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Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles. (Dylan Thomas — Tradução de Mário Faustino)

22/05/2013

às 22:45

Ataque em Londres lembra ação de irmãos em Boston

Homem é filmado ainda com faca ensanguentada nas mãos, depois de ataque a soldado em Woolwich, Londres – Reprodução/ITV

Da VEJA.com:
Pouco mais de um mês depois de dois irmãos chechenos matarem três pessoas e aleijarem dezenas num atentado a bomba na Maratona de Boston, nos Estados Unidos, um tipo semelhante de barbárie horrorizou os britânicos – e o mundo – nesta quarta-feira. Um soldado foi destroçado com uma machete, perto de um quartel em Woolwich, no sul de Londres, por dois homens que dizem ter agido em nome do Islã. Os dois responsáveis pelo ataque na capital britânica parecem ser, assim como os irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, aquilo que os especialistas em segurança têm chamado de ‘lobos solitários’: fanáticos que não estão no radar dos serviços de inteligência porque não pertencem a nenhum grupo terrorista conhecido, embora sejam movidos pelo mesmo ódio. Logo depois da selvageria, ainda com sangue nas mãos, um deles foi filmado dizendo: “Nós juramos por Alá que nunca pararemos de lutar contra vocês. A única razão pela qual fizemos isso é porque muçulmanos estão morrendo todos os dias”.

Para o jornal britânico The Guardian, o fato de não haver um elo visível e imediato entre os responsáveis pela barbárie desta quarta e grupos terroristas não significa que a ligação não exista. As frases usadas pelo terrorista nesta quarta é a mesma encontrada na retórica da Al Qaeda, verificada em vídeos gravados por homens-bomba. As dificuldades enfrentadas pelas equipes de contraterrorismo na atualidade é a fragmentação da Al Qaeda, dando origem a ‘franquias’ espalhadas pelo mundo árabe e pela África, o que torna a identificação de suspeitos mais difícil do que nunca. Um estudo divulgado no ano passado pelo Royal United Services Institute apontou que terroristas que atuam como ‘lobos solitários’ voltariam à Grã-Bretanha nos próximos anos. Eles são treinados em campos no Paquistão e adquirem experiência em guerras na Somália, no Iêmen, na Nigéria e no permanente conflito no Iraque. E usam rotas muito mais difíceis de ser monitoradas.

Num primeiro momento, o governo evitou classificar o ato como terrorista, apesar de o termo já ter sido usado desde o início pelo primeiro-ministro David Cameron. “Eu fui informado pelo Ministério do Interior sobre esse ato repugnante em Woolwich. Estamos investigando o caso, mas há fortes indícios de que se trata de um incidente terrorista”. A secretária do Interior, Theresa May, também mencionou uma “forte indicação” de que o caso está ligado ao terror. “O que aconteceu hoje em Woolwich foi um ataque repugnante e selvagem. A polícia e o serviço de segurança estão apurando os fatos desse caso bárbaro, mas há um forte indício de que foi um ato de terrorismo”. Ela acrescentou que a segurança foi reforçada nos quartéis de Londres. “Esse foi um ataque contra todos na Grã-Bretanha e será condenado pelas pessoas de todas as comunidades. Nós já vimos o terrorismo nas ruas da Grã-Bretanha anteriormente e estivemos sempre firmes contra isso. Atos desprezíveis como este não ficarão impunes”.

O presidente francês, François Hollande, também mencionou o terrorismo ao falar sobre o caso, ao lado de Cameron, que visitou Paris nesta quarta. Ele disse que os governos “devem lutar contra o terrorismo em todos os lugares”. “Isso exige que nossos serviços de inteligência trabalhem juntos e que atuemos em todos os lugares que pudermos”, completou. Cameron voltará a Londres na noite desta quarta e vai coordenar outra reunião do comitê de emergência na manhã desta quinta.

Muçulmanos
O Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha divulgou um comunicado no qual afasta qualquer ligação do ataque com o Islã. “Este foi um ato verdadeiramente bárbaro que não tem base no Islã e o condenamos de forma incondicional. Nossos pensamentos estão com a vítima e seus familiares. Entendemos que a vítima é um membro das Forças Armadas. Os muçulmanos servem há muito tempo as Forças Armadas deste país, com orgulho e honra. Esse ataque contra um membro das Forças Armadas é infame e nada justifica essa morte. Essa ação vai, sem dúvida, aumentar a tensão nas ruas da Grã-Bretanha. Pedimos a todas as comunidades, muçulmanas ou não, a se unirem em solidariedade, para impedir que as forças do órdio prevaleçam”, diz o texto, segundo o jornal britânico The Telegraph.

Boston
Na última semana, a imprensa americana divulgou que Dzhokhar Tsarnaev deixou uma mensagem no barco em que foi encontrado pela polícia, dias depois do atentado em Boston. Na mensagem, ele reafirma que as vítimas do ataque foram “danos colaterais”, da mesma forma que inocentes morreram nas guerras dos EUA ao redor do mundo. “Quando você ataca um muçulmano, você ataca todos os muçulmanos”. Discurso idêntico ao adotado pelo responsável pelo ataque em Londres. O atentado em Boston deixou três mortos e mais de 260 feridos – muitos perderam membros e enfrentarão longos e dolorosos tratamentos.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 22:01

Anistia Internacional destaca criminalidade e perseguição na Venezuela

Na VEJA.com:
Em um relatório sobre direitos humanos divulgado nesta quarta-feira, a Anistia Internacional destaca o problema da criminalidade e da perseguição a opositores na Venezuela. Um dos casos em destaque é o da juíza María Lourdes Afiuni, que cumpre prisão domiciliar. Ela foi presa em 2009, depois de conceder habeas corpus a um empresário inimigo do governo chavista que ficou detido, sem julgamento, por quase três anos. O relatório afirma que, em setembro do ano passado, pistoleiros passaram pelo edifício onde mora a juíza e dispararam tiros contra seu apartamento. Em novembro, María revelou publicamente que foi estuprada no período em que esteve na cadeia. Pesam sobre a juíza acusações de corrupção, abuso de autoridade e associação para delinquência. A ONG ressalta, no entanto, que a decisão tomada por María Lourdes “era de sua competência e foi tomada de acordo com o direito venezuelano”.

Defensores dos direitos humanos também são alvos de perseguição do governo venezuelano, ressalta o relatório. “Autoridades governamentais e meios de comunicação estatais continuaram a fazer acusações infundadas contra defensoras e defensores dos direitos humanos com o objetivo de retirar a legitimidade do seu trabalho”, diz o texto, citando ainda agressões físicas e ameaças, como as direcionadas à integrante do Observatório Venezuelano de Prisões (OVP), Marianela Sánchez Ortiz. A Anistia denuncia que o marido de Marianela, Hernán Antonio Bolívar, “foi sequestrado e ameaçado com uma arma para que alertasse sua mulher a fim de que ela parasse de reclamar das condições prisionais e de criticar o governo, caso contrário ela e sua família enfrentariam as consequências”.

Para o governo venezuelano, o OVP fabrica informações sobre as prisões do país em troca de dinheiro de financiadores americanos. O oficialismo segue apontando inimigos externos, especialmente dos Estados Unidos, como fonte dos problemas internos da Venezuela. No caso das prisões, as rebeliões são frequentes, e o relatório fala em “violência generalizada”. Segundo a Anistia Internacional, ao longo de 2012, quase 600 pessoas foram mortas nas penitenciárias venezuelanas. “Armas de fogo, explosivos e outros tipos de armas continuaram sendo usados rotineiramente em conflitos prisionais”. O documento cita alguns casos relativos ao ano passado. Em julho, o anúncio da transferência de internos do Centro Penitenciário da Região Andina, no estado de Merida, para outras penitenciárias provocou uma rebelião que durou 20 dias e deixou 17 pessoas mortas. Em agosto, uma eclosão de violência resultou em 26 pessoas mortas e 43 feridas na penitenciária de Yare. Em 2013, período já fora do levantamento realizado pela Anistia, os conflitos continuaram. Logo no início do ano, uma rebelião em um presídio de Barquisimeto, no oeste do país, deixou mais de 50 mortos e dezenas de feridos a tiros. Além de presidiários, um policial e dois pastores evangélicos estavam entre as vítimas.

A violência não está restrita aos muros das prisões venezuelanas. Ao contrário, é uma das principais preocupações da população, o que levou o governo a ordenar, no início deste mês, o envio de 3.000 militares às ruas para combater o problema. Dados oficiais apontam 16.072 assassinatos no país, em 2012, o que representa um crescimento de 14% em relação ao ano anterior. No entanto, o Observatório Venezuelano de Violência (OVV) registra um número ainda maior, com 21.692 pessoas assassinadas no ano passado. Para a ONG britânica, entre outros fatores, a “disponibilidade descontrolada de armas de fogo e de munições” no país agrava o quadro. Diante da gravidade da situação, o presidente Nicolás Maduro, herdeiro político do caudilho Hugo Chávez, achou outro vilão para culpar: os programas de entretenimento. Ele quer acabar com o que considera “antivalores do capitalismo” transmitidos pelos veículos de comunicação. “Não vamos permitir programas que promovam a prostituição, as drogas, a violência. Que se interrompa o festim da morte”, discursou na semana passada.

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Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 21:38

A arte brasileira é dependente do crack fornecido pelo estado. Ou: Uma questão envolvendo Gerald Thomas e Zé Celso. Ou ainda: Vamos privatizar Zé Celso!

Abaixo, Gerald Thomas. O que ele faz aí? Vamos ver.

Esquerda, direita e centro; pobres, ricos e remediados, corintianos, palmeirenses e torcedores da Portuguesa (existem!); flamenguistas, vascaínos e fanáticos pelo América; gays, héteros e depende-da-hora… Sem distinção, vai crescendo a legião dos que acham que o estado tem de lhes fornecer tudo, até nas questões mais pessoais, mais íntimas: camisinha, anticoncepcional, pílula do dia seguinte e, quem sabe?, aborto grátis para o caso de ter batido aquela preguiça nas fases anteriores, e aquilo ter encontrado “aquila” sem as devidas precauções…

Mais ainda: toda a conversa sobre descriminação das drogas, desde a mais xucra até a mais aparentemente sofisticada, como a de FHC, parte do princípio de que o vício do indivíduo é um problema do estado. O gosto e o gozo, ah, esses não! Consumir vira um direito individual; tratar os dependentes se torna um problema estatal. Estamos nos tornando o país do gozo privado e da socialização da conta. E todo mundo é coitado! Todo mundo é necessitado! Todo mundo é pedinte!

