Blogs e Colunistas
Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles. (Dylan Thomas — Tradução de Mário Faustino)

23/06/2014

às 23:42

Já corrigi

No texto sobre o histórico dos confrontos entre Brasil e Holanda, eu havia escrito: “Em Copas do Mundo, perdemos duas (1994 e 1998) e ganhamos duas (1974 e 2010)”. O certo, como alertaram muitos leitores, é o contrário: “Em Copas do Mundo, ganhamos duas (1994 e 1998) e perdemos duas (1974 e 2010)” — como a sequência do próprio post deixa claro. Não muda nada no raciocínio do texto, mas esses são os fatos. Poderia simplesmente corrigir o erro, sem chamar a atenção pra ele. Mas aí este blog não seria este blog, certo? Sou grato a todos aqueles que apontaram a inversão, já corrigida no original.

 

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 23:16

Adeus, Sarney!

Ai, ai… Lá vamos nós. Como vocês sabem, José Sarney inventou um Estado do qual ele pudesse ser senador: o Amapá. Foi a sua turma que forçou a mão na Constituinte de 1988 para que houvesse a mudança de status do então território. Em 1991, instalou-se o Estado, o político maranhense estabeleceu lá o seu domicílio eleitoral — o que é piada porque, obviamente, nunca morou na região —, elegeu-se um dos senadores e permanece nessa condição até agora, já no seu terceiro mandato. Antes disso, sua carreira toda foi feita no Maranhão, até que a Presidência da República lhe caiu no colo, vocês sabem como. Nesta segunda, fez o anúncio oficial de que não vai disputar a eleição neste ano. A decisão está sendo vendida por sua turma como uma espécie de descanso do guerreiro. Obviamente, não é disso que se trata.

Sarney só está largando o osso porque não conseguiria, vejam que vexame!, se reeleger no Amapá. Não é o guerreiro que decidiu se aposentar da luta; é o povo que decidiu aposentá-lo. A situação no Estado, apesar dos esforços de Lula, está conflagrada. O chefão petista tenta impor o apoio do PT a Waldez Goes, do PDT, que é homem de Sarney, mas o PT quer manter a aliança com o governador Camilo Capiberibe, do PSB. A petista Dora Nascimento, vice-governadora, afirma que não há acordo com o grupo do ainda senador. Vamos ver. Não se esqueçam de que Lula quebrou o PT maranhense para impor a aliança com Roseana. Sarney encomendou pesquisas e chegou à conclusão de que não conseguiria se reeleger.

A presidente Dilma esteve em Macapá nesta segunda para entregar unidades do programa Minha Casa Minha Vida. Estava devidamente escoltada pelo velho político. Esses eventos, como vocês sabem, têm hoje o público rigidamente controlado pela turma do Planalto. Mesmo assim, Sarney foi vaiado cinco vezes.

Pior: Capiberibe estava no palanque e fez um discurso francamente hostil ao senador. Anunciou que as ruas do conjunto habitacional receberiam nomes de pessoas que lutaram contra a ditadura, como Miguel Arraes, avô do presidenciável Eduardo Campos, Leonel Brizola e Vladimir Herzog, entre outros. Parece que citou também Carlos Marighella — aí já vira homenagem a assassino, né? Mas fazer o quê?

Referindo-se indiretamente a Sarney, mandou brasa: “É preciso lembrar e reverenciar os que ousaram lutar. A senhora [dirigia-se a Dilma] lutou e pagou um preço alto. Existem aqueles que se aliaram aos ditadores, não podemos esquecer, o Brasil não pode esquecer, senão, poderemos voltar a viver aqueles anos tristes”.

Sarney, cujo grupo, se a eleição fosse hoje, perderia também no Maranhão — o favorito é Flávio Dino, do PCdoB — ouviu tudo calado. Resta-lhe agora criar má literatura de ficção, no que ele é bom, para tentar fazer parecer um ato de vontade sua o que é vontade do povo. Chegou a hora de ir para casa. O homem exerce cargo púbico desde 1955. Já está bom, né? Nesses 59 anos,  aprendemos a que vieram os Sarneys. O Maranhão, o Estado com os piores indicadores sociais do país, embora não exiba a seca que caracteriza o agreste nordestino, também sabe. E os maranhenses conhecem o atraso literalmente na carne.

A pior obra de Sarney, acreditem, não é a literária. Adeus!

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 21:04

PM de SP põe ordem onde governo federal estimula a desordem. Ou: De advogados ativistas e passivistas…

Agora, sim! Está de parabéns a Polícia Militar de São Paulo. Atuou para impedir que aquela turma com quem Gilberto Carvalho confessa manter diálogo saísse quebrando tudo por aí. Fez-se o cordão de isolamento — num ato esvaziado —, e nada de mais grave aconteceu, conforme informa reportagem da VEJA.com (leia post anterior). Houve algumas escaramuças, claro! Afinal, essa gente já se acostumou a jogar até rolo de papel higiênico na cara de ministro, como fez com Gilberto Carvalho. Por que iria respeitar a autoridade policial?

No meio da confusão, um membro de um curioso grupo chamado “Advogados Ativistas” foi preso portando drogas. Não está claro se foi pelo porte, em si, ou se o bagulho foi encontrado na hora da revista, depois de confronto com forças policiais.

O que são “advogados ativistas”? Não sei. Devem ser os parceiros ideais dos “advogados passivistas”, uma coisa, assim, Roberto Carlos, compreendem?, de “côncavo e convexo”. Até porque, no que concerne às leis, conheço dois tipos de advogados: os que respeitam a legislação que temos e os que não respeitam. Há também dois tipos de açougueiros, de jornalistas, de dentistas… Já de bandidos, só os há de um tipo: os que ignoram as leis e os que as transgridem, compreendem?

Quem gosta de dialogar com esse último grupo, está posto, é o ministro Gilberto Carvalho. Ainda voltarei a esse valente. A Polícia Militar cumpriu a sua tarefa e promoveu a ordem onde o governo federal promove a desordem.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 20:48

PM retoma tática e protesto termina sem ocorrências

Por Felipe Frazão, na VEJA.com:
Após o rastro de destruição deixado por vândalos no último protesto em São Paulo, na quinta-feira, a Polícia Militar retomou nesta segunda-feira seu protocolo para acompanhar o ato marcado na Avenida Paulista contra a Copa do Mundo. A exemplo de outras manifestações em que foi adotada, a tática se mostrou eficaz e impediu depredações do patrimônio público e privado.

Marcado para começar pouco antes do jogo da seleção brasileira, o ato desta tarde foi esvaziado. Segundo a PM, duzentas pessoas participaram de uma passeata que acabou restrita à região da Paulista. A PM não informou quantos homens destacou para monitorar o ato, mas o efetivo de policiais era visivelmente maior do que o número de manifestantes. A PM também voltou a usar a estratégia de montar cordões de isolamento para cercar a marcha, o que inibe atos de vandalismo e facilita a identificação dos marginais mascarados.

O único momento de tumulto ocorreu no final do ato quando homens do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), que procuram black blocs identificados no quebra-quebra de quinta-feira passada, tentaram abordar alguns manifestantes. Um deles, Rafael Marques, já conhecido da polícia – ele havia sido preso no ato contra a abertura da Copa –, foi novamente detido. Houve corre-corre e um policial chegou a disparar tiros para o alto. Antes de começar a passeata, um integrante do grupo Advogados Ativistas, que costuma acompanhar os black blocs nos protestos e dar suporte jurídico a eles, foi preso por porte drogas. Ele foi levado para o 78º Distrito Policial, na Zona Sul de São Paulo.

Brasília e Porto Alegre
Uma manifestação contra a Copa do Mundo marcada em Brasília terminou minutos antes do início do jogo entre Brasil e Camarões, às 17 horas. O protesto reuniu cerca de cem pessoas e seguiu sem incidentes em todo o trajeto. A Polícia Militar montou uma barreira para impedir que a passeata chegasse ao Estádio Nacional Mané Garrincha, onde ocorreu a partida. Em Porto Alegre, cem pessoas se reuniram no centro da capital gaúcha e foram acompanhadas de perto por um efetivo de mil policiais militares. O protesto terminou sem incidentes.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 20:41

O jogo da Seleção, ainda ruim, e a cascata de que seria melhor pegar a Holanda. Os números desmentem essa bobagem de maneira cabal

Já que alguns comentadores de futebol falam besteiras espantosas sobre política, eu, que comento política, procurarei dizer coisas sensatas sobre futebol. O Brasil melhorou bastante no segundo tempo, com a saída de Paulinho e a entrada de Fernandinho, que fez um dos gols. Pois é… Paulinho, cuja ausência desmontou o meu Corinthians, não está bem.

