Blogs e Colunistas
Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles. (Dylan Thomas — Tradução de Mário Faustino)

26/08/2014

às 16:44

Nota do PSB é uma admissão oblíqua de crime eleitoral

O PSB prometeu explicar hoje o imbróglio do avião. Não explica nada e, na prática, admite caixa dois. Não é verdade que a prestação de contas só deveria ser feita ao fim da campanha. Leiam o primor:
*
O Partido Socialista Brasileiro esclarece:
 
A aeronave de prefixo PR-AFA, em cujo acidente faleceu seu presidente, Eduardo Henrique Aciolly Campos, nosso candidato à presidência da República, teve seu uso — de conhecimento público — autorizado pelos empresários João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho e Apolo Santana Vieira.
 
Nos termos facultados pela legislação eleitoral, e considerando o pressuposto óbvio de que seu uso teria continuidade até o final da campanha, pretendia-se proceder à contabilização ao término da campanha eleitoral, quando, conhecida a soma das horas voadas, seria emitido o recibo eleitoral, total e final.
 
A tragédia, com o falecimento, inclusive, de assessores, impôs conhecidas alterações tanto na direção partidária quanto na estrutura e comando da campanha, donde as dificuldades enfrentadas no levantamento de todas as informações que são devidas aos nossos militantes e à sociedade brasileira.
 
Brasília, 6 de agosto de 2014
 
Roberto Amaral, presidente Nacional do Partido Socialista Brasileiro
Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 16:30

PSDB, PSB, Marina, Aécio, FHC…

Em entrevista à Folha, na segunda, Eduardo Giannetti, um dos cardeais do marinismo, afirmou que, se eleita, Marina Silva gostaria de contar com o apoio dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Não tardou para que recebesse um aceno do tucano. Num seminário de que participou na própria segunda, FHC reagiu à fala de Giannetti com um sinal de assentimento, ainda que de forma oblíqua: afirmou que gostaria de contar com Marina num eventual governo Aécio.

Ora, se a gente for pôr o devido pingo no “i”, parece que o ex-presidente está, sim, a dizer que a parceria é possível, ainda que ele imagine outro cenário, com Aécio Neves liderando, então, essa nova composição.

Ocorre que as coisas não são exatamente como parecem, não é mesmo? Caso Marina Silva dispute um segundo turno com Dilma Rousseff, dá-se de barato que a esmagadora maioria do eleitorado de Aécio migraria para a candidata da Rede. Mas não se tem como plausível que os marineiros convictos votassem em Aécio no caso de ser ele a disputar a etapa final com a petista.

Não dá para esquecer o comportamento de Marina na eleição de 2010? Ela ficou em terceiro lugar, conseguindo mais de 20 milhões de votos. E, como se considera diferente dos demais políticos, manteve-se neutra: para ela, tanto fazia a vitória de Dilma ou de José Serra. Caso tivesse optado por um dos lados, isso não significa que seu eleitorado a tivesse seguido, mas seria um sinal de aposta na mudança de rumo. Mas ela não o fez.

Assim, vejam que curioso: Marina ascende no primeiro turno com o discurso “nem tucanos nem petistas”, mas conta mesmo é com os votos dos tucanos no segundo turno, certo?

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 16:16

Uma suave “TPP”: Tensão Pré-Pesquisa

Lembram-se daquele tempo em que os mercados reagiam mal à possibidade de mudança no cenário eleitoral? Há muito tempo já, temos o contrário: eles reagem bem é quando surge a perspectiva de uma troca de guarda no governo.

Nesta terça, o país poderia estar sofrendo os efeitos de um mal chamado “TPP”, a Tensão Pré-Pesquisa. Existem, sim, apreensão e expectativa, como sempre, mas os augúrios do mercado são otimistas porque se avalia que o cenário eleitoral será contrário a Dilma Rousseff.

A aposta é que Marina aparecerá no Ibope tecnicamente empatada com a presidente, talvez ligeiramente atrás nos números — estamos falando de um intervalo entre 28% e 32%. Diz-se que o tucano Aécio Neves pode se conservar no patamar dos 20%. Aumenta o otimismo de quem lida com expectativas o boato de que Marina aparecerá à frente de Dilma no segundo turno.

Esse governo conseguiu uma espécie de unanimidade contrária dos agentes econômicos.

Se, antes, a possibilidade de ascensão de Aécio é que trazia certa euforia, agora, todos já se animam com Marina mesmo, por mais que ela possa ser considerada ainda uma incógnita.

Isso é curioso: mercados são, por natureza, conservadores. Por mais que não gostem de determinadas regras, lidam com elas: repudiam é a imprevisibilidade. No governo Dilma, deu-se um curioso fenômeno, talvez único no mundo: o imprevisível estaria na preservação do governo, de tal sorte que os agentes econômicos preferem uma Marina ou um Aécio, ainda que não saibam exatamente o que eles pretendem fazer se eleitos, a uma Dilma que já conhecem.

Parece que uma tragédia pode, sim, até ajudar a eleger Marina. Mas, independentemente de qualquer coisa, tem-se a impressão de que o governo padece de fadiga de material.

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 15:55

Querem transferir a inimputabilidade de um Silva para… outra! Ou: A cara beata da mentira

Marina Silva, candidata do PSB à Presidência, disse que o partido daria hoje uma explicação sobre o avião em que voavam, rotineiramente, Eduardo Campos e ela própria. Já está claro a esta altura: não haverá explicação nenhuma. Era caixa dois e pronto, já que os custos com a aeronave não aparecem na prestação de contas do partido ao Tribunal Superior Eleitoral. Eis aí a “nova política”. Marina, nesta segunda, já tinha dito palavras incompreensíveis a respeito. Ao anunciar que viria uma resposta nesta terça, afirmou:
“Queremos que sejam dadas as explicações de acordo com a materialidade dos fatos, e, para termos a materialidade dos fatos, é preciso que haja tempo necessário para que essas explicações tenham as devidas bases legais”.

O que isso quer dizer? Nada! O PSB, então, está em busca de uma justificativa legal que consiste no seguinte: o CNPJ usado pelo comitê financeiro de Eduardo Campos era um — e a esse comitê vão tentar atribuir todas as irregularidades. Um novo foi criado para o comitê de Marina, e este, então, estaria limpo.

Caso prospere mesmo essa saída, a “nova política” de Marina já começa assentada numa fraude, que não é de tão fácil tradução para milhões de eleitores. Está tudo errado: parece que a inimputabilidade de que Lula gozou na política por muitos anos está mudando de Silva: de Luiz Inácio Lula da Silva para Marina Silva. Ou por outra: mudam-se os Silvas, mas não a impunidade.

