação para conceder a entrevista (e não há mal nenhum nisso!) — é esta: “A senhora está morando em Miami?”.
E ela responde:
“De forma alguma. Eu saí de férias. Aliás, eu costumo sair de férias e viajar pra lá, sempre que os meus filhos estão em período de férias escolares. Nunca cogitei sair do país, ou fugir do país como está sendo dito na imprensa.”

Foi ela quem usou o verbo “fugir”, não a imprensa. Fiquei com a impressão, e tenho o direito de tê-la, de que ela está mandando um recado a alguém — alguéns?: “Não vou fugir!”. Fugir de quê? Ela é uma penalista. Conhece o peso dessa palavra. Certamente não está dizendo a seus supostos perseguidores “que não vai fugir”, certo?

Ademais, desde que com os devidos papéis, não há nada de errado em morar em Miami, especialmente alguém que se diz sob perseguição. A negativa não precisa de ênfase.

Beatriz é incapaz de dizer que tipo de ameaça sofreu. Afirmou: “Não recebi ameaças de morte, não recebi ameaças diretas, mas elas vêm de forma velada. Elas vêm cifradas”. Certo! E isso fez, meus caros, atenção, com que ela desistisse não só dos clientes: BEATRIZ USOU O JORNAL NACIONAL PARA ANUNCIAR QUE ESTÁ DEIXANDO A ADVOCACIA!

Também nesse caso, pareceu-me um recado: “Ok, pessoal, estou fora dessa profissão. E não vou fugir”. Sigo no post abaixo. Encerro este tentando a sugerir a Beatriz que arrume uma Beatriz em benefício de uma narrativa mais verossímil.

Texto publicado originalmente às 4h45
Por Reinaldo Azevedo

31/07/2015

às 6:21

Desconstruindo Beatriz Catta Preta 2: Demonizando Cunha e a CPI da Petrobras. Ou: Direito de Defesa e justas prerrogativas não justificam ataque ao Congresso

No despacho em que autorizou Beatriz Catta Preta a não responder a perguntas na CPI que digam respeito ao sigilo profissional — e essa é uma garantia que tem de ser mantida —, escreveu Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo: “Com efeito, para se preservar a rigidez do devido processo legal, e, em especial, o equilíbrio constitucional entre o Estado-acusador e a defesa, é inadmissível que autoridades com poderes investigativos desbordem de suas atribuições para transformar defensores em investigados, subvertendo a ordem jurídica. São, pois, ilegais quaisquer incursões investigativas sobre a origem de honorários advocatícios, quando, no exercício regular da profissão, houver efetiva prestação do serviço”.

Nada a objetar. Mas eu lamento a ligeireza — e, agora a doutora há de entender a dureza, vinda de um discípulo de Montesquieu — com que ela dispensou à CPI da Petrobras o tratamento de antro de bandidos. Pode ser vício profissional. Sua profissão a obriga a ficar perto deles, e ela pode ter confundido as coisas. O direito de defesa e as prerrogativas de um advogado não dão a ninguém licença para enxovalhar uma instituição chamada Congresso Nacional. Perguntou Cesar Tralli: “A senhora consegue identificar de onde vem essa intimidação que a senhora enxerga tão claramente hoje?”. E ela responde: “Vem dos integrantes da CPI, daqueles que votaram a favor da minha convocação”.

Aí, não! Aí a doutora foi longe demais. Revejam o releiam a entrevista. Está aqui. Ela não está apontando uma simples pressão ou, sei lá, uma intimidação quase burocrática. Não! Ela disse com todas as letras: “Depois de tudo que está acontecendo, e por zelar pela segurança da minha família, dos meus filhos, eu decidi encerrar a minha carreira na advocacia. Eu fechei o escritório”.

As palavras, reitero, fazem sentido. No discurso da doutora, a sua família está sob ameaça, e a intimidação “vem dos integrantes da CPI”. Calma lá! Estamos falando de um instrumento legítimo de investigação do Poder Legislativo, suprapartidário, submetido ao escrutínio público muito mais do que os acordos de delação premiada, não é mesmo? Ou estou enganado? Então um dos Poderes da República, numa de suas tarefas mais importantes — comissões de inquérito —, passará a ser tratado agora como ameaça?

O país derrubou um presidente da República depois de CPI; já investigou narcotraficantes; máfias disso e daquilo… Nunca vi advogados desistirem não apenas da causa, mas também da carreira porque… AMEAÇADOS POR DEPUTADOS!!!

Com a devida vênia, doutora… Desiste da profissão quem se desilude — e não me parece que alguém especializado em delações premiadas faça o gênero desiludido — ou quem não pode exercê-la em razão de algum óbice de natureza ética conhecido ou por conhecer. Não é o caso, certo? Nem que fosse para advogar em favor de ONGs de criancinhas pobres, sei lá…, que sentido faz abandonar a advocacia só porque foi convocada por uma CPI?

O Brasil não é a Coreia do Norte. O Brasil não é a Venezuela. O Brasil não é Cuba. O Brasil não é a China. Eu mesmo escrevi aqui contra a convocação. A OAB se insurgiu contra ela. Lewandowski se manifestou com dureza. É o caso de emprestar a essa decisão o peso de uma grande conspiração que se passa nas sombras — que, obviamente, teria Eduardo Cunha como personagem ausente, mas muito presente? Ora… O fato de ele ser o malvado predileto da imprensa, creio, não leva jornalistas a engolir qualquer coisa. Ainda que boa parte dos que cobrem a Lava Jato o faça com muita convicção e pouca Constituição.