A Seleção jogou direitinho, vamos ser sensatos, a partir da segunda metade do segundo tempo, com Ramires no lugar de Hulk, outro que ainda não se encontrou. A melhor formação é a que encerrou o jogo, com Neymar no time, é evidente (foi substituído por William). O craque brasileiro foi o melhor em campo.

O que incomoda? A mim, o de sempre nas três partidas: não consigo ver as jogadas que compõem o repertório de Felipão. A Seleção Brasileira depende excessivamente do talento e do brilho inegáveis de Neymar. E não me venham com a cascata de que assim é porque, como o jogo converge pra ele, nada mais acontece. Errado! É o contrário: como nada acontece, o jogo converge pra ele. Fred fez gol, sim, mas a sua atuação foi medíocre. Ainda se faz notar mais pelo bigode.

Em primeiro lugar na chave em razão do saldo de gols, o Brasil enfrenta o Chile. Numa entrevista no fim do ano, Felipão afirmou que preferiria outra seleção, nem que fosse a Holanda, porque o jogo dos chilenos “não se encaixa” com o do Brasil. Não entendo o que quer dizer. Tudo sempre pode acontecer no futebol, inclusive a Espanha sofrer um vexame histórico, mas só a esfera mística explica por que o Brasil deveria se assustar mais com o Chile do que com a Holanda — que é o que aconteceria se o Brasil tivesse ficado em segundo.

Vamos ver:
a) nosso histórico contra os chilenos é muito melhor;
b) no confronto direto, a Holanda bateu o Chile nesta segunda por dois a zero;
c) jogador a jogador, a seleção holandesa é muito melhor.

“Ah, mas o Brasil pode perder do Chile…” Até pode. Tudo pode. Se isso se der, não saberemos o que teria acontecido contra a Holanda porque estaremos fora. Entre amistosos e jogos da Copa, os brasileiros já jogaram 11 vezes com os holandeses. O resultado impressiona. Querem ver?

Em Copas do Mundo, ganhamos duas (1994 e 1998) e perdemos duas (1974 e 2010). O saldo de gols nesses quatro jogos, no tempo regulamentar, é favorável à Holanda: 7 a 5. Nota: em 1998, o Brasil venceu nos pênaltis (4 a 2) porque empatou no tempo regulamentar. Isso quer dizer que, no jogo propriamente, o Brasil tem apenas uma vitória, e a Holanda, 2.

Houve sete amistosos entre os dois países: quatro empates, duas vitórias do Brasil e uma da Holanda. Considerados os noventa minutos dos 11 jogos, os dois países têm, portanto, três vitórias cada um, com cinco empates. E cada time marcou 15 gols.

E contra o Chile?
Bem, o Brasil já jogou 66 vezes contra o Chile. Venceu 46 partidas (70%), empatou 13 (20%) e perdeu 7 (11%). Em Copas do Mundo, encontraram-se três vezes: o Brasil venceu as três. A nossa Seleção marcou 154 gols (73%) e tomou 57.

Assim, misticismo à parte (Felipão até usa agasalho num calor escaldante porque é amuleto, diz ele…), não há por que preferir enfrentar a Holanda nas oitavas de final em vez do Chile. Essa história de que, com esse resultado contra Camarões, o Brasil acaba enfrentando uma seleção que Felipão considera “muuuito difícil” tem cheiro de cascata, né? Pode até valorizar uma eventual vitória, mas não faz o menor sentido.

“Ah, é, Reinaldo Azevedo? E se perder?” Bem, se perder, ficará claro que Felipão é melhor como místico do que como técnico. Simples.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 16:53

Carvalho esteve com os black blocs várias vezes antes da Copa e até foi alvo de um rolo de papel higiênico. E reagiu “numa boa”. Então tá!

É claro que ainda voltarei a este assunto. Acabo de ler na Folha aquela que me parece ser a informação mais importante do ano: o ministro Gilberto Carvalho — sim, ele mesmo! — esteve com os black blocs. Confessou isso a Natuza Nery. Sim, o ministro Gilberto Carvalho queria fazer um acordo com os black blocs. Sim, enquanto os brasileiros eram vítimas da ação desses criminosos, Carvalho estava batendo um papinho com eles. Leiam. Comento mais tarde. O ministro também comenta a reação ao decreto bolivariano, o 8.243. Escreverei um texto específico a respeito. Fica claro que houve várias reuniões. O ministro que se escandaliza porque Dilma foi xingada num estádio levou um rolo de papel higiênico na cara e reagiu “numa boa”. Então tá. Pouco antes de a Seleção Brasileira entrar em campo para enfrentar Camarões, esta potência do futebol mundial, segue uma confissão do Carvalho.
*
Esperava que a discussão do decreto de conselhos populares fosse trazer tanta polêmica?
Nem de longe. Até porque ele não muda nada a realidade de hoje. Apenas organiza aquilo que está acontecendo. É justamente esse clima de ódio que levou a uma interpretação açodada de chavismo. E me assusta muito a desinformação, uma distorção brutal. A participação popular está prevista na Constituição e tem feito bem para o país. Políticas como o SUS, Lei Maria da Penha, Prouni, ficha limpa. Este decreto não fere em nada o Poder Legislativo. Acho que vai ser um tiro no pé derrubar o decreto, pois vai na contramão das manifestações de junho. Espero que o Congresso, ao invés de gastar energia para votar contra, assuma papel de vanguarda de abrir um debate com a sociedade.

O sr. esteve no “ninho” ‘black bloc’?
No esforço de diagnóstico, conseguimos um pouco antes da Copa, um contato em São Paulo com um grupo de pessoas que são partidários da tática ‘black bloc’.

Partiu de vocês?
Foi, nós buscamos. Nós procuramos abrir o debate nas 12 sedes da Copa para aqueles que eram contra a Copa. E em muitas cidades a reação deles foi muito explícita ao mundial. Numa das reuniões, um menino jogou um rolo de papel higiênico e disse: isso aqui é o ingresso de vocês para a Copa.

Como o sr. reagiu?
Na boa. Fiz que o gesto não existiu. Foi importante conversar com eles porque me dei conta que é uma filosofia que eu chamaria anárquica que tem a convicção de uma violência praticada pelo Estado através das omissões nos serviços públicos e denuncia muito a violência policial na periferia, com aquela história de que, na periferia, as balas não são de borracha, são metálicas e letais. E que a única forma de reagir contra essa violência é também com a violência, que eles dizem que não é contra pessoas, mas contra símbolos e objetivos. Por isso escolhem bancos e concessionárias de carros importantes. É uma velha tática de criar um foco e tentar atrair a atenção imaginando que vai atrair a simpatia, o apoio e o engajamento das pessoas. Essa é a tese.

O que vocês disseram a eles?
Que essa tática os isola. Que essa tática em grande parte contribuiu para a desmobilização das manifestações. Então acho que eles estão completamente equivocados, e cabe a nós procurar mostrar esse equívoco.

O clima foi tenso?
Muito tenso, mas não violento, respeitoso até. Porque havia um acordo de conversa. Para eles, o PSOL e o PSTU são conservadores, são à direita, e nós somos traidores, aqueles que enganam as pessoas com reformas que não vão trazer nenhuma mudança.

Houve algum acordo?
Nenhum. Não tinha como dar acordo. Mas foi importante como aprofundamento do diagnóstico e mostrar que é possível conversar. As reações sempre muito iradas, adjetivadas.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 16:24

Dilma lançará o Minha Casa, Minha Vida 3, sua última cartada antes da campanha

Por Gabriel Castro, na VEJA.com. Ainda voltarei a esse assunto:
A presidente-candidata Dilma Rousseff lançará a poucos dias do início oficial da campanha eleitoral no país a terceira fase do programa Minha Casa, Minha Vida. A legislação eleitoral determinou o próximo dia 5 de julho como data da largada das campanhas. ”Quem não teve ainda acesso à casa própria pode ficar tranquilo: nós vamos lançar nacionalmente, ou no dia 1º ou no dia 2 de julho, o Minha Casa Minha Vida 3. Isso vai ser muito importante porque as pessoas que não tiveram acesso à casa própria vão ter a sua oportunidade”, afirmou Dilma, em Macapá, onde entregou 2.148 casas.

A intenção de lançar a terceira etapa para o Minha Casa, Minha Vida já era planejada desde o início do ano pelo governo, mas faltava a data de início do programa. O anúncio oficial deve ser a última grande cartada de Dilma antes de começar a campanha à reeleição. “Acabamos com o apagão habitacional que existia no Brasil”, disse ela.

