Blogs e Colunistas
Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles. (Dylan Thomas — Tradução de Mário Faustino)

21/09/2014

às 17:19

Na favela Dilma Rousseff, faltam água, luz e saneamento, mas há Bolsa Família

Placa na entrada da Vila Dilma Rousseff, invasão de casabres na Zona Norte de Teresina (PI) - Felipe Frazão/VEJA.com

Placa na entrada da Vila Dilma Rousseff, invasão de casabres na Zona Norte de Teresina (PI) – Felipe Frazão/VEJA.com

Por Felipe Frazão, na VEJA.com:
O sol a pino, o tempo seco e a temperatura diária por volta dos 38 graus castigam Teresina entre setembro, outubro e novembro, época do ano que os nativos apelidaram de “b-r-o-bró”, sílaba final dos três meses mais quentes do ano na capital do Piauí. A condição é ainda mais penosa para os moradores da Vila Dilma Rousseff, uma favela formada por casebres de taipas na Zona Norte da cidade. A vegetação local, formada por cajueiros e palmeiras (ou pindobas, como são chamadas no Estado), oferece pouca proteção do sol. Caminhar nas vielas de terra durante o dia torna-se uma tarefa árdua. Apesar de levar o nome da presidente-candidata, líder de intenção de voto no Estado, a invasão, distante 18 quilômetros do centro, parece ainda mais longe do poder público: falta água encanada, energia elétrica e saneamento básico mínimo – banheiro em casa é um privilégio.

Criada há mais de três anos, a “vila” (um eufemismo local para favela) abriga atualmente cerca de 1.000 famílias, segundo moradores ouvidos pela reportagem. As palavras mais pronunciadas entre eles são “água”, “energia” e “gambiarra”, um resumo das carências mais urgentes. No último levantamento, em meados de 2013, havia 658 famílias e mais de 800 barracos de pé – os que continuam vazios ou fechados pertencem a quem os vizinhos chamam de aproveitadores. Os moradores construíram os casebres de cômodo único por conta própria, erguidos com talo de babaçu preenchido com barro. A madeira fina, típica da região, compõe a cerca. As folhas secas das palmeiras cobrem os telhados – embora a maior parte dos moradores esteja comprando telhas para evitar ataques incendiários na madrugada. A palha tem outra serventia: funciona como tampão nos cercadinhos nos quintais, onde se toma banho de balde.

Na entrada da invasão, destaca-se um pé de faveiro, árvore do cerrado com copa mais larga. Nela, está pregada a placa que dá ares de legalidade: “Assentamento Dilma Rousseff”. Não há nenhuma outra formalidade que indique a presença do poder público na favela, aberta na periferia do bairro Santa Maria da Codipi. A água e a luz são puxadas ilegalmente das redes de um condomínio vizinho, construído com recursos do programa Minha Casa Minha Vida. Para se refrescar, os moradores armazenam água em baldes e anilhas de concreto que funcionam como caixa d’água improvisada. Ou vão tomar banho de rio. No vídeo a seguir, conheça a rotina de quem vive no local.

A invasão estabeleceu-se ao lado do maior conjunto habitacional do Estado, o Residencial Jacinta Andrade, com 4.300 casas de alvenaria. Uma nova leva de casas do Residencial Mirante de Santa Maria da Codipi, de 648 unidades e orçamento de 20 milhões de reais, também permanece fechada, sem nenhum morador, à 700 metros de distância. Apesar da condição menos degradante, lá também passou a faltar água neste ano, o que levou os mutuários a abandonarem o lugar. O Ministério Público do Piauí investiga a distribuição de casas a moradores que não se encaixavam nas regras do programa e a revenda proibida. Moradores também denunciaram à Polícia Federal que casas eram usadas como “veraneio”, para festas e churrascos. O Ministério Público Federal abriu uma ação civil pública para apurar desperdício de dinheiro público na obra do Jacinta Andrade, que atravessou os períodos de governo dos últimos três chefes do Executivo locais, ex-aliados que agora protagonizam a disputa. Ao custo de 147 milhões de reais, a construção lançada no governo Wellington Dias (PT), candidato a retornar ao posto, atravessou o mandato do seu sucessor e agora desafeto, Wilson Martins (PSB), e permanece incompleta no mandato-tampão de Zé Filho (PMDB), ex-vice de Martins, que assumiu o governo em abril e concorre à reeleição.

Trabalhadores sem-teto que não conseguiram ser sorteados para receber uma casa do condomínio Jacinta Andrade ergueram a favela. O terreno baldio era rota de fuga, esconderijo de traficantes e local de desova de corpos, além de palco de execuções e linchamentos. Em uma reunião com catorze líderes comunitários na prefeitura de Teresina, decidiram homenagear a presidente recém-eleita. “Na época a gente precisava de um nome forte e o mais forte era o da presidente”, diz Branca, como é conhecida a auxiliar de serviços gerais Risomar Granja Nascimento, de 45 anos.

Branca é um exemplo do pragmatismo teresinense. Filiada ao PCdoB, trabalhou em 1989 na campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Neste ano, é cabo eleitoral do governador Zé Filho (PMDB). Ela conta que passou a presidir o conselho comunitário da Vila Dilma Rousseff com ajuda da primeira-dama de Teresina, Lucy Soares, mulher do prefeito Firmino Filho, do PSDB. Neste ano, também comprometeu-se a trabalhar pela eleição do sobrinho do prefeito, Firmino Paulo (PSDB), para deputado estadual. Mas vota em Dilma – não no PT, ressalva. “Voto para presidente é uma questão minha, eu que tenho de escolher”, justifica. “A presidente Dilma tem um cartaz doido por aqui. Meu voto é da Dilma. Mas por causa do Lula, isso não nego para ninguém. Eu preferia que ele fosse candidato, porque sou pernambucana como ele. E ele só ganha meu voto para a Dilma, porque eu conheço os outros candidatos do PT daqui.”

A quem lhe pergunta sobre a coerência das escolhas políticas, Branca responde: “Dizem que a água e vinho não se misturam, mas isso só vale para nós que somos pobres. Os ricos se misturam. Os políticos aqui de Teresina são assim, vão para cima do palanque e se esculhambam, mas quando termina vão para um lugar de rico que tem acolá na Avenida do Jóquei tomar whisky e conversar como se nada tivesse acontecido, enquanto os bestas ficam brigando por eles.”

A Associação de Moradores do Residencial Dilma Rousseff abriu seu CNPJ em novembro de 2011. Por iniciativa da vereadora Graça Amorim (PTB), que pediu votos na comunidade em 2012, o prefeito sancionou a lei que deu o título de “utilidade pública” à associação em março do ano passado. Segundo Branca, Firmino Filho prometeu ajudar os moradores a se fixarem no local. Há mais de um ano, o prefeito anunciou, durante reunião pública para evitar a reintegração de posse da ocupação, o lançamento de um Plano Diretor de Regularização Fundiária em Teresina. Apesar disso, os vizinhos da Vila Dilma Rousseff convivem com o iminente medo de despejo – o terreno é particular – e reclamam de nunca terem recebido qualquer benefício governamental.

Eles reclamam da precariedade do lugar: no inverno, entre fevereiro e abril, chove e venta forte em Teresina, o que derruba os postes de madeira levantados para passar a fiação. Uma parede inteiriça da casa do pedreiro Antonio dos Santos Soares, de 30 anos, foi ao chão. Ele teve de correr com a mulher e a filha para não ser atingido. Para o pedreiro, os políticos desperdiçam dinheiro com campanhas eleitorais e deveriam ver “se alguém está com fome”. “Esse dinheirão danado que eles andam gastando com carreata e soltando fogos, deviam dar uma carga de barro para um pobre que está precisando”, diz.

Bolsa Família
Soares é eleitor convicto de Dilma, assim como a maioria dos moradores da vila. Ele acredita que só a presidente-candidata tenha condições de aumentar a geração de empregos no país. Também desconfia que postos de trabalho serão fechados se ela for derrotada. “O emprego ficou mais facilitado depois que ela entrou e ela fez um bom trabalho ajudando as mães com o Bolsa Família.” O raciocínio político de Soares ajuda a entender os índices de intenção de voto ostentados pela presidente no Estado: Dilma atinge 61%, ante 24% de Marina Silva (PSB) e 6% de Aécio Neves (PSDB). A preferência por Dilma sobe para 67% entre os piauienses que ganham até um salário mínimo – o inverso do que ocorre com Marina e Aécio, que atingem, respectivamente, 16% e 3% nessa faixa do eleitorado.

Mulher de Soares, a dona de casa Cleudia Regina Gomes Sales, de 31 anos, é uma das beneficiárias do programa na vila. Ela ganha auxílio de 112 reais para manter na escola a filha Adrielle Suyane, de 4 anos. A vizinha Maria de Lourdes Pereira da Costa, de 22 anos, também passou a receber a quantia após o nascimento do menino Luís Eduardo, de 1 ano e 4 meses. Elas fazem parte de uma realidade massificada no Piauí: atualmente o governo federal paga a Bolsa Família para 458.081 no Estado, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. De janeiro a setembro, o governo federal desembolsou 729 milhões de reais em benefícios para famílias que equivalem a 48% da população piauiense. Em 2013, foram 903 milhões de reais.

Durante a conversa com o site de VEJA, Cleudia pediu por três vezes que o repórter lhe arranjasse uma indicação para trabalhar na prefeitura de Teresina. Ao contrário do marido, Cleudia relata dificuldade em conseguir um emprego. Ela elogia Dilma, mas é categórica ao dizer que o governo não levou benefícios para a ocupação. “Até agora não recebemos nada. Os postes são gambiarra, a encanação também, não tem fossa e falta água direto numa quentura dessa para as crianças”, relata. “Acho que a Dilma deve ter ajudado, ela é muito querida aqui. Eu não tenho o que dizer [reclamar] dela não. Muita gente aqui diz que está com o voto garantido para ela.”

A adesão a Dilma, contudo, não é unânime. Um dos primeiros moradores da invasão, o camelô Carlos da Silva Gomes, de 45 anos, eleitor da petista em 2010, agora pensa em anular o voto. Ele afirma que perdeu a confiança nos políticos. “Votei na Dilma devido à incerteza. Ela já vinha com o Lula e eu sabia que ia continuar o governo dele”, diz o vendedor ambulante. “Hoje a gente vê que a corrupção já vem de muito tempo, é só o que a gente houve falar na televisão. A gente não vê o benefício, não vê eles se dedicarem ao voto da pessoa. Eu mesmo nunca fui beneficiado pelo governo municipal, estadual nem federal.”

