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05/11/2010

às 6:51

“Bandido tem direitos humanos, mas não tem direito de ser bandido”

Por Cristina Grillo, na Folha:

Sábado, quando a Catedral Metropolitana do Rio abrir as portas para uma missa em homenagem aos 90 anos do cardeal Eugenio de Araújo Sales, os fiéis vão encontrar uma pessoa diferente da que comandou a Arquidiocese do Rio por 30 anos (de 1971 a 2001).
O homem sisudo, de voz e passos firmes, deu lugar a um senhor que caminha com dificuldade, fala baixo e ri.
Suas ideias, contudo, não mudaram. Diz que bandido deve ser tratado como bandido, não como cidadão.



Folha – O sr. foi sagrado bispo aos 33 anos e tornou-se cardeal aos 48. É uma trajetória rara na igreja, não?
Eugenio de Araújo Sales -
Não é comum, mas não me julgo uma pessoa excepcional por isso. Apenas procurei cumprir meus deveres. Sempre disseram que eu era tradicionalista, mas nunca me classifiquei assim.

Incomodava ser chamado de tradicionalista enquanto, durante a ditadura, o sr. ajudou entre 4.000 e 5.000 perseguidos políticos a sair do país?
Eu não achava bom ser chamado de tradicionalista. Mas continuava meu trabalho da mesma forma.

O sr. ligou mesmo para o então ministro do Exército, general Sylvio Frota [ministro do presidente Ernesto Geisel, de 1974 a 1977], e disse: “Se receber a comunicação que estou protegendo comunistas no Palácio [São Joaquim, sede da arquidiocese], saiba que é verdade”?
Disse, mas não para agredir. Estava revelando amizade, mas independência também. Não houve reação negativa dele. Uma vez fui chamado para receber a Medalha do Pacificador [concedida pelo Exército], mas não quis porque a situação era muito difícil. Frota entendeu que não fazia aquilo como afronta. Eles sabiam que eu não era comunista.

Hoje temos a questão da violência, do tráfico. Qual o papel da igreja nesse cenário?
O mesmo daquela época. Por mais de uma vez bandidos armados pararam meu carro quando eu subia para o Sumaré [região do alto da floresta da Tijuca]. Quando viram que eu estava no carro, mandaram seguir. Depois disso, sempre passo com as luzes internas acessas. É sempre um susto. Eles conhecem o carro e procuram esconder armas. Entendo o sofrimento deles, mas isso não justifica seus atos. Bandidos têm que ser tratados como bandidos, não como cidadãos. Bandido tem direitos humanos. Não tem direito de ser bandido, mas não pode ser injustiçado.
Aqui

Por Reinaldo Azevedo

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32 Comentários

  1. Williams Flamarion

    -

    10/06/2011 às 1:58

    O Brasil não é um país sério;.

  2. Cil

    -

    07/11/2010 às 20:25

    Para mim, bandido é bandido e pronto. Bandido não tem que contar com as beneces da lei. Para citar alguém que eu conheço, bandidos deveriam ficar presos por 30 anos e trabalhando, pegando no pesado, nem que seja quebrando pedra.

  3. Peixe mg

    -

    06/11/2010 às 22:51

    Ao estado é dado o direito ao uso das armas, mas, não para agredir gratuitamente. O criminoso, quando preso, deve ser tratado como a sociedade gostaria de ser tratada por ele. O Cardeal tem e teve razão, sempre.

  4. De Honduras

    -

    06/11/2010 às 22:16

    Sr. Reinaldo, tenho por hábito primeiro comnetar, depois ler alguns comnetadores.
    Sei que o blog espeita as opiniões, afinal, o debate é necessário, porém, vejo que muitos não absorveram as palavras realtivas a situação dos chamados ‘bandidos’. Também não nutro bons sentimentos pelas pessoas que destróem outras vidas e famílias pelo uso da violência (vida fácil do crime), através das drogas, ou por causa delas. Entretanto, o que D. Eugênio ensina é que o ideal seria não termos espaço para que alguns caíssem na vida do crime, por isso a fala: “Entendo o sofrimento deles, mas isso não justifica seus atos. Bandidos têm que ser tratados como bandidos, não como cidadãos. Bandido tem direitos humanos. Não tem direito de ser bandido, mas não pode ser injustiçado”. Por isso ele é quem é, e o que é.

  5. De Honduras

    -

    06/11/2010 às 22:07

    Educação, respeito, ética, dignidade, boas leituras, religiosidade.
    Encontre esses valores, dentre outros, e estará diante de alguém que muito fez por muitos.
    Parabéns ao homenageado.

  6. Cristiane

    -

    05/11/2010 às 19:26

    Felicitações ao Cardeal Eugênio Sales!
    E cumprimentos por suas palavras precisas!

  7. Luiz Penha

    -

    05/11/2010 às 18:45

    Como diz o dito popular: “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Ainda bem que uma das personalidades mais influentes do Brasil já encara a questão da violência com realismo. Isso deve servir de exemplo para muitos farsantes que proliferam as entidades de proteção a “direitos humanos”.

  8. Antonio Magno F.Netto

    -

    05/11/2010 às 17:13

    Reinaldo, as idéias do cardeal Eugenio Sales se coadunam com um pensamento primoroso do famoso capelão norte-americano (mentor espiritual de muitos ex-presidentes), Peter Marshall: Liberdade não é o direito de cada um fazer aquilo que lhe apetece, mas a oportunidade de cada um fazer aquilo que lhe parece direito.

  9. Nicolai

    -

    05/11/2010 às 16:32

    Hoje vemos uma infinidade de declarações que nos mostra certa confusão da população em relação ao governo e a igreja, a meu ver a igreja ou seus representantes devem opinar, debater, tentar trazer esclarecimento sobre os temas gerais da administração pública (saúde, educação, segurança publica, política criminal e por ai vai…). A declaração ou opinião do Cardeal é válida e na minha opinião correta, entretanto, não é a “religião” (igreja, representantes, ceita…) que resolve, é o governo, as vezes vejo opiniões e comentários que atribuem o erro ou vício aos religiosos, e não entendo como justo, a não ser que sejam também políticos. Em nosso país religião e governo andam separados, assim daremos a Cesar o que é de Cesar.

  10. Vander

    -

    05/11/2010 às 16:32

    Ele tem é que entender o sofrimento dos não-bandidos, ou seja, das vítimas!!! Injustiçadas são as vítimas dos bandidos!!!

  11. José Flávio

    -

    05/11/2010 às 16:20

    É isso mesmo, bandido, no Brasil e em muitos países, tem mais direitos e recebe mais cuidados do estado e da turminha dos direitos humanos do que o cidadão que trabalha, cuida da família e respeita a lei. Essa história de “bolsa presidiário” é brincadeira! É a vitória dos juristas iluministas de esquerda do século XVIII, do Focault e de seus seguidores nos meios universitários, jurídicos e religiosos! Esse pessoal fez e continua fazendo um estrago danado na sociedade brasileira!

  12. Ana

    -

    05/11/2010 às 15:58

    Vai ver, é por idéias obtusas como essas do cardeal, que bandido, no Brasil, não trabalha. Isso cabe ao cidadão, correto?

  13. EDUARDO

    -

    05/11/2010 às 15:29

    Poxa Reinaldo. Acabei de ler essa matéria. Estava entrando em seu blog para para comentar sobre o fato.
    Incrível vir de um padre essa declaração. Não que ele esteja errado, pelo contrário. Esperava vir de outros segmentos da sociedade, como a OAB e olha que sou advogado e trabalho na área criminal.

  14. Ana Cristina

    -

    05/11/2010 às 15:02

    No Brasil o bandido ainda recebe salario( auxilio reclusao) por cada filho pois ” esta impedido de trabalhar’.Salario em torno de R$700 por filho.Acreditem!!!!Vale a pena ser bandido neste pais.
    Quem nao acredita procure no site da Previdencia.
    http://www.previdenciasocial.gov.br/conteudoDinamico.php?id=22

  15. Alexandre A. C. Resende

    -

    05/11/2010 às 14:46

    Como é bom e dá esperança ler algo de uma pessoa lúcida e coerente. Em meio a mediocridade de pensamento atual essa entrevista é um refrigério na alma.

  16. carlos

    -

    05/11/2010 às 14:14

    Oi Reinaldo. D. Eugênio faz uma afirmação acaciana quando diz o bandido não tem direito de ser bandido.O bandido está contra o direito constituído (daí a palavra, que vem de banido).Quando se fala genericamente em direitos humanos falamos do estado em relação ao indivíduo. O direito de cada cidadão em relação aos outros, é protegido pelas leis ordinárias, pela polícia e pela justiça (muito mal no Brasil, aliás). O que não dá ao estado o direito de se portar como criminoso infringindo suas próprias leis. Quando o criminoso por pior que ele seja sofre barbárie nas prisões e nas delagacias, nós todos nos tornamos um pouco criminosos. Às vítimas e às suas famílias, não estão concedidos quaisquer direitos especiais. Isto deveria ser mudado. O estado que foi incompetente ao garantir a segurança de um assassinado, p.e., deveria indenizar sua família, protegê-la de agressões ou coerções durante os julgamentos. Porém, a maldade do criminoso, nunca justifica o crime do estado.

  17. Lupini

    -

    05/11/2010 às 14:00

    Meu Deus!

    Imogino a cena:
    - Jesus dialogando, em termos políticamente corretos, com os vendilhões do templo; suplicando humildemente que se retirem daquele local, pois alí é a casa do Pai Dele e, mesmo não existindo na Torá, ainda, a previsão legal do uso social da propriedade, seria prudente que dali se afastassem, pois os romanos, com sua cobiça e imperialismo logo iriam se apropriar de seus ganhos na forma de impostos escorchantes.

    Cáspite! Homessa! Arre!

    Dois mil anos e ainda não aprenderam que bandido tem que ser escorraçado? Algumas vezes até eliminados fisicamente?

    Claro que não se está a falar de bandilixos, pungusitas, varalzeiros, ladrão de galinhas ou de toblerone em supermercados; falo dos latrocidas, assassinos, traficantes, estupradores, sequestradores e até dos corruptos que desviam dinheiro público, dos juízes que vendem sentenças favoráveis aos culpados, dos políticos que mentem e iludem o eleitor, roubando destes a confiança no sistema e no ser humano.
    Enfim, a lista dos baníveis ad eternum do convívio dos homens de bem é imensa.

    Reinaldão, com todo o respeito que devoto à sua capacidade lógica e aos seus verdadeiros sentimentos de homem honrado, me parece que fazer passeatas, vestidos de branco na orla das praias, entrelaçando as mãozinhas e simulando o bater de asas de pombinhas, é pedir a vinda do lobo mau, equivale dizer: venham, estou pronto para ser imolado.
    ME COMA, seu lobo malvado!
    Coisa de frutinha, né não?

  18. TX

    -

    05/11/2010 às 13:33

    Ótima frase. De forma muito sintética explica o que algumas pessoas ficam sem entender depois de horas de debate.

  19. Ziu

    -

    05/11/2010 às 12:59

    Reinaldo,
    A lucidez e sabedoria deste Cardeal é um verdadeiro choque se comparado com a quase indigência mental que se vive nos dias atuais neste nosso Brasil, com “especialistas” pensando bobagens monumentais e inventando histórias da carochina para enganar tolos.
    E pensar que um país que teve grandes homens como Dom Eugênio Sales deu nesta miséria que está ai, com homens públicos que parecem ter predileção para desonrar os cargos que exercem e o país onde eles vivem.
    Felicidades Dom Eugênio Sales!!!

  20. maria monteiro

    -

    05/11/2010 às 12:39

    Aos 90 anos e de uma lucidez extraordinária.

  21. Abreu

    -

    05/11/2010 às 10:41

    Ooops!
    … “de que adianta ser excelente mestre, se não há discípulos”…

  22. Abreu

    -

    05/11/2010 às 10:39

    Bela história, sábias palavras, belíssimas lições.
    Todavia, de que adiante ser excelente mestre, se não há discípulos e quando se encontram simples e desinteressados alunos, estes, menos do que aprender, só querem o título, como vistoso “depRoma”?
    Respeitosas congratulações ao Cardeal.

  23. olgadisse

    -

    05/11/2010 às 10:12

    parece que só Dom Eugenio sabe disso….
    que será que pensa dom Paulo, o nosso Cardeal….

  24. Quaker

    -

    05/11/2010 às 10:08

    Então Sérgio Cabral e Eduardo Paz não podem ir a esta missa.
    Por falar em Sérgio Cabral,porque ele vai muito a Europa?
    Quem paga?É a serviço?De quem? Ele gosta muito de Paris.
    Eu também. Vou com o meu dinheiro e não tenho conta nem lá nem a qualquer lugar fora do Brasil.

  25. gilmar

    -

    05/11/2010 às 10:07

    Concordo com o Cardeal Eugenio, não vejo a necessidade de ser cruel e sim ser justo com quem transgride as leis , sem destinção de cor, religião ou padrão social (bandido é bandido).Ja vivi uma [epoca onde esta nação tinha mais senso de justiça hoje estamos forrados de ongs que existem apenas para proteger quem não tem respeito nenhum pelo cidadão, matam, estrupam, roubam , fazem o diabo e ainda tem assistencia enquanto os justos não podem esboçar nenhuma resistencia ou discordancia e ja são rotulados de preconceituosos.Mais facil achar estas entidades de direitos humanos em velório de traficante do que em enterro de crianças vitimas destes.Não podemos criminalizar movimentos sociais desde que estes não cometam crimes a partir disto deixam de ser movimentos para virarem quadrilhas

  26. Ricardo

    -

    05/11/2010 às 10:01

    off tópic (mas nem tanto):
    João Pedro Stédile, acredite se quiser, será homenageado pela Câmara dos Deputados com uma medalha.

  27. Sergio Gomes

    -

    05/11/2010 às 9:23

    Dom Eugênio 1 X 0 Capitão Nascimento, e, diga-se de passagem, foi um golaço !

  28. Margarete Flores

    -

    05/11/2010 às 8:30

    Caro Reinaldo,

    Salve Dom Eugenio Sales!

    Que Deus lhe muita saúde e o que deixe junta de nós ainda por mais alguns anos.

    Lendo esta primeira parte da entrevista, não sei porque lembrei da companheirada…

    abraço
    Margarete

  29. c.c. a patrulha

    -

    05/11/2010 às 8:17

    Caro Reinaldo,
    A sensação de insegurança na periferia é gritante.
    Boca-de-fumo é lugar comum ou o lugar é comum.
    Egressos do sistema penitenciário são reverenciados e passe-
    iam tranquilos e com desenvoltura entre os “contribuintes”.

  30. Cidadão Paulista

    -

    05/11/2010 às 7:59

    Nos dias de hoje, que o MEC censura Monteiro Lobato , vemos que frases simples como esta são verdadeiras dádivas à mente.

 

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