O PSB agora vem com a cascata de que caberá ao comitê antigo explicar por que o avião voava no caixa dois. Conta de quem conhece a área (ver post anterior) calcula o custo mensal do avião Cessna PR-AFA em US$ 200 mil mensais — algo em torno de R$ 460 mil. De onde vinha esse dinheiro? Pois é…

As explicações que se ensaiam beiram o patético. Um dirigente do PSB disse ao jornal O Globo: “Um acordo de boca pode ter ocorrido, e isso é absolutamente aceito juridicamente. O contrato também poderia estar no avião. Onde você guarda os documentos do carro? Trabalho com a ideia de um contrato de comodato oneroso”. É estupefaciente! O partido diz que o avião foi uma doação de empresários… É mesmo? De quais empresários?

A legislação eleitoral exige que a toda doação corresponda a emissão de um recibo, seja o benefício em dinheiro ou estimável em dinheiro. Tais recibos devem ser emitidos no ato do recebimento da doação, o que pode ser feito diretamente no Sistema de Prestação de Contas Eleitorais do TSE.

Afirmar que Marina Silva não era beneficiária de um avião cujos donos se desconhecem e cujo financiamento se dava no caixa dois vai além do cinismo: é uma fraude também moral, uma mentira.

Então ficamos assim: Marina Silva ainda nem foi eleita e já tentam esconder óbvias ilegalidades — que se transferem, sim, para a sua candidatura — com sofismas, cinismo e suposto e tosco legalismo, com a história de que “o CNPJ é outro”. Fosse assim, um partido poderia cometer uma penca de crimes até se tornar viável. Depois, bastaria eliminar a primeira equipe e substituí-la pela segunda.

A “nova política” de Marina, a seguir esse roteiro, é só a cara beatífica da velha mentira.

 

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 15:20

Quem conhece aviação faz as contas do custo do avião sem dono do PSB

Gonçalo Osório, leitor do blog, que conhece aviação, faz as contas do custo do avião sem dono do PSB. Leiam:

“Para sua informação: esse avião, quando voava para a área de São Paulo, ficava “hangarado” no Japi Aeronaves, no aeroporto de Jundiaí. O aluguel mensal de espaço para um avião desse porte, nesse aeroporto, é de cerca de 15 mil por mês, mas talvez só pagasse fração. Quando pousava em Congonhas e outros aeroportos maiores, como Pampulha, Brasília, Recife, Santos Dumont etc, esse avião era servido pela Líder, que presta serviços como coordenação de abastecimento, plano de voo, catering, reboque etc (conhecido pela sigla, em inglês, FBO: Forward Based Operator). O “atendimento” de aeronaves pequenas pela Líder custa, no mínimo, R$ 500 por vez. Para um jato executivo midsize, como o Excel, calcula-se o triplo pelo menos, dependendo do contrato com a Líder.

Os sites especializados americanos dão o custo/hora de um avião como aquele na base dos US$ 1.500 — o que é muito mais barato do que no Brasil, considerando-se ainda tripulação, hangaragem, seguro (que a Andrade pagou, mas só o obrigatório…) e o combustível, que, lá, é mais barato que aqui.

No Brasil, um avião como aquele que conduzia Eduardo Campos deve voar por uns US$ 3 mil a US$ 4 mil a hora, no mínimo. O normal é uma campanha voar umas 40 horas por mês (é bastante). Continha simples, por baixo: o custo desse avião é da ordem de US$ 120 mil por mês, mais a parcela do leasing, que era, se não me falha a memória (li em algum lugar), em torno dos US$ 70 mil mensais. Pode-se assumir uns US$ 200 mil dólares por mês de campanha. Resta a pergunta: com que caixa? O um ou o dois?”

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 7:39

LEIAM ABAIXO

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 6:27

Marina tentou explicar a fábula do avião sem dono. Para não variar, deu mais uma de suas declarações incompreensíveis sobre o nada. Ou: Não entro na conversa de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Isso é ruim até como exercício de guerra

Não me peçam para aderir a ondas de opinião com base no que pensam este ou aquele, especialmente gente que detesto ou execro. Imaginem se justamente pessoas que desprezo iriam determinar os rumos das minhas escolhas. Seria um contrassenso. Alguém me viu aqui a tratar delinquentes que saíam quebrando tudo por aí como aliados objetivos só porque a popularidade de Dilma caía? Quem passou a mão na cabeça deles foi Gilberto Carvalho, não eu. Dá-se o mesmo agora com a “onda Marina”, que pode, reconheço, virar tsunami e devastar nosso futuro: “Ah, entre a Dilma e a Marina, tudo contra o statu quo…”. Não é assim que eu penso. Não é assim que eu opero. O voto nulo, numa democracia, é um direito. Se necessário, eu o usarei.

Imbecis dizem por aí: “Claro! Reinaldo é simpático ao PSDB!”. Sou? Perguntem aos tucanos para ver se eles acham isso. Mas vamos ao que mais interessa: hoje é dia 26. Já se passaram 13 dias desde o acidente que matou Eduardo Campos e outras seis pessoas. Até agora, o PSB não conseguiu dizer a quem pertencia o jatinho. Pior: tanto Marina Silva como Beto Albuquerque, candidato a vice, tiram ares de ofendidos e ainda tentam cutucar a Polícia Federal, cobrando dela um esclarecimento. Até parece que havia alguma conspiração possível, cuja investigação coubesse à PF. De resto, tivesse havido, a única beneficiária seria Marina, não é? Ou terei perdido alguma coisa? Adiante.

Nesta segunda, a candidata do PSB à Presidência falou a respeito. Foi a primeira vez que resolveu pedir para a procissão parar o andor para que ela se dirigisse aos fiéis. E se saiu com estas palavras, prestem bem atenção:
“Queremos que sejam dadas as explicações de acordo com a materialidade dos fatos, e, para termos a materialidade dos fatos, é preciso que haja tempo necessário para que essas explicações tenham as devidas bases legais”.

Você não tem culpa nenhuma se não entendeu patavina. Eu também não entendi nada. Marina não entendeu nada. Beto Albuquerque não entendeu nada. Os demais leitores não entenderam nada. Os outros jornalistas não entenderam nada. E é fácil explicar por que é assim: Marina não falou para ser entendida. A isso se chama técnica do despiste. Ela já é dona, no mais das vezes, de uma retórica incompreensível porque faz questão de deixar claro que não habita este mundo em que mortais arrastam suas vidas terrenas. Ela desfila sua figura e seu olhar etéreos como quem se comunica com dimensões que nos escapam, daí falar uma língua que quase sempre sugere, mas nunca explica.

Desta feita, ela exagerou. Vamos quebrar em pedaços o que ela disse: “Queremos que sejam dadas as explicações de acordo com a materialidade dos fatos”. Como? Que sejam dadas por quem? Eu não voei naquele avião. Você não voou naquele avião. Ela sim! Quem é o agente da passiva de sua sintaxe? Marina quer que as explicações sejam dadas por quem? Aí a candidata diz que é preciso tempo para que as “explicações tenham as devidas bases legais”. Como assim? Com um pouco de severidade, é possível inferir que está a nos dizer: “Olhem aqui: nós estamos tentando arrumar alguma desculpa legal para dar; quem sabe a gente consiga até amanhã”.

Dilma resolveu tirar uma casquinha na entrevista coletiva concedida nesta segunda quando indagada sobre o avião: “Eu não estou acompanhando isso, porque, você vai me desculpar, mas não é objeto do meu profundo interesse. Agora, acredito que nós, que somos candidatos, inexoravelmente temos de dar explicação de tudo. (…) Candidato a qualquer cargo eletivo, principalmente a presidente da República, está sujeito a ser perguntado sobre qualquer questão e deve responder, se puder, né?”.

Dilma sabe bem do que fala porque deixou e deixa de responder a muita coisa. Querem um exemplo: até agora, a pergunta que lhe dirigiu William Bonner no “Jornal Nacional” segue sem resposta. Ele quis saber se o PT não fez mal em tratar corruptos condenados como heróis do povo brasileiro. A candidata Dilma afirmou, então, que, como presidente, não se pronunciava sobre julgamento do Supremo. Ora: era uma questão dirigida à candidata, não à presidente, e dizia respeito ao PT, não ao Supremo. Como diria a petista, candidatos devem responder a qualquer questão — se puderem… Ela, por exemplo, não pôde.

Mas volto a Marina. Hoje, dia 26, 13 dias depois do acidente, vamos ver a desculpa que o PSB arrumou para a fábula do avião sem dono…

Encerro
Para encerrar: não me peçam para brincar daquela historinha de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo…”. Isso é ruim até como exercício de guerra, como não cansa de provar a realidade. De resto, em política, existem adversários, não inimigos a serem destruídos. Mais: não faço política — e, portanto, nessa área, nem adversários eu tenho. No máximo, há ideias e valores que não me servem. E é sobre eles que falo.

Marina não terá o meu voto enquanto falar uma língua que, segundo entendo, avilta a razão e enquanto defender propostas que violam os fundamentos da democracia representativa. E ponto.

Texto publicado originalmente às 4h33
Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 6:21

Na terça-feira gorda, as explicações do PSB para seu voo cego, os números do Ibope e o debate entre os presidenciáveis. Ou: Que venha a clareza!

Hoje é um dia cheio. E como! A Band realiza o primeiro debate entre os presidenciáveis. O Jornal Nacional divulgará os números da pesquisa Ibope. Se o que se cochicha por aí se cumprir, Marina Silva, da Rede, mas aboletada no PSB, deve aparecer em segundo lugar, mais próxima da petista Dilma Rousseff do que jamais esteve, com a possibilidade de estar à frente no segundo turno, fora da margem de erro. Só isso? Não! O PSB também promete para hoje uma explicação para o grande mistério da chamada “nova política” que Marina encarna: afinal de contas, de quem era aquele avião que se espatifou no chão, matou Eduardo Campos e outros seis e pode ter aberto para a ex-senadora petista a possibilidade de se eleger mesmo não tendo um partido?

O governo petista está de tal sorte desgastado que o mercado, nesta segunda, reagiu com euforia ao simples boato de que Marina pode vencer Dilma nas urnas. É o que já vinha acontecendo quando essa possibilidade apontava para Aécio. Ainda que a líder da Rede esteja mais para incógnita do que para resposta, conta o fato de que ela, afinal, não é… Dilma. De resto, os cardeais da papisa, como Maria Alice Setubal e Eduardo Giannetti, já deixaram claro que o setor financeiro não tem o que temer. Uma promessa de independência do Banco Central já rende adesões… “Mas e a história de que Marina defende o Decreto 8.243 e quer criar os tais conselhos populares?” Convenham: não é uma causa que sensibilize tanto assim os mercados, né? Se democracia lhes fosse uma condição inegociável, cairiam fora da China… Sigamos.

Como vão se comportar Dilma Rousseff e Aécio Neves? Comenta-se que ambos tendem a evitar o embate direto com Marina. Será mesmo que é uma boa saída? A ser assim, a tendência, então, é que se dê o confronto entre os nomes do PT e do PSDB, que é tudo o que quer a candidata do PSB, que se apresenta como uma suposta terceira via, insistindo na tecla de que o país já está cansado daquele velho confronto.

Reconheça-se, no entanto, que Marina chega ao debate ainda ungida por certa esfera de santidade. O embate com ela pode render desgaste, sim, tanto a Aécio como a Dilma, a menos que consigam evidenciar o que podem considerar seu despreparo, suas eventuais contradições ou sei lá o quê.

Vamos ver: os números do Ibope serão divulgados antes do debate. Os três já os conhecerão. Se a distância que separa Marina de Aécio for muito grande, não resta ao tucano, acho eu, outra saída que não questionar firmemente a oponente que pode lhe tomar o segundo lugar. Se houver evidências na pesquisa de que Dilma caminha para uma derrota no segundo turno, preservar a candidata do PSB também não será uma atitude prudente da petista.

O que eu acho que tem de ser feito? Olhem aqui: esse embate eleitoral se tornou de tal sorte contaminado por mitologias e misticismos que, se me fosse dado sugerir alguma coisa, recomendaria nada além da clareza absoluta. Os três principais candidatos que estarão no debate já propuseram — e realizaram — coisas para o Brasil. Os três fariam um bem ao país se forçassem o debate para que os outros dois pudessem ser confrontados com suas palavras e com suas obras.

Texto publicado originalmente às 5h20
Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 6:13

Nove pontos sobre aquele avião…

O PSB promete para hoje uma “explicação” para a história do avião que servia à campanha do partido, no qual Marina Silva também viajou muitas vezes. Vamos pôr um pouco de objetividade nessa história.

1: Marina fazia parte da chapa registrada no TSE: era vice de Eduardo Campos. A coligação tem, perante a Justiça Eleitoral, a mesma responsabilidade que teria um partido político — responsabilidade esta compartilhada pelos candidatos, Marina inclusive: como vice antes, como titular agora.

2: Há o dever legal de declarar todas as despesas realizadas. Como esquecer que o simples pagamento, não declarado, a gráficas que imprimiram santinhos resultou na perda de mandato  de pessoas eleitas e já diplomadas? O Ministério Público Eleitoral denuncia, o processo pode demorar, mas a punição vem. Estamos falando de migalhas diante dos gastos de um jatinho de última geração.

3: Avião sempre deixa rastro, a cada decolagem e pouso, como provou o famoso “Morcego Negro”, de PC Farias (quem ainda se lembra daqueles tempos ingênuos?). A aeronave é abastecida com emissão, suponho (ou não?) de notas fiscais. Nesse caso, saiu com CPF ou CNPJ de quem?

4: A cada pouso e decolagem, deve haver registro do tempo em que o avião devidamente identificado ficou em terra, da hora em que pousou e depois decolou. A aeronave tem prefixo, identificação, e tudo fica vinculado a essa identificação. O serviço costuma ser pago. Quem pagou, ou para quem foi faturado?

5: Quando a aeronave está em terra, para que seja liberada para voo, é preciso informar o destino à torre de comando do aeroporto e os nomes dos passageiros a bordo. A torre autoriza o plano de voo. Tudo fica registrado. De quantos voos participou Marina, por exemplo?

6: É obvio que, no caso desse avião e suas despesas (combustível, hangares, pilotos), há uma enorme confusão a ser acertada com a Justiça Eleitoral. E não vai ser fácil. Marina é responsável porque era da coligação e compunha a chapa registrada no TSE. Ela está aí e tem de explicar de forma convincente, o que, sinceramente, duvido que vá conseguir.

7: A atual chapa do PSB só existe porque substitui a primeira, devidamente registrada, da qual Marina fazia parte. E, reitere-se, ela foi usuária do avião.

8: Pertencesse o avião ao próprio Eduardo Campos, fosse alugado, fosse emprestado, tudo tem de ser informado à Justiça Eleitoral, apontando a origem dos recursos empregados. Talvez essa demora do PSB se deva à necessidade de construir uma história que, começando pelo fim, tem de inventar um começo. Acreditem: sempre sobrará uma lacuna.

9: Marina, que se comporta às vezes como a corregedora-geral do mundo, tem o dever legal e moral de dar explicações. Vai que seja eleita e tenha depois o seu mandato cassado por crime eleitoral.

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 0:37

Aguardo a gravação com a resposta de candidato dada ao portal UOL

Recebo de Sabrina Sathler, mulher de Matheus Sathler, candidato a deputado federal pelo PSDB-DF, a seguinte mensagem. Leiam. Volto em seguida.

Prezado Reinaldo,
Sou esposa do Dr. Matheus Sathler, e, como algumas pessoas abaixo comentaram, gostaria de dizer que seria interessante você investigar a veracidade das informações passadas pelos veículos de comunicação antes de fazer uma publicação agressiva como essa, principalmente em se tratando de UOL. Realmente, eles fazem tudo para assassinar a reputação dos outros. O meu marido nunca disse que você e as outras pessoas ali mencionadas entraram em contato com ele. Para se resguardar desse tipo de assassinato de reputação, ele tem o áudio de todas as entrevistas gravadas em seu celular. Demais internautas que estiverem lendo esta minha resposta me ajudem a divulgá-la para que o Reinaldo tome ciência. Sabemos que o Reinaldo é um excelente jornalista e certamente buscará contato conosco para esclarecer quaisquer dúvidas. Obrigada pela atenção de todos.

Respondo
Torno pública a mensagem porque aguardo, então, a gravação com a resposta dada pelo candidato ao UOL. Se for diferente daquela publicada, eu a tornarei pública aqui. E esperarei as providências do portal.

Você receberá um e-mail meu, Sabrina, e poderá me enviar, então, a gravação.

Reinaldo Azevedo

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2014

às 0:31

“Aqui entre nós” na VEJA.com

Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 19:54

Daqui a pouco

Hoje, a partir das 20h30, estarei ao vivo em mais um programa TVEJA nas Eleições, com Joice Hasselmann. Assista no link disponível na VEJA.com.

Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 16:15

Marina: muito avião para pouco sentido

A campanha de Marina Silva à Presidência começa a assumir uma dimensão um tanto perigosa. Ela se desenvolve em zonas de sombra, em que nada é muito claro, em que nada pode ser visto à luz do sol. Dos aviões que serviram ao PSB ao conteúdo do programa, tudo é ambíguo, incerto, sujeito a remendos. Será esse o melhor conteúdo para a chamada nova política? Basta que dois cardeais do marinismo façam acenos aos chamados “mercados” para que tudo fique no lugar?

Acho que não.

Mais um avião estranho surgiu na campanha do PSB. A Polícia Federal já investiga se o jato Cessna Citation 560 XLS, que caiu matando Eduardo Campos e mais seis pessoas, pertencia à Bandeirantes Companhia de Pneus Ltda. Agora, há outro jatinho suspeito: um Learjet 45, prefixo PP-ASV, que Campos usou no dia 20 de maio, em visita a Feira de Santana, na Bahia. Este sim está registrado na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) em nome da Bandeirantes, que tem sede em Pernambuco. O dono da empresa é Apolo Santa Vieira. Pelo registro na Anac, o Learjet 45 foi financiado pela Bandeirantes. Como foi comprado por leasing, enquanto a empresa não terminar de pagá-lo, pertence ao Bank of Utah Trustee.

Apolo Vieira é réu em um processo por sonegação fiscal na importação de pneus, via porto de Suape (PE), que gerou um prejuízo de R$ 100 milhões de reais aos cofres públicos. Sua antiga empresa, a Alpha Pneus, recorre em segunda instância. A Bandeirantes foi criada em 2004, em Jaboatão dos Guararapes (PE), e funciona em um galpão de médio porte.

E o que diz Marina Silva a respeito? Nada! Até agora, o PSB não conseguiu encontrar uma explicação para o primeiro jatinho. Também nada disse a respeito do segundo. Parece evidente que estamos diante de um caso escancarado de doação irregular de recursos para campanha — o chamado caixa dois, que pode resultar em cassação de candidatura e de mandato, a depender da fase em que se conclua o processo.

Não é só isso que Marina tem de explicar. Documento da Rede, que é seu real partido, defende o Decreto 8.243, aquele dos conselhos populares, e vai mais longe e prega o “controle social” da atividade política e defende que se criem “instâncias próprias para o exercício de pressão, supervisão, intervenção, reclamo e responsabilização”. Na aparência, parece bacaninha; na essência, pode não se distinguir de uma prática fascistoide.

Neste domingo, Marina negou a tentação totalitária e coisa e tal. O fato é que tudo, reitero, se desenvolve em zonas de sombra. Se não sabemos quem pagava os jatinhos do PSB, tampouco sabemos o real pensamento de Marina. Infelizmente, a imprensa brasileira, com raras exceções, tem usado para ela um critério bem mais manso e relaxado do que o empregado com os outros candidatos.

Uma eleição não pode ser determinada por um voo cego. É preciso que tudo seja debatido às claras.

Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 15:26

Candidato do DF, de quem nunca ouvi falar, usa indevidamente o meu nome para defender proposta energúmena!

Um certo Matheus Sathler, candidato a deputado federal pelo PSDB do Distrito Federal, propõe a criação do “Kit Macho” e do “Kit Fêmea” para distribuir nas escolas. Seria uma forma, segundo entendi, de combater o Kit Gay. Ele concede uma entrevista ao UOL, que me foi enviada por leitores. Num dado momento, diz:

“Minha relação é muito boa com o Pastor Silas Malafaia, com o deputado Pastor Marcos Feliciano (PSC-SP) e com o Padre Paulo Ricardo (da ala conservadora da Igreja Católica). Também têm entrado em contato comigo o Reinaldo Azevedo e o Rodrigo Constantino (ambos colunistas e blogueiros da revista Veja). Nós, os liberais-conservadores, temos nos articulado, sim.”

Como é que é?

EU TENHO ENTRADO EM CONTATO COM ELE??? MENTIRA!!!

Nunca vi esse cara mais gordo ou mais magro, jamais falei com ele e não tenho interesse em falar. De resto, políticos podem até tentar entrar em contato comigo, mas eu não tento entrar em contato com eles, a não ser que esteja em busca de alguma informação.

Nunca falei com o sr. Sathler nem quero. Acho a sua proposta energúmena. Eu sou contra a distribuição de kits de qualquer natureza. Se e quando eu decidir declarar voto ou recomendar voto, procurem a informação aqui. O que não estiver em meu blog é mentira. De resto, não emprego “macho” e “fêmea” para me referir à sexualidade humana ou às diferenças de gênero quando se trata de pessoas. 

Eu espero que ele tenha a hombridade de ligar para o UOL para dizer que nós jamais conversamos. Recomendo adicionalmente que não envolva meu nome em sua pantomima.

Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 14:19

Marina ensaia recuo e diz que seu programa vai valorizar as instituições

No Estadão. Comento no próximo este post e o anterior:
Dividindo o segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos com o tucano Aécio Neves e com chances reais de chegar ao segundo turno da corrida presidencial, a candidata do PSB ao Planalto, Marina Silva, afirmou neste domingo, em São Paulo, que o seu programa de governo, a ser lançado na sexta-feira, pretende “valorizar as instituições”.

“O nosso documento fala em aprofundar a democracia. Aprofundar a democracia significa a valorização das instituições e que essas instituições e as representações políticas possam estar ligadas à sociedade brasileira”, disse a ex-ministra do Meio Ambiente, que, durante duas horas, fez campanha no Centro de Tradições Nordestinas.

A declaração foi uma reação à reportagem publicada ontem pelo Estado que revelou o conteúdo do programa em discussão da campanha. O texto preliminar da candidatura do PSB fala na criação de mecanismos para ampliar o “controle social” da atividade política. Diz que é necessário criar “instâncias próprias para o exercício de pressão, supervisão, intervenção, reclamo e responsabilização”.

Conselhos
O texto defende a Política Nacional de Participação Social, instituída por decreto pela presidente Dilma Rousseff. O decreto orienta órgãos do governo federal a criar conselhos com participação da sociedade civil e movimentos sociais a fim de acompanhar a criação e execução de políticas públicas. A medida sofreu resistência no Congresso. Os críticos veem na iniciativa uma maneira de “aparelhar o Estado” e tirar prerrogativas de fiscalização dos parlamentares.

Marina, quando era vice de Eduardo Campos, morto no dia 13 em um acidente aéreo, chegou a defender publicamente o decreto de Dilma. Neste domingo, evitou dizer se a defesa do decreto será de fato colocada no papel. “O documento a que tiveram acesso não é o documento que eu e o Eduardo revisamos. Então, não posso falar de coisas que não são do documento oficial da campanha”, afirmou a candidata do PSB.

Já o líder do PSB na Câmara dos Deputados e candidato a vice, Beto Albuquerque, foi mais explícito e sugeriu uma alteração de posicionamento entre a Marina candidata a vice e à Presidência. “A proposta de Dilma é diferente. Eu sou deputado e você não pode me dizer que vai ter controle social sem me dizer quem vai controlar o eleito, isso é muito perigoso.”
(…)

Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 14:04

Campos usou outro jatinho de empresário investigado

Na VEJA.com. Comento daqui a pouco:
Uma das empresas investigadas na compra do jato Cessna Citation 560 XLS, que caiu matando o candidato a presidente pelo PSB, Eduardo Campos, e outras seis pessoas, a Bandeirantes Companhia de Pneus Ltda. tem em seu nome outra aeronave que, em maio, foi usada pelo ex-governador de Pernambuco durante visita de pré-campanha na Bahia. Trata-se do Learjet 45, prefixo PP-ASV, que Campos usou no dia 20 de maio, em visita a Feira de Santana. Em fotografia tirada pela imprensa durante sua chegada é possível ver a aeronave. De acordo com a resolução 23.406, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a aeronave que caiu no último dia 13 não poderia ser utilizada na campanha por estar em nome da AF Andrade, de usineiros de Ribeirão Preto (SP). A legislação só permitiria que o jato fosse usado na campanha como doação se a AF Andrade atuasse no ramo de táxis aéreos. Além de Eduardo Campos, Marina também utilizou o avião em atividades de campanha.

Mais modesto que o Citation 560 XLS, o avião biorreator usado pelo candidato naquele dia está registrado na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) em nome da Bandeirantes, que tem sede em Pernambuco, e pertence a Apolo Santa Vieira. Pelo registro na Anac, o Learjet 45 foi financiado pela Bandeirantes. Como foi comprado por leasing, enquanto a empresa não terminar de pagá-lo, pertence ao Bank of Utah Trustee.

Apolo Santa Vieira é um dos três empresários pernambucanos investigados pela Polícia Federal como supostos laranjas na negociação de arrendamento do Citation, que caiu em Santos (SP). A aeronave está em nome da AF Andrade, que está em recuperação judicial. Em maio, o empresário pernambucano João Carlos Lyra de Melo Filho assinou compromisso de compra da aeronave e indicou as empresas Bandeirantes e BR Par para assumir dívidas junto à Cesnna.

Agentes da PF, com auxílio da Receita Federal, tentam identificar de onde veio o dinheiro para a Bandeirantes Pneus, uma importadora e recuperadora de pneus, comprar o Learjet e o Citation. Por meio de nota, a empresa informou que tentou assumir o leasing do Citation (que vale 8,5 milhões de dólares), mas que a compra não se efetivou. A AF Andrade informou que já havia recebido parte das parcelas. No sábado, o candidato a vice de Marina, deputado Beto Albuquerque, tergiversou ao tratar do assunto: “Nós queremos saber, e ainda não foi explicado: como esse avião caiu e matou o nosso líder. Como caiu? Por que caiu? Queremos Justiça nesse caso. Sobre as circunstâncias de titularidade, de quem comprou e quem vendeu, isso não um problema nosso e não é era um problema do Eduardo. É um problema dos proprietários da aeronave. Sobre a relação do avião que nós usávamos, a direção partidária está apurando todas as informações para prestar os esclarecimentos necessários”, disse.

Apolo Viera é réu em um processo por sonegação fiscal na importação de pneus, via porto de Suape (PE), que gerou um prejuízo de 100 milhões de reais aos cofres públicos. Sua antiga empresa, a Alpha Pneus, e outras, recorrem em segunda instância. A Bandeirantes foi criada em 2004, em Jaboatão dos Guararapes (PE) e funciona em um galpão de médio porte. A reportagem do jornal O Estado de S. Paulo localizou uma movimentação de importação financiada registrada pelo Banco Central, em dezembro de 2010, de 1,4 milhão de dólares, via banco Ilhas Cayman e Banco Safra.

Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 6:42

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Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 6:31

Por que jamais votaria em Marina Silva — nem que ela viesse a disputar o segundo turno com Dilma. Ou: Voo cego de um avião sem dono

Jamais votaria em Marina Silva. Já expus aqui alguns dos meus motivos. E também na minha coluna de sexta na Folha. Vou avançar. Desde que me ocupo da política, como jornalista, meu esforço é para tirá-la do terreno da mitologia e trazê-la para o da razão — inclusive o da razão prática. “Poderia votar em Dilma contra Marina, Reinaldo?” Também é impossível. Os petistas me incluíram numa lista negra de jornalistas. Eles querem a minha cabeça e, se pudessem, pediriam a meus patrões que me botassem na rua. Desconfio até que já tenham pedido — não sei. Mas não levaram. Não sou suicida. Não me ofereço àqueles que se pretendem meus feitores. Mas, reitero, nem tudo o que não é PT me serve — e Marina não me serve. Mais: acho que alguns de seus ditos “conselheiros” estão perdendo o juízo e querendo se comportar como os Catões da República. Já chego lá.

Os cardeais da papisa
Marina Silva não é candidata a presidente da República, mas a papisa de uma seita herética — e suas heresias são praticadas contra a democracia representativa. Ela não concede entrevistas. Seus cardeais falam por ela. À Folha, quem garantiu a independência do Banco Central foi Maria Alice Setubal. Já expliquei e insisto: se o sócio de um grande banco viesse a fazer tal promessa como porta-voz do tucano Aécio Neves ou da petista Dilma Rousseff, nós, da imprensa, não perdoaríamos o deslize. Como se trata de Marina, parece evidência de sabedoria. Tenham paciência! Banqueiros não podem fazer política? Podem e devem. Mas convém não misturar carne com leite nessas coisas. E ponto.

Na Folha desta segunda, mais um cardeal do “marinismo”, Eduardo Giannetti, fala em nome de Marina. Também ele acena para os mercados com a independência do Banco Central, mas o centro de sua entrevista é outro: quer a conciliação política “dos bons”, entendem? Marina, diz ele, pretende governar com o apoio de Lula e de FHC. Ninguém lhe perguntou — e não sei se vão perguntar — por que não se fez antes se é tão fácil. A rigor, em todos os conflitos do mundo, dos mais amenos aos mais sangrentos, sempre se poderia fazer esta indagação: “Por que não, então, juntar os opostos, juntar os litigantes?”.

Giannetti teve uma ideia que poderia, enfim, ter evitado todas as guerras, até a de Troia, como num poema de Mário Faustino: “Estava lá Aquiles, que abraçava/ Enfim Heitor, secreto personagem/ Do sonho que na tenda o torturava”. No seu mundo, como no do poema, Saul não briga com Davi, os seteiros não matam Sebastião, e o “Deus crucificado” beija uma segunda vez o enforcado (Judas). Pode ser literatura. Pode ser religião. Uma coisa é certa: política não é.

Há mais: Giannetti resolveu, em sua entrevista, todas as dificuldades e só ficou com as facilidades. Imaginar que PT e PSDB possam estar juntos num governo implica ignorar, logo de cara, o fato de que esses partidos têm vocações e fundamentos que são inconciliáveis. Se o ideário, hoje, dos tucanos é um tanto nebuloso aqui e ali — especialmente na área de valores —, os do PT são muito claros. Ora, ora, ora… Então Marina Silva, a Puríssima, não aceita nem mesmo subir no palanque com Geraldo Alckmin ou com Beto Richa — acordos feitos por Eduardo Campos —, mas aquele que se candidata a ser seu orientador intelectual (já que diz não querer cargo caso ela se eleja) sonha com um governo que possa unir… Aquiles e Heitor. Giannetti é uma pessoa lida, que tem experiência com as palavras. Uma tolice dita por ele parece de qualidade superior à dita por um petista tosco qualquer. Mas é apenas isto: uma tolice dita com charme.

O PMDB
E o homem vai adiante. O sonho de Giannetti — que não me parece muito distante, mutatis mutandis, de todos aqueles que sonharam com um Rei Filósofo, com um Déspota Filósofo… — é juntar os bons de um lado para isolar os maus de outro. Ele pega carona na fácil demonização do PMDB. Dá a entender que essa é a força que tem de ficar do outro lado da trincheira. Marina, então, seria eleita pelo PSB, com o apoio de FHC e Lula e outras almas superiores do Congresso, uma conspiração dos éticos se formaria e pronto! Tudo estaria resolvido. Tão fácil que a gente lamenta que tantos estúpidos não tenham pensado nisso antes, né?

É mesmo? Será que o PMDB, ao longo da história, tem sido só um problema? Então vamos ver. Marina Silva apoia o Decreto 8.243, aquele que nem é exatamente de Dilma, mas de Gilberto Carvalho. No horizonte da turma que defende esse lixo autoritário, está, inclusive, o controle da imprensa, sim, senhores!, por conselhos populares. Marina não vê mal nenhum nisso porque, afinal, já deixou claro, não dá bola para partidos ou para instâncias formais de representação. O PMDB pode não ser exatamente um convento de freiras dos pés descalços, mas lembro que o partido, em seu congresso, apoiou uma das mais claras e fortes resoluções contra qualquer forma de censura à imprensa. Sugerir que o PMDB atrapalha a democracia ou a torna ingovernável é mais do que um erro; é uma mentira.

O avião
Hoje é dia 25 de agosto. Eduardo Campos morreu no dia 13. Até agora, ninguém sabe a quem pertence o avião. Marina, que voou muitas vezes naquele jatinho e que herda, pois, os instrumentos aos quais recorreu o PSB para fazer campanha, se nega a falar do assunto, como se ele não lhe dissesse respeito. Diz, sim!

Quem se pronunciou foi Beto Albuquerque, candidato a vice. Curiosamente, cobra explicações da Polícia Federal. Como? Aquele que era um dos homens mais próximos do presidenciável morto está exigindo respostas em vez de dá-las? O PSB, vejam vocês, inventou o avião sem dono.

Marina, a mais ética entre os éticos, não aceita doação, no caixa um — o oficial e registrado — de empresas disso e daquilo, mas faz ares de santa da floresta quando se questiona a quem pertencia um jatinho que custava alguns milhões. É essa a “nova política” de que tanto se fala? Vamos ver o que vem por aí: candidaturas e mandatos já foram cassados por muito menos. Que se apure tudo, mas há um cheiro fortíssimo de caixa dois na campanha, não é mesmo?

Messianismo
Marina carrega nas tintas de uma espécie de messianismo pós-moderno, assim, meio holístico-maluco-beleza. A VEJA desta semana a traz na capa. A reportagem, qualquer um pode constatar, não lhe é nada hostil. A figura desenhada nas páginas chega a ser simpática. Um trecho, no entanto, chamou especialmente a minha atenção.

No dia 18, 30 membros da Rede se reuniram em São Paulo para discutir a morte de Campos. Debate político? Claro que não! Isso é coisa superada. Era um papo de outra natureza. Depois de cada um dizer o que sentia, eles se dividiram em trios para escrever palavras para confortar… Marina!!! É, gente… Na Rede — que Giannetti quer ver no governo com o apoio de Lula e FHC —, não existem vitoriosos e derrotados quando se debate uma ideia. Há um troço chamado “consenso progressivo”. A exemplo do Cassino do Chacrinha, a reunião “só acaba quando termina” — e todos ganham. Em maio, para definir os dois porta-vozes da Rede, eles ficaram reunidos por 18 horas. Tinha de ser um homem e uma mulher para contemplar as diferenças de gênero… Tenham paciência!

Conheço gente que já frequentou esse círculo de iniciados. A coisa parece ser mesmo do balacobaco. Marina é o Pablo Capilé da floresta, e sua Rede lembra, em muitos aspectos, o tal grupo Fora do Eixo. As pessoas lhe dedicam um silêncio reverente e estão certas de que ela mantém mesmo certa comunicação com entes que não estão exatamente entre nós.

Estou fora
Não caio nessa, sob pretexto nenhum — nem mesmo “para tirar o PT de lá”. Na democracia, voto útil é voto inútil. Se Deus me submetesse à provação — espero que não aconteça — de ter de escolher entre Dilma e Marina, escolheria gloriosamente “nenhuma”! Se a turma do coquetel Molotov estava sem candidata e agora encontrou a sua, eu, que sou um partidário da democracia representativa e das instituições democráticas, deixarei claro, nessa hipótese, que estarei sem candidato no segundo turno. Mas torço e até rezo para que o Brasil seja poupado.

De resto, vou insistir numa questão: Marina Silva é governo no Acre há 16 anos. Seu marido deixou um cargo no secretariado de Tião Viana na semana passada. Mas a sua turma está lá, aboletada na gestão petista. Digam-me cá: quando Viana, seu aliado, começou a despachar haitianos para São Paulo, de uma maneira indigna, escandalosa, Marina disse exatamente o quê, além de nada? Qualquer bagre teria merecido dela mais atenção! Pareceu-me uma reação muito pouco caridosa a sua.

E não tenho como esquecer o fato de que, há menos de dois anos, Marina estava lutando por um Código Florestal que iria reduzir a área plantada no país. Como alternativa para seu desatino, ela tirava das dobras de seus numerosos xales certo “ganho de produtividade” que compensaria a perda. Propunha isso, com o desassombro e a retórica caudalosa de sempre, como se o Brasil não tivesse hoje uma agricultura e uma pecuária entre as mais produtivas do mundo. Do mesmo modo, incentivou a crítica verdolengo-obscurantista a Belo Monte, num país que enfrenta escassez de energia.

Marina Silva? Não! Muito obrigado! Não quero! “Ah, mas ela pode ser eleita e fazer um grande governo…” É, tudo pode acontecer. Não tenho bola de cristal. Quando voto, levo em conta o passado dos candidatos, suas utopias, suas prefigurações, sua visão de mundo, o apreço que têm pela democracia, a factibilidade de suas propostas.

Se eu tivesse alguma dúvida — já não tinha —, ela teria se dissipado com a entrevista concedida por Giannetti nesta segunda: Marina quer governar com o apoio de FHC e Lula… Então tá! É até possível que os dois, por elegância ou sei lá o quê, venham a dizer que, se isso acontecer, tudo bem. Ocorre que o Brasil não é um país comandado por aqueles líderes de clãs do Afeganistão. O Brasil sofreu um bocado para ter uma democracia gerida por partidos e por instituições. Ainda não chegou a hora de sermos um Brasilstão, governado por uma santa rodeada de conselheiros de fino trato. Isso nada tem a ver com democracia. Isso é só mais um delírio de intelectuais, ainda e sempre os mais suscetíveis às tentações autoritárias.

Os idiotas que acham que sou antipetista a ponto de votar até num sapo se o PT estiver do outro lado nunca entenderam direito o que penso. Em dilemas que são de natureza moral, não havendo o ótimo, a obrigação é escolher o caminho menos danoso. Na democracia, felizmente, temos a possibilidade de recusar o ruim e o pior.

De todo modo, espero que a onda passe e que o destino do país não seja definido pelo cadáver de alguém que não havia se explicado o suficiente em vida. É isso.

#prontofalei

Texto publicado originalmente às 4h30
Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 6:01

Os tons de Dilma – Quem tem Paulo Roberto Costa tem medo. Ou: Hora de começar a combater Marina

A presidente Dilma Rousseff concedeu uma entrevista coletiva neste domingo no Palácio da Alvorada. Operou duas mudanças de tom, constrangida pela realidade. Na quinta-feira, em Pernambuco, afirmou que as acusações de corrupção na Petrobras constituíam uma agressão à empresa, atribuiu tudo ao jogo eleitoral e fez uma defesa meio bronca de Graça Foster. No dia seguinte, o engenheiro Paulo Roberto Costa, que está preso, fez um acordo de delação premiada. Vamos ver. Pode não dar em nada. Podem sair cobras e lagartos. Dilma então resolveu se precaver.

Ajustou a sua fala à realidade e afirmou o seguinte neste domingo: “Se pessoas cometeram erros, malfeitos, crimes, atos de corrupção, isso não significa que as instituições tenham feito isso. Não se pode confundir as pessoas com as instituições”. Certo, presidente! E quem é que estava confundindo? Ninguém. A delação premiada de Costa está deixando muita gente em pânico. Não se sabe até onde ele está disposto a ir.

Dilma mudou um pouco o tom também em relação a Marina Silva, candidata do PSB à Presidência. Ou melhor: passou a assumir um tom. Desde a morte de Eduardo Campos, os petistas a vinham ignorando em falas públicas. Num comício em Recife, no sábado, a candidata da Rede, que concorre pelo PSB, afirmou que um presidente da República não precisa ser um gerente — afirmação, diga-se, que havia sido feita pela empresária marineira Maria Alice Setubal em entrevista à Folha.

Dilma afirmou: “Essa história de que o governo não precisa ter cuidado com a execução de suas obras ou obrigação de entregá-las é uma temeridade. Acho que o pessoal está confundindo o presidente da República com algum rei ou rainha”.

Vamos lá. Acho que Maria Alice e Marina estão escandalosamente erradas quando criticam o perfil de “gerente” de um presidente da República. Ora, se um governante não sabe “gerir” — que é o verbo do substantivo “gerência” —, então sabe o quê? Fazer discurso? Nesse particular, a presidente está certa. Mas só nesse particular.

O problema de Dilma não é ser uma gerente, mas ser uma má gerente, entenderam o ponto? A reputação da presidente, nesse particular, sempre foi superfaturada. Já escrevi aqui que ela foi, sim, extremamente competente em criar a fama de… competente. Mais: está naquele grupo de pessoas que, por serem enfezadas, passam por muito capazes.

Ora, se Marina, então, se eleger presidente da República, devemos imaginar o quê? Que vai dar apenas diretrizes espirituais, deixando a gestão do governo a cargo de uma burocracia cinzenta, enquanto ela fabrica metáforas, metonímias e prosopopeias? Além da independência do Banco Central, teremos também a independência dos ministérios da Fazenda, Planejamento, Saúde, Educação… A gerentada fica lá, e a presidente vira a nossa líder espiritual? O Brasil precisa, sim, de gerência, mas de boa gerência.

Voltemos à Petrobras: vocês acham que, com uma gerência decente e profissional, a empresa estaria vivendo essa crise?

Por Reinaldo Azevedo

25/08/2014

às 5:51

Aécio quer implementar reajuste diferenciado para beneficiar aposentados

Por Daniel Haidar, na VEJA.com:
O candidato à Presidência da República pelo PSDB, Aécio Neves, afirmou neste domingo, no Rio de Janeiro, que vai criar um mecanismo de reajuste para aposentadorias e o benefício de prestação continuada (BPC), pago a maiores de 65 anos com renda per capita familiar inferior a um quarto do salário mínimo. De acordo com o presidenciável, os aposentados terão um aumento anual nas pensões que leve em conta a variação de uma cesta de preços de remédios, além da manutenção da regra de reajuste atual, que acompanha a variação da inflação oficial do ano anterior e do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes.

“Incorporaremos, além do aumento real do salário mínimo, que continuará a ser praticado no nosso governo, um aumento especial para os aposentados levando em consideração, além do índice acertado, também o aumento de medicamentos. Será a primeira sinalização clara de que aposentados e idosos do Brasil começarão a ter tratamento diferenciado”, afirmou Aécio.

Ainda é preciso decidir quais remédios de uso contínuo teriam preço monitorado para embasar o reajuste das aposentadorias. A proposta foi anunciada em discurso a idosos hospedados no Abrigo Cristo Redentor, que pertence à União, mas hoje é administrado pela Secretaria Estadual de Assistência Social do Rio de Janeiro. No abrigo, Aécio conversou com idosos e visitou as instalações do local. O governo do Rio impediu que jornalistas acompanhassem o momento em que o presidenciável visitou quartos.

Em confraternização preparada por funcionários do governo estadual, o candidato cantou a música “Amizade Sincera”, de Renato Teixeira, abraçado com a idosa Arlete Severino da Silva. Antes, dançou com Ladir Rodrigues, outra hóspede do abrigo.

Aécio também divulgou o programa “Digna Idade”, que prevê a qualificação de cuidadores de idosos e a criação de asilos públicos. Os recursos públicos para financiar a melhora das aposentadorias e projetos para idosos viriam de uma readequação das prioridades orçamentárias, destacou o candidato tucano. “Recursos virão de um Estado com política fiscal austera, que não aumenta os gastos correntes de forma irresponsável, como esse governo aumentou. A questão é estabelecer prioridades”, afirmou.

Na nova estratégia do PSDB para diferenciar Aécio da ex-senadora Marina Silva (PSB) na corrida presidencial, os tucanos exploram a “falta de preparo” da concorrente. Sem mencioná-la, o presidenciável tucano afirmou neste domingo: “Construímos uma proposta que não é improvisada. Aquilo que defendo hoje, eu já defendia lá atrás”.

Por Reinaldo Azevedo
 

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