Mais nova moradora da vila, a mãe de Gomes, Maria Isabel da Silva, de 68 anos, também está indecisa sobre a quem confiar o voto presidencial. “Estava pensando na Marina, mas ainda não tenho opção”, diz a dona de casa, que lembra ter tido como último benefício do governo o Bolsa Escola, de 32 reais, para um neto. O benefício, que “servia para comprar uma merenda no colégio”, foi cortado quando o rapaz completou 16 anos. No domingo passado, Maria Isabel se juntou ao terreno em que a família ergueu três casebres, o primeiro há 3 anos e 7 meses. Reflexivo, Gomes cobra a presença do Estado no local onde deseja viver pelos próximos anos. “Não penso em sair daqui. Já me sinto como dono mesmo. É muito bom ter o que é da gente.”

Por Reinaldo Azevedo

21/09/2014

às 16:39

Não me digam que o “171” está falando mal de mim… Haddad, trabalho de jagunços não me intimida!

Mandam-me aqui um texto publicado em um site conhecido como “171” — é claro que eu não tinha lido e não passei das primeiras linhas — me esculhambando por causa das ciclofaixas de Fernando Haddad, o maníaco.

É lindo ver o texto com o logotipo da Caixa Econômica Federal ao lado. A turma era patrocinada também pela Prefeitura de São Paulo até outro dia. Passada a eleição, o “patrocínio” volta.

Esse trabalho de jagunço nunca me intimidou nem me intimida, viu, prefeito? Jagunço, como vocês sabem, não tem querer. Cumpre a vontade de quem paga.

A turma do “171” é maníaca por mim. Já foi maníaca a favor. O Poderoso Chefão de lá vivia me cobrindo de elogios em e-mails pessoais e me convidando para um café. Eu os tenho aqui guardados. Era antipetista fanático, e o partido dizia que era capacho de Daniel Dantas. Nunca lhe dei o prazer nem de um aperto de mão porque nunca fui capacho de… Daniel Dantas. Entenderam? Agora estou na lista daqueles que ele é pago para odiar. Para elogiar, cobra mais caro.

Lixo.

Alguém dirá: “Ih, se a turma deles perder a eleição, esse tipo de subjornalismo fica na pior”. Entendam uma coisa: isso não é ideologia, é caixa. Se o eventual novo poder pagar, a turma continua governista. É a mais antiga profissão do mundo. Gente desse ramo recebe para fazer o cliente se sentir satisfeito.

A propósito: hoje, faltam 832 para os paulistanos se livrarem de Haddad.

Por Reinaldo Azevedo

21/09/2014

às 9:20

LEIAM ABAIXO

Por Reinaldo Azevedo

21/09/2014

às 8:33

HADDAD E AS CICLOFAIXAS: A PARTIR DE HOJE, O PREFEITO FICARÁ AINDA MAIS DOIDO. OU: ODORICO PARAGUAÇU E A IMPRENSA LIVRE E INDEPENDENTE

Vejam esta foto. Já explico.

foto (38)

Lá vou eu, mais uma vez, dedicar um pouco do meu tempo à gestão de Fernando Odorico Haddad Paraguaçu.

Escrevi ontem um post criticando a pretensão do prefeito Fernando Haddad (PT) de conceder desconto de IPTU para empresas que criarem bicicletários. Eu o publiquei, como se pode ver, às 6h01. Quando fui deitar, ainda não havia recebido a edição da VEJA. Acordo, tomo café, leio a revista e constato que há uma reportagem sobre as ciclofaixas. Segundo o texto, que reconhece algumas dificuldades no programa em curso na cidade de São Paulo, trata-se de uma tendência irreversível.

Abro a área de comentários do blog, e havia uma enxurrada de provocações — certamente, uma intervenção organizada — especulando sobre a diferença entre a minha opinião e a da VEJA. A “Al Qaeda eletrônica”, como defino a canalha, se dividia em três abordagens:

a: eu teria escrito um post para tentar desmoralizar a reportagem da revista, o que, obviamente, me faz candidato à guilhotina;
b: a VEJA é que teria produzido uma reportagem para desmoralizar o que penso a respeito, o que também me põe no caminho da lâmina no pescoço;
c: depois da reportagem, é claro que vou mudar de opinião porque, afinal, escrevo o que me mandam escrever.

Vamos ver.
a: ainda que eu quisesse, não teria como contestar uma reportagem cuja existência eu desconhecia;
b: a VEJA tem mais o que fazer do que contestar minhas opiniões;
c: se e quando a revista quiser cortar a minha cabeça, não será por causa das ciclofaixas. Temos diferenças de pensamento em assuntos muito mais relevantes.

Essa patrulha ainda é expressão da boçalidade da era petista. A boa notícia é que ela está em declínio, com ou sem a reeleição de Dilma. Estamos vivendo o fim de um ciclo: da economia, da política e até da estupidez — isso não quer dizer, claro!, que não possa vir à luz uma estupidez nova. OK… A alternância de poder, ainda que da burrice, já é um alento. Adiante.

Se a VEJA e eu pensássemos rigorosamente a mesma coisa, que sentido faria o site da revista hospedar o meu blog? Nem me dedico a um levantamento exaustivo. De imediato, lembro-me de que expressamos pontos de vista divergentes sobre aborto, pesquisas com células-tronco embrionárias, ciclofaixas, manifestações de junho, aquecimento global etc. O site da revista não me contratou para escrever o que ela pensa. Fui contratado para escrever o que eu penso. Às vezes, há coincidência; às vezes, não.

Os idiotas que resolveram invadir a área de comentários com quatro patas — e não com duas rodas — são incapazes de compreender o espírito da imprensa livre e independente. Essa gente, que ou vende a sua opinião ou entrega a sua alma a um partido, imagina que todos agem do mesmo modo. Podem tirar o cavalo da chuva. Ainda não foi desta vez. VEJA e eu estamos mais juntos do que nunca no propósito de assegurar a liberdade de pensamento e de concordar em discordar. Escravos voluntários não se conformam que isso possa existir.

Pesquisas
Tanto a pesquisa encomendada pela ONG petista Rede Nossa São Paulo (esse “nossa” quer dizer “deles”) como a do Datafolha apontam que uma ampla maioria dos paulistanos é favorável às ciclofaixas. Que bom! Eu também sou! Como era — e continuo — favorável às faixas exclusivas de ônibus.

Com a devida vênia, há pesquisas que não precisam ser feitas. Indagar “Você é a favor ou contra a implantação de ciclovias em São Paulo?” já traz, em si, a resposta. É evidente que a esmagadora maioria das pessoas vai dizer que é favorável — 80%, segundo o Datafolha (70% no caso da faixa na Paulista).

Proponho outras questões cuja resposta já conheço:
1: você é a favor da igualdade ou contra?;
2: você é a favor da justiça ou contra?;
3: você é a favor do uso de imóveis hoje fechados para moradia ou contra?

Quase ninguém é contra o bem, o belo e o justo, não é mesmo? A questão é saber como eles serão alcançados. Ser favorável à igualdade, à justiça e à democratização da propriedade não faz dessa alma generosa um militante stalinista, por exemplo, ou um fã do Guilherme Boulos, o coxinha vermelho.

O meu ponto
É evidente que quase ninguém se opõe a que existam faixas exclusivas para bicicletas. Havendo espaço, por mim, que até os discos voadores tenham seus campos de pouso. A minha crítica se deve à forma como o prefeito implementa a proposta, na base da porrada, sem planejamento nenhum, na correria, para mostrar algum serviço, confinando os carros, demonizando os motoristas, tornando ainda mais caótico o trânsito da cidade.

Pior: as ciclofaixas se transformaram numa espécie de culto religioso dos “descolados” que circulam pelo centro expandido da cidade. É escandaloso que o programa comece justamente onde as bicicletas não estão — daí as pistas vazias, desertas — em vez de ser testado onde elas estão: na periferia.

Ocorre que a ideia fixa de Haddad nunca pretendeu criar uma alternativa de transporte. O propósito é outro: educar espíritos, compreendem? Ele está menos empenhado em melhorar as condições de mobilidade — elas pioraram — do que em converter as almas e inaugurar uma nova era. Ele não quer fazer da bicicleta um meio a mais de transporte: ele quer fazer uma “revolução” e produzir derrotados. Como tudo o mais, na sua gestão, dará errado — cadê o Arco do Futuro, prefeito, com aquela maravilhosa maquete? —, quer deixar as ciclofaixas como herança.

Odorico Paraguaçu
Haddad é o Odorico Paraguaçu da bicicleta. Muitos hão de se lembrar do prefeito de Sucupira, de “O Bem-Amado”, de Dias Gomes. Os mais jovens terão de fazer uma pesquisa. O grande projeto do homem era criar um cemitério na cidade. Criou. Só que não morria ninguém para que ele pudesse inaugurá-lo. Então ele resolve dar um jeito: contratar um jagunço para produzir um cadáver que justificasse a sua obra.

Assim faz Haddad. Ele criou as ciclofaixas, mas só 3% dos entrevistados pelo Datafolha admitem usá-las regularmente. Então ele quer dar um jeitinho: isenção de IPTU para empresas que criarem biciletários e reserva de espaço nos ônibus para as bicicletas. Mas onde colocá-las? Ora, no espaço destinado a idosos e deficientes.

Odorico (Paulo Gracindo) contratou Zeca Diabo (Lima Duarte) para produzir o cadáver que inauguraria o cemitério

Odorico (Paulo Gracindo) contratou Zeca Diabo (Lima Duarte) para produzir o cadáver que inauguraria o cemitério

A partir desta segunda, o prefeito estará ainda mais doidão. Segundo o Datafolha, em dois meses, caiu de 47% para 28% os que avaliam a gestão do prefeito como ruim ou péssima; os que a veem como regular subiram de 37% para 44%, e saltaram de 15% para 22% os que dizem ser ela boa ou ótima. Será tudo por causa da ciclofaixa? Pois é… O próprio prefeito não encontraria outra explicação, porque não teria como ver os próprios méritos na saúde, na educação, na zeladoria, no planejamento urbano…

Uma coisa é certa: o marketing de Haddad se tornou bem mais agressivo. Há até militantes disfarçados de jornalistas fazendo perguntas em entrevistas coletivas para satanizar os críticos de suas propostas (encerrarei este post com esse assunto).