Tralli fez a câmera dar um giro pelas amplas salas, em região nobre de São Paulo, agora vazias, que abrigavam o escritório de Beatriz. Tudo desmontado a toque de caixa, sumariamente, sem hesitação. Engraçado… Pensei comigo: é um modelo de negócio chegando ao fim. Qual negócio? Ora, as delações premiadas que ali se celebravam. Pensei em Julio Camargo. Se ele receber um prêmio, premiar-se-á necessariamente também a mentira. Afinal, ou mentia antes, ao tempo em que, segundo diz sua defensora, tinha medo de Cunha, ou mente agora, quando não tem mais medo — não de Cunha ao menos…

Antonio Fernando de Souza, o procurador-geral da República da primeira fase do mensalão e hoje advogado de Cunha, foi duro com a entrevista. Chamou-a de “coisa montada”. E, contestando Beatriz, disse ter a certeza de que não existe prova nenhuma que ligue seu cliente a irregularidades. Hugo Motta (PMDB-PB), presidente da CPI, afirmou que a convocação foi suprapartidária.

Os advogados conhecem o que penso — só neste blog, há nove anos. Jamais condescendi, e assim é desde que entrei na profissão, com qualquer agressão ao direito de defesa, pouco importando a ideologia do acusado ou do réu ou sua condição econômica — pedreiro ou empreiteiro. Esse ou aquele reclamam. Não posso fazer nada. Como já disse, eu não combato os petralhas só porque eles são eles. Eu combato também os seus métodos. Defendo as prerrogativas de Beatriz e de qualquer outro defensor.

Mas não dá para silenciar diante de uma entrevista que vai bem além das raias do absurdo. Eu continuo querendo saber por que doutora Beatriz Catta Preta deixou os clientes e abandonou a advocacia. Eu quero agora saber a quem, segundo entendi, ela estava enviando o recado, dizendo que não vai fugir. Eu quero saber se, dada a primeira versão de Camargo, que ela agora diz ser falsa, ele mentia para ela ou os dois mentiam para o Ministério Público e para a Justiça.

Texto publicado originalmente às 5h14
Por Reinaldo Azevedo

31/07/2015

às 6:15

O petista Renato Duque já teria mesmo fechado o acordo de delação premiada

A fonte é boa, mas eu não estava lá, não é? De resto, não estamos diante de um andamento dos mais ortodoxos no que concerne aos códigos. De todo modo, a informação que recebi na noite desta quinta-feira é que o petista Renato Duque é, sim, um dos investigados da operação Java Jato que fechou um dos acordos de delação premiada que ainda não foram divulgados pelo Ministério Público.

A ser verdade, a terra petista pode tremer ainda mais. Afinal de contas, era ele o homem do PT entre os operadores de propina dentro da Petrobras, segundo investigações conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. Até havia pouco, era um verdadeiro túmulo. Como esquecer? Um subordinado seu, Pedro Barusco, aceitou DEVOLVER US$ 97 milhões.

Consta que sua família passou a pressioná-lo para fazer o acordo. Boa parte dos delatores acusa a sua participação do esquema de corrupção, inclusive Barusco, o ex-subordinado.

Por Reinaldo Azevedo

31/07/2015

às 5:36

Minha coluna na Folha: “O colapso irrecuperável do petismo”

Leiam trecho:
O “petrolão” já tem uma derivação: o “eletrolão”. Com mais algumas enxadadas, novas minhocas podem brotar. Quem sabe o “estradão”, “meu casão meu vidão”, “saudão”, “escolão”, “pacão”… E quantos outros aumentativos vocês queiram rimar aí para indicar um estado que foi literalmente assaltado pelo crime e que não tem solução.

O governo desapareceu. Dilma se alimenta de algumas esperanças que, embora plausíveis, têm pouco efeito prático para ela. Pensemos em Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara. A sua situação vai, por desdobramento óbvio, se agravar –afinal, é certo que será denunciado por Rodrigo Janot.

Digamos, só por hipótese, que Cunha saísse de cena. Dilma ficaria rigorosamente onde está. Seu discurso dialoga cada vez mais com os rinocerontes que batem à porta. A mais recente contribuição da presidente, todos vimos, foi anunciar que, tão logo cumpra no ProUni a meta que faz questão de não ter, pretende dobrá-la. Fez tal raciocínio especioso uma vez. Achou pouco. Repetiu-o. A claque aplaudiu.
(…)
Íntegra aqui

Por Reinaldo Azevedo

31/07/2015

às 2:05

#prontofalei – Conversa sobre o nada

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 21:11

Entrevista de Beatriz torna a história ainda mais enrolada e inverossímil

Conforme antecipei aqui, a advogada Beatriz Catta Preta concedeu uma entrevista — no caso, ao repórter Cesar Tralli, da Globo — em que diz ter desistido dos seus clientes porque estava se sentindo ameaçada pela… CPI.

Ameaçada de quê? Não ficou claro! Falou em ameaças “cifradas, veladas” e só. Não acusou diretamente Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, mas a sugestão ficou no ar. Segundo disse, a pressão ficou maior depois que Julio Camargo mudou a versão e passou a acusar Cunha.

Voltarei o assunto. Para mim, a história ficou mais enrolada do que antes e direi por quê.

OAB
A OAB entrou com um pedido no Supremo para que Beatriz não tivesse de depor. Ricardo Lewandowski, presidente do tribunal, que responde pelo plantão, não tinha, obviamente, como proibir o depoimento sem cometer uma violência contra o Legislativo. Ele a autorizou a não falar sobre coisas que dizem respeito ao sigilo profissional.

Não mudei de posição: sou contra a convocação da advogada pela CPI — embora não seja ilegal. Mas isso não quer dizer que essa não seja a história mais mal explicada da Lava Jato até agora.

Ainda volto ao assunto.

Não estou acusando Beatriz de nada, mas a sua história não me convenceu. Ela é uma penalista. Fosse espectadora da própria entrevista, acharia tudo muito estranho, não é?

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 20:54

Dilma, os governadores, as conversas sobre o nada e… o disparate final

Conforme o antevisto aqui, a conversa de Dilma Rousseff com os governadores girou em torno do nada. Sem agenda, foi preciso improvisar uma coisa qualquer antes da foto — o que já chamei aqui de “abraçaço da afogada”. Disse a presidente, entre outras coisas, num longuíssimo discurso de 32 minutos, segundo leio na Folha:
“Eu não nego as dificuldades, mas afirmo que todos nós, e o governo federal em particular, temos como enfrentar essas dificuldades e em um prazo bem mais curto do que alguns pensam. [...] É importante estabelecer parcerias e enfrentar os problemas juntos”.

Mais “rápido” quanto? Qual é o plano? Quem são esses “alguns” que estariam pensando errado? Uma pessoa ali, com certeza, fazia afirmações sem sentido. Dilma ensaiou os motivos da crise por que passa o Brasil: “o colapso no preço das commodities, a grande desvalorização da moeda, com impacto nos preços e na inflação”. Não dá!

A desvalorização das commodities mostrou que viria para ficar já em meados de 2012, quando Dilma estava com um ano e meio de seu primeiro mandato. Agora ela vem alegar tal fator para explicar as dificuldades brasileiras? E o câmbio? Qualquer que seja ele, é a realidade internacional que está impondo isso ou aquilo? Nem ela acredita nisso. E menos ainda acreditaram os que a ouviram.

Um governante em crise precisa apostar em certo heroísmo. Aludindo, como sempre, a seu passado, lá veio a presidente:
“Eu, pessoalmente, sei suportar pressão e até injustiça, e isso é algo que qualquer governante tem que se capacitar e saber que faz parte da sua atuação. Tenho ouvido aberto, enquanto razão, e o coração, enquanto sentimento, para saber que o Brasil que cresceu e não se acomoda é o Brasil que nós queremos, que sempre quer mais”.

Então tá. Dilma deveria ir à televisão, em rede nacional, explicar que é uma injustiça que o povo cobre que ela cumpra o que prometeu. Ela pode tentar jogar a culpa no preço das commodities.

Dilma falou sobre as dificuldades fiscais, lembrando ser esse um problema de todo mundo, observou que assumiu o desgaste de vetar algumas propostas que geravam impacto negativo nas contas públicas e, por óbvio, acabou sugerindo que os governadores a auxiliem na relação com o Congresso.

Pacto
No fim das contas, meus caros, a conversa de fundo era mesmo alguma coisa parecida com um pacto de governabilidade — só que sem agenda. Precisando propor alguma coisa, Dilma sugeriu que todos se unissem em favor da redução de homicídios e da diminuição da população carcerária. O que isso tem a ver com o conjunto da obra? Ninguém sabe.

Até porque, entre os presentes, estava Geraldo Alckmin (PSDB), governador de São Paulo. O Estado tem hoje a menor taxa de homicídios do Brasil (9,38 por 100 mil), está entre os que mais prendem e tem a maior população carcerária do país: concentra 22% da população e 40% dos presos. Mais assassinos na cadeia, menos assassinos matando na rua.

A equação é elementar demais para a dialética sem metas de Dilma. No fim das contas, os governadores entenderam tudo: a presidente não estabeleceu meta nenhuma, mas prometeu que, tão logo seja cumprida, ela pretende dobrá-la.

Entenderam?

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 20:09

Conforme este blog antecipou no dia 22, país está em déficit primário

Queridos leitores,

Vou falar aqui de déficit primário. Mas, antes, farei uma digressão que, em vez de nos distanciar do tema, mais nos aproxima.

Meu compromisso, como jornalista, é com os fatos, não com os meus amores e meus ódios — estes, de resto, inexistem porque, diante da simples suspeita de que algo semelhante possa brotar em mim, atuo para matar o mal na origem. O ódio escraviza. Talvez eu não seja um cristão exemplar por uma porção de razões, mas não por essa. De fato, a piedade logo toma em mim o lugar em que poderia brotar o ódio. E não pretendo mudar.

Ao longo dos anos, todas as críticas que fiz e faço ao PT e ao governo — e a outras forças políticas — estão centrada em valores. E eu não abro mão deles. Se e quando mudo de análise, aviso. Não cedo a pressões. Não cedo a patrulhas. Não cedo a baixarias. Tampouco me divertem os insucessos do governo, de Dilma, de quem quer que seja. Não vibro com desastres alheios, não tripudio. São sentimentos malignos.

Mas não deixo de dizer o que penso, por mais duro que seja — e desde que relevante para o país. Não é assim porque sou bom, mas porque sou decente. E procuro, na conversa diária com vocês, apontar cenários, antecipar tendências, acusar desacertos — e até acertos, se e quando os há.

Ficamos sabendo hoje que o Brasil teve um déficit primário inédito no primeiro semestre: R$ 1,598 bilhão. É o primeiro saldo negativo no período desde 1997, quando o Tesouro Nacional deu início a essa série de medições.

Muito bem. Quando o governo anunciou a redução do superávit primário de 1,1% do PIB para 0,15%, escrevi aqui um post cujo título era este: “Levy é derrotado pela realidade; superávit será de 0,15% do PIB; o país já está em déficit primário”.

Déficit primário 1

Déficit primário 2

No texto, lia-se:
E o governo federal reduziu mesmo a meta de superávit primário de 1,1% do PIB para 0,15%, conforme antecipou a Folha na sua edição desta quarta. Um pequeno corte no corte de 86,36%. Governo que planeja é assim. Não custa lembrar que essa meta foi definida há coisa de cinco meses. Há três dias Joaquim Levy se mostrava contrário até a que se reduzisse a dita-cuja de 1,1% para 0,4%, conforme propunha o senador Romero Jucá (PMDB-RR), mais realista do que o governo, sim, mas, ainda assim, muito otimista.
Previ nesta manhã que a reserva esperada para a amortização dos juros da dívida ficaria em R$ 9 bilhões. O governo anunciou hoje que será algo entre R$ 8,5 bilhões e R$ 9 bilhões. Por que você deve acreditar? Bem, você não deve.
(…)
Nesta manhã, afirmei que o país caminha para o déficit primário. Na verdade, os números divulgados pelo governo indicam que o país já está produzindo déficit primário: notem que o valor do novo corte do Orçamento praticamente coincide com tudo o que se espera economizar.
Os dados seguem devastadores para as contas públicas. O governo reduziu em R$ 46,7 bilhões a receita líquida esperada — ou quase 0,9% do PIB, mas a previsão de gastos aumentou em R$ 11,4 bilhões.”

Retomo
Aí está. Se um blog servir para que os leitores compreendam melhor a realidade, empregando os instrumentos da razão, ótimo. Esta página existe para isso e vai manter o seu eixo.

Um abraço.

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 16:14

Os governadores sob pressão de dois dígitos de inflação e um dígito de popularidade

A presidente Dilma Rousseff resolveu liberar, até o fim do ano, R$ 4,9 bilhões em emendas parlamentares, numa tentativa de unir a base. Encontra-se hoje com governadores para, em tese, fechar uma pauta mínima, na esperança de que eles possam interferir em votações na Câmara.

Dilma quer evitar a chamada aprovação da pauta-bomba — que arromba os cofres públicos — ou a derrubada de vetos já feitos, como o reajuste aos servidores do Judiciário, ou que fará: a correção de todas as aposentadorias segundo o índice que vai reajustar o salário mínimo, por exemplo. Em troca, vai discutir a unificação do ICMS — o que nunca unifica os governadores — e condescender com um drible de corpo na Lei de Responsabilidade Fiscal: promete sancionar projeto de lei que permite a estados e municípios o uso, como receita, de parte dos depósitos judiciais.

É claro que isso corresponde a, vamos dizer, estimular que seja considerado dinheiro bom o que essencialmente não é. Trata-se de uma deterioração nas contas públicas.

Olhem aqui: ninguém pode condenar um governo por tentar unir a sua base ou conquistar ou, ao menos, buscar o apoio da oposição em temas pontuais: a questão é saber em torno de quais propostas se fazem esses esforços. E aí está o busílis. O governo não tem agenda, reitero, nem para atrair os seus.

Os parlamentares, como se nota, estão sendo cooptados com os instrumentos de sempre: emendas. Assim entende esse governo a questão política: é como ir à feira. No caso dos governadores, acena-se com um freio de arrumação no ICMS, medida para evitar a guerra fiscal. É claro que a questão é relevante. Mas será mesmo esse o melhor momento? Isso não deveria ser parte de uma agenda de longo prazo, estruturada, num debate organizado?

Mas quê… É tudo da mão para a boca. Até porque se sabe que, não estivesse nas cordas, não haveria interlocução nenhuma. Essa questão do ICMS, por exemplo, poderia ser nova, mas não é.

Ocorre que essa agenda a ser debatida com os governadores é tão falsa como nota de R$ 3. Não é com esse propósito que Dilma os chamou. Trata-se de uma medida de desespero, na esperança de que eles consigam interferir nas bancadas federais de seus respectivos estados, mas não apenas em relação à chamada pauta-bomba. O Planalto está mesmo preocupado é com a votação do relatório do TCU: ainda hoje, dá como certo que o tribunal recomendará a sua rejeição. Pretende, então, contar com eles como instrumentos de pressão.

Já escrevi aqui e reitero: política de governadores nunca deu certo no país. Não há exemplos na história. As bancadas se organizam segundo outros fundamentos, muitos deles acima até dos interesses das respectivas legendas.

Podem-se preparar. Daqui a pouco, a reunião acaba, e os governadores serão ouvidos pela imprensa. E então constataremos o maior desfile de palavras ocas do ano. A razão é simples: o motivo por que Dilma os chamou lá não terá sido dito, e o que se disse não corresponde ao motivo. Então se estabelece um diálogo literalmente sobre o nada.

Insisto: não estou aqui a censurar Dilma porque faz, afinal de contas, um esforço para não cair. O que se lamenta e ver o desperdício de um a oportunidade de diálogo, que só está em curso porque o governo está acuado.

Ah, sim: de resto, não há como ignorar a tentativa de atropelar o comando da oposição, tentando atrair os governadores, que, prudentemente, já escrevi aqui, tentarão não se contaminar com os dois dígitos de inflação de Dilma e com o seu dígito único de popularidade.

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 15:35

Executivos da Andrade Gutierrez e da Odebrecht apontam Pessoa como uma espécie de intermediário do PMDB. Ou: Cartel jabuticaba

Venham cá: informações que não venham à luz no bojo de delações premiadas não têm importância? Há um problema de natureza lógica nessa história, não? Quer dizer que um sujeito só merece crédito quando confessa alguma coisa de olho num benefício? Se não for troca-troca, não vale? Mais: só ganha ares de verdade inquestionável na imprensa o que nasce da delação? É mesmo? E Julio Camargo, aquele segundo quem Eduardo Cunha primeiro não recebeu e depois recebeu propina?

Por que isso? Vamos lá.

Leio na Veja.com,  em texto de Laryssa Borges, que Flávio David Barra, presidente da Andrade Gutierrez Energia, preso na 16ª fase da Operação Lava Jato, “afirmou em depoimento à Polícia Federal em Curitiba que, em reunião com o empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, foi instado a fazer uma ‘contribuição’ ao PMDB a pedido do senador Edison Lobão, ex-ministro de Minas e Energia. De acordo com o executivo, o pedido ocorreu entre agosto e setembro do ano passado, durante um encontro entre representantes do consórcio Una 3, formado pelas empreiteiras Andrade Gutierrez, Norberto Odebrecht, Camargo Corrêa e UTC Engenharia, responsável pelas obras da usina de Angra 3.”

Muito bem! Entre agosto e setembro do ano passado, a Operação Lava Jato já tinha pelo menos cinco meses — teve início em março. Pois é…

Barra não é o único a fazer essa acusação ou a citar Ricardo Pessoa como, digamos, o porta-voz das ansiedades financeiras do PMDB ou de peemedebistas. Também Fábio Andreani Gandolfo, diretor superintendente da Odebrecht, afirmou à mesma PF que o mesmo Pessoa, que teve homologado o acordo de delação premiada, pediu ao consórcio Angramon que contribuísse com a campanha do PMDB. Só para evitar confusão: o consórcio “Angramon” nasceu da fusão dos dois grupos que disputaram o certame final para a construção da usina: o Una 3 e o Angra 3.

Tanto o executivo da Camargo Corrêa como o da Odebrecht dizem que não se fez doação nenhuma. Então vamos ver: empresas que compunham um mesmo consórcio eram alvos de, digamos, “pedidos” independentes para doar uma grana aos partidos — nesse caso, ao mesmo partido. Talvez seja essa a forma que o “cartel” tomou no Brasil: é o chamado “cartel jabuticaba”. A propósito: dois consórcios ficaram para a fase final na construção da usina: o Una 3 e o Angra 3. Depois eles se juntaram num só: o Angramon. Quem tomou a decisão? As empreiteiras “cartelizadas” ou o ente que promoveu a licitação?

O problema de dar às coisas o nome errado em razão da ideologia, da burrice ou seja lá do que for é o inconveniente que traz: manter inalterada a estrutura que gerou o desmando.

Dada a leitura em curso sobre o cartel, se todas as atuais empreiteiras do Brasil forem fechadas e substituídas por, sei lá, empresas chinesas, no dia seguinte, estaremos com o mesmo problema: um estado corrupto em busca de quem corrompa e se corrompa. Se bem que, no caso das chinesas, tudo ficará mais fácil: elas já chegarão aqui cartelizadas. Não será culpa dos patriotas brasileiros… Aí bastará pegar a propina. Sem estresse.

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 14:46

MPF denuncia Bené, suspeito de ser um operador de Fernando Pimentel

Por Gabriel Castro, na VEJA.com:
O Ministério Público Federal (MPF) denunciou o empresário Benedito Oliveira Neto, suspeito de ser um operador do governador mineiro Fernando Pimentel (PT), por peculato e fraude em licitação. Ao lado de outras oito pessoas, ele responderá também por improbidade administrativa e pode ser obrigado a devolver os 2,9 milhões de reais que, de acordo com os procuradores, foram desviados em um contrato com o Ministério das Cidades.

A atuação do grupo teria ocorrido entre 2007 e 2009, por meio da empresa Dialog Serviços de Comunicação (atual Due Promoções e Eventos). Segundo o Ministério Público, a Dialog usava uma estratégia apelidada de “jogo da planilha” para vencer as licitações. O truque envolvia a redução de preço de itens secundários e pouco utilizados e o sobrepreço em itens mais utilizados. Em uma concorrência com o valor previsto de 554 milhões de reais, a empresa saiu vencedora após apresentar um lance de apenas 24,8 milhões.

O maior – 1,2 milhão de reais – desvio teria ocorrido na organização da 3ª Conferência Nacional das Cidades, realizada em dezembro de 2007. O sobrepreço em um dos itens chegou a 1.500%. Entre os denunciados, ao lado de Bené, estão sete ex-funcionários do ministério, inclusive a ex-subsecretária de Planejamento, Orçamento e Administração Magda Oliveira e o coordenador de Licitação, Francisco de Assis Rodrigues Froés.

Os procuradores afirmam que Bené agiu em parceria com os servidores. “Verifica-se que este concorreu dolosamente para a prática dos atos criminosos aqui descritos ao arquitetar ilicitamente, em conluio com funcionários públicos do Ministério das Cidades, a vitória de sua empresa no certame licitatório pregão eletrônico”, diz a ação penal.

Benedito Oliveira já é investigado em outros casos de corrupção. O executivo Gerson Almada, da Engevix, apontou aos investigadores da Lava Jato que Bené era o arrecadador de propina para a campanha de Pimentel. O empresário também pertence à família dona da Gráfica Brasil, fornecedora da campanha de Pimentel e investigada na operação Acrônimo, da Polícia Federal, por indícios de lavagem de dinheiro. Bené foi preso em maio mas deixou a cadeia depois de pagar fiança.

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 6:45

LEIAM ABAIXO

A tempestade que desaba sobre Eduardo Cunha, para a felicidade do Planalto! Hoje, ele pode receber um novo raio!;
Quatro delatores ainda são desconhecidos; PT teme que Renato Duque seja um deles;
As empresas brasileiras também começam a pagar o pato pela incompetência oficial;
João Doria se apresenta como pré-candidato do PSDB à Prefeitura;
Gráfica que recebeu R$ 6 mi do PT desperta suspeita da Justiça Eleitoral;
Diretor da Odebrecht diz que o delator Ricardo Pessoa pediu a empreiteiras dinheiro para o PMDB;
BC se comporta como talibã dos juros para mostrar que é fiel;
Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras, é alvo de nova denúncia do Ministério Público;
Moro faz o esperado e aceita denúncia contra presidente da Andrade Gutierrez e mais 12;
Após avaliação da S&P, Levy tenta acalmar investidor estrangeiro;
Dilma vai vetar regra de reajuste da aposentadoria que quebra o país. Está certa, mas vai apanhar;
Desemprego na Grande São Paulo sobe para 13,2% em junho. Governo Dilma funciona!!!;
Datena sobre si mesmo em 2012: “Eu sou uma porcaria como administrador. Eu não tenho consciência do que é administrar”. Assista ao vídeo;
Lava Jato: gráfica pagou R$ 870 mil a rádio de família que quis empregar Dirceu;
— Janot, quando é que a Lava Jato vai alcançar os que cometeram crimes contra a democracia e o Estado de Direito?;
— Datena quer renunciar àquilo que faz direito para abraçar o vexame. Ainda dá tempo de desistir, rapaz!;
— CPI mantém convocação da misteriosa Catta Preta. Ou: O devido e o indevido no Estado de Direito;
— Juiz da Lava Jato decreta bloqueio de até R$ 60 milhões das contas de suspeitos detidos pela PF;
— Defesa de Cerveró vê “super-heróis tupiniquins” na Lava Jato e pede ao STF liberdade provisória para seu cliente;
— Moro faz o esperado e aceita denúncia contra Marcelo Odebrecht e mais 12;
— Dilma procura sócio para a crise, e não aparece ninguém. Ou: Um novo convite à renúncia. Coragem, presidente!;
— O terror bate à porta. Ou: O mercado antecipa a hora, não espera acontecer;
— Standard & Poor’s muda perspectiva de nota do Brasil para negativa;

— PF deflagra 16ª fase da Lava Jato e mira Eletronuclear

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 6:35

A tempestade que desaba sobre Eduardo Cunha, para a felicidade do Planalto! Hoje, ele pode receber um novo raio!

Consta que a advogada Beatriz Catta Preta, que celebrou oito acordos de delação premiada e que, subitamente, anunciou que vai deixar o país, dará uma entrevista de alcance nacional nesta quinta em que exporá as alegações de sua decisão. Nos bastidores, comenta-se que ela teria se sentido ameaçada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Bem, nesse caso, parece-me, para alguém com a sua expertise, com a sua trajetória e com os amigos que tem, o mais fácil teria sido, desde logo, botar a boca no trombone, em vez de renunciar à clientela e anunciar o caminho do sol.

Vamos lá… A ser verdade o que se anda comentando nos becos e nos botecos, o alvo da moça vai ser mesmo Cunha, que vê, assim, nuvens negras se armando no céu contra ele. Julio Camargo, ainda como cliente de Catta Preta, desde a celebração do acordo de delação premiada, demorou nada menos de nove meses para mudar a versão dos fatos: de um Cunha que não havia recebido propina, passou para outro que teria recebido US$ 5 milhões.

O fato de eu fazer restrições a procedimentos que ferem o Estado de Direito leva imbecis — ou gente de má-fé — a inferir que quero livrar a cara deste ou daquele. Que cada um pague por aquilo que fez. Eu só me pergunto — e o farei porque é da minha natureza estranhar o estranhável — como pode um acordo de delação premiada lidar com a mentira com esse desassombro. Ora, ou Camargo mentia antes ou mente agora. Logo, devo supor que, mesmo amparado por um procedimento que o beneficia, ele antepõe algum outro interesse à verdade. Mais: é lícito mentir num processo de delação premiada, antes ou agora?

O episódio sobre Beatriz Catta Preta, quando o petrolão já for história, dará certamente algum trabalho aos que forem reconstituir os fatos. Para começo de conversa, será preciso deixar claro que a advogada que celebrou oito acordos, com honorários milionários (e, quanto a esse particular, não há nada de errado), era tida como uma espécie de quarto pilar da Operação Lava Jato. Os outros três são a Polícia Federal, o Ministério Público e o juiz Sergio Moro.

E a coisa não é leve. Julio Camargo, antes defendido por Beatriz, tem agora como advogados Antônio Figueiredo Basto e Adriano Bretas, também defensores de Alberto Youssef. Nas alegações finais em defesa de seu novo cliente, o alvo principal é o presidente da Câmara, que agiria segundo “moral da gangue”. Para os doutores, Cunha atua “astuciosamente” para desacreditar os depoimentos de seu cliente, usando desde a maledicência até a CPI da Petrobras.

Antes de Cunha entrar na mira de Rodrigo Janot, ele já estava na mira de Dilma Rousseff e de todo o PT. E, a ser verdade o que vai por aí, pode vir a receber agora um novo petardo. “Ah, então você diz que tudo é conspiração contra Cunha, que ele não fez nada?” É a leitura que os imbecis fariam do que vai aqui. Só estou caracterizando a conjunção de fatores que concorrem para minar o seu poder e a sua influência. Para a felicidade do Planalto.

É apenas um fato. E fica a advertência para Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado. Ele também é investigado e costuma criar problemas para o Planalto. Aguardem. O que vem por aí não é bonito.

Texto publicado originalmente às 4h36
Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 6:33

Quatro delatores ainda são desconhecidos; PT teme que Renato Duque seja um deles

O Ministério Público anunciou nesta quarta-feira que há seis outros acordos de delação premiada que correm em sigilo, além de uma lista de 16 nomes que foi apresentada, a saber: Paulo Roberto Costa e seus familiares (Marici da Silva Azevedo Costa, Shanni Azevedo Costa Bachmann, Arianna Azevedo Costa Bachmann, Humberto Sampaio de Mesquita e Marcio Lewkowicz); o ex-gerente da estatal Pedro Barusco; o doleiro Alberto Youssef; seu ajudante Rafael Ângulo Lopez; Dalton Avancini e Eduardo Leite, diretores da Camargo Corrêa; os lobistas Julio Camargo e Shinko Nakandakari e os empresários Augusto Ribeiro, Luccas Pace Junior e João Procópio.

Como da lista do MP não constam os nomes do Milton Pascowitch e do empresário Mauro Góes, o último a fazer acordo, então seriam apenas quatro os delatores por enquanto desconhecidos. As especulações correm soltas.

Góes, autor das mais recentes acusações, detalhou ao MP como funcionaria o esquema da Andrade Gutierrez, mantido no exterior, segundo ele, para a distribuição de propinas. Ele sustenta que, por meio da subsidiária Zagope Angola, a empresa teria repassado recursos para uma offshore na Suíça que ela própria controlaria — a Phad Corporation — , de onde migrariam para as contas do petista Renato Duque, ex-diretor de Serviços.

Segundo o MP, houve pelo menos 83 repasses de propina entre julho de 2006 e fevereiro de 2012 da conta de Góes para a de Pedro Barusco, que abrigariam também propinas para Duque, que era o chefe de Barusco. O total das operações teria chegado, aponta o MP, a US$ 6,42 milhões.

Os outros
As especulações ficam agora por conta dos quatro outros delatores anunciados pelo Ministério Público. Entre eles, pode estar um nome que leva verdadeiro pânico ao PT e que, até agora ao menos, tem-se mantido um túmulo: o petista Renato Duque.

Quando se deu a primeira prisão de Duque, circularam com força os boatos de que ele teria dito que não cairia sozinho. Depois, obteve um habeas corpus no Supremo, e a temperatura baixou. A segunda prisão, acusado que foi de tentar esconder ativos, levou a uma nova elevação da tensão. Comenta-se nos bastidores que a família pressiona Duque a fazer o acordo de delação premiada.

Há duas semanas, seu advogado chegou a dizer que essa não era uma hipótese descartada. Nos próximos dias, saberemos. O PT está mais ansioso do que nós.

Texto publicado originalmente às 23h35 desta quarta
Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 6:29

As empresas brasileiras também começam a pagar o pato pela incompetência oficial

As empresas brasileiras não existem no éter. Estão incorporadas à realidade política e econômica do país e sujeitas às mesmas vicissitudes. Depois de aplicar um viés negativo à nota brasileira, que já está a apenas um degrau de passar para a condição de grau especulativo, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s rebaixou a nota de 21 empresas brasileiras.

Oito delas ficaram  iguaizinhas ao Brasil: BBB-, com viés negativo. São elas Cesp, Comgás, Duke, Samarco Mineração, Taesa, Itaipu Binacional, Eletrobras e Braskem, as duas últimas investigadas na Operação Lava Jato. Já estavam nesse patamar e nele permaneceram Klabin S.A., Neoenergia S.A., Odebrecht Engenharia e Construção S.A. e a Petrobras.

Sim, a agência levou em consideração a situação de cada empresa, mas é evidente que a perspectiva do Brasil tem um peso imenso na avaliação. Um país em recessão de quase 2% e que deve ter um crescimento em torno de zero no ano que vem não compõe um cenário muito animador. E tudo fica mais difícil quando parte do PIB brasileiro virou, e está sendo tratado, como um caso de polícia.

A avaliação de risco de uma empresa ou de um país é uma medida objetiva, reconhecida pelo mercado mundial, para indicar a sua salubridade econômica. Quanto menor o risco, mais facilmente essas empresas — e os países — atraem investimentos e conseguem empréstimos a juros convidativos.

O estrago produzido ao longo desses 13 anos, ainda veremos, é bem maior do que parece.

Texto publicado originalmente às 3h44
Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 6:28

João Doria se apresenta como pré-candidato do PSDB à Prefeitura

No Estadão:
Um dia após o jornalista e apresentador José Luiz Datena, da Band, confirmar que vai disputar a Prefeitura de São Paulo em 2016 pelo PP, ontem foi a vez do empresário João Doria Jr, que comanda um programa de entrevistas na mesma emissora, oficializar sua intenção de ser o candidato tucano na disputa municipal. 

Filiado ao PSDB, Doria afirmou que está disposto a enfrentar uma disputa prévia caso outros tucanos se coloquem no páreo. “Vou disputar o que for preciso para ser o candidato em 2016. Duas grandes lideranças do partido, o governador Geraldo Alckmin e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, estão estimulando a renovação. Isso será importante para o partido crescer e sair do binômio Alckmin e Serra na capital”, disse Doria ao Estado.  Presidente do Grupo de Líderes Empresariais (Lide), ele disse que montou um grupo de trabalho com 27 pessoas que serão responsáveis pela gestão e formação de sua pré-campanha municipal. 

Os nomes serão anunciados em agosto, mas entre os membros do “Comitê de Gestão” do Lide estão ex-ministros de Luiz Inácio Lula da Silva – Roberto Rodrigues (Agricultura) e Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento) – e FHC – Celso Lafer (Relações Exteriores) – e empresários como Wesley Batista (JBS) e Edson Godoy Bueno (Amil).  Questionado sobre um eventual prejuízo financeiro para seus negócios caso entre de fato na disputa, o empresário garante que isso não será problema. “Eu posso fazer essa sacrifício”, afirmou. O empresário classificou como “curioso” o fato da disputa em São Paulo em 2016 ter atraído nomes da TV. “Se as candidaturas se confirmarem, pela primeira vez teremos três comunicadores na disputa, o que é saudável”, disse.  Além de Doria e Datena, o deputado Celso Russomanno, que foi anunciado provável candidato pelo PRB, possui programa – é contratado da TV Record.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

30/07/2015

às 6:16

Gráfica que recebeu R$ 6 mi do PT desperta suspeita da Justiça Eleitoral

Na Folha:
A campanha da presidente Dilma Rousseff à reeleição pagou R$ 6,15 milhões a uma gráfica que não tem nenhum funcionário registrado e cujos documentos apontam como presidente o motorista Vivaldo Dias da Silva, que em 2013 recebia R$ 1.490. A Rede Seg Gráfica e Editora, de São Paulo, aparece como a oitava fornecedora que mais recebeu dinheiro da campanha presidencial petista no ano passado, de acordo com os registros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Funcionários do TSE que examinaram as contas da campanha de Dilma descobriram a situação da gráfica ao cruzar as informações da empresa com o banco de dados do Ministério do Trabalho. A descoberta fez surgir a suspeita de que a gráfica não tinha a estrutura necessária para prestar os serviços pelos quais foi remunerada pelo PT. Algumas das notas da gráfica entregues pelo partido ao TSE trazem a afirmação de que a empresa produziu folders para a campanha eleitoral.
(…)
Como a Folha revelou em dezembro de 2014, a Focal Comunicação, a segunda que mais faturou na campanha presidencial de Dilma (R$ 24 milhões), também tinha um motorista (salário de cerca de R$ 2 mil até 2013) como sócio. A Focal só ficou atrás da empresa do marqueteiro João Santana, destinatária de um montante de R$ 70 milhões. O empresário Carlos Cortegoso admitiu na época que era o verdadeiro dono da Focal, tendo justificado o registro em nome do motorista como fruto de uma inclinação sua de dar chances para seus empregados progredirem.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

29/07/2015

às 22:40

Diretor da Odebrecht diz que o delator Ricardo Pessoa pediu a empreiteiras dinheiro para o PMDB

A nova frente de investigação aberta pelo Ministério Púbico e pela Polícia Federal parece ter potencial para fazer do PMDB o ator principal do “eletrolão”, que é o petrolão “versão Eletrobras”. Na apuração que tem a Petrobras como epicentro, o partido tende a surgir com um papel de destaque, mas não como o astro. Pode ser diferente desta vez, o que só faz com que a crise se alastre.

Fábio Andreani Gandolfo, diretor superintendente da Odebrecht, afirmou à Polícia Federal, informa o Estadão, que Ricardo Pessoa, dono da UTC, que teve homologado o acordo de delação premiada, pediu ao consórcio Angramon, que vencera a licitação para a construção da Usina Nuclear de Angra 3, que contribuísse com a campanha do PMDB. Além da Odebrecht, compunham o consórcio a Camargo Corrêa, a UTC Engenharia, a Andrade Gutierrez, a Queiroz Galvão, a Techin e a EBE.

Gandolfo teria dito em reunião, segundo ele próprio, que tinha uma função técnica e que não se relacionava com partidos ou com políticos, opondo-se, assim, à contribuição — decisão, afirma, que foi mantida pela Odebrecht.

Dalton Avancini, que fez acordo de delação premiada, ex-presidente da Camargo Corrêa, já havia feito essa denúncia em depoimento, no âmbito da delação premiada. Foi a partir daí que a PF e o MP decidiram abrir a nova frente de investigação.

 

Por Reinaldo Azevedo

29/07/2015

às 22:03

BC se comporta como talibã dos juros para mostrar que é fiel

Lembro de um trecho de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis: “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”. É isto: melhor uma farpa nos olhos do que ser refém de saídas de manual que ignoram a realidade. É claro que eu sabia, e que todos sabiam, que o Copom elevaria a taxa básica de juros: a dúvida era se a elevação seria 0,25 ponto ou de 0,5 ponto. Deu meio ponto: agora está em 14,25%.

Eu sou contra ou sou a favor a elevações de juros? A pergunta, se fosse feita, seria imbecil. E a resposta, tautológica: sou a favor quando são necessárias e contra quando são desnecessárias. E o mesmo vale para a redução da taxa. A boa pergunta é outra: vai adiantar para conter a inflação? Digamos que, em algum momento, sim. Mas a que custo?

Repito aqui as indagações que fiz anteontem e ontem no programa “Os Pingos nos Is”, que ancoro na Jovem Pan: a demanda está aquecida e, por isso, os preços dispararam? Há alguma condição estrutural que a elevação possa corrigir? Não que se saiba.

Assim, essa elevação — e talvez ainda haja outra — só acarretará um aumento brutal nas despesas do governo e terá pouca ou nenhuma influência na inflação, derivada dos preços administrados, que não baixarão.

“Ah, mas reduzindo a atividade, em algum momento, a inflação baixa…” Em que momento? Não há resposta para isso, e noto que o pensamento mágico está na base de algumas análises disfarçadas da mais fria racionalidade. Leio coisas como: “Ah, na próxima reunião, o Copom pode elevar ainda em mais meio ponto, e aí fica estável até o fim do ano”. Sei. Está escrito em algum lugar que a inflação cai quando os juros são de 14,75% ou de 14,5%? E se não cair? Administra-se mais do mesmo remédio?

Reitero: eu não tenho nada contra a elevação dos juros em si, como não tinha nada contra a redução. Eu só me oponho quando objetivos alheios à natureza das medidas entram em pauta. Agora ou antes.

Por que digo isso? O governo não tem credibilidade. O prestígio de Joaquim Levy ficou abalado depois da trapalhada protagonizada no caso do superávit primário. O BC precisa, assim, posar de talibã dos juros para demonstrar que ninguém por ali perdeu a fé na palavra — embora este governo se mostre incapaz de cortar gastos para valer. O que ele faz é cortar a previsão orçamentária, o que é coisa distinta.

A elevação dos juros quer dizer apenas o seguinte: “Ó, não estamos flertando mais com inflação, tá?”. Tá! Mas ela vai contribuir para baixar essa inflação que está aí? A resposta: até pode. De tal sorte se dá um tombo na economia que, em algum momento, cai…

Então tá!

Por Reinaldo Azevedo

29/07/2015

às 19:38

Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras, é alvo de nova denúncia do Ministério Público  

Por Julia Affonso e Fausto Macedo, no Estadão:
O ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque foi denunciado novamente pela força-tarefa da Operação Lava Jato, desta vez por suposto favorecimento à empresa italiana Saipem, de serviços de petróleo, na contratação da obra de instalação do Gasoduto Submarino de Interligação dos Campos de Lula e Cernambi. Foram denunciados também advogada Christina Maria da Silva Jorge e os empresários João Antônio Bernardi Filho, Antônio Carlos Briganti Bernardi e Julio Gerin de Almeida Camargo. Todos por corrupção e lavagem de dinheiro.

 “João Bernardi (representante da Saipem) atuou lavando dinheiro proveniente de crimes de corrupção em favor de Renato de Souza Duque, mediante a utilização das contas das empresas Hayley S/A e Hayley do Brasil para o recebimento e posterior internalização dos valores provenientes de crime. A Hayley do Brasil, por sua vez, ocultava e dissimulava o pagamento de vantagem indevida a Renato de Souza Duque por intermédio da aquisição e posterior destinação de obras de arte ao ex-diretor”, aponta denúncia da Procuradoria.

A nova denúncia, a terceira contra Duque, é um desdobramento da Erga Omnes, 14.ª fase da Lava Jato, deflagrada em 19 de junho, que prendeu inclusive os maiores empreiteiros do País, Marcelo Odebrecht e Otávio de Azevedo Marques.

Na ocasião, foi preso também João Bernardi, executivo ligado à Saipem. Duque é apontado como elo do PT no esquema de pagamento de propinas na Petrobrás. Ele teria sido indicado ao cargo pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (Governo Lula), que nega. O ex-diretor da Petrobrás foi preso após a Polícia Federal flagrar a tentativa dele de ocultar patrimônio não declarado na Suíça por meio da transferência de 20 milhões de euros para uma conta no Principado de Mônaco. Duque já é réu em duas ações penais da Lava Jato.

A nova denúncia será submetida ao juiz federal Sérgio Moro, que vai decidir se abre mais um processo criminal contra o ex-diretor de Serviços da estatal.

 

Por Reinaldo Azevedo
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados