A bagunça partidária no país em que os fracassos do governo são um sucesso!

Que país exótico! O fato de a política brasileira não ter a menor importância no mundo nem despertar a mínima curiosidade é uma sorte para os correspondentes estrangeiros que atuam no país. Isso os livra de diabólicos azares. Imaginem, coitados!, ter de explicar lá fora o que parece desafiar a lógica elementar até aqui dentro […]

Que país exótico!

O fato de a política brasileira não ter a menor importância no mundo nem despertar a mínima curiosidade é uma sorte para os correspondentes estrangeiros que atuam no país. Isso os livra de diabólicos azares. Imaginem, coitados!, ter de explicar lá fora o que parece desafiar a lógica elementar até aqui dentro — embora, diga-se, haja método no imbróglio. Eu chego lá.

Comecemos pelo maior de todos os exotismos: os fracassos do governo Dilma têm sido um grande sucesso de público e seduziam, até havia pouco tempo, quase unanimemente a crítica. Agora, já se ensaia uma censura aqui e acolá, mas ainda bem timidamente. O país cresceu 2,7% no ano passado e deve ficar abaixo disso neste ano. É claro que há a conjuntura internacional e coisa e tal, mas os outros ditos emergentes têm um desempenho muito melhor, o que vale também para alguns países da América Latina. É consenso que o Brasil começa a pagar o preço por aquilo que não fez no tempo das commodities gordas. Agora, até a China diz que o ciclo de baixo crescimento — o “baixo” deles fica ali entre 7% e 8% — veio para durar um bom tempo.

O governo não anda. É pouco realizador, ruim de serviço. Dilma vive da fama de austera, que a tão demonizada — pelos petistas! — “mídia” ajudou a plasmar. Ao fazer o seu trabalho e apontar os casos mais escandalosos de corrupção, a imprensa forçou a presidente a agir. Algumas medidas de impacto — a demissão de ministros — criaram o tal “jeito Dilma” de governar. Estou certo de que 10 entre 10 brasileiros a consideram menos tolerante com a corrupção do que Lula. E, se quiserem saber, isso é verdade porque o contrário seria praticamente impossível, se é que me entendem…

Dadas a baixa performance do governo e uma perspectiva não muito animadora para a economia, o normal seria que forças da oposição estivessem começando a aglutinar os descontentes, estabelecendo, a um só tempo, alguns eixos de críticas e de propostas. Vejam o caso, por exemplo, das universidades federais. A greve que paralisa praticamente 100% das instituições — e já lá se vão dois meses — começou a se tornar visível na imprensa há poucos dias, mas ainda não mobilizou os políticos. No ano passado, mais da metade das instituições ficou parada por mais de quatro meses. Não conseguiram gerar nem mesmo notícia.

O agreste nordestino vive a pior seca em 30 anos. Ela devasta mais de mil municípios. Dilma, obviamente, não é culpada pela falta de chuva. Mas o governo é, sim, responsável por ter negligenciado a assistência e as medidas preventivas. Afinal, esse quadro pode ser tudo, menos surpreendente. Já se sabia o que viria, mas a máquina, inchada e cara, não se mexeu. As vozes representativas do Nordeste no Parlamento, majoritariamente governistas, estão mudas.

A falta de investimentos e de planejamento na área de infraestrutura é uma verdadeira bomba-relógio. O país está começando a comprometer as futuras gerações. O ar severo e compenetrado de Dilma não deve ser confundido com competência. Já se cometeu o erro de tomar as bazófias de Lula por realizações… Não obstante, que força organiza a crítica? A sabedoria convencional diria que momentos assim começam a forçar o pêndulo para o lado oposicionista, certo? É o que costuma acontecer em todas as democracias no mundo.

Por aqui, para má nossa má sorte, é a oposição que continua num lento processo de desconstituição. Por que escrevo “para nossa má sorte”? Porque todo o processo político está rendido a um governo que só não perdeu o rumo porque, de fato, nunca o encontrou. Qual é mesmo a prioridade de Dilma? Se quiséssemos citar, sei lá, três eixos estruturantes de sua gestão, quais seriam?

Quem se move?
Partidos da base aliada começaram a sentir primeiro o cheiro de carne queimada. Na semana passada, numa conversa despretensiosa, como a fingir que só dizia uma obviedade, Michel Temer, o vice-presidente, afirmou que concorrer à reeleição não é uma fatalidade da natureza. Referia-se a Dilma. Ao mesmo tempo, movia-se nos bastidores para, se me permitem o verbo, “fagocitar” partidos nanicos e nem tão nanicos. Uma das legendas que estão no radar de Temer é nada menos do que o… DEM! Vejam vocês! No país da jabuticaba e da pororoca, o mais crítico dos partidos de oposição corre o risco de se fundir com o segundo sócio mais importante do governismo. As respectivas cúpulas dos dois partidos mantêm, e isso é fato, não especulação, uma interlocução permanente. O PMDB pretende criar a sua própria alternativa de poder? Duvido! Quer é ser mais governo, com Dilma mesmo. Se mais forte, pode impor mais condições.

Também o PSB, do governador Eduardo Campos (PE), dá mostras de que pretende ganhar musculatura até 2014. Se a economia degringola a valer (o que não está no horizonte), ele até pode sonhar mais alto já em 2014; se a aliança com Dilma se mantiver, o partido pretende reivindicar mais espaço na aliança e num eventual segundo mandato da presidente. Estão percebendo? A política se tornou, no Brasil, um território quase exclusivo do governismo.

O rolo envolvendo Minas e o PSD, então, desafiaria a paciência de qualquer estrangeiro que tentasse entender o que se passa no país. Os petistas consideram a eleição em São Paulo uma questão de honra, o que levou Lula para os jardins de Maluf. A gestão Gilberto Kassab é implacavelmente alvejada pelo petismo. Mas Dilma recorreu ao prefeito para vitaminar, em Belo Horizonte, a candidatura do petista Patrus Ananias, que conta com o apoio do PMDB. Como o partido já havia sido atraído para a órbita de Aécio Neves, que apoia a reeleição de Márcio Lacerda, do PSB, Kassab interveio na direção local da legenda para forçá-la a se coligar com o… PT!

Não custa lembrar:
— até outro dia, petistas e tucanos mineiros se orgulhavam da aliança na cidade e diziam que a briga de foice entre os dois partidos era coisa de… paulistas;
— nacionalmente, um dos principais aliados de Eduardo Campos é justamente… Kassab. Na capital mineira, no entanto, o prefeito paulistano se arriscou a fazer uma intervenção no PSD para impedi-lo de apoiar o candidato de… Campos!;
— o Kassab que é um dos principais alvos do petismo em São Paulo se transformou num dos principais esteios do petismo em Belo Horizonte;
— o PSDB mineiro, que sempre preferiu a parceira com o PT ao confronto (afinal, isso seria “coisa de paulistas”), foi agora tomado de brio redentor;
— a senadora Kátia Abreu (TO), vice-presidente do PSD, que não foi nem mesmo consultada sobre a intervenção feita por Kassab em Belo Horizonte, reagiu à decisão do prefeito com uma carta duríssima. Foi convidada a migrar para o PMDB. Por enquanto, declinou, mas não descartou. Caso isso acontecesse agora, estaria se integrando à legenda que apoia justamente Patrus Ananias, em favor de quem Kassab fez a intervenção.

Afinal, o que se passa?
Que diabos acontece, afinal de contas, com a política no Brasil e para onde isso nos leva? Começo pela resposta à segunda questão: isso não nos leva a lugar nenhum! Ou nos conduz, sim, a um lugar: a mais do mesmo! Não será em meio a essa desordem partidária que se vai estruturar uma ideia-força para romper com certos atrasos e modernizar a agenda.

A reforma partidária vai assumindo no Brasil as características de uma balcanização de legendas, que vão se fragmentando e se constituindo em grupos de pressão, mas sempre articuladas em torno do governismo, dispostas a arrancar conquistas pontuais do estado ou a ocupar postos estratégicos aqui e ali que garantam o statu quo de grupos, de correntes de opinião, de interesses organizados. Eis o único método do imbróglio. Tudo isso, claro!, faz parte da política. Quando FHC, por exemplo, levou o PSDB a se juntar com o antigo PFL, não ignorava que esses aliados — e outros que se juntaram — tinham suas demandas particulares. Mas ele tinha um norte: a necessidade de fazer reformas — reformas que efetivamente fez (as que conseguiu ao menos) e que, em boa parte, garantiram a bonança dos oito anos de Lula.

A política brasileira vive um momento melancólico. Nunca antes na história destepaiz um governo fraco foi tão forte. Nunca antes na história destepaiz uma oposição com motivos para ser forte foi tão fraca. Aquele não dispõe de ideias, mas detém os instrumentos com que fazer a cooptação. Esta não detém os instrumentos e, se tem ideias, guarda-as para si.

Nessa toada, o Brasil — em que 38% dos universitários não são plenamente alfabetizados —  continuará a ser um país do futuro cheio de passado…

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