Agora a foto
E aquela foto lá no alto? Tirei no começo desta madrugada. O buraco que vocês veem está na ciclofaixa que passa na Praça Vilaboim, em Higienópolis. O dito-cujo está lá há mais de ano. É enorme — comparem com o tamanho daqueles “tachões” que delimitam a pista exclusiva para bicicletas. Reparem no detalhe: os tarados da ideia fixa nem se ocuparam de tapar o rombo. Meteram a faixa amarela por cima — o que poria em risco até a segurança de ciclistas se eles existissem. Mais: a rua é relativamente íngreme. Para subi-la de bicicleta, é preciso ter certo condicionamento físico. “Ah, mas em Amsterdã…” Em Amsterdã e em várias outras cidades, as ciclovias são um suplemento, uma opção, uma oferta, uma generosidade. Não foram criadas hostilizando motoristas e piorando a mobilidade.

“Ah, mas 80% dos paulistanos são favoráveis…” Espero que cheguem a 100%. Ainda tenho a ambição de ser, em algum momento, aquele ser estatisticamente desprezível, que desaparece nos arredondamentos, mas que, ainda assim, fala o que pensa.

Segundo o prefeito Fernando Haddad, gente como eu quer evitar o futuro. Segundo gente como eu, o prefeito Fernando Haddad é só um Odorico Paraguaçu que está doido para inaugurar o seu cemitério. E nada é mais velho do que isso.

Para encerrar, duas observações
1: ainda voltarei à ONG Rede Nossa São Paulo. Sinto vergonha alheia quando penso nela. Direi por quê.

2: o prefeito e seus tentáculos se dispensem de tentar patrulhar a minha opinião onde quer que seja. Não dou a menor bola. Só me animo mais. É feio recorrer a falsos jornalistas em entrevistas coletivas. Os blogs sujos não bastam?

PS: Prefeito, tenha ao menos a decência de mandar varrer as ciclofaixas. Estão virando depósito de lixo. Com o apoio de 80%. Oitenta por cento que não recolhem a sujeira.

Ah, sim: eu também sou favorável às ciclofaixas, tá, pessoal? Eu me oponho é à picaretagem e ao cinismo que se veem naquela foto.

Odorico Paraguaçu, disfarçado de Fernando Haddad, tendo ideias para inviabilizar SP

Odorico Paraguaçu, disfarçado de Fernando Haddad, tendo ideias para inviabilizar SP

Por Reinaldo Azevedo

21/09/2014

às 8:31

Pessimildo x Otimildo: por que há boas razões para temer o pior

Pessimildo, a caricatura boçal que a campanha do PT faz dos críticos do governo

Pessimildo, a caricatura boçal que a campanha do PT faz dos críticos do governo

Por Daniel Jelin, na VEJA.com:
Um ranheta contumaz que torce para que o Brasil dê errado. É essa a imagem que a candidata Dilma Rousseff tem de seus críticos, a julgar pela cruzada contra o pensamento negativo que o PT levou ao horário eleitoral essa semana. A campanha é estrelada por um boneco batizado Pessimildo, de sobrancelhas grossas, olhos cansados e queixo protuberante — parece uma mistura do Seu Saraiva, o personagem de Francisco Milani no Zorra Total; com Statler, o crítico rabugento dos Muppets; Carl, o viúvo solitário de Up – Altas Aventuras; e Gru, o vilão de Meu Malvado Favorito. No vídeo levado ao ar, Pessimildo passa a noite em claro “para ver o pior acontecer” e se diverte com a perspectiva de que o desemprego cresça no Brasil — o que, hoje, é bem mais do que uma perspectiva. Um narrador de tom jovial faz pouco caso do fantoche: “Vai dormir, vai”.

Pessimildo é uma caricatura, mas bastante reveladora das obsessões da campanha petista. Desde o início da corrida eleitoral, a presidente Dilma Rousseff tem atacado os “nossos pessimistas”, que “desistem antes de começar”. Para ela, como para seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, “pessimismo” se opõe a valores como “verdade”, “vitória” e “progresso”. “Pense positivo, pense Dilma (sic)”, recomenda a campanha petista, à maneira dos manuais de autoajuda.

As armadilhas deste otimismo desmedido são analisadas em The Uses of Pessimism (“As Vantagens do Pessimismo”, em edição publicada em Portugal), que o filósofo inglês Roger Scruton lançou em 2010.

Não se trata de defender a melancolia, a desesperança, a indiferença ou o ressentimento — o livro não tem nada de sombrio. Seu alvo é o “otimismo inescrupuloso”. E, com frequência, o Otimildo da campanha petista é aquele que constrói sua mensagem com base em falácias, exageros, ilusões — ou na pura e simples manipulação da verdade e dos números.

“Pessoas verdadeiramente alegres, que amam a vida e são gratas por esta dádiva, têm grande necessidade do pessimismo — em doses pequenas o bastante para que sejam digeríveis”, escreve Scruton.

Vai dar tudo certo
A primeira armadilha apontada pelo britânico é a “falácia da melhor das hipóteses”. É o engano típico dos apostadores, que “entram no jogo com a plena expectativa de ganhar, levados por suas ilusões a uma situação irreal de segurança” – uma descrição aproximada do transe em que vive a área econômica do governo petista. O apostador só aparentemente assume riscos, escreve Scruton. No fundo, o que ele faz é bem o contrário: julgando-se predestinado, dobra a aposta convicto da vitória que acredita “merecer”. Em 2011, logo após assumir, Dilma contava com que o país crescesse 5,9% ao ano – em média! – em seu governo. A poucos meses de concluir seu mandato, Dilma amarga resultados tão ruins que só podem ser comparados aos anos Collor e ao governo de Floriano Peixoto, nos primórdios da República. O país está em recessão técnica, mas nem isso abala o otimismo palaciano. Como o jogo, o irrealismo é em si uma espécie de vício, analisa o filósofo.

Eu tenho um plano
Uma das falácias centrais analisadas por Scruton é a do planejamento, que consiste na crença de que sociedades podem ser organizadas como exércitos em torno de um plano desenhado por um poder central. Dessa armadilha deriva o furor regulatório dos burocratas e idealistas instalados na máquina pública. É a marca de regimes autoritários, claro, mas também envenena sólidas democracias. Para Scruton, o maior exemplo dessa falácia é incansável disposição dos arquitetos da União Europeia para editar marcos regulatórios cada vez mais detalhados e intrusivos, ignorando o “o modo como, pela lei das consequências não planejadas, a solução de um problema pode ser o início de outro”. Scruton dá como exemplo a determinação de que o abate de animais na UE se faça na presença de um veterinário. O objetivo: remover da cadeia produtiva os animais doentes, possivelmente impróprios para o consumo. O resultado: onde o diploma de veterinário é difícil de obter, e o profissional, portanto, é muito bem remunerado, pequenos abatedouros se viram obrigados a fechar, pondo em dificuldades também os pequenos criadores.

Um corolário da falácia do planejamento é o inchaço da máquina pública. É sintomático que Dilma, uma notória “planejadora”, tenha levado o primeiro escalão a abrigar 39 ministros, incluindo o da Pesca, para, segundo informou recentemente a presidente, não descuidar da tilápia. A falácia reside na crença de que um exército de iluminados tenha soluções, de canetada em canetada, para todos os problemas do país. E é grande o apelo desse falácia. “Todo mundo quer empurrar seus problemas para o estado, com a certeza de que há um plano para sua sobrevivência que não exija esforços de sua parte”, afirma Scruton a VEJA. “Como digo em meu livro, não há como convencer as pessoas a abrir mão dessas falácias, e só um desastre pode momentaneamente incutir a verdade em suas mentes.”

Eu tenho um sonho
A campanha eleitoral brasileira parece uma coleção das falácias analisadas por Scruton. Uma delas é particularmente recorrente: a utopia, uma visão de futuro em que os homens terão superado suas diferenças e resolvido todos os problemas. Marina Silva, a presidenciável do PSB, tem o discurso mais utópico da corrida presidencial – já se definiu como ‘sonhática’, por oposição aos políticos ‘pragmáticos’, e acredita que seu eventual governo poderia atrair os melhores quadros dos partidos brasileiro, incluindo os arquirrivais PT e PSDB.

Claro, a mobilização política terá sempre um forte acento otimista — Martin Luther King não teria feito história se, em vez de um sonho, tivesse apenas uma sugestão a dar… A falácia da utopia, contudo, vai bem além disso: acena, não com dias melhores, mas com o fim de todos os males. É uma promessa, por definição, irrealizável. Como o eleitor pode se precaver contra esse tipo de ilusão? “Não é fácil. Ninguém vota em pessimistas. Ainda assim é possível distinguir os políticos realistas – aqueles que reconhecem os problemas e estão preparados para encará-los, como Margaret Thatcher e Winston Churchill. Mas, claro, dependemos de uma cultura de seriedade e responsabilidade”, diz Scruton. “Isso existe no Brasil?”

Pior não fica
A reportagem informa Scruton da existência do palhaço Tiririca, o deputado mais votado em 2010, candidato à reeleição em 2014, cujo slogan é “pior do que está não fica”. É possível cultivar um pessimismo “esclarecido”, sem sarcasmo, sem desistir da política? “Sim, é possível”, responde Scruton. “Mas é mais provável que isso ocorra durante uma crise nacional, quando as pessoas precisam de liderança e por isso irão procurar qualidades morais, realismo e coragem nos políticos. O sarcasmo pode ser bem-sucedido em tempos de paz e riqueza, mas não em tempos de conflito e privação. O fato de que políticos no Brasil sejam vistos como piada sugere que as coisas no Brasil não estão tão mal.”