E os artistas, com honrosas exceções, são, a gente tem a impressão, os mais coitados de todos. A indústria do entretenimento está acabando no Brasil. Virou uma repartição pública. Antes da Lei Rouanet, por exemplo, peças ficavam anos em cartaz, com sessões a partir de terça-feira; aos sábados, costumava haver duas. As matinês eram ou para a turma que queria chegar mais cedo em casa ou para os que tinham outro programa — uma festa, um jantar, o amor… Isso acabou. Os produtores se penduraram na Lei Rouanet. A rigor, a meia-entrada (olhem o estado aí fingindo que universitário, no Brasil, é pobre, o que é uma mentira asquerosa!) não lhes deixa muitas alternativas, a menos que elevem de tal sorte o valor do ingresso que a meia valha por aquilo que seria uma inteira.

O sujeito pode gastar dinheiro com todos os “Is” da Apple, mas acha inaceitável pagar uma entrada inteira no teatro… O formato do antigo patrocínio quase desapareceu. É mais fácil apelar ao cartório estatal: pega a graninha da Lei Rouanet, mantém uma peça em cartaz por uns três meses, com sessões de quinta a domingo e acabou! Há nisso tudo desperdício de tempo, de talento, de trabalho… O resultado é constrangedor: nunca houve tanto apoio oficial à cultura, e os espetáculos, não obstante, nunca ficaram tão pouco tempo em cartaz.

A arte brasileira é dependente do crack fornecido pelo estado. Aliás, os brasileiros, com raras exceções, se tornaram dependentes químicos da boa vontade estatal — que custa o futuro do país.

Gerald e Zé Celso
Meu amigo Gerald Thomas gerou um quiproquó danado. E, felizmente, por boníssimos motivos. Qual foi o busílis? Rodolfo Garcia Vazquez, diretor do grupo “Os Satyros”, se indignou com o fato de o Teatro Oficina não ter sido contemplado com verbas da Lei do Fomento. Gerald escreveu no Facebook (em azul):
Ze Celso tem tudo: um mega-espaço! É um “carro conversível” da Lina Bo Bardi. Fez espetáculos que queria. Teve os longos elencos, usou dezenas de atores que trabalharam de graça (e amo o Zé ! don’t get me wrong). Conseguiu MILHÕES da Petrobras pra editar seus DVDs (que eu apresentei aqui em NY) e CERTAMENTE NAO PRECISA TIRAR $$$ DE GRUPOS NOVOS com grana destinada pelo projeto do FOMENTO porra! CHAMA “FOMENTO” justamente para incentivar companhias novas, grupos novos, ideias novas de pessoas que não têm e não sabem entrar nesse complexo sistema de protecionismo! Vamos dar uma chance a ELES e ver sangue novo! (respondo a uma indignação do Rodolfo Garcia Vásques ! Sorry por discordar. Mas o Satyros merece muito mais, já que vcs montaram escola etc! E não sugaram tudo pra vodka em nome do “evoé” que evoou e sumiu!
Gerald Thomas (indignado!)

Voltei
Como discordar de Thomas? Notem bem: as pessoas têm o direito de cultuar Zé Celso (foto acima), de considerá-lo um guru, o fundador de um novo paganismo, o sacerdote ou sacerdotisa de uma nova era dionisíaca, escolham aí. Pouco me importa também que ficar pelada e pelado em suas montagens tenha se transformado em categoria estética ou de pensamento. Escrevi uma vez na revista BRAVO!, depois de ver o espetáculo “Cacilda!”, que ele continuava a ter laivos de encenador genial. O chato é que, do nada, aparecia um bando de gente se masturbando num palco elevado. Pra quê? Sei lá. Pra nada, acho eu. O Zé deve ter ficado com vontade de ver aquilo. “A masturbação te incomoda, Reinaldo?” Não, ué. Se feita no palco, no entanto, busco um propósito estético, como buscaria se a pessoa comesse um filé com fritas e tomasse um suco de laranja. O Zé faça o que quiser desde que haja gente disposta a financiá-lo.

Ocorre que ele virou uma espécie de autodeclarado patrimônio nacional. Ou mais precisamente: virou um “bem cultural” tombado em vida — não o Oficina, mas ele. Tenho vontade de começar uma campanha em favor da privatização de Zé Celso, com leilão público e tudo.

Assim, parece óbvio que o veteraníssimo e financiadíssimo José Celso Martinez Corrêa, tornado uma lenda sobretudo por si mesmo, não receba mesmo um prêmio de fomento, né? Gerald, que sempre se encarrega de arrumar o dinheiro para os espetáculos que monta (em vez de avançar na nossa carteira), falou a coisa certa.

Reação
Para ler mais a respeito, visitem o blog de Thomas. Não! Zé Celso não gostou da crítica. Pensam que ele entrou no mérito da crítica feita? Que nada! Preferiu o caminho do coitadismo; preferiu nos fazer sentir culpados, deixando claro o quanto nós, os brasileiros, lhe devemos. Leiam trecho (em vermelho). Volto em seguida.

(…)
“Gerald não tem noção do que está falando? É uma injustiça absurda receber uma porrada dessas como se eu fosse um corrupto. Trabalhei junto com outros artistas há dez anos para a implementação da Lei do Fomento, mas só me beneficiei dela uma única vez. Eu tenho 52 anos de Oficina, sou um homem que não tem propriedades, seguro-saúde, uso táxi porque sou cardíaco. Vivo modestamente e apenas com o dinheiro da Anistia. Hoje sou um homem que vive às custas do fato de ter sido torturado. É esse dinheiro, os R$ 9 mil por mês da Anistia, que paga as minhas contas, os meus remédios para o coração. E que ainda uso para tocar uma coisa ou outra no Oficina.”
Para o diretor do Oficina, Thomas “está completamente equivocado”. Ele afirma que o Teatro Oficina se beneficiou uma única vez de verbas (R$ 300 mil) públicas destinadas pela Lei do Fomento, no ano de 2002. O montante foi usado, à época, para a criação da primeira parte da trilogia “Os sertões”, inspirada na obra homônima de Euclides da Cunha. Hoje em dia, as atividades do Teatro Oficina são patrocinadas pela Petrobras, que destina anualmente R$ 1 milhão ao grupo.
“Tentei diversas outras vezes o Fomento, mas nunca fui contemplado. Tentei porque temos custos altíssimos. O dinheiro da Petrobras paga um terço das nossas despesas. Somos 60 atores, uma sede com funcionários.”
Em um comentário posterior, mas na sequência da mesma publicação, Thomas escreve: “Isso é um escândalo. Essas pessoas têm décadas de teatro. Ainda não são autossuficientes?”
Zé Celso diz que não, e conta, por exemplo, que teve de encerrar prematuramente a temporada da última montagem da companhia — a peça “Akordes”, que estreou no Teatro Oficina em 2012 — por falta de recursos.
“Não pudemos sair do nosso espaço, apresentar a peça em outras cidades, e a temporada acabou porque não tínhamos dinheiro para pagar os atores”, diz o diretor. “As pessoas têm as suas vidas e suas contas, não puderam continuar, foram embora, eu entendo. Mas aí vem o Gerald e joga em cima de mim uma acusação dessas? Ele deveria estar do meu lado, se indignar e cobrar das empresas e do estado o fato de um grupo como o Oficina ainda hoje não ter garantia de poder trabalhar permanentemente. Deveria estar lutando para que os investimentos públicos e privados em teatro aumentassem, que essa Lei do Fomento crescesse. Mas não. Ele não faz ideia dos custos que temos para manter uma sede. Nó somos heróis, cara, manter uma companhia por 52 anos no Brasil não é para qualquer um. Deveríamos estar numa situação melhor, mas temos dificuldade de ganhar patrocínios porque nossos espetáculos são libertários. Tocam em questões políticas, sexuais, não seguem a cartilha dominante. E disso nós não iremos abdicar”.
Em julho, o Oficina recebe uma nova leva do patrocínio da Petrobras, que servirá à produção do novo espetáculo do grupo: a peça “Cacilda!!! Glória no TBC”, a terceira parte de uma tetralogia dedicada à atriz Cacilda Becker.

Voltei
Ufa!

Lá no muito antigamente, artistas faziam arte inclusive como forma de contestação; sentiam-se, como é mesmo?, marginas e heróis. Até eram bons tempos comparados aos de hoje. Depois procuraram se estruturar para responder por suas próprias produções — afinal, a arte tem de ser livre, não é? Virgílio, por exemplo, foi um poeta patrocinado. Mas ele reproduzia, com brilho ímpar, a visão do establishment do Império Romano. Zé Celso aspira à marginalidade gloriosa e ao heroísmo com martírio, mas financiado com dinheiro público. Acredita que o estado, que ele combate, e que o capitalismo, que ele repudia, têm a obrigação de financiar suas utopias.

Não têm, não! Nem um nem outro. A arte brasileira precisa se libertar do crack do dinheiro público.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 19:13

Será que o Bolsa Família, ele sim, está virando uma cultura? Ou: O que querem os pobres? Ou: Pai, mãe, faxina, hora extra e uma máquina de escrever

Vamos lá. Uma confusão a mais, uma a menos, que diferença faz? Adiante. Mandam-me um vídeo que já foi bastante visto no YouTube. Eu não o conhecia. Vejam. Volto em seguida.

Voltei
Quando eu era moleque, uns 8, 9 anos, começou o negócio da “calça liamericâna”. Era preciso ter uma calça “liamericâna”. Vim a saber algum tempo depois que se tratava, na verdade, de uma calça da marca Lee, americana.

Depois de algum tempo, fui contemplado com uma. Aquele brim me incomodou de tal maneira que só voltei a usar jeans aos, deixem-me ver, 47 anos. Como não tinha Bolsa Família, minha mãe decidiu fazer umas faxinas a mais e aumentar o ritmo da costura para oficinas de roupa. Tudo para satisfazer a vontade do filho. Depois minha mãe fez mais faxina, e meu pai, mais horas extras para comprar uma máquina de escrever Olivetti Studio 45. Eu os convenci de que só seria feliz se tivesse uma Olivetti Studio 45. Foi em 1974. Acho que cheguei a simular uma febre, não sei bem… Nem me orgulho nem me arrependo da pequena trapaça.

Ah, como é tediosa a vida dos pobres esforçados para os ricos “progressistas” que hoje pululam na política e até nas redações. Fico pensando naquele banqueiro de esquerda, cheio de desdém, e nos seus estafetas: “Por isso esse Reinaldo ficou assim reacionário…”. Marilena Chaui me odeia. Este pronome oblíquo não sou eu, Reinaldo Azevedo. Este “me” é uma legião de gente que nunca aceitou pedir.

“Ah, o Reinaldo gosta de pobre esforçado. Quer usar o próprio exemplo ou de seus pais…” É isso mesmo! Eu me orgulho deles! Como escrevi aqui dia desses, citando um poema de Drummond, sou contra o “vício de esperar tudo da oração” e o vício de esperar tudo do estado, uma droga pesada, que cria a pior de todas as dependências. Uma hora estudo isto, mas creio que vira uma espécie de dependência química também. Certamente produz efeitos neuroniais devastadores.

No primeiro ano de seu governo, quando insistia no Fome Zero, Lula dizia que o bolsismo deixava o povo preguiçoso; que, em vez de plantar macaxeira, ficava à espera de benefícios. Em parte ao menos, ele estava certo. Mas depois, como de hábito, preferiu o erro que era mais útil à sua carreira política.

É claro que existem pessoas que precisam efetivamente do Bolsa Família. Na forma como se dá o programa, no entanto, a questão é saber que Brasil se está construindo. Num país em que a política seguisse o molde da tradição democrática, isso estaria sendo debatido. Entre nós, no entanto, os partidos competem para saber quem quer tornar o povo ainda mais dependente da droga pesada do estado.

No dia 7 de janeiro, fez 13 anos que meu pai morreu. Não me deixou um só bem além dessa máquina de escrever. Mas sei o quanto lhe custou. Quando eu me for, além do afeto dos que amo, quero a Studio 45 perto de mim. Melodrama barato? Pode ser. Cada um tem o seu. Mas a única servidão que vale a pena é a que dedicamos a nossos amores.

Esse país de pedintes e reclamões (em todas as áreas; daqui a pouco falo sobre uma briga que meu amigo Gerald Thomas comprou) só tem passado, não tem futuro.

A fita, sem uso há uns bons 25 anos, não ajudou muito. Ali está escrito: “Com o Tio Rei desde 1974. Grana de faxina e horas-extras”. País decente transforma suor em letras

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 17:35

Não existe “cultura negra”. Não existe “cultura indígena”. Isso tido é invenção de aproveitadores e pilantras. Ou: Logo, Ministério de Marta exigirá uma prova de que o sujeito é gay!

O que há em comum entre os ianomâmis, os bororos e os xavantes? Resposta: nada! São índios, mas nada os une. “Ah, pertencem ao mesmo tronco linguístico macro-jê”. Claro, claro… Nós e os iranianos temos o indo-europeu como raiz comum, não é mesmo? Não existe uma “cultura indígena”. Isso é invenção do cretinismo antropológico. Da mesma sorte, perguntem à África o que seria uma “cultura negra”… Os tutsis e hutus rejeitarão brutalmente essa reunião de desigualdades, e rejeitam, diga-se, cortando uns as pernas dos outros. O que une os brancos brasileiros aos brancos da Bulgária? Só a Dilma Rousseff… Não existe também uma cultura branca.

Esse negócio de “Mama África”, de cultura negra, de cultura indígena, de cultura sei lá o quê… É tudo, como dizia meu pai, “meio de vida”, uma forma de enganar os trouxas e, com frequência, de bater a carteira dos desavisados. Existem, e com muita boa vontade e largueza teórica, alguns traços gerais que podem, em razão da unidade linguística, da unidade territorial, da unidade política, constituir, depois de algum tempo, a “cultura de um país”. Mesmo assim, toda a graça está na diferença dos que supostamente são iguais.

Numa mesma cidade, há diferenças de valores, de hábitos, de recortes, a depender dos grupos que são mais ou menos influentes, mais ou menos capazes de impor a sua visão de mundo como uma referência. O acento da fala da Zona Sul do Rio não é o mesmo da Zona Norte, como o da Zona Leste de São Paulo se distingue do da Zona Oeste. E, por óbvio, os indivíduos, dentro dessas áreas, se unem em grupos distintos, que não se sentem representados por aqueles que são considerados representantes “típicos” da região. Será que os milhões de moradores da Zona Leste da capital paulista se sentem representados pelo rap? Isso é uma tolice, uma forçação de barra, um preconceito! Então ninguém lê Camões em Guaianases? Vão se danar os mistificadores!

Por isso é uma ideia estúpida, discriminatória já na origem, essa história de o Ministério da Cultura promover um “Prêmio Funarte de Arte Negra”. A razão é simples: também não existe uma “arte negra”, mas uma arte eventualmente feita por negros, brancos, japoneses, ciganos, índios, sei lá eu. A poesia, como se tornou conhecida no Ocidente — e todo o seu desenvolvimento — merece o epíteto de “arte branca”? Os sonetos de Cruz e Souza são o quê? “Arte branca” feita por um preto? E os romances de Machado de Assis? Prosa branca redigida por um mulato metido a branco?

Empulhação!
Mistificação!
Pilantragem!

A propósito, os caetés e tupinambás, quando comiam seus “irmãos”, estavam fazendo o quê? Digerindo alguém de sua própria “cultura”? No Sudão, os quase 600 mil mortos foram vítimas da “cultura negra”? A Segunda Guerra Mundial foi o quê? Uma revolta da “cultura branca” contra si mesma?

A proposta de Marta já é uma estupidez em si. E mais estúpida se torna quando se exige que os projetos sobre a “cultura negra” excluam a presença de brancos. A propósito: se houver algum indígena no grupo, a proposta também será recusada?

No seu programa de rádio, Marta disse que o ministério pretende fazer propostas só para mulheres, só para índios etc. Entendo. Então me responda, grande pensadora. No caso do “projeto só para as mulheres”, vão se distinguir as negras das brancas ou, nesse caso, a igualdade de gênero poderá conviver com a desigualdade da cor da pele? Ou, nesse caso, o gênero une o que a cor supostamente separa? E por que não, então, um outro só para homossexuais? Imaginem o sujeito tendo de provar para a Funarte que é, sim, gay e que não procedem as acusações de bichas invejosas que dizem que ele é um desses desprezíveis hetereossexuais que só estão atrás da grana do Estado…

É mesmo uma pena que não haja no Brasil partidos de oposição dignos desse nome. Existem, sim, políticos que resistem às empulhações racialistas. Cito o caso do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que se opôs à imposição das cotas nas universidades federais, o que, de resto, feriu a autonomia universitária. Falo, no entanto, de voz partidária mesmo, que transforme esses descalabros petistas em debate político. Não há.

Ao contrário. Existe silêncio, neste e nos demais assuntos. O PSDB tem a ambição de uma dia voltar à Presidência da República fugindo ao confronto de valores, reduzindo a política a um confronto de administrativismos, enquanto o PT promove, ele sim, a guerra cultural de todos contra todos, para que possa triunfar como suposta voz do consenso possível.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 15:16

Corajoso, juiz suspende projeto racista de Marta Suplicy, e Marta Suplicy chama a decisão de… racista!

Está de parabéns o juiz José Carlos do Vale Madeira, da 5ª Vara da Seção Judiciária do Maranhão, que teve a coragem de defender a Constituição da República Federativa do Brasil. Vejam a que ponto chegamos: ter de parabenizar um juiz por… seguir a lei! O que Vale Madeira fez? Suspendeu editais do Prêmio Funarte de Arte Negra, do Ministério da Cultura, destinados apenas a projetos de “criadores negros”. Segundo o juiz, eles “abrem um acintoso e perigoso espectro de desigualdade racial”. Na mosca! O jornal O Globo não retrata a realidade ao afirmar que ele suspendeu os “editais de incentivo à cultura negra”. Errado! O problema não está em incentivar a cultura negra (na suposição de que ela exista, claro!, o que é falso). A odiosa discriminação — contra negros e não negros — está em restringir os projetos a pessoas que tenham uma determinada cor de pele.

A coisa é de tal sorte estúpida que a Funarte se recusou a receber o projeto de dez negros que, sob direção do dançarino Irineu Nogueira, também negro, tentaram inscrever o espetáculo “Afro Xplosion Brasil”. Ana Claudia Souza, diretora do Centro de Programas Integrados (CEPIN) da Funarte, informou que o grupo foi vetado porque está sendo representado pela Cooperativa Paulista de Dança, cujo presidente, o bailarino Sandro Borelli, é branco!!! Tratava-se de mera questão burocrática. O grupo apresentou a proposta por intermédio de uma pessoa jurídica para evitar o desconto de 27,5% do Imposto de Renda na verba pedida, de R$ 150 mil.

Marta Suplicy, a artífice genial da ideia, não teve dúvida: no programa “Bom Dia, Ministro”, desta quarta, classificou a decisão do juiz de “racista” e anunciou que o governo já recorreu. Essa grande pensadora institui um projeto que discrimina as pessoas pela cor da pele, em flagrante desrespeito à Constituição, mas chama de “racista” o ato que restabelece o império da lei.

O primeiro edital foi lançado no dia 20 de novembro do ano passado. O prazo teve de ser dilatado duas vezes porque os projetos não apareciam. No rádio, afirmou a preclara:
“No começo tivemos poucas pessoas apresentando projetos. Então nos demos conta de que os criadores negros não tinham acesso a esse edital. Quando pedimos para as regionais do Ministério da Cultura fazerem seminários, irem atrás das comunidades, das instituições negras, de 18 projetos chegamos a mais de dois mil (foram, no total, 2.827). Hoje temos o problema inverso, de selecionar para as poucas vagas que temos.”

É parolagem das grossas. Até os beneficiários do Bolsa Família (com suposta renda entre R$ 70 e R$ 140) têm acesso, como reconhece o governo, a telefone celular e redes sociais! São os excluídos sociais digitalmente incluídos, uma nova categoria criada pelo petismo, entendem?… Por que os “criadores negros” não teriam acesso aos editais? O que o governo fez foi buscar uma solução para o problema que ele próprio criou. Como os projetos não apareciam — e não porque negros sejam incapazes disso, é óbvio —, o ministério teve de dar um jeito de pari-los. E por que não apareciam? Porque o Brasil é menos racista do que o governo. País afora, apenas uma minoria extrema de criadores negros rejeita a presença de brancos.

De resto, “cultura negra”, assim como “cultura indígena” ou “cultura branca” são mistificações criadas pelo pensamento politicamente correto.  Não existem! Mas deixo para outro post.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 14:22

Governo anuncia corte de R$ 28 bilhões no Orçamento. E eleva previsão de inflação

Por Gabriel Castro, na VEJA.com:
O governo federal anunciou, nesta quarta-feira, um corte de 28 bilhões de reais no Orçamento deste ano. A medida deve ajudar no cumprimento da meta fiscal deste ano, de 155,9 bilhões de reais. Com a redução, os gastos totais previstos caem para 937,9 bilhões de reais. O governo ainda elevou sua expectativa de inflação neste ano de 4,9% para 5,2%. Contudo, a expectativa de crescimento da economia foi mantida em 3,5%. O Ministério do Planejamento ainda prevê que os investimentos devem crescer de 3,5% de 2012, para 6% neste ano. Já a previsão de receita foi encurtada em 67,8 bilhões de reais, o que deixou o total atualizado em 1,18 trilhão de reais.

De acordo com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o contingenciamento tem como objetivo a preservação da geração de emprego e dos investimentos no país – o que, segundo o governo, serviria para impulsionar a retomada do crescimento econômico. “As contas estão e continuarão sólidas; continuaremos controlando despesas correntes dentro do governo e maximizando os investimentos do setor público, que estão crescendo ao longo do tempo”, afirmou Mantega, durante o anúncio do corte.

Os maiores cortes, em volume absoluto, atingiram os ministérios das Cidades (5 bilhões de reais) e da Defesa (3,6 bilhões). Outros 5 bilhões foram retirados do total destinado a operações de crédito. De acordo com o governo, foram integralmente poupados os investimentos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no Minha Casa, Minha Vida e nas áreas de Ciência e Tecnologia, Saúde e Educação. Os gastos relativos à Copa do Mundo de 2014, à Olimpíada de 2016 e ao programa Brasil Sem Miséria também foram poupados.

Segundo as contas federais, o corte de despesas não poderia ser muito grande, dado o fraco ritmo de arrecadação de tributos. Nos primeiros quatro meses deste ano, a Receita Federal recebeu 0,34% menos recursos, em termos reais, do que em igual período do ano passado.

Dos 155,9 bilhões de reais da meta fiscal, o governo pode, por lei, abater até 65,2 bilhões de reais – sendo 45,2 bilhões de reais em investimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os 20 bilhões de reais restantes em desonerações tributárias.

Além disso, um outro esforço para a garantia de cumprimento do superávit primário vem sendo feito com base na “contabilidade criativa”. Na segunda-feira, foi publicada no Diário Oficial da União uma medida provisória que permitirá que o Tesouro faça uso antecipado de créditos de Itaipu.

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 7:09

LEIAM ABAIXO

Quando a Comissão da Verdade, de Dilma, vai pôr frente a frente Orlando Lovecchio e os terroristas acusados de arrancar a sua perna? Ou essa acareação não interessa à Comissão da Mentira Oficial?;
Médico que coordena programa do governo de SP de combate ao crack consegue escapar de arapuca armada pela TV Cultura; entrevistado era difamado, em tempo real, por membro da bancada do Roda Viva. Um espetáculo grotesco de patrulha e grosseria!;
Morre Ruy Mesquita. Pior para o jornalismo, para o pensamento liberal e para a pluralidade;
Chavista que acusou Cabello de conspirar contra Maduro perde programa de TV. Boa notícia: o chavismo está indo para o esgoto;
Governo nega ao MPF acesso à sindicância sobre Rose;
Criação de vagas em abril é a pior para o mês desde 2009;
Comissão da Verdade quer falsificar a história e inventar os “assassinos do bem” e os “assassinos do mal”;
Os miseráveis não podem acreditar em tudo o que leem no Facebook e no Twitter!!! Ou: Cai o vício em Deus; aumenta o vício no estado;
Chavistas já estão em pé de guerra. O bom é que o vencedor será fatalmente o derrotado seguinte. Podre, o regime começa a se esfarelar;
Mergulhado em escândalos – Governo Obama grampeou telefones e interceptou e-mails de jornalista da Fox News!;
Barbosa, o homem errado dizendo as coisas certas;
Imprensa mundial tenta proteger Obama de si mesmo. Ou: Escândalo é muito mais grave do que Watergate e contribui para corromper o estado democrático

Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 7:03

Quando a Comissão da Verdade, de Dilma, vai pôr frente a frente Orlando Lovecchio e os terroristas acusados de arrancar a sua perna? Ou essa acareação não interessa à Comissão da Mentira Oficial?

Vejam este homem.

Ele se chama Orlando Lovecchio. Como vocês notam, usa uma prótese do joelho para baixo na perna esquerda. A parte que lhe falta foi arrancada num atentado terrorista ocorrido em 1968. Já volto ao caso. Antes, algumas lembranças.

A Comissão da Verdade, agora presidida por Rosa Cardoso, que só está lá porque foi advogada da ex-militante terrorista Dilma Rousseff, decidiu fazer barulho na imprensa — que lhe fornece o megafone. Ontem, acusou a Marinha de ter omitido supostos documentos que comprovariam a morte de 11 militantes políticos dados como desaparecidos. Escrevi a respeito. Em nota oficial, a Força negou que esteja omitindo informações. Desde o princípio, os revanchistas queriam chegar aos militares da ativa. Maria Rita Kehl chegou a dizer que as Forças Armadas mancharam “as suas honras (sic)”. Rosa achou pouco. Falando em nome da grupo, disse que a Comissão vai, sim, recomendar, contra a Lei da Anistia e contra a lei que a instituiu, que os agentes do estado anistiados sejam criminalmente responsabilizados. Já há uma decisão do Supremo contra a revisão da Lei da Anistia. Rosa não está nem aí. Na sua concepção de verdade, não cabe a legalidade do estado democrático e de direito.

A comissão, nós já vimos há alguns dias, quer fazer sessões públicas, promover acareações, submeter, enfim, os depoentes a um simulacro de julgamento e condenação sumários — mesmo que não possa realizar, ela mesma, a persecução penal.

Então volto agora a Lovecchio. Como já lhes contei em maio do ano passado, no dia 19 de março de 1968, o então jovem Orlando, com 22 anos, estacionou seu carro na garagem do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo, onde ficava o consulado americano. Viu um pedaço de cano, de onde saía uma fumacinha. Teve uma ideia generosa: avisar um dos seguranças; vai que fosse um reator com defeito… É a última coisa de que ele se lembra. Era uma bomba. A explosão o deixou inconsciente. Dias depois, teve parte da perna esquerda amputada.

Depoimento de um dos presos, Sérgio Ferro, indicou que o atentado havia sido praticado pela VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e que seus autores seriam os terroristas Diógenes Oliveira e Dulce de Souza Maia. Muitos anos depois, Ferro afirmou que ele próprio participara do ataque terrorista; que ele era, na verdade, obra da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização liderada por Carlos Marighella, não da VPR, e que Diógenes e Dulce não participaram da ação.

Lovecchio, coitado!, se preparava para ser piloto. Marighella — ou Carlos Lamarca (que chefiava a VPR) — não deixou porque, afinal, queria mudar o mundo, como rezam os mistificadores. A Comissão de Anistia já fez uma homenagem ao líder terrorista e decidiu indenizar a sua família.

Não se sabe, com certeza, se foi a ALN ou a VPR que arrancou a perna de Lovecchio. O certo é que ele recorreu, sim, à Comissão da Anistia. Deram-lhe uma pensão mensal de… R$ 500!!! Marighella, no entanto, assumiu o panteão dos heróis. Não só isso: não se sabe também se o tal Diógenes participou ou não. Mas é fato que foi um dos terroristas que, no dia 26 de junho de 1968, lançou um carro-bomba com 15 quilos de dinamite contra o Quartel General do II Exército, em São Paulo. A explosão fez em pedaços o soldado Mário Kozel Filho, que tinha, então, 18 anos. Sim, a família de Kozel pediu indenização. Em 2003, a Comissão da Anistia decidiu pagar R$ 330!!! Esses valores, hoje, foram corrigidos.

Mas e Diógenes, que, comprovadamente, participou do assassinato de Kozel e de muitos outros crimes, restando a suspeita de que atuou também no atentado que mutilou Lovecchio? Ora, ele recorreu à mesma comissão que deu R$ 500 mensais por uma perna e R$ 330 pela vida de um jovem soldado e passou a ter direito, em 2008, a um mensalão de R$ 1.628. E ainda levou uma bolada de R$ 400 mil a título de atrasados.

Uma pergunta básica: quando é que a dona Rosa, a dona Khel e o Paulo Sérgio Pinheiro vão confrontar, num mesmo depoimento, Orlando Lovecchio, o que perdeu a perna, com Sérgio Ferro, o ex-terrorista que virou artista plástico de renome e diz ter praticado o atentado, e Diógenes Oliveira, apontado inicialmente como autor? Quando é que as vítimas, ou suas respectivas famílias, dos terroristas vão ser postas cara a cara com seus algozes? Em uma de suas viagens ao Brasil, Ferro disse que ajudou a pôr aquela bomba no consulado americano porque era contra as violências nos EUA no… Vietnã. Convenham: um brasileiro podia muito bem pagar com a própria perna a vontade que ele tinha de protestar contra os EUA, certo?

Atenção! A Comissão da Verdade não vai nem mesmo se dedicar a apurar, afinal de contas, se foi a VPR de, Carlos Lamarca, ou a ALN, de Carlos Marighella, que arrancou a perna de Lovecchio. Não vai porque os dois passaram a ser “anistiados”, com direito a reparação. Lovecchio, a família de Kozel e de outras 118 pessoas mortas pelos terroristas que se danem!

Às vezes, fico com a impressão de que a democracia brasileira é obra da VPR, da VAR-Palmares, da ALN, do Colina, do PCdoB e de outras organizações terroristas que decidiam, em seus “tribunais revolucionários”, quem deveria viver ou morrer.

Vejam estre vídeo.

O corajoso cineasta Daniel Moreno, hoje com 37 anos, fez um filme a respeito, intitulado “Reparação”. Acima, vai um trailer. Fica fácil saber quem é Lovecchio. Falam, entre outros, o professor Marco Antonio Villa, do Departamento de História da Universidade Federal de São Carlos (o que afirma que tanto a esquerda como a direita eram golpistas), e o sociólogo Demétrio Magnoli, o que lembra que uma significativa parte da esquerda “ainda não aprendeu que Stálin era Stálin”.

Esses são apenas fatos.
É mais uma contribuição à Comissão da Verdade!
É mais um alerta contra o photoshop da história!

Texto publicado originalmente às 4h57
Por Reinaldo Azevedo

22/05/2013

às 6:51

Médico que coordena programa do governo de SP de combate ao crack consegue escapar de arapuca armada pela TV Cultura; entrevistado era difamado, em tempo real, por membro da bancada do Roda Viva. Um espetáculo grotesco de patrulha e grosseria!

O Roda Viva, da TV Cultura, entrevistou na segunda-feira o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, uma das maiores autoridades brasileiras em dependência química. Ele coordena o programa “Recomeço”, implementado pelo governo de São Paulo, para atender especialmente os dependentes de crack. Entrevista? Não! O que a TV Cultura, TV pública de São Paulo alimentada por dinheiro também público, tentou armar foi um linchamento em forma de entrevista. Laranjeira só não foi esmagado pelos entrevistadores — todos eles, com a exceção de uma, claramente favoráveis à descriminação das drogas — porque é preparado, conhece o assunto e soube combater o achismo e a irracionalidade com informação.

A coisa alcançou tal nível de delinquência intelectual que, atenção!, o rapaz escalado para acompanhar a repercussão da entrevista do Twitter, alimentando o programa com informações, passou ele próprio a atacar o entrevistado em tempo real. Enquanto Laranjeira falava, ele o desqualificava em seu perfil. Escrevo de novo: uma pessoa que estava na bancada do Roda Viva, em tempo real, atacava o entrevistado. ATENÇÃO, CONVIDADOS DO RODA VIVA! HÁ O RISCO DE VOCÊS SEREM DIFAMADOS NAS REDES SOCIAIS PELO PRÓPRIO PROGRAMA! A menos, claro!, que vocês digam o que que querem que vocês digam! No geral, se as opiniões estiverem identificadas com o politicamente correto, com o petismo e com as esquerdas, tudo bem! Caso contrário, é porrada na certa! Abaixo, segue o vídeo no Youtube. Volto em seguida.

Foram escalados para entrevistar Laranjeira:
– Ilona Szabo de Carvalho – ela é diretora de um tal Instituto Igarapé, que responde por uma certa Rede Pense Livre, organização que defende a descriminação da drogas. A Pense Livre foi uma das organizadoras daquele seminário em Brasília que defendeu a legalização de todas as drogas. Foi financiado com dinheiro público e só convidou as pessoas que têm esse ponto de vista.
– Laura Capriglione – jornalista da Folha de S.Paulo, é a minha musa na imprensa. Parou de cobrir enchentes na gestão Fernando Haddad. Aposentou as galochas. É contra a internação involuntária de viciados e favorável à descriminação das drogas.
– Bruno Paes Manso – jornalista do Estadão, é uma espécie de Laura Capriglione com ambições quase acadêmicas. Também defende a descriminação.
– Denis Burgierman – jornalista, é diretor de redação da revista Superinteressante. Mas não estava lá por isso. É um fanático da descriminação das drogas, escreveu livro a respeito e também é ligado à Rede Pense Livre.
– Mara Menezes – Presidente do Conselho da Federação Amor Exigente. Foi a única que não usou o entrevistado como mero pretexto para defender a descriminação das drogas.

Assim se fez a imparcialidade de entrevistadores do Roda Viva. Quatro pessoas estavam lá para tentar provar que o entrevistado está errado e tartamudear seus delírios sobre a liberação das drogas, e apenas uma, visivelmente intimidada pela tropa de choque, não exibia o espírito do confronto.

Laranjeira, reitero, se saiu bem porque é uma pessoa preparada, que não se deixa intimidar. Ocorre que um especialista não tem obrigação nenhuma de saber lidar com situações como essa. O que se tinha ali — comprovado pelo episódio do Twitter (já chego lá) — era uma arapuca, não uma “roda viva”.

Estômago
Se você não assistiu ao programa, recomendo que coloque o estômago de lado. Não me lembro de bancada tão abertamente hostil a um entrevistado! Acho que nem aquela que se encarregou de Cabo Anselmo! Dos cinco participantes, quatro se opunham a praticamente tudo o que o convidado exibia como contribuição — INCLUSIVE PROFISSIONAL — ao debate.

Ilona, vejam o vídeo, arrogante, partiu para o ataque desde o início, tentando transformar em debate entre iguais a entrevista de um especialista. Não queria perguntar, mas contestar. Transcrevi trechos de sua fala (fica para outros posts). É daquelas pessoas cuja prosa se perde nos fumos sintáticos dos anacolutos (vou demonstrar). Com frequência, sua voz tentou se sobrepor à de Laranjeira, muitas vezes num tom de censura benevolente. No ápice de seu entusiasmo, recorreu a um argumento que chega ao escárnio: o de que os dependentes não procuram tratamento porque têm medo de ser criminalizados!!!

Manso — autor de uma tese exótica de doutorado na FFLCH sobre o crescimento e queda do índice de homicídios em SP — defendeu que a liberação do plantio de maconha “para uso próprio” seria uma excelente medida… Burgierman chegou a perguntar, com agressividade incompatível com o seu papel, se o fato de Laranjeira dirigir um instituto privado de estudo das drogas e combate à dependência não constituía conflito de interesses com a coordenação do programa público. Não se limitou a defender a descriminação do uso de drogas. Ele também quer livrar a cara do que chama “pequeno traficante”. Não tenho a menor noção do que ele quer dizer com isso. Laura nem precisou se esforçar. Manteve, sempre que flagrada, um olhar de reprovação à postura “radical” do entrevistado…

Laranjeira começou muito tenso (como não estaria?), mas conseguiu se impor na maioria dos confrontos. Foi eficiente em demonstrar que é necessário reduzir ao máximo a exposição dos jovens às drogas. Faltou ressaltar, creio, que, no Brasil, isso se torna ainda mais necessário à medida que não existe rede de tratamento capaz de acolher de modo adequado os que se tornam dependentes. Outro ponto forte foi sua negativa categórica em considerar a famigerada política de redução de danos uma alternativa aceitável como proposta terapêutica.

Em países organizados (e pequenos!), como Suíça, Holanda e Portugal (fetiche da turminha!), as autoridades puderam, digamos, se dar ao luxo de uma experiência de liberação (sempre parcial!), num contexto em que há um sistema de saúde onipresente e disponível. A redução de danos foi tentada num ambiente de variáveis muito mais controladas do que temos, ou podemos ter, em Banânia, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 200 milhões de habitantes, uma pobreza fabulosa e fronteira com quatro grandes produtores de drogas. E há um claro recuo nessas políticas de redução de danos.

Um momento lindo
“Doutor, só para eu entender o que o senhor está falando porque existem formas e formas e formas de se consumir drogas, né? Quer dizer, você pode consumir a droga de maneira recreativa, você pode consumir a droga esporadicamente, você pode… Assim como tem as pessoas que bebem e são dependentes do álcool e tem as pessoas que bebem por… Num fim de semana.”

A fala é Laura Capriglione, que fica agora obrigada a nos apresentar consumidores recreativos de crack, certo?

E isso é pouco
Mas isso é pouco. Se uma bancada com essa composição ainda não lhes pareceu algo heterodoxo, então falemos de um certo Bruno Torturra, um simpatizante declarado do movimento petista “Existe Amor em SP”. Sim, ele estava na bancada do Roda Viva. Fazendo o quê? Deixemos que ele mesmo explique com dois tuítes.

Estava “pilotando da bancada o Twitter” e “ajudando a recolher perguntas”. Já na segunda postagem, ele chama Laranjeira de “proibicionista”. A palavra é um jargão empregado por defensores da liberação das drogas, especialmente da turma ligada à Marcha da Maconha.

Estou pouco me lixando se o tal, de quem nunca ouvi falar, é ou não maconheiro. Não pode sê-lo ou se comportar como tal na bancada do Roda Viva. Este sujeito, que estava lá para “recolher perguntas”, ficou publicando tuítes contra Laranjeira no curso da entrevista.

Isso significa que a TV Cultura, que pertence à Fundação Padre Anchieta, alimentada com dinheiro público, chama um entrevistado, e alguém, a serviço da emissora, fica difamando o convidado ao vivo, enquanto ele está no ar. A bancada, formada para massacrar Laranjeira (em outros posts, darei destaque a estultices espantosas), não pareceu o suficiente. Era preciso ter um rapaz que cuidava do Twitter com esta isenção (isso tudo foi postado enquanto Laranjeira falava). Volto para encerrar.

Encerro
Não! Eu não acho que a TV Cultura ou o Roda Viva devam incensar o governo do estado e suas escolhas administrativas ou políticas, a exemplo do que faz a Lula News. Poderiam se comportar, por exemplo, com isenção! O que lhes parece? Laranjeira conseguiu escapar do linchamento. A questão é saber se uma emissora, pública ou privada, tem o direito de fazer aquilo. Um momento vergonhoso da TV Cultura e do jornalismo. Eis um tipo de imprensa que não precisa de “controle social” porque já está… controlado.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 22:52

Morre Ruy Mesquita. Pior para o jornalismo, para o pensamento liberal e para a pluralidade

Morreu nesta terça, aos 88 anos, o jornalista Ruy Mesquita em consequência de um câncer na base da língua, diagnosticado no mês passado. Pior para o jornalismo. Pior para o que resta de pensamento liberal no Brasil — que marcha, como é sabido, nesse e em outros particulares, na contramão do mundo que interessa. Ex-diretor de redação do extinto “Jornal da Tarde” e do Estadão, “Doutor Ruy” comandava, desde 2003, a seção de opinião deste jornal, que se manteve, sob a sua orientação, como um dos nichos da imprensa brasileira em que a clareza de ideias se casava com a excelência do texto. Os que se alinham com os fundamentos de uma sociedade democrática e de direito raramente se decepcionavam. Como será agora? Vamos ver. Enquanto “Doutor Ruy” estava lá, sempre torci para que, digamos, o ânimo do editorial iluminasse a Redação. Raramente, ainda bem!, percebi o movimento contrário.

O Estadão foi um dos principais alvos de duas ditaduras: a do Estado Novo, comandada por Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945, quando chegou a ficar sob intervenção mesmo, e a militar, cujo prenúncio se deu em 1964, mas que chegou à sua plenitude com o AI-5, em 1968. O Estadão, a exemplo de boa parte da imprensa brasileira, apoiou o Movimento Militar que depôs João Goulart. Uma leitura honesta daquele período, evidentemente, não passará a chamar de “revolução” o que foi um golpe. Sim, foi um golpe! A questão é saber quem era e o que queria o que estava sendo golpeado.

O debate é longo — já tratei do assunto algumas vezes no blog —, mas o fato é que o ânimo que levou à deposição de Goulart era bem distinto daquele que resultou no AI-5. Chamar de “ditadura” os quatro primeiros anos do regime é pura licença história, quase poética. A partir de 1968, aí o bicho pegou mesmo. E o Estadão, que havia apoiado a deposição de Goulart, já havia se convertido num duro crítico do regime. Os, vá lá, liberais de uniforme já haviam perdido a batalha para a linha dura. Nota à margem: embora ele jamais tenha reconhecido, é claro que o apoio ao golpe, em 1964, foi um erro, o que não quer dizer que João Goulart fosse uma solução.

Sem jamais flertar com valores de esquerda, o Estadão passou a ser um duro crítico do regime e pagou caro por isso. Tornou-se um dos principais alvos dos censores. Em vez de maquiar o trogloditismo, o jornal o denunciava de maneira singular: trechos de “Os Lusíadas”, de Camões, substituíam as notícias cortadas pela censura; no “Jornal da Tarde”, entravam as receitas de bolo. Era uma forma de denunciar o que estava em curso.

Linha editorial
Em todo o mundo democrático, do pequeno Chile, bem pertinho, aos EUA, passando pelos países europeus e chegando ao Japão, há jornais alinhados com um pensamento mais liberal, dito “conservador”, e jornais mais à esquerda, que se querem “progressistas”. A isso se chama “linha editorial”, que não é apenas legítima, é também necessária. Com o afastamento de Ruy da redação, o Estadão caminhou para a indiferenciação, de sorte que os três grandes jornais brasileiros, hoje em dia, se distinguem na tipologia, no design, no destaque maior ou menor a determinadas seções, mas não nas categorias de pensamento. Ao contrário: parece haver uma espécie de competição para saber quem é mais “progressista” — ou, se quiserem, “esquerdista”, dada a esquerda possível hoje em dia. Essa esquerda já não lida mais com classes (como gostaria Marilena Chaui, cujo pensamento já morreu, embora ela finja não saber), mas com “movimentos” e “coletivos” de opinião, que vêm a ser justamente a negação de uma das aspirações do liberalismo, que é o apreço pelo indivíduo.

Doutor Ruy está morto, mas os valores que ele defendia estão vivíssimos mundo afora. Essa salada ideológica brasileira, que ele repudiava, felizmente, não faz escola nos centros relevantes de pensamento, ainda que a praga do politicamente correto tenha contaminado todas as democracias. Um amigo esteve com ele pouco antes de a sua doença ser diagnosticada. Lamentou, mas sem lamúrias, as dificuldades trazidas pela idade, mas estava absolutamente lúcido, ativo e, como sempre, indignado com a frequência com que, nestepaiz, escolhe-se o errado em vez do certo, o estado em vez do mercado, o coletivismo xucro em vez do indivíduo.

Aos 88 anos, morreu um homem moderno. Que os velhos de 40 ou 50 o tenham como exemplo e renunciem ao Brasil arcaico.

 

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 21:19

Chavista que acusou Cabello de conspirar contra Maduro perde programa de TV. Boa notícia: o chavismo está indo para o esgoto

Deem uma olhada neste tipo. Já volto a ele.

Escrevi nesta manhã um post sobre o começo do fim do chavismo — ou, vá lá, a continuidade do fim. O regime começou a morrer com a morte do tirano Hugo Chávez. Mario Silva, um delinquente disfarçado de jornalista que tem programa numa TV estatal, sempre foi um bate-pau de Hugo Chávez. A oposição tornou pública uma gravação em que Silva diz a um agente da polícia secreta cubana que Diosdado Cabello, que preside a Assembleia Nacional, planeja dar um golpe em Nicolás Maduro, o presidente do país, eleito com fraude. Os chavistas já estão se comendo, e isso é uma boa notícia.

Pois bem: nesta terça, numa mensagem gravada, Silva anunciou que deixou seu programa na TV estatal por tempo indeterminado. Seguindo a tradição das melhores ditaduras comunistas, o homem alegou “problemas de saúde”. No seu peculiar estilo cretino-dramático, afirmou: “Se tiver de me imolar em nome da revolução, o farei. Meu apoio é irrestrito às instituições e ao presidente Maduro”.

É evidente que Cabello exigiu que Maduro lhe desse a cabeça de Silva — e o presidente ilegítimo não teve outra saída: teve de ceder. O jornalista não é um só um palhaço do regime. Apresentava havia nove anos o programa noturno La Hojilla (A Lâmina) na Televisión de Venezuela (VTV), uma das emissoras estatais. É um dos fundadores do Partido Socialista Unido da Venezuela. O símbolo do programa é aquilo que chamamos, por aqui, por metonímia, uma “gilete”.

Encerro
O caso é mais importante do que parece. O chavismo está se desconstituindo. Silva, um figurão midiático do regime, é o primeiro a cair. Na conversa com o agente cubano, acusou Cabello de corrupto. O presidente da Assembleia é um pouco mais do que isso, como demonstrei nesta manhã. Um juiz desertor do Supremo Tribunal de Justiça, que fugiu para os EUA, acusa Cabello, que controla o setor de Inteligência do país e as milícias bolivarianas, de envolvimento com o narcotráfico. E não que esse juiz — Eladio Ramón Aponte Aponte — livre a própria cara. Ele próprio afirma ter atuado em favor dos narcotraficantes quando estava no Supremo Tribunal de Justiça por determinação do governo Chávez.

A explosão do crime, diga-se, é um dos fatores de desconstituição do chavismo. A Venezuela é hoje um dos países mais violentos do mundo. São 75 homicídios por grupo de 100 mil habitantes. No açougue brasileiro, para ter um padrão de comparação, essa taxa é de 26 por 100 mil. Em Caracas, esse número passa dos 100 homicídios por 100 mil.

É o Socialismo do Século 21!

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 19:15

Governo nega ao MPF acesso à sindicância sobre Rose

Na VEJA.com:
A Presidência da República negou ao Ministério Público Federal em São Paulo acesso aos documentos da sindicância instaurada para apurar a participação da Rosemary Noronha nas fraudes reveladas pela Operação Porto Seguro, da Polícia Federal. Ex-chefe de gabinete do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary foi denunciada em dezembro por falsidade ideológica, tráfico de influência, corrupção passiva e formação de quadrilha.

Segundo a assessoria do MPF, a subchefia de Assuntos Jurídicos da Casa Civil respondeu que “o chefe do gabinete pessoal da Presidência da República não tem competência para prestar a informação requisitada” e que a lei brasileira determina que pedidos enviados à Presidência da República devem ser feitos pelo procurador-geral da República. O ofício do MPF foi endereçado à chefia de gabinete da Presidência. Após a negativa, o MPF afirmou que “tomará as providências cabíveis” e que a recusa representa “sério obstáculo ao pleno conhecimento dos ilícitos”.

Coordenada pela Casa Civil, a apuração desvendou como a ex-funcionária usava a influência e a intimidade que desfrutava com o ex-presidente Lula para se locupletar do poder. Ao fim de dois meses de trabalho, os técnicos reuniram provas que resultaram na abertura de um processo disciplinar contra ela por enriquecimento ilícito. Porém, conforme revelou VEJA, a Secretaria-Geral da Presidência da República montou um processo paralelo com a falsa intenção de “acompanhar e orientar” a apuração da Casa Civil – mas que não passava de uma tentativa de sabotar o trabalho de investigação.

O MPF argumenta que a lei 8 112/90 obriga o órgão a encaminhar cópia da sindicância quando o relatório “concluir que a infração está capitulada como ilícito penal”. Procurada, a assessoria de imprensa da Casa Civil afirmou que ainda se pronunciará sobre o pedido negado ao MPF.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 18:45

Criação de vagas em abril é a pior para o mês desde 2009

Na VEJA.com:
O Brasil criou 196.913 novos empregos com carteira assinada em abril, aumento de 0,49% em relação ao mês anterior, de acordo com dados divulgados nesta terça-feira pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Apesar da alta, é o pior resultado para o mês de abril desde 2009. O número divulgado pelo Caged corresponde à diferença entre as admissões e as demissões no período.

No acumulado do ano, o emprego cresceu 1,39%, acréscimo de 549.064 postos de trabalho. Nos últimos 12 meses esse patamar alcança 1.087.066 novas vagas, expansão de 2,79% no número de empregos. Em abril, pela primeira vez no ano, os oito setores da economia tiveram crescimento na criação de emprego. Contudo, o setor de serviços liderou a criação de vagas, com 75.220 no período, alta de 0,46%. Em segundo lugar vem a indústria, com 40.603 novos postos (+0,49%), a construção civil com 32.921 (+1,03%) e a agricultura com 24.807 (+1,59%).

Regiões
O Sudeste foi a região com maior criação de emprego, com 127.210 vagas (+0,59%), e a Região Sul, com 39.294 (+0,54%). Também tiveram expansão as regiões Centro-Oeste, com 29.978 empregos (+0,98%), e Norte, com 2.059 (+0,11%). Já a região Nordeste foi a única em que foi registrada queda do número de vagas em abril, de 1.628 (-0,03%). De acordo com o MTE, a retração foi provocada pela sazonalidade do setor sucroalcooleiro no período. A variação percentual corresponde à diferença entre o saldo de criação de vagas de abril com o mês de março.

 “Os números são otimistas, pois demonstram crescimento em praticamente todos os setores da economia”, avaliou o ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, em comunicado emitido pelo MTE. A expectativa do ministério é de que o país gere 1,5 milhão de vagas este ano.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 18:12

Comissão da Verdade quer falsificar a história e inventar os “assassinos do bem” e os “assassinos do mal”

Pois é… Ontem mesmo escrevi a respeito. A Comissão da Verdade busca compensar a sua irrelevância produzindo factoides barulhentos. Há tempos observei aqui que o objetivo sempre foi levar as Forças Armadas para o banco dos réus. Até havia pouco, a turma mirava em militares que já estão na reserva, preservando a instituição. Essa fase acabou. Agora, os da ativa também entraram na mira. Nesta terça, a Comissão deu seu passo mais ousado: passou a defender abertamente o desrespeito à Lei da Anistia e à própria lei que a instituiu. Como é, na prática, um grupo de assessoramento da Presidência da República, é de supor que atue sob a orientação da presidente Dilma Rousseff.

A VEJA.com publica uma reportagem de Laryssa Borges cujo título é este: “Comissão da Verdade diz que Marinha ocultou mortes e defende revisão da Lei da Anistia”. Reproduz com fidelidade o que vai no texto, que retrata, por sua vez, a investida do dia. A Comissão acusa a Força de ter omitido informações sobre 11 pessoas dadas como desaparecidas e que já estavam mortas. Digamos que seja mesmo assim. O grupo está aí para denunciar o caso.

Maria Rita Kehl, uma das integrantes da Comissão, aproveitou, no entanto, como de hábito, para ir além das suas sandálias: “As Forças Armadas mancharam suas honras com essas práticas”. Opa!!! Há uma grande diferença entre dizer que torturadores mancham a honra das Forças Armadas e afirmar que as Forças Armadas mancharam as respectivas honras. No primeiro caso, a instituição é preservada; no segundo, é enxovalhada. A tortura não faz parte do código de honra militar. Ocorre que dona Maria Rita não entrou na Comissão para apurar verdade nenhuma. Ela entrou para usar o passado como instrumento político do presente.

Não foi a única a atravessar o samba. Rosa Cardoso, então advogada da então militante Dilma Rousseff (que pertenceu a três grupos terroristas, o que é apenas um fato), assumiu a presidência rotativa da Comissão na sexta-feira. Veio a público nesta terça para defender oficialmente a responsabilização criminal dos agentes do estado acusados de abusos, em flagrante desrespeito à Lei da Anistia e à lei que criou o grupo que agora preside. Afirmou:
“Os crimes de lesa humanidade são imprescritíveis. As auto-anistias, diante do direito internacional, não valem. Vamos ter, sim, de recomendar que esses casos sejam judicializados pelo direito interno”.

Ela é advogada. O “direito interno”, seja lá o que isso signifique, já decidiu que a Lei da Anistia não pode ser anulada. Ela integra um conjunto de ações que resultou na transição pacífica da ditadura para a democracia. Essa conversa de “autoanistia” está mais torta do que a biruta ideológica de Rosa. Vamos pensar com um mínimo de lógica. Se o estado estivesse impedido de conferir anistia também a seus agentes, ele a concederia a quem? Apenas aos outros criminosos, como os terroristas, por exemplo? Então se parte do pressuposto de que o perdão político só pode ser concedido àqueles que cometeram crimes para mudar a ordem vigente, mas nunca àqueles que os cometeram para preservá-la? Então se parte do pressuposto de que anistia só pode ser concedida a quem, tendo cometido crimes, foi derrotado, mas nunca a quem, sendo igualmente criminoso, estava do lado de quem venceu o confronto. Então se entende que o derrotado, que recebe de bom grado o perdão do vitorioso — perdão esse visto como um imperativo ético —, não concede a esse mesmo vitorioso a graça que reivindica para si, de sorte que o derrotado cobra, na prática, o direito de punir quem venceu a batalha? Então se exige daquele tomando como algoz uma generosidade de que a vítima pode se dispensar? Essas indagações e constatações expõem o buraco moral e lógico em que se situa essa gente. De fato, Rosa e seus companheiros estão dizendo que, quando agentes do estado mataram esquerdistas, estavam cometendo crimes contra a humanidade, mas quando as esquerdas armadas mataram agentes do estado — além de pessoas que não tinham nenhuma vinculação com a luta política —, estavam apenas lutando por um sonho e defendendo a democracia.

É uma posição juridicamente indefensável, uma vez que, já demonstrei aqui tantas vezes, as leis não permitem a responsabilização criminal de ninguém. E é uma posição moralmente indefensável porque essa turma está querendo inventar os “assassinos do bem” e os “assassinos do mal”.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 16:25

Os miseráveis não podem acreditar em tudo o que leem no Facebook e no Twitter!!! Ou: Cai o vício em Deus; aumenta o vício no estado

Se também o humor brasileiro não estivesse contaminado pelo engajamento — no Brasil, até os palhaços querem ter a “marca social”; em breve, haverá o Bolsa Palhaço… —, haveria fartíssimo material para que, por meio do riso, se moralizassem os costumes: “ridendo castigat mores”. Mas quê… Também os que fazem graça agora decidiram ser professores de educação moral e cívica do politicamente correto. Há gente talentosa que começou a se perder: está mobilizando na Internet, já dá para perceber, a militância política, não os que estão em busca do riso. Quem só vê graça em desconstruir as fantasias de um lado do espectro ideológico já não faz mais humor, mas política. A turma do Casseta & Planeta, que já vinha de longe, ficou no ar 20 anos porque seu humor lidava com os preconceitos de todos os lados — tanto os “progressistas” como os “conservadores”. Não tinha agenda, e nisso estava a sua força. Tá bom, leitor! Fiz aqui um pequeno nariz de cera. O tema central é outro, mas continua no universo da piada. O governo anuncia agora que vai passar informações aos beneficiários do Bolsa Família por celular e que vai incrementar as informações nas redes sociais…

Ah, bom ! Então tá certo! Como os engajados do jornalismo e do humor não veem nisso nada de, digamos assim, contraditório, resta para um “reacionário”, um “conservador” e “direitista” como este escriba exclamar: “Que país do balacobaco este!”. O governo dá um dinheirinho às famílias muito pobres, com renda per capita entre R$ 70 e R$ 140, para, acho eu, evitar a exclusão social, essas coisas. Mas, pelo visto, admite que uma parcela dos beneficiários já não é composta de excluídos digitais, né? A média do benefício do Bolsa Família é de R$ 155 — supunha eu que fosse um dinheiro essencial para o sujeito suprir suas necessidades básicas.

Pelo visto, isso é “menas verdade”, como dizia o gramático Lula até outro dia. Nota: ninguém vai dar bolsa no Brasil para exclusão gramatical porque se decidiu que, nestepaiz, o que interessa é que “nós pega os peixe”… Já temos os “excluídos sociais” incluídos no Facebook e no Twitter, com o seu celular e coisa e tal. As telefônicas, suponho, apoiariam a ideia de cada miserável ter direito a um crédito mensal de, sei lá, R$ 20… O que lhes parece?

“Ontem [20] nós iniciamos um serviço também de mensagem para os beneficiários do Bolsa Família que têm telefone. Estamos avaliando a possibilidade de termos esse serviço para que a gente chegue rapidamente, com informações precisas, ao beneficiário do Bolsa Família. Hoje muita gente tem celular (…) A família tem telefone [celular]? Nos passe essa informação. Ontem nós mandamos informação para as famílias, dando a informação sobre o calendário [de pagamento], tranquilizando as famílias.” A fala é de Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social, segundo leio na Folha.

Bolsa BNDES
Sim, dá para debater — tanto os políticos como os humoristas poderiam fazê-lo; no jornalismo, as minhas esperanças já são menores… — se o governo não gasta muito mais com o Bolsa BNDES para os amigos do regime do que gasta com o Bolsa Família. O tema é bom. É claro que gasta! Vai se consolidando uma cultura em que pobre só aprende a ser pobre no Brasil com a ajuda do estado; e o rico só sabe ser rico com a ajuda desse mesmo estado. A única que não recebe prebenda nenhuma e ainda paga a conta é a classe média, aquela gente que Marilena Chaui “odeia”, entenderam? A classe média, coitada!, não tem nem Bolsa Juros Subsidiados nem Bolsa Facebook. E ainda é chamada de “fascista” pela Descabelada Engajada.

Num poema de 1970, “Prece do Brasileiro”, reproduzindo uma suposta fala de Jesus, que dava uma bronquinha no sujeito que, ao rezar, pedia a intervenção divina para acabar com a seca no Nordeste, escreveu Carlos Drummond de Andrade:
“(…)
Você, meu brasileiro,
não acha que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?
(…)”

O Nordeste continua seco — apesar das antevisões de Luiz Inácio Antonio Conselheiro Lula da Silva. Talvez o mar vire sertão, sei lá eu, mas o fato é que o sertão não virou um mar de água doce. O Brasil mudou. Já não existe o vício de esperar tudo da oração. Que bom! Agora se tem o vício de esperar tudo do Deus Estado. Esse estado precisa ensinar o brasileiro até a ser pobre — sim, ele sempre foi um excelente professor para indicar a alguns espertalhões o caminho da riqueza.

Na VEJA desta semana, leio que o PSDB fez uma pesquisa de opinião e decidiu que vai, parece, disputar com o PT a paternidade dos programas sociais. Já deveria tê-lo feito há muito tempo, acho eu. Mas será esse o busílis? O que há de mais notável no país, de estupefaciente mesmo, o que torna o Brasil um caso único nas democracias de todo o mundo, é não haver um partido que converse com quem paga a conta, com aqueles que Marilena Chaui, a Descabelada, considera “reacionários”, “fascistas” e “ignorantes” — sim, eles pagam também o salário de… Marilena Chaui.

Então… Parcela dos pobres que recebem o Bolsa Família (suponho que seja significativa, já que a ministra resolveu tratar do assunto) precisa, caro leitor, fazer aquilo que nós todos recomendamos a nossos filhos, sobrinhos, netos, alunos: deixar um pouco o Facebook e o Twitter de lado, né? Vão dizer que não há nisso algo de tragicamente engraçado — para voltar ao humor, de onde parti.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 7:04

LEIAM ABAIXO

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 6:34

Chavistas já estão em pé de guerra. O bom é que o vencedor será fatalmente o derrotado seguinte. Podre, o regime começa a se esfarelar

Não deu tempo de o tirano Hugo Chávez ser pendurado pelos pés em praça pública, como observei aqui no sábado, mas outros poderão ainda representar o papel de Mussolini tropical na Venezuela. Os candidatos mais cotados são Nicolás Maduro, o presidente duas vezes ilegítimo (porque assumiu na vacância de Chávez contra a Constituição e porque sua eleição foi fraudulenta), e Diosdado Cabello, que preside a Assembleia Nacional, o Parlamento unicameral do país. São hoje os dois homens fortes do regime. E não! Eles não se entendem. Numa gravação tornada pública pela oposição, um jornalista amigo do regime — um desses vagabundos que prosperam em regimes dessa natureza; no Brasil, há vários candidatos — denuncia um suposto complô para derrubar Maduro. E o líder seria justamente Cabello. Já chego lá, para tratar, inclusive, das circunstâncias surrealistas da conversa. Antes, é preciso lembrar algumas coisinhas.

Regime se esfarelando
No dia 7 de janeiro deste ano, escrevi aqui um texto sobre o impasse na Venezuela. Por quê? Chávez, que agonizava em Cuba, teria de tomar posse no dia 10 daquele mês. Estava na cara que não conseguiria. Segundo a Constituição, se isso não acontecesse, uma nova eleição teria de ser marcada. Jogaram o texto no lixo. O Tribunal Supremo de Justiça (o STF de lá), coalhado de bolivarianos, decidiu adiar a posse. Escrevi, então, nesse post:
“Tudo bem pensado, há uma boa notícia nesse imbróglio: os chavistas tentam adiar ao máximo as eleições não porque estejam unidos, mas porque estão divididos. Não é da oposição que têm medo, mas de si mesmos. Não é só o tirano que agoniza, mas também o movimento que ele inspirou. É por isso que a ditadura tenta dar um golpe em si mesma.”

O golpe em si mesmo, bem entendido, era o adiamento da posse. Depois houve outro, com a presidência interina conferida a Maduro e, finalmente, a eleição fraudada. A procrastinação tinha um único objetivo: apaziguar Cabello, que se negava a reconhecer a liderança do ungido por Chávez. Muito bem. Leiam agora trechos de texto publicano nesta segunda na VEJA.com. Volto em seguida.
*
A oposição venezuelana divulgou nesta segunda-feira um registro de áudio que revela uma conspiração dentro do governo contra o presidente Nicolás Maduro. O conluio seria coordenado pelo chefe da Assembleia Nacional e vice-presidente do partido governista, o PSUV, Diosdado Cabello. A gravação registra a conversa do apresentador de TV Mario Silva com Aramis Palacios, um dos chefes do G2, o serviço secreto cubano, e seria destinada ao ditador cubano, Raúl Castro.

No áudio, Silva explica que Cabello, um ex-tenente que participou ao lado do coronel Hugo Chávez do fracassado golpe de Estado de 1992, controla vários órgãos de segurança, entre eles o Serviço Bolivariano de Inteligência. Acrescenta que o que “interessa a ele são o dinheiro e o poder”. “A única forma de deter Diosdado é mostrar que ele é um corrupto e que exista uma prova confiável de que o comandante [Chávez] sabia disso”, adverte Silva.

O jornalista acrescenta que Maduro está preso em uma “armadilha” e corre o risco de perder o controle das Forças Armadas para Cabello, o que poderia levar a um golpe de Estado. “Têm que se sentar com Maduro e dizer a ele as coisas. Quase disse a Maduro (que) há uma conspiração, mas não sei qual vai ser a sua reação, pode ser contraproducente”. O apresentador também alertou sobre divisões entre militares e sobre a desconfiança da primeira-dama, Cilia Flores, em relação ao ministro da Defesa, Diego Molero, por acreditar que ele pretende dar o golpe.

Silva também acusa o presidente da Assembleia Nacional de corrupção e de lavagem de dinheiro por meio de “empresas de fachada”. “Há ministros aqui que não sabem sequer o que fazer. E o mais provável é que estejam roubando, Palacios, porque acham que isto vai desmoronar”.
(…)

Voltei
Mario Silva não passa de um estafeta asqueroso do regime. Embora o Brasil seja uma democracia, existem muitos tipos assim por aqui — tão bem pagos quanto seu congênere bolivariano… É um pulha, mas conhece o governo por dentro. Não por acaso, ele discute o complô, imaginem vocês!, com um agente cubano. Tornada pública a fita, ele sabe que está em maus lençóis. Cabello é um tipo perigoso, e Maduro não vai segurar a sua onda. Restou ao, digamos, jornalista afirmar que a fita é uma montagem e que tudo não passa de um complô da CIA e do Mossad, o serviço secreto israelense. Os bolivarianos são fanaticamente antissemitas, é bom não esquecer. O país de referência na cúpula do governo venezuelano é o… Irã!

Narcotráfico
A suspeita mais grave contra Cabello nem é a de enriquecimento ilícito. Há coisa muito mais grave: envolvimento com o narcotráfico. Era o candidato natural à sucessão de Chávez, mas o coronel, contam-me venezuelanos que conhecem o regime, o considerava uma ameaça. O Beiçola de Caracas chegou a pensar em se livrar do antigo “companheiro” golpista, mas descobriu que, nesse caso, quem corria o risco de cair era ele próprio. Diosdado tem o apoio de parte significativa da ala militar bolivariana, que também se beneficia das práticas mafiosas do governo.

Diosdado exigiu — e Maduro cedeu — áreas significativas do governo. Era o preço do apoio. E ele demonstra fidelidade à sua maneira. No dia 30 do mês passado,  no comando da Assembleia, viu os deputados bolivarianos socando a cara dos opositores e não moveu uma palha. Ao contrário: ele estimulou a pancadaria. Além de ser o chefe do serviço de Inteligência do regime, é também o homem forte das milícias armadas. O mais grave, no entanto, é a suspeita de envolvimento com o narcotráfico.

O juiz Eladio Ramón Aponte Aponte, ex-presidente do Tribunal Supremo de Justiça, era o braço de Chávez no Judiciário. Ainda há uma página sobre ele na Internet, do tempo em que era uma estrela da Justiça.

Pois bem. O homem fugiu do país no fim de março e se tornou um delator protegido pelo DEA, a agência antidrogas dos EUA. Ele admitiu ter prestado favores a uma rede de narcotraficantes da América do Sul a pedido do governo Chávez. E listou, então, os chavistas da cúpula que lucravam com o tráfico de drogas: o ministro da Defesa, general de brigada Henry de Jesús Rangel Silva; o vice-ministro de Segurança Interna e diretor do Escritório Nacional Antidrogas, Néstor Luis Reverol; o comandante da IV Divisão Blindada do Exército, Clíver Alcalá; o ex-diretor da seção de Inteligência Militar Hugo Carvajal e… o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello!!!

Olhem Cabello ali. Segundo a Constituição, ele é que deveria ter assumido a Presidência interina do país quando ficou claro que Chávez não tomaria posse no dia 10 de janeiro. Mas parte da cúpula bolivariana, especialmente aquela mais próxima de Cuba, temia que se lançasse candidato.

A gravação que vem a público agora revela o que já se sabia nos meios políticos venezuelanos: a retórica exacerbada de Maduro é o grito desesperado de um presidente fraco, que sabe que tem pelo menos metade do país contra o regime que lidera e que pode ter minada a sua autoridade pelos próprios “companheiros”.

Se Maduro não derrubar Cabello, Cabello ainda acaba derrubando Maduro. Qualquer das duas coisas é boa para o povo venezuelano porque será um tiranete a menos. Aí será preciso se livrar do outro.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 6:31

Mergulhado em escândalos – Governo Obama grampeou telefones e interceptou e-mails de jornalista da Fox News!

É… Vai mal o companheiro Barack Obama, presidente dos EUA. Escrevi ontem um texto afirmando que o escândalo da perseguição a inimigos políticos por intermédio do Fisco é mais grave do que o escândalo de Watergate. Muitos protestaram. Pois é…

Agora se descobre, no caso de espionagem do trabalho de jornalistas, que o episódio atinge também um profissional da Fox News. Obama está apenas no primeiro ano do segundo mandato, e os escândalos começam a se amontoar à sua porta. Leiam o que informa a VEJA.com.
*
Ao escândalo da interceptação de registros telefônicos de mais de vinte linhas usadas por repórteres e editores da agência de notícias The Associated Press juntou-se nesta semana outro caso de agressão do governo americano a um pilar da democracia – a liberdade de imprensa. Desta vez, o Departamento de Justiça vasculhou e-mails e interceptou registros telefônicos de James Rosen, correspondente da rede de televisão Fox News em Washington, em mais um caso de abuso de poder da administração Barack Obama. O jornal The Washington Post revelou que Rosen foi classificado pelo FBI como “cúmplice de conspiração” após obter e publicar informações de documentos confidenciais em um caso de vazamento no Departamento de Estado americano.

A investigação que envolveu o jornalista está relacionada a um episódio que tinha como protagonista o então conselheiro de segurança do Departamento de Estado, Stephen Jin-Woo Kim. Ele é acusado de ter vazado em junho de 2009 um documento confidencial do governo que dizia que a Coreia do Norte provavelmente lançaria um teste nuclear, em resposta a uma resolução da ONU condenando testes anteriores. Rosen publicou a informação em 11 de junho do mesmo ano.

O FBI, então, conseguiu um mandado para obter toda a correspondência entre Rosen e Kim, além da troca de e-mails pessoais e ligações do jornalista, segundo o Washington Post. A autorização foi dada com base em suspeitas do agente Reginald Reyes, que viu no simples fato de Rosen tentar obter documentos para escrever a reportagem indícios de conspiração e descumprimento da lei antiespionagem. “Desde o início da relação (com Kim), o repórter pediu, solicitou e encorajou o sr. Kim a liberar documentos internos dos Estados Unidos e informação de inteligência sobre o país estrangeiro (a Coreia do Norte)”, escreveu Reyes em seu relatório.

A polícia federal americana chegou até a controlar as visitas do correspondente ao Departamento de Estado – o que não estava previsto na autorização judicial. “Nós estamos indignados por saber que James Rosen foi denominado um criminoso e cúmplice de conspiração por simplesmente fazer o seu trabalho como repórter”, disse nesta segunda-feira em comunicado o vice-presidente da Fox News, Michael Clemente. “Nós vamos defender seu direito de trabalhar como membro do que sempre foi até agora uma imprensa livre”.

Segurança nacional
No caso envolvendo a agência AP, investigadores federais obtiveram secretamente dois meses de registros telefônicos, incluindo telefones residenciais e celulares. Sabe-se que o governo estava investigando o vazamento de informações oficiais sigilosas dando conta de que a CIA desbaratara o plano de um grupo terrorista do Iêmen de explodir um avião. Ninguém assumiu a responsabilidade por ordenar a espionagem contra a agência. O presidente Obama negou-se a pedir desculpas, com a justificativa de que “vazamentos em questões de segurança ameaçam a vida de agentes de inteligência”. Na zona de sombra entre os imperativos da segurança nacional e a garantia às liberdades civis, o governo americanotem o direito legal de obter registros telefônicos de jornalistas, mas só quando esta for a última alternativa e de modo limitado. Os casos ligados à imprensa também trazem à tona o tratamento que o governo democrata dá aos inimigos. A administração Obama tem sido implacável com os vazadores. O número de acusados de vazamentos no atual governo já é mais que o dobro de todos os governos anteriores somados.

Blindagem
O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, repetiu na noite de segunda o discurso usado para o caso da AP ao ser questionado sobre a espionagem contra o correspondente da Fox. Disse que “compartilha totalmente, como a maioria dos americanos, a convicção do presidente de que devemos ter uma imprensa que seja capaz de fazer um jornalismo investigativo e que devemos defender a Primeira Emenda da Constituição que consagra a liberdade de expressão”. E, para dar sequência à tese defendida pelo governo, ressaltou em seguida a importância de “não tolerar esse tipo de vazamento, que pode colocar vidas em perigo e ameaçar a segurança nacional”.

Carney estava mais preocupado em blindar a imagem de Barack Obama em relação a outro escândalo, o da perseguição do Fisco a grupos conservadores. O porta-voz confirmou que funcionários da cúpula da administração democrata, incluindo o chefe de equipe da Casa Branca, Denis McDonough, souberam no mês passado da investigação do Departamento do Tesouro sobre as irregularidades. Mas eles não informaram o presidente, disse o assessor, em uma tentativa desesperada de salvar a imagem de Obama em meio ao lamaçal dos escândalos que atingem seu segundo mandato.

Por Reinaldo Azevedo

21/05/2013

às 6:29

Governador do PSB defende apoio a Dilma

Por Kátia Brasil, na Folha:
Em mais um exemplo da resistência no PSB a uma eventual candidatura presidencial de Eduardo Campos (PE), o governador Camilo Capiberibe (AP) afirmou ontem à Folha que “o melhor” hoje para o partido é apoiar a reeleição de Dilma Rousseff. Segundo ele, uma candidatura própria do PSB ao Planalto deve ser pensada somente a partir de 2018. “Em 2018 esse ciclo que começou em 2010 vai estar concluído. E aí várias políticas nas quais acreditamos, que estão sendo implementadas pela presidenta Dilma com nosso apoio, vão estar consolidadas. Então vai ser o momento de promover a alternância no âmbito federal”, afirmou Capiberibe.

A fala do governador ocorreu no mesmo dia em que Dilma e Campos tiveram compromissos juntos –um evento no porto de Suape e a inauguração da Arena Pernambuco. “Fazemos parte da base de apoio da presidenta Dilma. Apoiamos a eleição da presidenta [em 2010] porque acreditamos que ela era a pessoa mais preparada para dirigir o Brasil. Acho que, neste momento, o melhor é continuar na base de apoio, afirmou.

Capiberibe, que controla a sigla no Amapá, criticou ainda a aproximação de Campos com líderes do DEM e da MD (fusão de PPS e PMN) de olho em 2014. “Não dá para construir uma candidatura baseada em suporte político com a oposição. Não pode isso.” O governador recebeu apoio do PT em 2010 e disse que pretende contar com o aliado de novo em 2014.
(…) 

Por Reinaldo Azevedo
 

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