A exemplo das eleições de 2010, o programa habitacional é uma das apostas do PT na campanha. Como a maior parte das obras fica a cargo da iniciativa privada, o governo investe relativamente pouco e obtém resultados significativos. A meta do Palácio do Planalto é contratar três milhões de imóveis na próxima etapa do Minha Casa, Minha Vida. Mas, como não será possível chegar perto desse número na atual gestão, a continuidade do programa vai ser usada por Dilma para pedir votos para pedir um segundo mandato. Até o fim de 2013, o Minha Casa, Minha Vida 2 tinha 2,2 milhões de imóveis contratados. A expectativa do governo era firmar mais 500.000 contratos até o fim deste ano.

Campanha
Dilma aproveitou mais uma vez a cerimônia de entrega de moradias em Macapá para fazer campanha no Estado e afirmou que o Brasil “precisa atender às demandas das Regiões Norte e Nordeste”. ”Só em água, esgoto e saneamento básico o investimento aqui é de 398 milhões de reais”, disse. A presidente afirmou que o governo também destinou 500 milhões de reais para a BR-156 e voltou a destacar a importância da construção da linha de transmissão Tucuruí-Macapá-Manaus. “Essa linha traz consigo outro benefício que é a fibra ótica e, portanto, a banda larga, a inclusão digital e o acesso à internet”, afirmou.

Dilma disse ainda que determinou que seja publicado o edital de construção do terminal do aeroporto de Macapá, com a melhoria de pistas e pátio. “Com isso, vamos ampliar a capacidade do aeroporto dos atuais 900 mil passageiros para 4,5 milhões de passageiros”, afirmou. A presidente destacou a importância da parceria com a prefeitura de Macapá para obras de mobilidade urbana e disse que ao todo R$ 132 milhões foram destinados para a construção de 15 quilômetros de corredores de ônibus, dezesseis terminais, além da reforma dos já existentes. “Construímos também 93 ciclovias”, completou.

Em seu discurso, Dilma disse também que o governo tem investido bastante em saúde e educação, pois são “áreas fundamentais na vida das pessoas”. “Colocamos aqui recursos para trinta creches, sendo dez na capital”, afirmou. A presidente disse ainda que o Amapá “deu um show” de inscrições do Pronatec. “Proporcionalmente, o Amapá tem um dos melhores desempenhos. Temos 66 mil amapaenses fazendo, ou que já fizeram, cursos de formação profissional”, destacou.

Ela aproveitou ainda para defender o programa Mais Médicos na região. “O Mais Médicos aqui também está sendo um sucesso. Os dezesseis municípios que solicitaram receberam 126 médicos, de um total de 127. Esse único que falta chega até o final do mês e aí vamos chegar a 100%”, explicou. “Tenho certeza de que fizemos muito e tenho uma certeza ainda maior de que temos muito ainda por fazer.”

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 16:14

PMDB do Rio dá o troco ao PT, que o traiu de forma miserável

Pois é… O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), conseguiu fechar uma aliança com o PSDB, do presidenciável Aécio Neves. E fez muito bem. É uma resposta consequente ao comportamento do PT no Rio, que, não há outra palavra, traiu seu aliado no Estado e optou pelo voo solo, com o senador Lindbergh Farias, que vai concorrer ao governo.

Que fique claro: o principal alvo do candidato petista no Estado é a gestão de Sérgio Cabral, considerado um aliado incondicional — e foi mesmo — até outro dia. É curioso: o PT reclama do comportamento de Eduardo Campos, que já foi ministro de Lula e agora dá combate a Dilma nas eleições. É mesmo? E o que os petistas fizeram com o PMDB no Rio? Ora, o PT permaneceu com cargos no governo do Estado por mais tempo do que Campos no governo federal. Não só isso: o candidato do PSB não terá, por óbvio, o tempo do PT, mas o PT terá o tempo nacional do PMDB.

A resposta é, sim, bem dada. O PT, e isto não é segredo para mim, não costuma dar muita atenção às necessidades de seus aliados; trata-os como expressões de segunda grandeza e não está nem aí. Se achar que é hora de rifá-los, rifa-os sem pestanejar. E foi o que fez com Cabral, o político brasileiro que mais sofreu com as manifestações iniciadas em junho do ano passado. Seu comportamento pessoal, em muitos aspectos, convenham, não ajudou — a começar pelo uso que dava ao helicóptero oficial, passando, antes, pela dança do guardanapo. E vai por aí. Mas não é menos evidente que sua gestão não justifica o massacre pelo qual passou.

O PT colaborou para isso. Quando menos, negou-se a se comportar como força de contenção. Ao contrário: liberou as bases no Rio — que não são grandes, mas são barulhentas — para o “Fora Cabral”. Em nenhum momento, NUNCA!, os petistas condenaram, por exemplo, a violência das manifestações. Ao contrário: o partido assistiu ao circo pegando fogo de olho na eleição de outubro próximo.

Ora, se o PT decidiu cuidar de seu próprio interesse, por que o PMDB não podia fazer o mesmo? Aconteceu um lance inesperado na política local: Sérgio Cabral decidiu retirar sua candidatura ao Senado (estava em primeiro nas pesquisas), abriu mão em favor de Cesar Maia (DEM), e se fez o acordo, então, com o Democratas e os tucanos. O acordo com o PSB já havia sido selado.

É “suruba partidária” ou “bacanal”, como já se disse por aí? É, sim. Mas o governo federal, por acaso, pratica algo mais moral e decente do que isso? Não parece, não é? Faz-se de outro modo nos outros Estados? Não. É claro que o sistema está chegando à esclerose. Eu, por exemplo, lá no passado remoto, em 2006, fui favorável à chamada verticalização, que impedia essa bagunça. Decisão do TSE, que valeu para aquele ano, obrigava os partidos a reproduzir nos Estados a aliança nacional. Mas o Congresso a derrubou.

Por outro lado, cumpre notar: com a facilidade que tem o governo federal para comprar — literalmente — o apoio de partidos, distribuindo, em troca, cargos na administração federal e nas estatais, a não-verticalização impede a formação do PUP: o Partido Único do Poder.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 15:38

Pezão avisa: Dilma perdeu exclusividade em palanque no Rio

Na VEJA.com:
Depois de, durante vários meses, anunciar que faria campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), admitiu pela primeira vez nesta segunda-feira que seu palanque “vai ser com os três candidatos à Presidência da República”, deixando claro que também haverá espaço para o tucano Aécio Neves e para o candidato do PSC, pastor Everaldo. Pezão disse que sua relação com Dilma está “acima das questões partidárias” e tem “muito carinho” por ela, mas abriu a possibilidade de adversários da presidente também participarem de sua campanha.

“Tenho falado com ela: não fomos nós que rompemos a aliança com o PT no Rio depois de sete anos e três meses. Continuo tendo meu relacionamento com a presidente Dilma acima das questões partidárias, a aliança não prescreve. Tenho muito carinho pela presidente, mas a política tem esse dinamismo”, afirmou Pezão em entrevista conjunta na qual recebeu apoio do DEM, do PSDB e do PPS.

Na mesma ocasião, o ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) foi lançado candidato ao Senado na chapa de Pezão. Aliado de Aécio Neves, Maia fortaleceu a campanha do tucano no Rio, já que fará campanha na chapa majoritária por Aécio presidente. “Vou fazer campanha para o senhor, estufar a veia do pescoço. O mesmo trabalho que vou fazer para a minha campanha farei para o senhor em todos os municípios”, disse Pezão a Cesar Maia, também presente na entrevista.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 15:32

Visita de Harry à Cracolândia prova que programa de Haddad é mesmo “coisa para inglês ver”. Ou: A patrulha da “Quadrilha da Fumaça”. Ou ainda: não é ódio; é vergonha!

Príncipe Harry se atrapalha ao tentar entrar no carro, depois de uma noite de folguedos

Príncipe Harry se atrapalha ao tentar entrar no carro, depois de uma noite de folguedos

Que gente chata!

A “Esquadrilha da Fumaça” — ou melhor, a “Quadrilha da Fumaça” — resolveu encher o meu saco por causa do post em que trato da visita do príncipe Harry à Cracolândia. Alguns cretinos, que têm os dedos mais rápidos do que o pensamento, me acusam de insinuar que ele já consumiu drogas. Eu não insinuei nada, não. Eu afirmei mesmo.

Posso até ser insinuante, mas num outro sentido, hehe. E só para público restrito. Que é que há? Não se pode mais fazer ironia? Daqui a pouco, os consumidores de drogas vão querer que a lei os proteja também de ironias e metáforas; daqui a pouco, o Artigo 1º da Lei 7.716 vai ficar assim:
“Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, orientação sexual, consumo de drogas, aparência, time de futebol e contra viúvas que tomam Chicabon ainda no cemitério”

Esse trecho em vermelho não está na lei, mas é questão de tempo. O que vai em destaque é uma homenagem à viúva sem sofrimentos imaginada por Nelson Rodrigues. Vão se danar! Não tarda o dia em que será possível fazer piada apenas com Schopenhauer, Heiddeger e física quântica. Só faremos graça para PhDs. E, ainda assim, para aqueles que tiverem conseguido se safar da estupidez politicamente conveniente. O mais asqueroso é que existem alguns grupos de humor que, ainda que de modo oblíquo, estão flertando com a censura… Basta saber interpretar. Desde que seja a censura aos outros. É a porta da frente do fascismo de esquerda.

Sim, eu disse que é preciso tomar cuidado com Harry na Cracolândia porque ele é da turma do “chifre furado”. Referia-me, claro, ao fato, entre outros, de que ele precisou ir para uma clínica de reabilitação aos 17 anos: excesso de consumo de álcool e maconha. Isso, por si, não faz dele um mau sujeito, mas também não me impede de achar divertido quando ele decide visitar uma área livre para o consumo de drogas. Sua família, à época, preferiu interná-lo a soltá-lo numa arena em que tudo era permitido.

Ademais, como disse o vereador Andrea Matarazzo (PSDB), a visita do príncipe à Cracolândia prova que o programa “Braços Abertos”, do prefeito Fernando Haddad (PT), é mesmo “coisa para inglês ver”. A visita, claro!, vai “render mídia”. Haddad, o Supercoxinha, ao lado de um membro da família real inglesa. Podre de chique! À volta, os pobres desgraçados da Cracolândia. Aquele comentador de futebol acha que tenho ódio dessa turma. Não é ódio, não!, é vergonha mesmo! 

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 6:56

LEIAM ABAIXO

Eita! Gilberto Carvalho diz, de novo!, que José Trajano, da ESPN, e seus melancias às avessas da Disneylândia estão errados: não foi a “elite branca de SP” que vaiou Dilma! Ministro, no entanto, ignora os fatos para constranger a imprensa;
O último truque da marquetagem: opor o “sucesso da Copa” à antevisão dos “pessimistas”. Ou: Dilma é melhor para estrangeiros do que para brasileiros;
Em favor do “Aezão”, Cabral desiste do Senado; César Maia será o candidato;
E a Cracolândia, quem diria?, agora virou ponto turístico da nobreza europeia. Chega a ser asqueroso! É o jeito como a esquerda trata a miséria…;
O decreto bolivariano de Dilma e a farsa dos conselhos “populares”;
— Os últimos dias do PT no poder: a hipótese otimista e a pessimista;
—  PT lança Dilma, reconhece que campanha será dura e multiplica ataques à oposição;
— No dia em que PT oficializa Dilma, quem tem uma boa notícia é Aécio. Ou: O bloco hegemônico está rachando;
— PTB confirma rompimento com Dilma e apoio a Aécio;
— Chefão petista se irrita com “Repórteres Sem Fronteiras” porque entidade defende liberdade de imprensa;
—  “Repórteres sem Fronteiras”, a mais importante entidade internacional de proteção ao trabalho de jornalistas, critica “a lista do PT” de “inimigos da pátria”. O mundo, ao menos, está atento à escalada autoritária. Ajudem a divulgar o texto;

— Trajano ofende os espectadores da ESPN, sente a reação do SEU PÚBLICO e decide culpar os outros; com medo de perder o emprego, posa de vítima e diz que estou querendo fechar a emissora! Então vamos ver;
— Passe Livre é só a versão mascarada dos black blocs;
— As orientações de Reinaldo Azevedo sobre um certo Trajano

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 6:41

Eita! Gilberto Carvalho diz, de novo!, que José Trajano, da ESPN, e seus melancias às avessas da Disneylândia estão errados: não foi a “elite branca de SP” que vaiou Dilma! Ministro, no entanto, ignora os fatos para constranger a imprensa

gilberto carvalho mãos

Nunca tratei aqui Gilberto Carvalho (foto), secretário-geral da Presidência, como o meu homem público predileto, como sabem. Já o critiquei bastante, o que também é notório. Mas há uma coisa sobre ele que eu nunca disse — porque não acho: que seja burro. Não é mesmo! Ao contrário. Eu o conheço faz tempo, desde quando ele era o braço-direito de Celso Daniel, em Santo André — ele me conhece também —, e sei que é muito inteligente, ainda que sua inteligência seja posta a favor de teses que abomino. Daí que esteja tentando consertar a burrada que alguns companheiros seus — inclusive os da imprensa — andaram fazendo quando afirmaram que os xingamentos e vaias a Dilma, no Itaquerão, são coisa da “elite branca de São Paulo”. Carvalho, que está certo neste particular, concorda, ora vejam, com Reinaldo Azevedo: ele acha que isso é mentira! Parabéns, ministro! Também acho. Mas ele aponta essa mentira por maus motivos, o que vou explicar daqui a pouco.

Em entrevista a Natuza Nery, na Folha desta segunda, Carvalho repete o que dissera na quarta em entrevista aos blogueiros chapas-brancas, que fazem os chamados “blogs sujos”, financiados pelo governo federal e por estatais. Segundo ele, esse negócio de culpar a elite branca é “um erro de diagnóstico”. E, com acerto, afirma: “Quando você não tem um bom diagnóstico, não tem um bom remédio”. É o que escrevi na quinta neste blog e comentei, no mesmo dia, na Jovem Pan. Carvalho chega a citar o show do Rappa, lembrado por mim num post de 15 de junho, a saber: na madrugada do dia 1º, o público que acompanhava o show do grupo em Ribeirão Preto já havia premiado a presidente Dilma com os mesmos xingamentos que se ouviram no Itaquerão. Segue o vídeo para quem ainda não viu.

Trajano desolado
Desolados com essa avaliação do chefão petista devem estar o tal José Trajano, da ESPN, e sua equipe de melancias às avessas da Disneylândia: vermelhos por fora e verdinhos por dentro. O comentador de futebol não só acha que as vaias decorreram da elite branca de São Paulo como afirmou, vejam vocês!, que tanto a manifestação como os protestos de que a própria emissora foi alvo partem dos leitores de Reinaldo, eu mesmo, Demétrio Magnoli, Augusto Nunes e Diogo Mainardi.

Carvalho é mais do que um prosélito vulgar, desses que saem por aí puxando o saco do governo para ganhar seu rico dinheirinho. Ele é um articulador do poder. Se interessa a um governo a fama de amigo dos negros, dos índios, dos chamados “oprimidos”, não interessa a de inimigo dos “brancos”. É preciso ser muito imbecil para cair nessa conversa — que, reitero, começou na imprensa, muito especialmente na ESPN. Parte do PT, inclusive Lula, adotou a tese em seguida.

O Planalto dispõe de pesquisas e sabe que Dilma não ganhou um miserável voto com isso. Aquela história de que o xingamento tinha sido bom para a presidente, que chegou a ser veiculada em alguns jornais, era mentirosa. E Carvalho confessa isso mais uma vez.

“Ah, Reinaldo, então o ministro está, desta vez, com uma boa tese?” É claro que não! Na entrevista à Folha, a exemplo do que disse para os blogs sujos, ele insiste na existência de uma espécie de conspiração da mídia contra o governo e contra o PT, o que é mentira. Esse complô é que seria responsável pelas manifestações contra o governo.

Essa tese do complô está na raiz da iniciativa do partido de criar uma lista negra de jornalistas. De resto, trata-se de uma bobagem autoevidente: afinal, o PT está no seu terceiro mandato e tem boas chances de emplacar o quarto, o que lhe daria 16 anos ininterruptos de poder. Das duas uma: ou esses supostos conspiradores são muito incompetentes, ou o governo sabe vencê-los com facilidade. Num caso ou noutro, então, não deveriam preocupar ninguém.

A verdade é que há milhões de pobres e remediados — brancos, pretos e pardos — descontentes com o governo por sua própria conta. Carvalho sabe disso. Só não o admite porque, entre as suas tarefas, está constranger a imprensa e jogá-la na defensiva para que o partido lucre com o seu esforço — o da imprensa — de provar que ele está errado. E quem não cai na sua conversa e não tenta provar que é inocente do crime que não cometeu vai parar numa lista negra.

Texto publicado originalmente às 4h40
Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 5:41

O último truque da marquetagem: opor o “sucesso da Copa” à antevisão dos “pessimistas”. Ou: Dilma é melhor para estrangeiros do que para brasileiros

É fabuloso. Recebo no blog centenas de comentários por dia — coisa de gente que é paga para molestar os outros na Internet — me cobrando porque eu teria escrito que a Copa do Mundo seria uma catástrofe. É mesmo? Eu? Escrevo neste blog e na Folha de S.Paulo e faço comentários no Jornal da Manhã, na Jovem Pan, onde também tenho um programa diário: “Os Pingos nos Is”, que vai ao ar entre 18h e 19h. Está em recesso justamente por causa dos jogos da Copa. Volta ao ar na próxima sexta. Muito bem! Tudo o que escrevo e falo está em arquivo. Tentem encontrar uma só fala ou um só texto meus antevendo o desastre. Não há. Porque nunca achei. Ao contrário: cheguei a alertar que esse negócio de “Não Vai Ter Copa” era coisa de imbecis. Porque, por certo, haveria Copa, e a força do espetáculo se imporia, ainda que com contratempos — que existem.

Cheguei a esculhambar na Jovem Pan uma reportagem da revista alemã Der Spiegel, que fez uma abordagem que me pareceu absolutamente equivocada sobre a Copa, sugerindo, ainda que sem querer, que esse negócio de estádios muito sofisticados não era compatível com a realidade brasileira. Como meus leitores e meus ouvintes estão cansados de saber, jamais me encantaram os protestos de rua, desde junho do ano passado. Boa parte deles abrigou manifestações francamente criminosas, da extrema esquerda e de grupelhos de radicaloides que estão a precisar é de pais severos que lhes puxem as orelhas e lhes cortem as mesadas.

Estamos, isto sim, é diante de mais uma jogada dos marqueteiros do poder e de seus braços na imprensa. Agora saem por aí a dizer: “Estão vendo? Os pessimistas estavam errados. A Copa é um sucesso!” É claro que o evento, em si, seria bem-sucedido. Era preciso ser muito abestado para dizer que não. O ponto é outro. Ou: os pontos são outros.

As benfeitorias permanentes que viriam junto com a Copa do Mundo chegaram em proporções muito modestas. Além dos estádios e da privatização dos aeroportos, há pouco a comemorar. Aliás, tanto o torneio de futebol como a Olimpíada serviram, isto sim, para tirar o governo de sua tacanhice ideológica e obrigaram Dilma a privatizar parte do setor aeroportuário, o que ela e o PT se negavam a fazer. Nesse sentido, aquilo que os petistas não fizeram para servir aos brasileiros, viram-se obrigados a fazer para atender aos estrangeiros.

ATENÇÃO! EU ACHO QUE DILMA É UMA PRESIDENTE MELHOR PARA OS ESTRANGEIROS DO QUE PARA OS BRASILEIROS, ENTENDEM? O PT, felizmente, se envergonha diante dos turistas e, infelizmente, não se envergonha diante do povo. Até outro dia, tínhamos de ouvir a cascata imoral de que havia muita gente reclamando da situação dos aeroportos porque estava incomodada com a presença de pobres.

Não havia como a Copa, em si, ser um fiasco. O que é decepcionante para os poderosos de turno — e bom para o país — agora, sim, é outra coisa: o governo não está conseguindo faturar politicamente com o evento. Afinal, Dilma não consegue discursar num estádio, não é mesmo? Recebe vaias e xingamentos até quando não está presente.

Segundo o planejado, a esta altura, a presidente deveria estar vivendo o momento da apoteose, com a popularidade nas alturas, caminhando para um mero ritual homologatório na eleição de outubro. E isso não vai acontecer. No meio da competição, o PTB, um partido da base, muda-se para o lado do candidato do PSDB, Aécio Neves. O PMDB do Rio, como se viu neste domingo, rachou, para valer, e vai fazer a campanha “Aezão” — isto é, vai apoiar o peemedebista Luiz Fernando Pezão para o governo do Estado e Aécio para a Presidência. Outras seções do partido não endossarão a candidata petista.

Assim, tudo vai bem com a Copa em si e relativamente bem com o seu entorno. Ruim para o governo é outra coisa: a população aprendeu a distinguir o evento em si da questão política. Quando essas duas coisas se misturam, ainda é contra os interesses do Planalto. Dilma deveria estar no auge de sua força. E, por enquanto, ela está perdendo apoio, não ganhando. Com ou sem o sucesso da competição.

 

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 3:06

Em favor do “Aezão”, Cabral desiste do Senado; César Maia será o candidato

Por Daniel Haidar, na VEJA.com. Comento em outro post.
O ex-governador Sérgio Cabral e seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, vão continuar posando ao lado da presidente Dilma Rousseff em eventos públicos no Rio de Janeiro. Mas não há mais sombra de dúvida sobre o interesse e a atuação dos dois em favor do movimento ‘Aezão’, que alinha interesses do PMDB fluminense, empenhado na reeleição de Pezão, e da candidatura tucana do senador Aécio Neves ao Palácio do Planalto. O ex-governador desistiu, neste domingo, de concorrer ao Senado, e abriu assim caminho para que o Aezão seja concretizado. A desistência era necessária para ceder a vaga na chapa liderada pelo PMDB ao ex-prefeito Cesar Maia, do DEM, que apoia Aécio Neves e tinha a candidatura ao governo como primeira opção.

A desistência de Cabral ocorre um dia depois de o deputado federal Romário (PSB) ser oficialmente lançado como o candidato ao Senado da chapa PT/PSB/PCdoB/PV. A deputada federal Jandira Feghali, que também almejava o cargo na composição, cedeu o lugar para o ex-jogador de futebol, como condição para os socialistas ingressassem na aliança fluminense liderada pelo PT.

Na última pesquisa eleitoral, feita pelo Ibope entre 7 e 11 de junho, a situação entre os pré-candidatos era de empate técnico. Cabral tinha 26% das intenções de voto, Romário, 22%, e Jandira, 20%. A margem de erro é de 3 pontos porcentuais, para mais ou para menos. Ainda não houve confirmação oficial sobre o que fará Cabral a partir de agora, mas um dirigente partidário que acompanhou as negociações disse ao site de VEJA que Cabral optou por se dedicar à coordenação de campanha de Pezão. A tendência natural era de uma candidatura à Câmara dos Deputados, para servir de puxador de votos para a bancada do PMDB. Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador, deve permanecer candidato a deputado federal. Se o pai se candidatasse, Marco Antônio concorreria a deputado estadual.

O fim da candidatura ao Senado de Cabral será comunicado oficialmente nesta segunda-feira, em entrevista coletiva, no centro do Rio, às 10h. Devem estar presentes Cesar Maia, o novo candidato da chapa liderada pelo PMDB, Jorge Picciani, presidente do PMDB no Rio, e o deputado estadual Luiz Paulo Corrêa, presidente do PSDB no Rio.

A adesão de PSDB, DEM e PPS à campanha de Pezão adiciona mais de quatro minutos de tempo de propaganda na televisão ao candidato do PMDB. A coligação formal com o PMDB também permite que Aécio e Pezão apareçam juntos em material de campanha de candidatos do PSDB, do PMDB e de partidos aliados localmente. Embora Pezão continue a dizer publicamente que fará campanha por Dilma, fica mais provável a partir desta segunda-feira que Aécio participe de atos de campanha com o governador do Rio. “A partir de amanhã, o palanque do Pezão é do Aécio e da Dilma”, afirmou um líder partidário que acompanhou as negociações.

A convenção do PSDB neste domingo, que decidiria sobre a coligação com o PMDB, teve caráter apenas protocolar e formalmente adiou a deliberação. Na verdade, a decisão foi tomada em reunião no apartamento de Aécio com a presença de Picciani e de Maia. Na reunião partidária na Câmara Municipal do Rio, 92% dos 163 delegados repassaram à Comissão Executiva Estadual do PSDB a decisão de aderir à coligação formal com o PMDB. Deste modo, embora já esteja decidido pela cúpula tucana e pelos Democratas, a aliança deve ser oficializada na próxima sexta-feira, de acordo com o presidente do PSDB no Rio, Luiz Paulo Corrêa da Rocha.

A reunião dos tucanos no Rio serviu apenas para oficializar a coligação proporcional PSDB/PPS, para os cargos de deputado federal e deputado estadual, e deixou que a Comissão Executiva Estadual delibere posteriormente se inclui o DEM na aliança, o que deve acontecer, de acordo com Corrêa da Rocha.

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 1:52

E a Cracolândia, quem diria?, agora virou ponto turístico da nobreza europeia. Chega a ser asqueroso! É o jeito como a esquerda trata a miséria…

Há coisas que são indecentes em si; que não têm conserto. Príncipe Harry — o ruivo, que não lembra a Família Real Britânica — começa nesta segunda uma visita ao Brasil. Trata-se, informa o Itamaraty, de uma viagem privada, que começa por Brasília. Na cidade, ele vai conhecer o Centro Internacional de Neurorreabilitação Sarah. Depois, assiste à partida entre as Seleções do Brasil e de Camarões. Também passará por São Paulo. E, consta, a seu pedido, quer ir à Cracolândia. O prefeito Fernando Haddad (PT) vai levá-lo para conhecer o programa “Braços Abertos” — também conhecido como “Bolsa Crack”.

Os príncipes são assim mesmo. Entediados com a vida castelã, procuram terras ignotas para conhecer coisas estranhas. Que bonito! O inferno de São Paulo agora virou ponto turístico para distrair a nobreza europeia. Cuidado, hein!? Harry pertence àquele lado da Família Real que tem, como a gente diz no interior, o “chifre furado”. Vai que se encante com esse pedaço do território brasileiro que é regido por leis próprias, onde bobagens como a Constituição e o Código Penal não valem…

Não conheço nada mais essencialmente imoral do que miséria que se transforma em ponto turístico, sejam os morros do Rio, a periferia de São Paulo ou, no caso extremo, a Cracolândia.

Por incrível que pareça, a esquerda e seus congêneres regrediram moralmente. Já falei aqui sobre essa canção e volto ao assunto. Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri compuseram um clássico da música de protesto na década de 60 — acho que foi em 1964 mesmo. A música se chama “O Morro”, mas ficou conhecida como “Feio não é bonito”. Vale a pena ouvi-la na voz de Nara Leão. Volto em seguida.

Voltei
A letra está aqui:
Salve as belezas desse meu Brasil
Com seu passado e tradição
E salve o morro cheio de glória
Com as escolas que falam no samba
Da sua história.

Feio, não é bonito
O morro existe
Mas pede pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza
E só o que se tem pra contar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente
E nunca se deixa quebrar
Ah, ama, o morro ama
Um amor aflito, um amor bonito
Que pede outra história
Salve as belezas desse meu Brasil
Com seu passado e tradição
E salve o morro cheio de glória
Com as escolas que falam no samba
Da sua história

Feio, não é bonito
O morro existe
Mas pede pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza
E só o que se tem pra contar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente
E nunca se deixa quebrar
Ah, ama, o morro ama
Um amor aflito, um amor bonito
Que pede outra história

Pois é… Dá para perceber o sotaque de certa demagogia redentora na letra, é inescapável. Mas ainda é mais decente do que a atual abordagem que boa parte das esquerdas — em companhia dos deslumbrados “progressistas” — dispensa à pobreza, que foi transformada num novo saber, numa estética particular e até numa ética peculiar. O ponto alto dessa abominação na TV é o tal “Esquenta”, de Regina Casé, a expressão mais rastaquera da antropologia populista. É o asfalto endinheirado deitando seu olhar supostamente tolerante e compassível sobre a pobrada. É asqueroso!

Para a “nova” esquerda brasileira, o feio é bonito, sim! E tem de ser mostrado ao mundo, como acontece com os passeios turísticos de estrangeiros pelas favelas pacificadas e, agora, com a visita do príncipe à Cracolândia.

Com a devida vênia, uma ocorrência como essa é a expressão mais acabada da falta de vergonha na cara. E ponto!

Por Reinaldo Azevedo

23/06/2014

às 1:45

O decreto bolivariano de Dilma e a farsa dos conselhos “populares”

Por Daniel Jelin, na VEJA.com:
Um dos argumentos de quem defende o decreto bolivariano de Dilma Rousseff – o de número 8.243, que estimula todos os órgãos da administração federal a abrigar conselhos de “representantes da sociedade civil” – é que o Brasil já conta com milhares de entidades desse tipo, em todas as camadas de governo. É verdade. Mas a experiência acumulada nesses fóruns não é nada animadora: eles têm muito pouco de “democrático” e um conceito bem particular do que seja “sociedade civil”.

O decreto foi assinado por Dilma há um mês. A pretensão de que uma “política nacional de participação social” pudesse ser implementada pelo Executivo numa canetada causou forte reação no Congresso. Oposição e base aliada ameaçaram barrar o decreto, mas o governo promete resistir. Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência e czar dos movimentos sociais no Planalto, alega questões de princípio (o desejo de “fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas”), mas, num ano eleitoral, é evidente o propósito de cooptar ou recooptar sindicatos, ONGs e outras organizações sociais para o projeto petista.

Febre dos conselhos
A multiplicação dos conselhos é um fenômeno induzido pela Constituição de 1988, numa aparente tentativa de reparar o déficit democrático de um país recém saído da ditadura. De 1930 a 1989, segundo o Ipea, foram criados apenas cinco conselhos federais no Brasil. Nos 20 anos seguintes, surgiram mais 26. Atualmente, são 40 – incluindo as comissões. Por exigência legal ou simplesmente inspirados nos colegiados federais, Estados e municípios também foram tomados por essa “febre conselhista”. Segundo o IBGE, 5553 cidades têm conselhos de saúde, 3784 do meio ambiente e 976 da mulher (dados de 2013); 1231 de política urbana, 5527 de assistência social, 1507 de segurança alimentar, 357 do transporte, 1798 da cultura e 642 da segurança pública (dados de 2012); 4718 da educação, 3240 da habitação e 195 do saneamento (dados de 2011).

O formato mais comum de conselho não chega a ser uma jabuticaba, mas é bastante peculiar. O governo dá forma ao conselho, define suas funções e indica aproximadamente metade dos conselheiros. A escolha dos demais representantes é prerrogativa de ONGs, sindicatos e associações variadas, muitas delas direta ou indiretamente cacifadas pelo governo. É discutível quem representa o que nesses órgãos, mas é fato que o cidadão comum não tem palavra: não vota, nem pode ser votado. A participação, portanto, é indireta.

No papel
Os poderes de cada conselho variam bastante, de acordo com a força das entidades que atuam no setor e a disposição do governo em atendê-las. Os menos institucionalizados mal saem do papel. Segundo levantamentos do IBGE, a taxa de conselhos municipais que não tiveram uma única reunião nos 12 meses anteriores à pesquisa é de: 30% para segurança pública, 29% para transportes, 28% para política urbana e para direitos da mulher, 27% para habitação e segurança alimentar e 25% para cultura.

Já os conselhos mais institucionalizados podem ser bastante influentes. É o caso do Conselho Nacional do Meio Ambiente, um dos colegiados mais enraizados na máquina federal. É certo que o Conama não legisla, mas o que se delibera por lá tem ampla repercussão – e eventualmente força de lei. O Conama é notório pelo grande número de conselheiros: 108. São mais cadeiras do que o Senado (81) ou a Assembleia Legislativa de São Paulo (94). É um verdadeiro congresso, de fato, com “bancadas”, “frentes” e “oposição”. Não espanta que a maioria dos conselheiros (54%) aponte como principal entrave as “questões políticas alheias à agenda do Conselho”, segundo sondagem do Ipea de 2010. Uma evidência das facções do conselho: na mesma pesquisa, três resoluções são simultaneamente citadas por conselheiros como as mais positivas e as mais negativas do Conama.

Currículo e representatividade
Há gente séria no Conama, indicada por entidades idem. O problema não é exatamente currículo, mas representatividade. Os estados têm todos o mesmo peso, uma única vaga. Regiões também, cada qual com duas cadeiras para os ambientalistas e uma para representar as prefeituras. Cada ministério, cada secretaria e cada uma das Forças Armadas têm uma vaga garantida. Ibama, centrais sindicais, Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental e Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) também. Empresas têm oito lugares. Tudo somado, o governo tem folgada maioria (72% das vagas).

Em entrevistas ao Ipea, a grande maioria dos conselheiros do Conama se gaba de contribuir para a melhoria da gestão ambiental e de manter constante contato com o segmento que diz representar. No dia a dia, a história é outra. Dos 108 representantes titulares, só 10 compareceram às três reuniões plenárias de 2014. Na última, uma convocação extraordinária para concluir o encontro anterior encerrado por falta de quórum, havia apenas 26 titulares. E, embora haja dois suplentes para cada titular, 38 cadeiras ficaram vazias. Por faltar repetidamente, três representantes perderam temporariamente o direito a voto. “É decepcionante demais”, conta um dos poucos conselheiros assíduos, para quem o órgão atravessa uma crise de legitimidade. “O Conama parou.”

“Voando”
Os assuntos do Conama nem sempre são fáceis de acompanhar. Um dos temas que mais ocuparam o conselho, e cujas indefinições ajudam a explicar o esvaziamento das plenárias, são os desdobramentos da lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, e do decreto que a regulamentou (criando, de quebra, mais dois comitês…). Um dos titulares com seguidas faltas no Conama reconhece não entender o que “o pessoal das ONGs” discute por lá. “Eu passo o dia ‘voando’”, admite.

Não é só no Conama que os conselheiros passam o dia “voando”. Segundo pesquisa do Ipea de 2013 com mais de 700 conselheiros da administração federal, a maioria deles (61,5%) está convicta de que os temas abordados são compreendidos apenas parcialmente pelo colegiado, e 6,7% acham que os assuntos simplesmente não são assimilados. Nos órgãos que lidam com questões de infraestrutura e recursos naturais, apenas 18,9% afirmam que os assuntos discutidos são plenamente entendidos no conselho.

Dominado
A “governança da internet”, da qual o governo federal subitamente descobriu se orgulhar, é um exemplo de como os mecanismos de participação social podem ser distorcidos. Criado em 1995, o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) é o órgão encarregado de formular diretrizes para a tal governança. Foi de lá que saíram as linhas gerais do Marco Civil da Internet – bem traçadas, diga-se. Desde 2003, o CGI.br segue aproximadamente o desenho previsto no decreto de Dilma: sociedade civil e governo encontram ali representações “paritárias” – na verdade a sociedade civil tem um peso pouquinho maior, 11 a 9 cadeiras. Tanto os atos da secretaria como a escolha de seus membros passam por processos “públicos” e “transparentes”, uma vez que ganham divulgação no próprio site do CGI.br.

A eleição do CGI.br tem a fórmula da maioria dos conselhos: só as entidades pré-cadastradas participam. Segundo as regras do comitê, essas associações devem ter CNPJ e dois anos de atividade – em comparação, o decreto 8.243 é bem mais temerário, prevendo a participação de “coletivos, movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações”, o que seria absolutamente impossível de fiscalizar.

A última eleição, em fins de 2013, demonstrou a fragilidade desse modelo. Para surpresa e mal estar do comitê, o colégio eleitoral foi subitamente dominado por cooperativas de pequenos agricultores, associações comunitárias e assentamentos da Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte com pouca ou nenhuma ligação com os temas do comitê. De 234 entidades inscritas, pelo menos 130 provinham dos grotões. O candidato mais votado por esta sociedade civil preside uma ONG de inclusão digital em João Pessoa (PB), não enxerga manipulação no processo eleitoral e diz que os concorrentes fazem o mesmo: “fui mais eficiente”. Com algum idealismo, pode-se torcer para que a próxima eleição seja mais disputada, diluindo esse tipo de distorção. O risco mais palpável, contudo, é o de afastar do comitê os representantes, digamos, menos atirados.

Panaceia
As limitações dos conselhos não significam, é claro, que não haja inteligência na chamada “sociedade civil organizada” ou que a única forma de participação democrática seja o processo eleitoral. Mas sua adoção não pode ser deslumbrada – ou ardilosa, como o decreto 8.243. O cientista social Rafael Cortez, da consultoria Tendências, lembra que “participação social” não é panaceia para aumentar a eficiência das políticas públicas – uma medida decidida por muitos “participantes” nem sempre é sábia.

Uma função que esses colegiados poderiam desempenhar com alguma eficácia é a de servir como uma espécie de câmara de eco das políticas públicas. Com isso, os gestores não precisam esperar as eleições para sondar as expectativas dos diversos setores da sociedade e conhecer a repercussão de uma iniciativa. A maioria dos conselhos no Brasil, contudo, vai muito além: eles efetivamente têm poder de decisão, o que exige desenhos institucionais muito mais cautelosos. Para tanto, Cortez alerta, os colegiados devem primar pela prestação de contas, para que o restante da sociedade possa monitorar as decisões tomadas, e pela total independência entre as partes, para impedir a cooptação das entidades.

Mais controle
É verdade, como disse o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que o decreto não cria conselhos. Mas é um incentivo e tanto. O texto manda que todo órgão e entidade da administração federal, direta e indireta, “considere” sua adoção – ou a de outra instância prevista no texto (comissões, conferências, “mesas” etc). Seja qual for o resultado desta “consideração”, o texto prevê relatórios anuais sobre a implementação desta “política nacional de participação social”.

E quem “aconselha” os “conselheiros”? A resposta, pelo que se entende do decreto, é: o próprio Gilberto Carvalho. Cabem à sua secretaria “orientações”, “coordenações” e “avaliações” do programa, por meio dos palavrosos Sistema Nacional de Participação Social, Comitê Governamental de Participação Social e Mesa de Monitoramento das Demandas Sociais, todos de franca inspiração bolivariana. O que se pode esperar desse sistema é mais “controle social”, diretriz fixada no decreto e pretensão declarada de um a cada quatro conselheiros da administração federal. O que se entende por “controle social” não é consenso entre acadêmicos. Mas já se sabe o que o PT pensa disso, a julgar por sua cruzada para patrulhar a imprensa por meio de certo “controle social da mídia”.

Pretexto
Essa multiplicação de conselhos populares por decreto pode satisfazer as panelinhas do terceiro setor, incrustando de ONGs a máquina pública; pode atender às conveniências do Planalto, amansando os movimentos sociais em ano de eleição; pode corresponder aos devaneios dos “conselhistas”, para quem os colegiados são um fim em si mesmo; pode até, é claro, resultar em um ou outro conselho funcional. Mas nada disso tem a ver com “aprofundar a democracia” – que é, como se sabe, o pretexto dos autoritários para subverter o regime.

Por Reinaldo Azevedo

22/06/2014

às 6:31

LEIAM ABAIXO

Por Reinaldo Azevedo

21/06/2014

às 20:54

Os últimos dias do PT no poder: a hipótese otimista e a pessimista

O PT realizou a sua convenção nacional neste sábado (post anterior) e oficializou a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Ela vai ganhar? Ela vai perder? Não sei. Seja como for, estamos assistindo a um capítulo do fim de um ciclo. Se o PT tiver mais um mandato, o que espero que não aconteça, vai se arrastar no poder pelos próximos quatro anos, como um cadáver adiado. Não tem mais nada a oferecer ao país. Restará torcer para Dilma terminar o mandato sem uma crise de proporções gigantescas.

Acabou! Os petistas não têm mais futuro a oferecer. E explico o que quero dizer com isso. Um partido não tem de estabelecer com a sociedade uma relação de doador e donatário de benesses. Até porque a riqueza que se distribui tem de ser produzida por alguém — e, por certo, não é pelos partidos, não é mesmo? Quando afirmo que o petismo não tem mais “futuro” a oferecer, refiro-me à perspectiva de mudanças que possam efetivamente melhorar a vida dos brasileiros no médio e no longo prazos, fazendo deles mais do que pedintes e beneficiários de migalhas.

O repertório do PT se esgotou. Os programas sociais estão aí, em curso, mas a gestão não sabe como conciliar, em proporções ao menos razoáveis, crescimento econômico, combate à inflação e juros civilizados. Ao contrário: a realidade se tornou perversa, descompensada: inflação e juros altos para crescimento baixo. O que restou ao PT? Justamente a relação viciada de doador e donatário.

Para que esse discurso convença, é preciso demonizar o outro; transformá-lo na fonte de todos os males do Brasil e da política, a exemplo do que se viu, mais uma vez, neste sábado. A convenção petista, dados os discursos que lá se  fizeram — inclusive o da presidente —, oferece aos brasileiros apenas um debate sobre o passado. Lula, ele mesmo, foi bastante explícito a respeito. Convidou os presentes para a dialética do obscurantismo. Disse ser preciso convencer os eleitores que tinham 7, 8 anos quando o PT chegou ao poder e hoje estão com 19, 20. Afirmou que é preciso lhes dizer que quão ruim era o país…

Ocorre que só havia país em 2003 porque os tucanos haviam chegado ao poder em 1995 e porque o PT perdeu a guerra contra o Plano Real. Só havia país em 2003 porque havíamos vencido a batalha contra os fatores estruturais da hiperinflação. Só havia país em 2003 porque havíamos vencido a batalha em favor da privatização, que dotou o país de infraestrutura em setores essenciais. Quem, em 2002, votava pela primeira vez, aos 16, 17, 18, tinha de 8 a 10 em 1994, quando o plano foi implementado. A propósito: uma pessoa que nasceu em 1986 era uma criança no ano do Real, está hoje com 28, é um adulto, e não sabe o que é um país com hiperinflação. E só não sabe porque o PT foi derrotado em 1994 e 1998 e porque teve de jogar fora o seu programa para se eleger em 2002.

A disputa sobre o passado, como a propõe o partido, é essencialmente desonesta; é intelectualmente vigarista, porque define o adversário como um monopolista do mal e se coloca como um monopolista do bem. “E os adversários do PT? Não fazem o contrário?” Não. Desconheço quem lastime ou reprove a ampliação de programas sociais que o partido levou adiante no poder. Podem não ser, e não são, a resposta para todos os males, mas se trata de um ativo que a legenda tem — e reconhecido por todos. O PT, no entanto, é incapaz de admitir que é uma realidade derivada da estabilidade econômica contra a qual lutou. “Fez isso porque era mau?” Não! Porque, em razão de preconceitos ideológicos, não reconhecia seus instrumentos como válidos. E estava, obviamente, errado.

Agora o país chegou a um nó que requer mais do que o tatibitate redistributivista do PT. E a turma não sabe o que fazer. Está ilhada em seus próprios preconceitos e sua falta de alternativa. Daí que pretenda fortalecer essa fachada de grande doador de benesses, acusando o adversário de verdugo das causas sociais. Como resta pouco a oferecer no terreno da doação, os petistas repetem a sua propaganda de TV, inventam um passado que não existiu e o colocam como uma sombra a ameaçar o futuro.

Na convenção, em suma, o PT apelou a um passado que não houve para capturar as pessoas para um futuro que, com o PT no poder, jamais haverá. Não sei se vai funcionar. Caso seja bem-sucedido, depois de uma luta difícil — o que o obrigará a multiplicar o “promessismo” —, uma coisa é certa: será a última vez. O PT está por pouco: na hipótese otimista, seis meses. Na pessimista, quatro anos e meio. E aí o país se liberta de uma formidável teia de mistificação. Até poderia se cobrir de glórias. Mas, para tanto, teria de ser um defensor incondicional da democracia. O partido que faz lista negra de jornalistas, no entanto, gosta mesmo é de ditadura. “Ah, mas não é um ditador!” É só porque não pode, não porque não queira.

PS: Será que aquele comentador de peladas acha este um texto que “espalha o ódio”, escrito para “leitores fanáticos”?

Por Reinaldo Azevedo

21/06/2014

às 20:00

PT lança Dilma, reconhece que campanha será dura e multiplica ataques à oposição

Por Gabriel Castro, na VEJA.com. Comento no próximo post.
A Convenção Nacional do PT que marcou o lançamento de Dilma Rousseff à reeleição revelou o quanto os petistas estão preocupados com a possibilidade de derrota na disputa pela Presidência. Os discursos se concentraram mais em ataques aos adversários do que em propostas para um segundo mandato. A convenção, realizada em Brasília, teve a presença dos principais nomes do partido e foi aberta com um coro de crianças cantando uma música que pedia “mais futuro em nossa vida”. O primeiro a discursar foi o presidente do PT, Rui Falcão. Ele anunciou oficialmente a indicação de Dilma Rousseff para a reeleição, ao lado do peemedebista Michel Temer como vice.

Em seu discurso, a própria Dilma tratou de criticar o governo que se encerrou doze anos atrás: “Antes, o Brasil se defendia das crises de uma forma extremamente perversa, arrochando o salário dos trabalhadores, aumentando as taxas de juros a níveis estratosféricos, aumentando o desemprego, diminuindo inteiramente o crescimento e vendendo o patrimônio publico”, disse ela, que continuou: “Não fui eleita para mendigar dinheiro do FMI, porque não preciso”. Para o segundo mandato, a presidente anunciou algumas propostas antigas, não cumpridas no primeiro mandato, como a revisão do pacto federativo, a popularização da banda larga e o esforço pela realização da reforma política. “Precisamos de mais oito anos para construir uma obra à altura dos sonhos do Brasil”, afirmou.

Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais aplaudido do que Dilma, demonstrou preocupação com os jovens e pediu que os militantes se esforcem para conquistar o voto dos mais novos: “Quem tinha seis ou oito anos doze anos atrás não tem obrigação de saber tudo o que nós fizemos”, disse ele. Lula também disse que nunca se desentendeu com a sucessora durante os quatro anos de governo. “É possível criador e criatura viverem juntos em harmonia”, afirmou. A convenção reuniu centenas de militantes e autoridades petistas em um centro de convenções de Brasília. No ato, planejado pelo marqueteiro João Santana, apenas quatro pessoas discursaram: Dilma, Lula, o vice-presidente Michel Temer e o presidente do PT, Rui Falcão. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, foi vaiado quando entrou no palco.

Ataques
Rui Falcão fez um discurso sintomático, uma amostra do que será o tom da campanha petista: como se o PT fosse oposição e não governo, ele gastou mais tempo atacando os adversários e os governos do PSDB do que falando dos méritos da gestão Dilma. Pediu que a militância retomasse o espírito de 1989 e atacou o “neoliberalismo”.

“Não vamos permitir retrocessos, nem a volta a um passado de recessão, arrocho e desemprego, cuja figura-símbolo, antes condenada ao ostracismo pelos parceiros, agora ressurge como guru nas convenções dos tucanos”, disse o petista, em referência a Fernando Henrique Cardoso. Rui Falcão admitiu a dificuldade da vitória: “Já se tornou lugar comum dizer que esta eleição será a mais dura, a mais difícil de todas. E os fatos mostram que sim”, disse.

Corroborando as palavras do petista, no meio da convenção o PTB, um dos partidos da base aliada, anunciou o rompimento com o governo e a adesão à campanha de Aécio Neves.

Por Reinaldo Azevedo

21/06/2014

às 19:13

No dia em que PT oficializa Dilma, quem tem uma boa notícia é Aécio. Ou: O bloco hegemônico está rachando

O PTB rompeu com a candidatura da presidente Dilma Rousseff e anunciou, neste sábado, seu apoio ao tucano Aécio Neves. É claro que se trata de um fato importante — e por várias razões. Começo pela básica: o partido tem 1min15s no horário eleitoral gratuito. Isso significa que a desproporção ainda brutal entre os tempos do PT e do PSDB diminuiu em 2min30s — o tempo que ela não terá será dele. Há pouco mais de um ano, a impressão que se tinha era a de que haveria um candidato do PSDB, com apoio do DEM e do PPS, contra o resto. O cenário mudou bastante.

Em segundo lugar, mas não em ordem de importância, estamos diante de mais uma fratura da base — e já há muitas. Vejam o caso do PMDB: o tempo acabou ficando com a petista, mas é certo que o partido não caminha unido para a disputa. O apoio a Dilma contou com a adesão de apenas 59% dos convencionais — em 2010, de 84%.

O PSC, que terá como candidato Pastor Everaldo, também já integrou a base governista. Não apoiará Aécio no primeiro turno; vai de candidatura própria — e, até agora ao menos, fala uma linguagem francamente de oposição. Aliás, se levarmos em conta o discurso da legenda, é o mais abertamente oposicionista porque faz uma contestação também ideológica do regime. Everaldo está longe de ser o brucutu que muitos gostariam que fosse. Ao contrário: tem um discurso articulado, coerente, fundamentado. Tem entre 3% e 4% dos votos. Se ficar só nisso, estamos falando de um potencial de mais de 5,5 milhões de eleitores. Mas acho que ainda deve crescer. Pode ter uma importância fundamental num segundo turno. E não vejo como o eleitorado de Everaldo migraria para Dilma no segundo turno,

O PSD também estará com Dilma na coligação federal, mas não é segredo para ninguém que o partido não marcha unido com a candidata porque existem as realidades regionais. Em São Paulo, por exemplo, o mais provável ainda é um acordo com o PSDB. Aliás, no estado do maior eleitorado do país, o PMDB terá um candidato a governador, Paulo Skaf, que vai terçar armas com um petista e que não mobiliza um eleitorado exatamente favorável a Dilma.

No chamado “presidencialismo de coalizão”, como há no Brasil, a menos que governos façam gestões catastróficas (é evidente que catástrofe não temos nem corremos o risco de ter até outubro), a troca de guarda só se dá quando há divisões no bloco do poder e quando algumas forças se desgarram do grupo hegemônico. Tomemos 2002 como referência. É claro que houve circunstâncias derivadas da gestão propriamente que levaram à vitória do PT. Mas teve peso decisivo o fato de o então poderoso PFL ter decidido romper com o PSDB. Hoje, seria o correspondente de o PMDB cair fora da aliança com o PT.

Como reconhecem os próprios petistas (post anterior), o rompimento não é bom para o governo. Quando menos, estimula outros a fazerem o mesmo, oficial ou extraoficialmente. De 2002 para cá, esta será a eleição mais difícil para o PT. Parte do desespero e da violência retórica que tomam conta do partido deriva daí.

Pior: a direção do partido, hoje, deve estar ouvindo menos um João Santana, que sabe que a estridência doidivanas atrapalha, do que um Franklin Martins, que continua com sangue nos olhos e ainda não desistiu de se vingar da demissão da Globo — daí a obsessão de controlar a mídia. Transformou em política uma questão pessoal.

Não sei se Dilma ganha ou perde; sei que não será fácil. E sei também que o PT está velho e não percebeu que o país mudou bastante nos últimos tempos. A velha guerra do “nós” contra “eles” encontra hoje uma população bem mais desconfiada, que já percebeu que, quando o partido fala “nós”, isso não a inclui. O “nós”, de fato, para o homem comum, soa cada vez mais como “eles”.

Arremato
Viram? Será que eles não gostam de mim porque espalho o “ódio”? Mentira!! Eles não gostam de mim porque escrevo textos como este.

Por Reinaldo Azevedo
 

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