As armadilhas do progressismo
Expoente do pensamento conservador, Scruton dá especial atenção às armadilhas do “progressismo”. O filósofo considera enganoso estender o entendimento que se tem do progresso na ciência a outras áreas. Que a ciência avance, por acumulação de conhecimento, é inegável. Mas é “questionável acreditar, por exemplo, que haja progresso moral contínuo, que avance à velocidade da ciência”, escreve. Em um país na 79ª posição no ranking do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, contudo, “progresso” é palavra de ordem no debate político. Como países emergentes devem lidar com a necessidade de se desenvolver, sem ceder às falsas esperanças? Scruton não é contra o progresso, é claro, mas lembra que algumas mudanças acontecem para pior. “Acho que é sempre necessário considerar o que as pessoas têm e aprender a dar valor a isso. Não virar as costas ao passado, aos costumes e às instituições que são a medida da felicidade das pessoas”, diz. “É também necessário reconhecer o custo do progresso, em termos de prejuízos ambientais, migrações e desagregação das famílias. É necessário enfatizar esses aspectos para lembrar as pessoas das boas coisas que elas podem perder.”

As armadilhas da igualdade
Uma das ciladas do otimismo inescrupuloso é o que Scruton chama de “falácia da agregação”, que o filósofo ilustra com o seguinte exemplo: uma pessoa pode gostar de lagosta, chocolate e ketchup, mas isso não significa que deva combinar os ingredientes no mesmo prato. Para o filósofo, o lema da Revolução Francesa incorre na mesma falácia: só se promove a igualdade às custas da liberdade. Como países ainda tão desiguais como o Brasil devem enfrentar a questão? “É justo lutar pela igualdade quando as desigualdades, de modo manifesto, dividem e ameaçam a ordem social”, responde Scruton. “Mas é errado acreditar que se pode perseguir a igualdade e a liberdade ao mesmo tempo. Para que haja uma sociedade mais igualitária, é preciso conter ambições e garantir que a renda seja distribuída, mesmo contra a vontade dos contribuintes.”

Fantasias convenientes
Embora disseque todas as falácias do otimismo desmedido, Scruton não tem esperança de que “otimildos” recuem de suas ilusões. Ao contrário, eles se voltarão contra seus críticos e seguirão com suas fantasias convenientes, e com energia renovada, bradando por mais progresso, novos planos, mais belas utopias. Para tanto, recorrerão a diversos “mecanismos de defesa contra a verdade”, afirma Scruton, como a inversão do ônus da prova e a transferência de responsabilidades. Como esses truques podem ser tão eficientes? “Nós todos evitamos a realidade quando ela é inconveniente. A verdade é uma disciplina difícil. É importante que cada sociedade acomode instituições – locais de debate, think tanks, universidades – onde a liberdade possa ser buscada a todo custo”, diz. “Enquanto houver liberdade de expressão e de opinião, a verdade pode ser dita e, gradualmente, infiltrar-se na opinião pública. Mas isso leva tempo e é necessário que as pessoas aprendam a respeitar os que dizem a verdade.”

Por Reinaldo Azevedo

21/09/2014

às 8:29

Assessor econômico de Marina defende “choque de credibilidade”

"Deveriamos ter reformas institucionais para melhorar o ambiente do negócio no Brasil", diz Tiago Cavalcanti (Fabiano Accorsi/EXAME)

“Deveríamos ter reformas institucionais para melhorar o ambiente do negócio no Brasil”, diz Tiago Cavalcanti (Fabiano Accorsi/EXAME)

Por Luís Lima, na VEJA.com:
A trajetória do economista Tiago Cavalcanti guarda várias semelhanças com a do ex-candidato à Presidência Eduardo Campos. Ambos são pernambucanos, se formaram em economia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e foram convidados para cursar doutorado na Universidade de Illinois Urbana Campaign, nos Estados Unidos. Campos decidiu priorizar a carreira política; já Cavalcanti aceitou o convite e, após concluir a pós-graduação, se tornou professor de desenvolvimento econômico na renomada Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Antes disso, os caminhos de Campos e Cavalcanti se cruzaram novamente. Após um encontro, Cavalcanti aceitou colaborar com a área econômica do programa de governo do PSB. E não parou por aí.  

Atualmente, mesmo de longe, Cavalcanti ainda contribui ativamente com a campanha de Marina Silva, que encabeçou a candidatura do PSB após a morte de Campos, em um acidente aéreo, em agosto. O interlocutor de Cavalcanti no Brasil é Alexandre Rands, irmão de Maurício Rands, coordenador do programa de governo do PSB. Quando passou a fazer parte do time, Cavacanti disse que convidou outras pessoas, como o professor do Insper Marco Bonomo. 

Crítico da atual gestão econômica do governo, Cavalcanti diz que é preciso um “choque de credibilidade” na economia, principalmente na política monetária. ”O primeiro erro grave (da atual gestão) é de diagnóstico. O problema do Brasil não é de demanda, mas de oferta”, afirmou em entrevista ao site de VEJA. Entre outros pontos, Cavalcanti defende uma maior transparência na política fiscal, uma mudança na filosofia da gestão pública, com o estabelecimento de metas e resultados que evitem desperdícios, além de um fortalecimento da participação do setor privado em projetos públicos. Em linha com o que vem sendo defendido por Marina, Cavalcanti também acredita na independência formal do Banco Central (BC), no aumento do superávit primário, em uma reforma tributária e na trajetória de queda da meta de inflação. Veja trechos do bate-papo.  

Qual é  principal erro da política econômica do governo Dilma Rousseff?
O primeiro erro grave é de diagnóstico. O problema do Brasil não é de demanda, mas de oferta. A taxa de desemprego é baixa, apesar de estar com tendência crescente, e a inflação é relativamente alta, mesmo com alguns preços controlados artificialmente. O Brasil tem uma infraestrutura precária, uma mão-de-obra com baixa qualificação para padrões internacionais e um péssimo ambiente de negócio. Além disso, investimos muito pouco. Nossa taxa de investimento (18%) é parecida com a da Inglaterra que já tem uma infraestrutura razoável, mas bem abaixo dos países emergentes como China (acima de 40%) ou Chile (acima de 23%). Enquanto tínhamos capacidade produtiva ociosa (alto desemprego ou empregos precários) e a bonança externa devido ao alto preço das commodities, o Brasil cresceu. Mas, depois, parou. Além disso, a política macroeconômica (fiscal e monetária) piorou muito nos últimos anos. A ideia do governo Dilma era a de que para aumentar a taxa de investimento e incentivar a produção industrial, o Brasil precisaria de uma nova matriz macroeconômica: taxa de juros baixa, câmbio depreciado e inflação baixa através do controle de alguns preços. Os conselheiros de Dilma falavam isso. Vimos que essa não foi uma política acertada.

Quais os ajustes necessários para a economia deslanchar em 2015?
O Brasil precisa corrigir as fontes dos problemas. Sabemos que congelar preços não é a solução para o problema da inflação. O correto é deixar o preço do petróleo seguir a tendência internacional. Também é preciso corrigir outros preços administrados. Paralelamente, a política monetária precisa de um choque de credibilidade e o Banco Central (BC) tem de seguir a meta estabelecida. Segundo, a política fiscal precisa de transparência, sem os famosos artifícios contábeis. Com isso, e um aumento no superávit primário, a dívida do Brasil poderia voltar para uma tendência sustentável. 

O Brasil também precisa retomar a agenda de reformas. Arrecadamos, em proporção à renda, a mesma coisa que o Canadá e bem mais que o Chile. Mas nossos serviços públicos são bem piores que nesses dois países. Não precisa ter um choque enorme para diminuir o Estado, mas o Brasil pode sim reduzir os desperdícios no setor público, melhorando a gestão através de um planejamento e uma filosofia de metas e resultados neste setor. Com isso, podem sobrar mais recursos para investimento público e políticas sociais. Ainda é preciso aumentar a infraestrutura pública com a participação do setor privado. Neste caso, é preciso regras claras e transparência, que podem melhorar através do fortalecimento das agências reguladoras. Por fim, são imprescindíveis reformas institucionais para melhorar o ambiente do negócio no Brasil. Abertura e fechamento de firmas, melhora na burocracia, rapidez para pagar impostos, etc. Devem-se criar metas para uma melhora institucional.

Em quais áreas da gestão pública há desperdícios que poderiam ser enxugados?
Teria de estudar a fundo as contas do governo. Mas, por exemplo, a diminuição na transferência de recursos do Tesouro para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES). O BNDES poderia focar mais em algumas atividades e em setores com efeitos claros de trasbordamento ou retornos crescentes à escala, como em projetos de infraestrutura e inovação.

A reforma tributária é mesmo possível?
Deve-se ter um sistema tributário simples, que não incentive a evasão fiscal. Portanto, é preciso uma reforma que possa substituir a tributação complexa atual e introduzir uma tributação simples no valor adicionado, diminuindo a quantidade de tributos.

Como você avalia a atual meta de inflação? Ela deveria ser alterada?
A meta deve ser de tendência negativa, ou seja, deve ser reduzida. Diria que o que está no programa de governo está bom.

Como Marina, se ganhar, conseguirá fazer todos os investimentos prometidos em áreas sociais e, ao mesmo tempo, enxugar gastos do Estado?
Acho primeiro que se passa por uma mudança na filosofia de gestão. É preciso planejar, definir metas e cobrar resultados. Dado o tamanho do Estado e a qualidade dos serviços que ele oferece, tenho certeza que há muito espaço para diminuir desperdícios. Eduardo Campos fez isso. Além disso, é importante definir incentivos para recompensar bom desempenho no setor público. O tamanho do Estado em relação à renda pode diminuir ao passar dos anos, mesmo sem cortes nos gastos. Basta que os gastos aumentem com a inflação e a taxa de crescimento do PIB real aumente em 1 ou 2 pontos porcentuais. Educação pública, saúde pública e o Bolsa Família são conquistas da democracia. A gestão de um hospital pode ser privada, mas o suporte financeiro pode ser público. Não há nada de errado nesta filosofia. A esquerda gosta de apontar os países da Escandinávia como exemplo de países com uma alta participação do Estado e um alto nível de renda e  de qualidade de vida. É verdade, mas a filosofia é diferente. Não é um Estado produtor. É um Estado de bem-estar social que tem uma filosofia de gestão privada com metas e avaliação de resultados. 

