Por Roberto Simon, no Estadão:
A atual tormenta política no Irã não se restringe a indivíduos como a manifestante Neda Agha Soltan, que teve sua morte registrada em vídeo, a líderes opositores como Mir Hossein Mousavi ou a homens do regime como o líder supremo, Ali Khamenei. Trata-se, sobretudo, de uma crise de “legitimidade da própria ideia de república islâmica”. A opinião é do mais influente historiador vivo do Oriente Médio, o britânico catedrático da Universidade Princeton Bernard Lewis. Aos 93 anos, ele disse por telefone ao Estado que o Irã vive “um estágio de autoritarismo experimentado em outros sistemas revolucionários, como França e URSS”. E alerta: “O problema não é só que o Irã quer a bomba, mas que é bem capaz de usá-la.”
Como o senhor avalia os protestos no Irã? A combinação de uma república, de fisionomia ocidental, com uma teocracia islâmica está em crise?
Já faz muito tempo que a população iraniana está cada vez mais descontente com seu governo. Agora, isso está vindo à tona. Mas não é algo novo. Acho que há uma perda de legitimidade do regime. Tem-se a impressão de que não se trata de uma objeção restrita a indivíduos. Há um sério questionamento de toda a ideia da república teocrática que foi estabelecida pelos assim chamados “revolucionários” de 1979.
Há ameaça à existência do regime?
Sim, está começando a parecer um desafio à preservação do governo. Até agora, o regime tem demonstrado uma extraordinária durabilidade e convicção, seguindo seu rumo por 30 anos, apesar do que foi feito contra ele.
Analistas dizem que o regime de Ali Khamenei está se tornando uma típica ditadura do Oriente Médio, sem espaços de liberdade, como eleições.
Já é uma típica ditadura. As eleições são encenação. Elas não são o que esperamos que sejam.
O que a história persa pode nos dizer sobre a atual situação? O sr. escreveu, por exemplo, sobre a influência da religião maniqueísta na cultura iraniana. Como essas heranças se manifestam?
É preciso ter em mente que a maioria dos países da região que hoje chamamos de Oriente Médio é uma criação moderna. São invenções recentes, com suas fronteiras desenhadas por estadistas ocidentais. O Irã não é isso. Ele é uma nação antiga, um país e uma nação no sentido ocidental dessas duas palavras. O Irã existe há milênios. Há um sentimento real de nacionalidade e patriotismo entre os iranianos. É algo diferente da maior parte dos países da região, nos quais não há patriotismo. Eles só têm um nacionalismo simples ou uma identidade religiosa. O Irã é um país real, com forte senso de identidade nacional e histórica. É isso que vemos em exercício agora.
Como o sr. avalia ascensão iraniana no Oriente Médio?
Isso certamente é visto por muitos como uma ameaça, algo que se manifesta de várias maneiras. Alguns enxergam o problema de uma perspectiva nacional: o Irã não é árabe. Vizinhos árabes veem tentáculos iranianos se estendendo por uma rota ao norte, do Iraque à Síria, e por uma rota ao sul, em Gaza. Isso é tido como uma ameaça mortal. Esse é o aspecto nacional, pode-se chamá-lo ainda de imperialismo iraniano. Outros sentem-se ameaçados pelo que pode ser definido como o aspecto radical-revolucionário. É preciso lembrar que a maior parte dos regimes no Oriente Médio é de autocracias que governam povos mais ou menos descontentes. Os iranianos tiveram uma verdadeira revolução. O termo “revolução” é pouco usado por governos no Oriente Médio. Mas o que ocorreu no Irã foi uma verdadeira revolução - no mesmo sentido que usamos a palavra para nos referirmos à Revolução Francesa ou à Revolução Russa. Os revolucionários iranianos passaram pelos mesmos “cenários” dessas duas outras revoluções e estamos agora numa fase que pode ser chamada de stalinista ou napoleônica.
(…)
O sr. escreveu sobre a rivalidade de mais de 14 séculos entre as civilizações cristã e islâmica. O fato de um negro descendente de muçulmanos, chamado Barack Hussein Obama, comandar os Estados Unidos muda alguma coisa? Pode Obama influenciar o que o sr. definiu como “choque de civilizações”?
Acho que não. É preciso ter em mente que o mundo muçulmano está iniciando agora o século 15 da era islâmica. Acredito que estamos lidando com fenômenos que remontam ao início de nosso século 15. Quero dizer, por exemplo, que para o Ocidente o termo “cruzada” tornou-se inaceitável. A ideia de uma guerra religiosa não é mais admissível para nós. Mas para a maioria das pessoas no mundo islâmico isso é aceitável. Eles tendem a ver as “batalhas” de hoje como uma fase da guerra iniciada pelo próprio Profeta Maomé. Há várias religiões no mundo, mas até onde sei existem apenas duas que acreditam ser as verdadeiras detentoras da mensagem de Deus ao homem. Elas teriam a verdadeira fé e seria um dever não mantê-la para si mesmas - como fazem o judaísmo e o hinduísmo - e espalhar essa mensagem pelo mundo, removendo qualquer obstáculo que tiverem pelo caminho. Isso desapareceu na maior parte do mundo cristão. Mas ainda se manifesta no mundo islâmico. Eles veem um conflito ocorrendo entre fiéis e infiéis. Nos últimos séculos, muçulmanos tiveram dificuldades, foram conquistados pelos infiéis, subjugados. Então, gradualmente se libertaram.
Como seria o futuro dessa luta?
Como eles afirmam, há várias fases consecutivas. A primeira é remover os infiéis da atual terra do Islã. A segunda fase é a de recuperar o que foi perdido - não só Israel, mas na Espanha, Portugal, Sicília, Bálcãs e Índia. A fase final é levar a guerra para a terra dos infiéis e estabelecer uma dominação universal. Não afirmo que todos os muçulmanos veem a situação assim. Mas há grupos significativos que enxergam os acontecimentos nesses termos. Assistindo à mídia muçulmana, não é difícil encontrar esse tipo de discurso. Aqui e Aqui










Respeito as religiões que me respeitam e que usam da boa fé para com seus fiéis,trabalhando por uma fé esclarecida..Respeito quem acredita em Deus,desde que aceite meu ateísmo.Agora,destruir seu semelhante em nome de um Deus ,é coisa de ignorante,de gente desmiolada e que pensa com as nádegas.É muita burrice querer um pensamento único religioso;assim são os fundamentalistas,de todos os lados.
“Ando pelas ruas com a brisa matinal batendo no meu rosto.Meu pensamento é amar a humanidade,o saber,a justiça,e sobretudo colaborar para que os homens de bem não desistam de sua jornada para tornar o mundo um lugar melhor.”
Uma análise interessante, mas o autor escorregou em um esquerdismo anticlerical vulgar quando citou as cruzadas, ao insinuar que os cristãos foram à Terra Santa converter à força os islâmicos, quando na verdade foi para promover a liberdade de culto dos cristãos perseguidos pelos maometanos. Se os cristãos tivessem dominado o Oriente nas primeiras cruzadas, aqueles não teriam invadido a Ibéria e os Bálcãs.
Uma visào tranquila de alguem que estuda esse povo!
Se acrescentarmos nessa equação complicada a informação disseminada entre os ignorantes que, todos os fiéis que tombarem nesta Guerra Santa contra os infiéis irão para um paraíso repleto de fartura e prazeres, que está pronto o estopim para um banho de sangue em escala global. Basta apenas que algum turbante-mór profira alguma imbecilidade mal entendida para acender esse estopim.
Reinaldo, favor corrigir “excelente”…
Hoje, os etnocentristas não entendem essa situação e acham que estão discutindo com líderes com o mesmo nível de preocupação ética e o mesmo compromisso com seu povo que os países ocidentais têm. Mas nem sempre tiveram. Isso vem se aprimorando passo a passo nos último dois séculos.
Ou seja, é um diálogo de surdos e só nâo vê quem não quer que se o Irã tiver a bomba, a chance de usá-la é grande.
Escelente a abordagem. O islamismo (mas não todos os islâmicos, claro) ainda está vivendo 5 séculos atrás da civilização ocidental. Naquela época, no século XV, o cristianismo ainda considerava as cruzadas, a inquisição e as conversões forçadas uma forma legítima de espalhar sua fé: a “cruz ou a espada”, diziam. Nem Barack Obama (nem ninguém) negociaria uma mudança de métodos com Isabel de Castela, a partir de determinada visão de civilização, ética ou democracia. Isso veio com o tempo, com muito sangue derramado.
(cont.)
Onde fica o botão do RESET?
ESSA TAL DE FÉ AJUDA MUITO, MAS MAL DIRECIONADA CEGA, VALHA-ME SENHOR.
“…Eles veem um conflito ocorrendo entre fiéis e infiéis” O que o Sr.Lewis afirma é o que consta no Estatuto do Hamas há 21 anos, mas muitos se recusam a enxergar: “É necessário colocar nas mentes de todas as gerações de muçulmanos que o problema da Palestina é um problema religioso (…) Não podemos deixar de lembrar a cada muçulmano que, quando os judeus ocuparam o Lugar Sagrado (i.e – Jerusalém), em 1967, e se postaram diante da abençoada Mesquita de Al-Aksa, gritaram: “Maomé está morto, sua descendência é de mulheres”. Com isso, Israel, com sua identidade judaica e povo judeu estão desafiando o Islã e os muçulmanos. Que a covardia não conheça descanso.”
Eu não sei o que Israel está esperando que não bombardeia logo
as instalações nucleares do Irã! 0 ferrabrás do Ahmadinejad quer
varrer Israel do mapa e agora fraudou eleições para continuar no
poder. É uma ameça real à paz no 0riente Médio!
Caro Reinaldo,
O sr. Bernard Lewis poderia ter ido um pouco mais longe: essa 1ª fase,(o domínio da Europa e Balcãns) já é batalha matemáticamente ganha.
Por isso o Sr. Sarkozy deveria se preocupar com a burka sim, mas com a possibilidade de TODAS as mulheres da França, em breve, virem a ser OBRIGADAS a usá-la.
Veja aqui: (A nova conquista Islâmica)
http://www.youtube.com/watch?v=6-3X5hIFXYU&eurl=http://insidecatholic.com/Joomla/index.php%3Foption%3Dcom_content%26task%3Dview%26id%3D1154%26Itemid%3D10&feature=player_embedded
Não é bem a legitimidade da “república islâmica” que está em questão. O problema é que trata-se de uma impossibilidade lógica, uma contradictio in termini: uma reública é governada pelas leis, e não por um “lider supremo”. Em suma, nada pode ser simultaneamente uma coisa e sua própria negação. O mesmo se dá, aliás, com a idéia de “socialismo democrático”. Pode parecer possível somente na cabeça de certos ignorantes. Contradições objetivas fazem a realidade entrar em “tilt”, como no episódio mítico do cão Laelaps e a raposa. A única forma de se resolver tais impasses é pela força.
Paulo disse:
junho 28, 2009 às 9:45 am. E este médico ser amigo do Paulo Coelho e lhe mandar e-mail na mesma hora sinistrooooooooooooo
Reinaldao,
A preocupação de muitos israelenses com o governo do Iran é tanta, que israelenses de origem alemã, solicitam passaportes alemães por causa das ameaças.
Muitos jovens já estão aqui. Outros tantos estão na Índia vivendo como hippies e enchendo-se de drogas. Assim, esses jovens tentam encontrar alguma paz interior, esquecendo-se das guerras, das bombas de si mesmos.
Caro Reinaldo, chamar Bernard Lewis de intelectual de verdade correspone a aceitar que a negacao do genocidio do povo armenio que ele fez repetidas vezes tem base na realidade. Bernard Lewis vendeu-se ao lobby turco como esta amplamente documentado. Nao tao ruim como nossos “intelectuais” mas longe de ser comendavel.
É uma pena que esquerdóides não vão entender o que o entrevistado fala… se o lerem.
Ah! E por escrever sobre o século XV não tive como não lembrar da ironia e de VOLTAIRE, 1º sobre o melhor dos mundos “Cândido” e depois, diz esse notável e imortal Iluminista: “EM QUESTÃO DE DINHEIRO TEMOS TODOS A MESMA RELIGIÃO”!
Porém, mais recentemente, Abraham Lincoln terminou com a fantasia religiosa ao dizer, que, “Quando fasso o bem, sinto-me bem; quando faço o mal, sinto-mal, essa é a minha religião”.
Ilustríssimo Reinaldo e Família (e pessoas de bem), bom Domingo e boa semana.
A idéia original do islamismo pode estar sendo desvirtuada com o passar das gerações, da mesma forma que outras religiões estão sendo afetadas pelas “vulgaridades” do mundo moderno. Sinceramente não acredito que aquelas pessoas nas ruas , munidas de celulares , protestando contra a fraude eleitoral , estejam pensando em reconquistar territórios na europa. Essa idéia , pode estar repousando na cabeça de alguns lideres , mas eles também desaparecem , até porque são idosos.
Reinaldo,
só não entendi até agora aquele olhar significativo do médico para o cara do celular, o cameraman, antes de se debruçar sobre a pobre agonizante moça. E entendi menos ainda porque o médico correu para a lanhouse mais próxima, enviou o filme sinistro para jornais ingleses e depois fugiu para a Inglaterra. Ele não era apenas um pacato cidadão que tentou salvar a vida de uma pobre moça, seu dever de médico? Como dizia minha avó, debaixo desse angu tem muito caroço.
Bernard Lewis demonstra muita lucidez, como sempre. Mas sempre tem o pessoal que quer desarticular o debate relegando-o como “teoria da conspiração”.
A questão é saber se o pensamento islâmico vê o mundo como uma batalha entre fiéis e infiéis de forma universal ou se isso é apenas a visão de alguns fundamentalistas.
Porque se a visão de mundo islâmica for a eterna batalha entre fiéis e infiéis isso é muito preocupante para toda a humanidade. Esse pensamento excludente pode ser o germe da discórdia entre os homens e o fertilizante de muitas guerras. É por isso que os valores democráticos são universais. Sem essa de que devemos respeitar o mundo islâmico como ele é. Se o que aqueles malucos pregam é a destruição do mundo via batalha entre fiéis e infiéis então temos de intervir já naquele que pode ser o estopim de uma hecatombe humana.
Off-topic
Hoje faz 40 anos de Stonewall e apenas 7 países e 6 estados dos EUA permitem tanto a adoção por casais gays como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou seja, somente 7 países eliminaram completamente a discriminação dos gays pelo estado.
No Brasil, os políticos se dizem a favor das “uniões civis” e contra o casamento gay, e mesmo assim não fazem nada para aprovar as tais das uniões civis. Alguns juízes reconheceram alguns direitos de casais gays, como adoção, herança e plano de saúde.
Se o Congresso não se movimentar logo, caberá aos tribunais eliminar a discriminação oficial no Brasil, como ocorreu na África do Sul, em 8 das 10 províncias do Canadá e em 3 estados dos EUA.
[...] Eis aqui, leitor, um intelectual de verdade [...]