A independência do BC garantida por lei é necessária?
Sou a favor da autonomia do Banco Central. No passado, muita gente reclamou da Lei de Responsabilidade Fiscal e todo mundo agora acha que essa é uma lei importante para o controle de gastos no Brasil. Mudanças institucionais têm sempre resistência. O Banco Central da Inglaterra é gerido por um canadense que foi presidente do Banco Central do Canadá, e foi escolhido porque o Canadá passou pela crise de forma mais suave.

Os governos Dilma e Lula foram caracterizados pelo desenvolvimentismo; FHC era neoliberal. Marina quer ‘casar’ essas duas marcas. Qual a principal característica do programa da candidata?
Não gosto de rótulos. Eles inibem o debate e cegam as discussões. Acho que há bastante evidência empírica de políticas que podem levar a um maior desenvolvimento e melhoria na qualidade de vida das pessoas. É preciso dar os incentivos corretos. Marina está trazendo o meio ambiente para o centro das discussões e como prioridade do seu projeto de governo. Acho que isso é um avanço imenso. Questões ambientais são problemas de primeira ordem. É preciso combater a desigualdade também. Não só na ponta, transferindo renda diretamente, mas também na origem. Neste caso, temos o problema da desigualdade de oportunidades. É aí que temos que realmente mudar o Brasil com investimento públicos nos primeiros anos de vida (onde o retorno é maior), creches e escolas integrais. 

O senhor aceitaria compor a equipe econômica de um eventual governo de Marina Silva?
Essa é uma questão difícil. Tenho minha família, emprego na Universidade de Cambridge e alguns projetos pessoais relacionados à minha carreira acadêmica. Mas, se for dentro das minhas qualificações e algo que genuinamente possa ajudar, então pensaria seriamente. No fundo, foi por isso que decidi fazer economia.

Por Reinaldo Azevedo

20/09/2014

às 6:47

LEIAM ABAIXO

Já que a porrada não funcionou, Haddad, o maníaco, agora quer a “Bolsa Bicicleta”: dar desconto de IPTU a quem incentivar o que os idiotas chamam “bike”. E ainda faltam 833 dias para a gente se livrar dele…;
Costa cita mais dois ex-diretores da Petrobras em esquema corrupto; um deles era homem de… José Dirceu na empresa! Ou: Uma empresa que fura poços e acha escândalos;
Ministério Público pede ao TCU abertura de inspeção nos Correios;
O que se passa com o IBGE? Não sei! Nenhuma possibilidade é boa.;
“Erro” no Pnad: governo vai criar comissões de especialistas;
Dilma ainda não sabe para que serve a imprensa;
Costa, peixe pequeno na compra de Pasadena, diz ter levado R$ 1,5 milhão. Imaginem quanto não levaram os tubarões;
Nove anos depois de reportagem de VEJA denunciar lambança nos Correios, que trouxe à luz escândalo do mensalão, empresa continua a ser usada como quintal do petismo;
Após derrota em plebiscito, premiê da Escócia renuncia;
— Datafolha e a propaganda inútil do PT: exatamente um mês depois do início do horário eleitoral, mesmo com um latifúndio, Dilma nem ganhou votos nem viu diminuir a sua rejeição; instituto também aponta empate técnico no segundo turno com Marina; Aécio melhora seu desempenho;
— Escócia diz “não” à separação; o risco em caso de vitória do “sim” estava bem longe do Reino (des)Unido;
— Daqui a pouco, AO VIVO, com Contardo Calligaris;
— Ibope: há o risco de Agnelo nem disputar o 2º turno no DF;
— Datafolha no RS: Ana Amélia segue na liderança e derrotaria Tarso Genro no 2º turno;
— Datafolha: Richa, provavelmente, levaria no 1º turno; no segundo, venceria Requião por 51% a 36%;
— Algo me une a Marina…

Por Reinaldo Azevedo

20/09/2014

às 6:01

Já que a porrada não funcionou, Haddad, o maníaco, agora quer a “Bolsa Bicicleta”: dar desconto de IPTU a quem incentivar o que os idiotas chamam “bike”. E ainda faltam 833 dias para a gente se livrar dele…

Começo a temer pela sanidade, digamos, intelectual do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, o maníaco da bicicleta. Agora ele tem outra ideia, em conjunto com uma vereadora do partido, a senhora Juliana Cardoso: dar um desconto no IPTU para empresas que criarem bicicletários, incentivando os funcionários a andar de bicicleta — que boa parte da imprensa brasileira passou a chamar, sei lá, por quê, de “bike”, o que me envergonha um pouco. A palavra já dispensa até as aspas em jornais, revistas e sites. Ou por outra: a “bike”, não a bicicleta, já é uma quase unanimidade, digamos, ideológica nas redações. Agora só falta a adesão do povo.

Para um prefeito que tentou meter no ano passado um reajuste escorchante do IPTU — que acabou sendo barrado pela Justiça —, a proposta de isenção chega a ser acintosa. É que o homem da ideia fixa já tentou forçar o paulistano a andar de bicicleta na base da porrada, impondo as ciclofaixas e mobilizando seus fiscais para enfiar a mão no bolso dos motoristas que invadirem esses espaços sagrados. Não deu certo. Os ciclistas não apareceram.

As ciclofaixas de Haddad são imensas solidões vermelhas, onde se pode ver de tudo, menos bicicleta. Pior: como muita gente entende aquilo como terra de ninguém, noto que acaba virando depósito de lixo. Nesta sexta, por exemplo, choveu em São Paulo — pouca chuva, infelizmente. Mas estava ali aquela coisinha chata, que os portugueses chamam “molha-bobos”.

Em dias de chuva, o trânsito da cidade já é especialmente perverso — entre outras razões porque muitos sinais param de funcionar, ficam embandeirados. Haddad não dá bola para essa bobagem. Não seria ontem, claro!, que dariam as caras os ciclistas que já não aparecem nos dias secos. Era surrealista ver o caos instalado nas ruas e aquele deserto vermelhão do prefeito, ali, entregue a ninguém.

Ainda faltam 833 dias para Haddad deixar o governo, já contando o 29 de fevereiro de 2016, ano bissexto. Ele está aí não faz dois anos. A gente tem a impressão de que faz uns dez…

Isso é desespero. Haddad está apelando a uma espécie de “Bolsa Bicicleta” para ver se consegue povoar as ciclovias. Ainda que, com o tempo, algumas bicicletas apareçam, é evidente que, em São Paulo, por múltiplas razões, não serão uma alternativa de transporte. Ocorre que o prefeito sequestrou as vias públicas como se delas fossem. As pouquíssimas que vi serviam ao lazer: ou era a molecada dando um rolê ou eram aqueles senhores um pouco estranhos, com roupas bem coladas ao corpo, dando também um, digamos, rolê…

Numa entrevista coletiva de Haddad, fiquei sabendo, um militante disfarçado de jornalista, sem identificação do veículo de comunicação a que pertencia, fez uma pergunta ao alcaide que lhe deu a chance de hostilizar os raros setores da imprensa que têm a coragem de criticar a sua ciclomania e de zombar de sua ridícula ideia fixa.

O truque é velho, sem deixar de ser, é evidente, intelectualmente vigarista.

 

Por Reinaldo Azevedo

20/09/2014

às 5:10

Costa cita mais dois ex-diretores da Petrobras em esquema corrupto; um deles era homem de… José Dirceu na empresa! Ou: Uma empresa que fura poços e acha escândalos

Pois é… Reportagem da Folha deste sábado informa que Paulo Roberto Costa envolveu mais duas diretorias no esquema corrupto que vigorava na empresa: a Internacional, que era comandada pelo notório Nestor Cerveró, e a de Serviços e Engenharia, cujo titular era o petista Renato Duque. O PT está preocupado com os cadáveres que podem sair do armário. Faltam duas semanas para o primeiro turno das eleições, mas o segundo ainda está longe, só no dia 26 de outubro. Entre as irregularidades que atingem as duas diretorias, estão a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e a compra da refinaria de Pasadena, nos EUA. Segundo o Jornal Nacional, Costa admitiu ter recebido R$ 1,5 milhão de propina só nessa operação.

Duque, note-se, já aparece citado em outro inquérito da Polícia Federal para apurar irregularidades nos negócios da Petrobras. A polícia investiga sua relação com outros funcionários da estatal suspeitos de evasão de divisas.

Em abril, outra reportagem Folha informava que Rosane França, viúva do engenheiro da Petrobras Gésio França, que morreu há dois anos, acusou a empresa de ter colocado o marido na “geladeira” porque este se opusera ao superfaturamento do gasoduto Urucu-Manaus, na Amazônia. Para a sua informação, leitor amigo: esse gasoduto foi orçado pela Petrobras em R$ 1,2 bilhão e acabou saindo por R$ 4,48 bilhões.

A viúva de Gésio não citou nomes, mas em e-mails que vieram a público, ele reclamava justamente da diretoria de Serviços e Engenharia, que era comandada pelo petista Renato Duque, que negociava com as empreiteiras. Duque, aliás, é amigo de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, um dos nomes citados por Costa como parte do esquema corrupto, que recorria aos préstimos do doleiro Alberto Youssef.

Além de amigo de Vaccari, Duque sempre teve um padrinho forte no PT: ninguém menos do que José Dirceu. Quando Graça Foster assumiu a presidência da estatal, em 2012, ela o substituiu por Richard Olm. Mas isso não significa, é evidente, que a Petrobras está livre da politicagem. Lá está, por exemplo, José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT e outro peixinho de Dirceu: é diretor Corporativo e de Serviços. Não só ele. Também é da cota do ainda presidiário Dirceu o gerente executivo da Comunicação Institucional, Wilson Santarosa.

A estatal, diga-se, tornou-se um retrato dos desmandos do PT e da forma como o partido entende o exercício do poder. Como esquecer uma frase já antológica do então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, em 2005, em reunião com uma certa ministra das Minas e Energia chamada Dilma Rousseff? Ele cobrou uma promessa que lhe fizera Lula: “O que o presidente me ofereceu foi aquela diretoria que fura poço e acha petróleo”.

Era assim que Lula exercia o poder. E foi assim que a Petrobras passou a furar poço e a achar escândalos.

Por Reinaldo Azevedo

20/09/2014

às 5:05

Ministério Público pede ao TCU abertura de inspeção nos Correios

Por Fábio Fabrini e Andreza Matais, no Estadão:
No Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) pediu que a corte abra uma inspeção nos Correios para apurar o envio de santinhos da presidente Dilma Rousseff a eleitores sem chancela ou comprovante de postagem. A estampa oficial serve para comprovar que o material foi pago e enviado de forma regular e nas quantidades contratadas. Na representação, baseada em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo publicada nesta sexta-feira, o procurador Júlio Marcelo de Oliveira diz que a situação, se comprovada, “afronta o processo democrático” e impõe duras penas aos responsáveis.

“A má utilização de empresas públicas por agentes do Estado para finalidades político-partidárias é fato atentatório à res pública. No período eleitoral, a utilização dos Correios nos moldes citados constitui afronta ao processo democrático e impõe severa apenação dos responsáveis e pronta recomposição do erário”, justifica o procurador. Segundo ele, o TCU, com a expertise de sua área técnica, tem condições de esclarecer o episódio rapidamente e, caso necessário, adotar as medidas corretivas e sanções cabíveis.

O pedido foi enviado ao ministro Benjamin Zymler, que relata processos relacionados aos Correios. Caberá ao TCU decidir, com base em análise de sua área técnica e nos elementos trazidos pelo representante do Ministério Público, se há elementos para a abertura da inspeção.

Na peça, Júlio Marcelo pede a investigação de indícios de postagem sem chancela ou comprovante de que houve postagem oficial da propaganda eleitoral de Dilma. Além disso, requer que seja apurado se a quantidade de material distribuído corresponde ao que foi contratado pelo PT e se os fatos narrados pela reportagem estão de acordo com as normas dos Correios. Também solicita que se quantifique, em caso de comprovação de irregularidade, o dano aos cofres públicos.
(…)

 

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 21:48

O que se passa com o IBGE? Não sei! Nenhuma possibilidade é boa

Ai, ai… Vamos lá.

O IBGE mobiliza uma tropa de técnicos para processar as informações colhidas pela Pnad. Se a rotina não mudou, há todo um processo de conferência de dados. Mais: há procedimentos justamente para capturar eventuais erros antes da divulgação. Fazer de conta que estamos diante de uma narrativa corriqueira corresponde a tapar o sol com a peneira. Não estamos.

Então, depois de uma demora que também não teve a devida explicação, os dados são divulgados, constata-se a estagnação da redução da desigualdade, o tema ganha óbvia tradução política — e nem poderia ser diferente —, e, com rapidez espantosa, corrige-se o “erro” e se obtém o resultado desejado? “Ah, a desigualdade continua em queda.” Que bom, né? A oposição já não poderá mais usar esse argumento.

Estou acusando o IBGE de ceder à pressão oficial? Não exatamente. Se achasse, diria. Mas que devemos estranhar o procedimento, ah, isso devemos, sim.

Reitero: o que me espanta é o fato de checagens periódicas, que fazem parte do método de processamento de dados, não terem identificado, durante meses, um erro tão sério, depois identificado num único dia.

O que se passa no IBGE? Não sei. Nenhuma possibilidade é boa.

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 21:18

“Erro” no Pnad: governo vai criar comissões de especialistas

No Globo. Volto no próximo post:
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, disse que o governo está chocado com o erro no resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2013, divulgado na quinta-feira, que provocou incorreções em resultados de sete estados: Ceará, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, que respondem por mais de 59% da população brasileira, segundo as estimativas populacionais para 2014. Entre os dados corrigidos, o IBGE informou que agora a desigualdade no país caiu, em vez de subir. O instituto negou que qualquer ingerência política tenha levado à correção dos dados.

Segundo Miriam, será constituída uma comissão de sindicância para encontrar as razões dos erros e, eventualmente, as responsabilidades funcionais por que isso aconteceu. “O governo está chocado com esse erro cometido pelo IBGE. Como disse a presidente do IBGE, doutora Wasmália Bivar, é um erro gravíssimo. E, em razão disso, o governo decidiu duas coisas. Em primeiro, constituir uma comissão de especialistas independentes para avaliar a consistência da Pnad”. A comissão de sindicância será formada pelos ministérios do Planejamento, da Justiça e da Casa Civil, além da Controladoria-Geral da União. O grupo de especialistas ainda será formalmente convidado e deverá ter um prazo para apresentar seus resultados. Antes de se manifestar em entrevista coletiva na sede do ministério, a ministra esteve com a presidente Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto, para avaliar a situação. Questionada sobre os problemas recentes de falta de quadros e ameaças de greve, além de um processo de cortes de gastos estar prejudicando as pesquisas do IBGE, a ministra negou essa relação. “O quadro de funcionários cresceu 6%, neste ano nós liberamos 660 novos servidores ao IBGE, exatamente para dar as condições de ele seguir fazendo as suas pesquisas e o orçamento, nesse período nosso no governo, cresceu mais do que 60%”, disse.

A ministra não quis comentar a hipótese de ter ocorrido um erro deliberado na elaboração dos resultados da pesquisa, nem sobre uma eventual demissão de Wasmália. Segundo ela, é preciso esperar os resultados da comissão de sindicância. De acordo com os novos cálculos apresentados pelo IBGE nesta sexta-feira, o índice de Gini da renda do trabalho, um dos indicadores de desigualdade, passou de 0,496 para 0,495 em vez de subir para 0,498, como o IBGE tinha informado anteriormente. O índice de todas as fontes tinha ficado estacionado, mas agora ele cai para 0,501. Já o Gini domiciliar tinha subido de 0,499 para 0,500 e agora cai para 0,497. Quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade. No novo cálculo, no Gini de todas as fontes, os 10% mais pobres têm avanço na renda superior aos 10% mais ricos. A renda da base avançou 2,9%, enquanto na parcela dos mais ricos, 2,1%.

Desemprego
Já a taxa de desemprego, que entre 2012 e 2013 subiu de 6,1% para 6,5%, foi mantida. Mas, na revisão dos dados de 2013, a população desocupada subiu menos: em vez de 7,2%, avançou 6,3%, para 6,6 milhões de pessoas. Os novos cálculos mostram ainda que a taxa de analfabetismo caiu menos do que o estimado anteriormente. Os dados de quinta-feira mostravam o percentual passando de 8,7% para 8,3%. Agora, a redução foi menor, para 8,5%. O trabalho infantil também registrou uma queda menor. Passou de -12,3% para -10,6%. Os anos de estudo passaram de 7,7 anos para 7,6 anos agora.

Erro em “numerinho”
O diretor de pesquisa do IBGE, Roberto Olinto, explicou o falha, ocorrida na hora de colocar uma variável. E justificou as mudanças no resultado da Pnad: “O erro ocorreu porque o peso de nove regiões metropolitanas foi superestimado. Como o rendimento de regiões metropolitanas é normalmente maior que o das demais, o rendimento dos 10% mais ricos foi maior e isso impactou o Gini, Por outro lado, como o analfabetismo é maior no interior, com a correção, cresceu”, disse Olinto. “Como a amostra não cobre toda a região, existem pesos para cada região. Os dados brutos não têm problema, a questão foi na hora de calcular o numerinho que compõe a amostra, nesse processo, problema restrito às regiões metropolitanas de sete estados.”

“Extremamente grave”
O problema foi identificado por consultorias econômicas e outros órgãos do governo, que questionaram os dados das Unidades da Federação. A presidente do IBGE, Wasmália Bivar, disse que a falha é muito séria. “Foi algo extremamente grave. Toda vez em que o IBGE erra, é nosso dever tornar isso público e pedir desculpas a toda a sociedade”, afirmou.

Já Olinto classificou o episódio como um “infeliz acidente”. Ele negou ter havido qualquer tipo de ingerência política e também descartou que a falha tenha sido fruto da greve ou da inexperiência de funcionários novos. Além disso, destacou que os dados passam por sete pessoas: “ Foi um infeliz acidente, estritamente técnico. As razões específicas do erro vão ser investigadas”. Quando indagado se houve interferência politica, afirmou: “Obviamente, não. Dados como a Pnad têm um embargo, com 48 horas de antecedência. O governo também participa desse embargo. Seria surrealista divulgar um dado para depois divulgá-lo sob pressão. Foi um erro técnico. Não há indício de pressão”.

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 18:05

Dilma ainda não sabe para que serve a imprensa

A Procuradoria-Geral da República se negou a fornecer ao governo as informações da delação premiada de Paulo Roberto Costa. E fez bem. Dilma deve ter se esquecido de que o Ministério Público é um órgão independente. Não está subordinado a nenhum dos Poderes da República. A presidente agora diz que vai apelar ao STF. E fez uma afirmação, digamos, muito típica, com toda a falta de jeito que a caracteriza.

“Pedirei ao ministro Teori a mesma coisa: quero ser informada se no governo tem alguém envolvido. Não tenho por que dizer que tem alguém envolvido, porque não reconheço na revista “VEJA” e nem em nenhum órgão de imprensa o status que tem a PF, o MP e o Supremo. Não é função da imprensa fazer investigação, e sim divulgar informações. Agora, ninguém diz que a informação é correta. Não prejulgo, mas também não faço outra coisa: não comprometo prova. Porque o câncer que tem nos processos de corrupção é que a gente investiga, investiga, investiga e ainda continua impune.”

A exemplo de Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumbbo, pergunto: “Cuma, presidente?”. De fato, VEJA, felizmente, não é um órgão oficial, a exemplo da PF, do MP e do Supremo. Felizmente, não! E a revista não espera — e o mesmo vale para o resto da imprensa — que as suas apurações substituam inquéritos.

Agora, quanto ao papel da imprensa, é evidente que Dilma está errada. A ela cabe mais do que informar. Ela também investiga, sim! Não com o objetivo de passar informações ao estado, mas com o propósito de informar a sociedade.

Dilma deve sonhar com a imprensa cubana. Só informa. E só informa o que pode.

 

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 16:20

Costa, peixe pequeno na compra de Pasadena, diz ter levado R$ 1,5 milhão. Imaginem quanto não levaram os tubarões

O Jornal Nacional levou ao ar, na noite de ontem, 18 de setembro, reportagem informando que, no curso da delação premiada que faz, Paulo Roberto Costa revelou ter levado R$ 1,5 milhão de propina pela compra da refinaria de Pasadena. Reportagem da VEJA que veio a público no dia 6 deste mês já trazia a informação de que, segundo o engenheiro, a compra havia sido fraudulenta. Segundo o TCU, o prejuízo da Petrobras com a operação foi de US$ 792 milhões. A novidade agora é o valor da bolada embolsada pelo engenheiro, que está preso.

Entre 2004 e 2012, Costa foi diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras. Ocupou, portanto, esse cargo, em sete dos oito anos do governo Lula e em quase dois do governo Dilma. Ao longo desse tempo, comandou o que pode ser chamado de “Petrolão” — ou o mensalão da Petrobras. As empreiteiras que faziam negócio com a estatal pagavam propina ao esquema e o dinheiro era repassado a políticos. A quais? Paulo Roberto já entregou à Polícia Federal e ao Ministério Público, num acordo de delação premiada, os nomes de três governadores, de um ministro de estado, de um ex-ministro, de seis senadores, de 25 deputados e de um secretário de finanças de um partido. Segundo o engenheiro, Lula sempre soube de tudo. E, até onde se pode perceber por seu depoimento, talvez a presidente Dilma — que era a chefona da área de energia do governo Lula e presidente do Conselho da Petrobras — não vivesse na ignorância.

VEJA teve acesso a parte do depoimento de Paulo Roberto e trouxe, na reportagem do dia 6, alguns dos políticos citados. Entre eles, estão cabeças coroadas da política brasileira, como o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, que morreu num acidente aéreo no dia 13 de agosto, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), e Sérgio Cabral, ex-governador do Rio (PMDB). Paulo Roberto acusa ainda Edison Lobão, atual ministro das Minas e Energia, e atinge o coração do Congresso: o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e o do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

PT, PMDB e PP seriam os três beneficiários do esquema, que teria também como contemplados os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Romero Jucá (PMDB-RR), e os deputados João Pizzolatti (PP-SC) e Cândido Vaccarezza (PT-SP), que já havia aparecido como um dos políticos envolvidos com o doleiro Alberto Youssef, que era quem viabilizava as operações de distribuição de dinheiro. O secretário de finanças do PT, João Vaccari Neto, está no grupo, segundo Paulo Roberto.

Pensem um pouco: na compra de Pasadena, Paulo Roberto era peixe pequeno. Mesmo assim, diz ter levado R$ 1,5 milhão. Imaginem quanto não levaram os tubarões.

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 15:43

Nove anos depois de reportagem de VEJA denunciar lambança nos Correios, que trouxe à luz escândalo do mensalão, empresa continua a ser usada como quintal do petismo

A CPI do Mensalão, caros leitores, vocês devem se lembrar, foi oficialmente chamada de “CPI dos Correios”. Foi nessa estatal que reportagem da revista VEJA identificou, em 2005, e denunciou um esquema de corrupção que acabaria desaguando no maior escândalo da história republicana do país — até virem à luz os escândalos da Petrobras ao menos. Tudo indica que este é ainda maior do que aquele. Eles sempre podem se superar, como sabemos.

Pois bem: carteiros descobriram algo do balacobaco e botaram a boca no trombone, como informou reportagem do Estadão. Os Correios, um feudo do PT, empresa subordinada ao ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, admitiu ter distribuído, sem a devida chancela, como exige a lei, 4,8 milhões de folders da campanha da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff. Vocês entenderam direito: o material entrou na empresa, não recebeu nenhuma forma de carimbo — e, portanto, não estava sujeito a nenhum controle —, foi repassado aos carteiros e entregue aos paulistas.

Os Correios têm seus próprios funcionários e também contam com uma rede de franqueados, que são remunerados pelo trabalho. Isso significa que essa mão de obra foi empregada para distribuir os panfletos do PT. A própria candidata Dilma Rousseff, que também é a presidente Dilma Rousseff, veio a público para tratar do assunto. Segundo disse, não houve irregularidade nenhuma, está tudo registrado, e o partido tem as provas de que pagou pelo serviço.

Disse a presidente, com uma habilidade muito característica quando se trata de lidar com questões de natureza legal e com a língua portuguesa: “Me deem as provas. Não adianta me dizer que é ilegal se não me mostrar onde falta a nota fiscal”. Segundo ela, sua campanha pagou “uma barbaridade pelo serviço”. Indagada sobre o valor, ela respondeu: “Não tenho a ideia aqui de quanto pagou, mas nós temos recibo”. Entendi. Ela chegou à conclusão de que é uma barbaridade sem nem saber quanto custou.

Com a devida vênia, a presidente age como o homicida que dá sumiço no corpo e, ainda que todas as evidências e provas apontem para a existência do crime, desafia: “Me mostrem onde está o corpo”. Pois é, presidente… Existe.

Ora, como os Correios não chancelaram o material, ninguém jamais saberá quanto material foi entregue. A Diretoria Regional Metropolitana, responsável pela ordem para a distribuição irregular, atribui a medida a um problema na impressão dos quase 5 milhões de peças: precisamente, 4.812.787. O responsável por essa diretoria é Wilson Abadio, afilhado político de Michel Temer, vice-presidente da República.

Como não há prova nenhuma, leitores, ninguém jamais saberá se foram distribuídos 5 milhões, 10 milhões ou 15 milhões de folders da campanha dilmista. Uma coisa é certa e inequívoca: quando menos, uma empresa estatal abriu uma exceção para a campanha da companheira. Mas resta a suspeita óbvia — já que as regras não foram seguidas — de que, mais uma vez, uma empresa que pertence ao estado brasileiro foi usada em benefício dos petistas.

Pois é… Cumpre uma vez mais lembrar o que disse Talleyrand sobre os Bourbons, aplicando a frase aos petistas: “Eles não aprenderam nada nem esqueceram nada”.

Talvez sejam vítimas de uma natureza. O diabo é que o país é que paga o pato.

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 14:57

Após derrota em plebiscito, premiê da Escócia renuncia

Na VEJA.com:
O primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, anunciou nesta sexta-feira que vai entregar o cargo após a vitória do ‘não’ no plebiscito sobre a independência do território. Salmond foi o maior apoiador e promotor da campanha pela separação do Reino Unido. Ele estava no poder desde 2007. O político também afirmou que vai entregar a presidência do Partido Nacional da Escócia. A renúncia significa que Salmond não vai buscar a nomeação de seu partido em novembro. Ele continua nas duas funções até lá.

“Como líder, meu tempo está praticamente no fim, mas para a Escócia a campanha vai continuar e o sonho não vai morrer”, disse, ao anunciar sua saída. “Estou imensamente orgulhoso da campanha que o ‘sim’ fez e particularmente dos 1,6 milhão de eleitores que abraçaram a causa”, acrescentou.

Os escoceses decidiram na quinta-feira manter a união de 307 anos com o Reino Unido e rejeitaram a independência do país em um plebiscito histórico. O resultado final, anunciado na madrugada desta sexta-feira, apontou para uma vitória mais folgada do “não” do que o previsto nas últimas pesquisas: 55,3% a 44,7%. Ou 2 milhões de votos, contra 1,6 milhão. Dos 32 distritos eleitorais da Escócia, apenas quatro deram a vitória ao “sim”, entre eles Glasgow, a maior cidade do país. A capital Edimburgo votou em peso pelo “não”: 61% a 39%.

Diante dos números nada animadores que foram surgindo ao longo da contagem, Salmond foi rápido em reconhecer a derrota, antes mesmo do fim da apuração. “A Escócia decidiu que, neste momento, não quer se transformar em um país independente e eu aceito esse veredicto”. O político também elogiou o processo democrático e exaltou a participação de 85% dos eleitores no referendo.

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 6:28

LEIAM ABAIXO

Datafolha e a propaganda inútil do PT: exatamente um mês depois do início do horário eleitoral, mesmo com um latifúndio, Dilma nem ganhou votos nem viu diminuir a sua rejeição; instituto também aponta empate técnico no segundo turno com Marina; Aécio melhora seu desempenho;
Escócia diz “não” à separação; o risco em caso de vitória do “sim” estava bem longe do Reino (des)Unido;
Daqui a pouco, AO VIVO, com Contardo Calligaris;
Ibope: há o risco de Agnelo nem disputar o 2º turno no DF;
Datafolha no RS: Ana Amélia segue na liderança e derrotaria Tarso Genro no 2º turno;
Datafolha: Richa, provavelmente, levaria no 1º turno; no segundo, venceria Requião por 51% a 36%;
Algo me une a Marina…;
Pnad aponta que há três anos o país não consegue reduzir a desigualdade;
Dilma: “Eu tenho muitos negros no segundo escalão”. Pois é… O PT faz de tudo para impedir que uma negra chegue ao primeiro…;
Hora de Haddad entrar de cabeça na campanha de Dilma. Será show!;
Serra ou Suplicy? Cesar ou Romário? Senado ou circo de segunda?;
— Dilma manda suspender divulgação de programa de governo por divergências com o PT; em 34 anos de história, partido nunca esteve tão confuso e desarvorado. É o medo de perder a bocona!;
— Marina: “PF perdeu autonomia no governo Dilma”;
— Sarney ataca Marina. Eita candidata de sorte!;
— “Eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, mas estou aqui, fazendo política”;
— CPI aprova convocação de ex-contadora de doleiro;
— Dilma e os direitos trabalhistas: como confundir o distinto público

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 5:42

Datafolha e a propaganda inútil do PT: exatamente um mês depois do início do horário eleitoral, mesmo com um latifúndio, Dilma nem ganhou votos nem viu diminuir a sua rejeição; instituto também aponta empate técnico no segundo turno com Marina; Aécio melhora seu desempenho

A edição desta sexta da Folha traz a mais recente pesquisa presidencial feita pelo Datafolha. O instituto ouviu 5.340 pessoas nos dias 17 e 18 em 265 municípios. A pesquisa tem margem de erro de dois pontos para mais ou para menos e está registrada no TSE sob o número BR 665/2014. Alguma divergência substancial em relação ao que registrou o Ibope na terça, com levantamentos feitos entre os dias 13 e 15? A resposta é negativa. E que fique claro: não estou comparando pesquisas de institutos diferentes, mas apenas partindo do princípio de que ambos espelham a realidade. Para números que apontam para o mesmo lugar, a mesma análise: Marina Silva, do PSB, mostra resistência impressionante ao massacre petista. Vamos ver. Todos os gráficos do Datafolha, abaixo, foram publicados na edição impressa da Folha. Vejam o primeiro turno.

Datafolha 19.09.2014

Se a eleição fosse hoje, segundo o Datafolha, a petista Dilma Rousseff teria 37% dos votos, contra 30% de Marina e 17% do tucano Aécio Neves. No Ibope de dois dias antes, esses números eram, respectivamente, 36%, 30% e 19%. Em ambos os institutos, 7% não sabem, e 6% dizem que votarão nulo ou em branco.

Primeiro turno do Ibope

Ibope-16.09-1º-TV-Globo
Quando se olha a curva do Datafolha, pode-se ter a impressão de que Dilma está numa ascensão meteórica, e Marina numa queda brutal. Pois é… Há um mês, quatro dias antes do início do horário eleitoral, a petista tinha 36%; agora, tem 37%. A peessebista tinha 21%; agora, 30%. Aécio tinha 20% e aparece com 17%. Podemos dizer isso de outro jeito: desde a queda do avião que conduzia Eduardo Campos, é agora que Dilma obtém a sua melhor marca: 37%. Acontece que a sua pior era 34% — a oscilação está na margem de erro. Marina, nesse período, tem agora o seu pior desempenho: 30% — mas o seu melhor era apenas 34%.

Segundo o Datafolha, Aécio pode ter recuperado eleitores que tinham migrado para Marina já no primeiro turno. Quando olhamos o desempenho por região, isso fica mais claro. Vejam.

Datafolha 19.09 região

Dilma conserva no Sudeste os mesmos 28% de duas pesquisas anteriores. Marina, no entanto, teve uma oscilação negativa de quatro pontos na região com o maior eleitorado: no dia 1º de setembro, tinha 37%; agora, está com 33%. Aécio foi de 18% para 20%. No Sul, a petista se mantém estacionada em 35%, mas a peessebista caiu 5 em duas semanas: de 30% para 25%. Já o tucano subiu 6 pontos: de 16% para 22%. No Nordeste, a candidata do PT segue estável, com 49%; a do PSB se mantém nos 32%, e o do PSDB variou de 5% para 8%. A Região Norte, com o menor eleitorado, é a que verifica as maiores mudanças em 15 dias: Dilma subiu de 38% para 49%; Marina oscilou de 32% para 28%, e Aécio caiu de 14% para 9%.

Segundo turno
É no segundo turno que se registram as maiores diferenças entre os dois institutos: de números, não de distância. Segundo o Datafolha, Marina e Dilma estão empatadas, com a peessebista na dianteira numérica em ambos: 46% a 44% no Datafolha e 43% a 40% no Ibope. Os dois institutos divergem mais na hipótese de a petista disputar a etapa final com os tucanos: 49% a 39% para ela no Datafolha e 44% a 37% no Ibope.

Datafolha 19.09 2º turno

Rejeição
Vejam a evolução da rejeição dos candidatos. Aqueles que não votam em Dilma de jeito nenhum continuam no mesmo patamar desde julho. O latifúndio que o PT detém no horário eleitoral não trouxe votos para Dilma até agora — afinal, a petista tinha 36% das intenções de voto antes de ele começar e está agora com 37% — e também não contribuiu para baixar a sua rejeição: era de 35% e está em 33% — variação dentro da margem de erro. Nesse quesito, Marina teve uma aparente má notícia: era rejeitada por 11% na pesquisa de 15 de agosto, e o índice saltou agora para 22%. Ocorre que ela tinha 21% dos votos e agora tem 30% — tornou-se mais conhecida e, pois, mais rejeitada.

Datafolha 19.09 rejeição

Conclusão
Na pesquisa Ibope, em uma semana, Dilma deu uma pequena murchada; no Datafolha, seguiu no mesmo lugar. Nos dois institutos, há uma recuperação de Aécio: no Ibope, há uma indicação de que ele pode tirar votos da petista; no Datafolha, a migração viria do eleitorado de Marina.

De todo modo, a pancadaria que o PT promoveu contra Marina, com lances explícitos de baixaria, não conseguiu tirá-la do jogo. Hoje, os números indicam que as candidatas do PT e do PSB disputarão o segundo turno. Até agora, o tempo gigantesco de que dispõe a presidente-candidata não pôde fazer nada por ela (olhem os gráficos; a propaganda começou no dia 19, exatamente há um mês): nem aumentou a sua votação nem diminuiu a sua rejeição. Qualquer um que dispute com a petista a etapa final terá, finalmente, tempo para confrontá-la.

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 5:41

Minha coluna na Folha: “Dilma, ignorância e espanto”

Leiam trecho da minha coluna na Folha de hoje:
*
Ao combater Marina Silva com truculência, Dilma Rousseff mexe com forças cujo poder ignora. Consta que, na juventude, a presidente-candidata foi professora de marxismo. Huuummm…

Dada a sua inclinação para anacolutos, imagino que a tarefa dos alunos não fosse fácil. Até porque há dois Marx, né? O de “O 18 de Brumário” e “A Ideologia Alemã”, por exemplo, é brilhante, goste-se ou não do que lá vai. O de “O Capital”, ao qual Dilma se dedicava, é intragável e, já conversei com especialistas, às vezes, não faz sentido nem em alemão. Imagino o bruto traduzido para o português e depois filtrado pelo “dilmês castiço”. É bem possível que a luta armada só tenha sido tentada no Brasil por erro de tradução e de leitura.

O povo que aparece nos manuais de esquerda é o inventado pela taxidermia socialista. Não tem vísceras nem alma, só palha. Faltar-lhe-ia um conteúdo, a ser preenchido pelas utopias redentoras. É destituído de verdade e de história. Sua consciência possível, segundo essa visão, é a de classe, que lhe seria fornecida pelas vanguardas revolucionárias. A alternativa é a falsa consciência.

O que vai acima é uma caricatura realista de um partido socialista à moda antiga, como o PSTU, o PCO ou mesmo o PSOL, esses pterodáctilos que voejam na bondade do Fundo Partidário do “Estado burguês” que querem destruir. Lixo. O PT é outra coisa, bem mais pragmática, mas conserva a visão autoritária do que seja o povo.

Lula só representou um sopro de renovação nas esquerdas porque trazia um pouco de verdade à luta política. À época, eu tinha 16 anos e era da Convergência Socialista (origem do PSTU). Malhávamos sem dó aquele sindicalista porque o considerávamos reformista, despolitizado, cooptável, não revolucionário.
(…)
Íntegra aqui

Por Reinaldo Azevedo

19/09/2014

às 3:36

Escócia diz “não” à separação; o risco em caso de vitória do “sim” estava bem longe do Reino (des)Unido

O patriotismo, disse Samuel Johnson, é o último refúgio de um canalha. E, a depender do caso, o nacionalismo pode ser o último refúgio da irracionalidade. Vamos lá. A Escócia, um dos pedaços de uma ilha chamada Grã-Bretanha, tem lá a sua cultura, os seus valores, as suas tradições — cantadas e exaltadas em prosa, verso, música e o que mais se queira — o “scotch”, por exemplo. Não havia e não há, prestem bem atenção!, uma única razão relevante para esse pedaço da ilha se despregar da Inglaterra e do País de Gales e dar adeus ao Reino Unido, que inclui a Irlanda do Norte. Fala-se ali, por acaso, um idioma próprio? Não! Há um inglês com sotaque particular, mas isso varia dentro de Londres — como varia o “paulistanês” (já um português local) nas várias áreas da capital paulista. Bem, aconteceu o melhor: o “não” à separação venceu o plebiscito. Enquanto produzo este comentário, conhece-se o resultado da votação em 26 dos 32 condados. O “sim” venceu em apenas quatro. A estimativa é que o placar final seja 55% a 45% contra a independência.

O “sim”, de todo modo, venceu em cidades importantes como Glasgow, a maior da Escócia, com 53%, em West Dunbartonshire (54%) e Dundee (57%). O “não” confirmou a vitória em suas áreas de resistência como East Lothian, Orkney e Shetland, mas também obteve a maioria em algumas em que havia a expectativa de que o “sim obtivesse a maioria: Falkirk, Inverclyde, Eilean Siar, Dumfries e Galloway, Clackmannanshire, Stirling, Renfrewshire, East Renfrewshire, Angus e Midlothian.

Se os separatistas tivessem sido bem-sucedidos, o Reino Unido perderia 32% do seu território, 8% da sua população e 9% do seu PIB. E então caberia a pergunta: “Pra quê?”. Para nada! Ligada ao Reino Unido, a Escócia é parte de um país superdesenvolvido. Sozinha, conservaria suas virtudes, sem dúvida — não sei por quanto tempo —, mas teria de criar uma nova burocracia. Os problemas se multiplicariam. Que moeda adotaria? De saída, haveria uma fuga óbvia de investimentos. Mas vá falar com nacionalistas exaltados, orgulhosos de ser, afinal de contas, “escoceses”.

Nesse episódio, no entanto, o que menos tinha importância era saber se a Escócia iria ou não continuar como parte do Reino Unido. O risco maior estava nas consequências. Há ambições separatistas na Espanha (Catalunha e País Basco), na Itália (Lombardia e Tirol do Sul), na França (Córsega), na Bélgica (Flandres), na Alemanha (Bavária) e até na Dinamarca (Groenlândia). Mas podemos sair da Europa ocidental: a Abcásia e a Ossétia do Sul se consideram independentes da Geórgia; Kosovo já não se diz parte da Sérvia, embora não seja membro da ONU; Nagorno Karaback, de maioria armênia, declarou sua independência do Azerbaijão, mas não foi reconhecido pelas Nações Unidas; a Transnistria, cuja existência, leitor, você talvez ignorasse, diz não pertencer mais à Moldávia, e há a República Turca do Chipre do Norte.

Em algumas dessas regiões, como Geórgia, Moldávia e Chipre, houve guerras. O terrorismo basco está desativado, mas eventos como esse da Escócia, se bem-sucedidos, poderiam reacender ânimos adormecidos. Pensemos um pouco na Ucrânia. Ainda que Vladimir Putin seja a mão que balança o berço da delinquência, ele sabe que prega em solo fértil. E há ambições separatistas em regiões muito mais explosivas do planeta, como a Caxemira (Índia), por exemplo.

Independente ou não, Escócia e Reino Unido acabariam se entendendo. O risco não estava ali, mas no que a separação desencadearia mundo afora.

Por Reinaldo Azevedo
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados