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Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles. (Dylan Thomas — Tradução de Mário Faustino)

19/08/2014

às 21:05

PSB sentiu o peso da responsabilidade e escolheu como vice um político tradicional

Bem, triunfou a racionalidade, não é? O vice de Marina Silva, candidata do PSB à Presidência, será o deputado Beto Albuquerque (RS), este, sim, um real membro do partido e um quadro atuante no Congresso. Com a escolha, põe-se um fim às absurdas especulações sobre a indicação de Renata, viúva de Eduardo Campos, o que me pareceu, desde sempre, uma mistura de má tradição com exotismo. Não fazia o menor sentido.

Se é de uma “nova política” que o PSB quer falar — o que já é, diga-se, mais marketing do que fato —, o flerte com a candidatura de Renata a vice foi um escorregão inaceitável até do ponto de vista do… marketing. É evidente que Marina Silva vai disputar para ganhar — e, na fotografia de momento do Datafolha, ela poderia se eleger presidente da República se a disputa fosse hoje.

Campos tinha, sim, trânsito no Congresso, mesmo pertencendo a um pequeno partido quando se considera a sua expressão no Congresso. O neto de Miguel Arraes, que governou com uma base partidária em Pernambuco tão ampla como a que Dilma tem na esfera federal, era, sim, um político tradicional. Foi ao se juntar com Marina Silva que aderiu a essa conversa de “nova política”.

Ninguém entendeu direito, até agora, o que Marina quer dizer com isso. Comecemos do óbvio: ninguém governa o Brasil sem o Congresso. O desdobramento óbvio seria uma crise institucional. Nenhuma política é tão nova que possa deixar de lado o Poder Legislativo.

Marina não seria exatamente a melhor interlocutora com o Congresso. Querem um exemplo? Vejam o seu comportamento durante a votação do Código Florestal. Ela deixou claro que não reconhecia aquele foro como o mais adequado para decidir a questão. Tanto é assim que, quando estava claro que o texto de Aldo Rebelo seria aprovado, Marina juntou as suas ONGs e foi bater à porta do governo federal, cobrando, na prática, que a vontade do Congresso fosse ignorada.

É essa Marina que vai disputar a eleição pelo PSB? Como diria o poeta, de tudo sempre fica um pouco. Se Marina for eleita, tranquila, a relação não será. É evidente que é necessário ter um homem forte no governo que possa fazer essa interlocução com o Poder Legislativo. O nome de Beto Albuquerque é uma escolha muito mais responsável, de quem pretende, como deve ser, manter a interlocução com a política institucional, que é uma boa tradição. 

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 20:07

PSB escolhe Beto Albuquerque para vice de Marina

Por Talita Fernandes e Marcela Mattos, na VEJA.com:
O comando do PSB decidiu indicar o deputado gaúcho Beto Albuquerque, de 51 anos, para a vice na chapa que será encabeçada pela ex-senadora Marina Silva à Presidência da República. A decisão será oficializada na reunião da Executiva Nacional da sigla, agendada para esta quarta-feira, em Brasília. No encontro, o PSB também formalizará a indicação de Marina como substituta de Eduardo Campos, morto em acidente aéreo na semana passada.

O nome de Beto Albuquerque era apontado como favorito desde as primeiras conversas – ele só não seria escolhido se Renata Campos, viúva do ex-governador, aceitasse o posto. Para a cúpula do PSB, o deputado preenche os principais requisitos para a vaga: era braço-direito de Campos, tem boa relação com a ex-senadora e é apontado como um nome orgânico do partido – está filiado ao PSB desde 1986. Renata Campos chegou a ser procurada pelos socialistas, mas recusou a proposta porque quer priorizar sua família neste momento – o filho mais novo, Miguel, tem seis meses.

Albuquerque se aproximou de Marina Silva em outubro do ano passado, quando o quase partido da ex-senadora, a Rede Sustentabilidade, teve o registro negado pela Justiça Eleitoral. O deputado acompanhou as primeiras negociações ao lado de Campos e concordou que a aliança com a ex-senadora daria maior respaldo ao projeto do pernambucano. Gaúcho de Passo Fundo, Albuquerque está em seu quarto mandato na Câmara e tentaria, neste ano, uma vaga ao Senado. A candidatura, entretanto, não havia decolado até agora – ele aparece em terceiro lugar nas pesquisas –, o que facilitou para que ele abrisse mão da disputa.

Assim como Campos e Marina, Beto Albuquerque orbitou os governos petistas. Na Câmara, foi vice-líder do ex-presidente Lula. À época, Beto era porta-voz de Lula sobre temas espinhosos, como o mensalão e a CPI dos Correios. Também foi o socialista quem anunciou a assinatura da medida provisória que autorizaria o plantio de soja transgênica na safra 2004/2005. À época, ministra do Meio Ambiente Marina Silva foi uma das principais oponentes ao projeto. Agora, uma de suas tarefas será justamente ser mediador de temas sensíveis, como os conflitos entre os ambientalistas “marineiros” e setores ligados ao agronegócio aos quais Campos se aproximou para fazer alianças nos estados.

No desembarque do governo petista, Beto Albuquerque assumiu a linha de frente do partido dentro e fora do Congresso Nacional, tornando-se um dos principais articuladores da campanha de Eduardo Campos. Na campanha, também assumiu posição mais combativa, principalmente em relação ao PT. Quando representantes do partido chamaram o pernambucano de “tolo” e “playboy mimado”, coube ao parlamentar gaúcho assumir a contraofensiva: anunciou que o partido, até então em posição de independência, passaria a ser oposição no Congresso Nacional.

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 17:56

93% dos brasileiros estão insatisfeitos com sistema de saúde

Na VEJA.com:
Um estudo divulgado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) nesta terça-feira mostra que 93% dos eleitores brasileiros consideram o serviço de saúde do país, tanto público quanto privado, como péssimo, ruim ou regular. Entre os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), a taxa de insatisfação é de 87%. A pesquisa foi feita em junho pelo instituto Datafolha a pedido do CFM. Ao todo, foram entrevistadas 2.418 pessoas maiores de 16 anos e moradoras de regiões de todo o país. Segundo o levantamento, 92% dos brasileiros buscaram atendimento no SUS nos últimos dois anos, sendo que 89% conseguiram ser atendidos. Mesmo assim, mais da metade desses entrevistados considera que conseguir um serviço na rede pública de saúde é difícil ou muito difícil, principalmente no caso de cirurgias e procedimentos específicos, como hemodiálise e quimioterapia.

Fila
Uma das principais queixas em relação ao SUS é o tempo que leva para o usuário ser atendido. Segundo o estudo, 30% dos entrevistados estão na fila de espera da rede pública de saúde ou possuem algum familiar nessa situação. Das pessoas que aguardam atendimento, 29% esperam há pelo menos seis meses, sendo que metade delas está na fila há mais de um ano. Apenas 20% afirmam ter conseguido o serviço em menos de um mês após o pedido de consulta, exame ou cirurgia. ”Essa sobrecarga no atendimento de urgência e emergência acentua a visão negativa sobre o SUS e demonstra a total falta de gestão e regulação do sistema. É ali que, diariamente, pacientes e médicos e outros profissionais de saúde constatam o abandono deste serviço público que, para muitos, é a única alternativa”, afirma Roberto d’Avila, presidente do CFM.

Outro alvo de insatisfação dos usuários do SUS é o atendimento de urgência e emergência. Sete em cada dez pessoas que buscaram esses serviços nos últimos dois anos os avaliaram como péssimo, ruim ou regular. Por outro lado, os brasileiros consideram que é fácil conseguir serviços como a distribuição de remédios gratuitos e atendimento em postos de saúde. Ainda de acordo com o levantamento, mais da metade dos brasileiros (57%) considera que a saúde deveria ser tema prioritário nas ações do governo federal. Outras áreas apontadas como prioritárias por boa parte dos eleitores são educação (18%), combate à corrupção (8%), segurança (7%) e desemprego (4%).

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 16:02

O SEGREDO DE ABORRECER É DIZER TUDO. Ou: Petistas e seus apaniguados não são meus juízes. Nem quando atacam nem quando elogiam

Tenho escrito aqui alguns comentários críticos à forma como se conduz, no PSB, a assunção de Marina Silva ao posto de candidata do partido à Presidência da República, embora saibamos todos que ela pertence a um partido chamado Rede, ainda sem existência formal, abrigado no PSB. Prestem atenção ao substantivo que escolhi: assunção! Eu poderia ter optado por “ascensão”, do verbo “ascender”, que é mover-se fisicamente para cima, subir. Mas optei por “assunção” porque a palavra tem uma carga religiosa. Pode ser sinônimo de “ascensão”, mas o seu primeiro significado diz respeito à subida de Maria ao Céu, acontecimento celebrado, vejam vocês, no dia 15 de agosto.

Sim, Marina, ex-católica e ex-candidata a freira, é hoje evangélica. Não estou fazendo especulações nesse terreno. Dou relevo, ao falar em sua “assunção”, à aura mística, verdadeiramente religiosa, que muitos pretendem emprestar ao evento. O simples questionamento sobre o pensamento de Marina a respeito disso ou daquilo causa uma espécie de indignação em certas áreas da militância política. Parecem dizer: “Como ousam ficar fazendo essas perguntas terrenas à nossa candidata, que não é deste mundo?”.

Ocorre que Marina é deste mundo, como qualquer um de nós, como qualquer político. E, obviamente, não é a única a rejeitar a corrupção na vida pública. Tampouco é a monopolista da ética, da moral, dos bons costumes e do bem. Logo, não pode usar essa aura para se proteger das próprias contradições. Tem de responder por suas escolhas, mais do que qualquer um de nós. A razão é simples: se eu, Reinaldo, decido fazer isso ou aquilo, a minha decisão tem pouca importância; mexe com a vida de pouca gente. Se a líder da Rede, ora do PSB, for eleita presidente, o que quer que faça dirá respeito a milhões de pessoas. Então ela tem de prestar contas, sim, por suas escolhas.

Muito bem. Não sou uma pessoa de opiniões ambíguas sobre isso e aquilo. Isso me rende prazeres e dissabores também. Um deles é despertar a fúria de certos setores organizados, muitos deles financiados com dinheiro público. Eis que percebo que gente que, até anteontem, execrava o meu pensamento e o que escrevo, passou a reproduzir, em sinal de aprovação, textos e comentários críticos a Marina Silva. Ou seja: quando eu desaprovo, por exemplo, uma fala da presidente Dilma, então sou um pulha; quando desaprovo a líder da Rede, então sou um cara bacana.

Como reagir diante disso? Simplesmente não dando bola. Não escrevo o que escrevo nem falo o que falo para ser amado ou para ser odiado. O meu compromisso com você, que está do outro lado, e com quem me contrata é um só: deixar claro o que penso. E meu pensamento é sempre o mesmo: aqui no meu blog, na Jovem Pan ou na Folha. Não tenho um conjunto de valores adaptado a cada veículo.

Se os blogs alugados pelo PT e pelo governo federal estão reproduzindo as críticas que faço a Marina, o que posso fazer além de nada? Eles sabem o quanto os repudio. Eu nunca aceitei os petistas como meus juízes, nem quando me atacam nem quando me elogiam. Tenho, como todas as pessoas, meus candidatos. Mas mantenho, antes de mais nada, um compromisso com o ouvinte e com os leitores.

A imparcialidade de um jornalista não está em ser neutro diante de qualquer acontecimento, como quem não sabe distinguir o bem do mal. Alguém pode ser, por exemplo, indiferente ao horror que acontece no Iraque? A imparcialidade de um jornalista de opinião, que é o que sou, está em dizer o que pensa sem se preocupar se seu pensamento vai desagradar ou agradar a A, B ou C. Antes de emitir um juízo sobre determinado assunto, nunca me preocupei em saber quem concorda comigo ou quem discorda de mim. No dia em que eu fizer isso, estarei rompendo o principal compromisso que tenho, que é com você, leitor.

Então, como diria Jair Rodrigues, deixe que digam, que pensem, que falem. Nós seguiremos a nossa trilha.

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 13:01

Faz sentido Marina dar entrevista ao JN? É claro que sim!

Marina Silva será entrevistada pelo Jornal Nacional. Aqui e ali, leio gente afirmando que o PSB já teve a sua vez. É uma tolice. O “JN” está entrevistando candidatos, não partidos. Aconteceu de Aécio Neves e Eduardo Campos serem os presidentes de suas respectivas legendas, mas não estavam lá por isso. Ou o entrevistado desta segunda teria sido Rui Falcão, não Dilma Rousseff.

É evidente que Marina tem de ser entrevistada tão logo seja feita candidata. Se o padrão das três outras entrevistas se mantiver, não se trata exatamente de um passeio, não é mesmo? Acho até que a líder da Rede tenderia a concordar com os que acham que ela não precisa passar por aquela bancada. Eu acho que precisa, sim!

E dá para ter com Marina a severidade havida com Aécio, Campos e Dilma? Ora, é evidente que sim! O que não falta são motivos; o que não falta é pauta. Entre outras questões, não custa lembrar que o marinismo integra o governo do Acre desde 1999. Eu, por exemplo, ouvi daqui o seu silêncio no episódio indecoroso dos imigrantes haitianos “exportados” por seu aliado Tião Viana, governador do Estado que concorre à reeleição com o seu apoio. E isso só para ficar no rio que corre pela sua aldeia.

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 7:18

LEIAM ABAIXO

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 7:07

Entre os corruptos e o Supremo, Dilma decretou que há um empate

Dilma Rousseff foi a entrevistada de ontem do Jornal Nacional. Não vou analisar aqui a fala da candidata porque entendi, segundo seus próprios pressupostos, que quem concedeu a entrevista foi a presidente da República. Aliás, só isso explica o fato de que ela gozou de um privilégio que aos demais não foi concedido porque nem haveria como: falou na biblioteca do Palácio da Alvorada, não no estúdio do “Jornal Nacional”, a exemplo dos demais. Entendo que a Globo não deveria ter ou aceitado a exigência ou oferecido o benefício. Benefício? É claro que sim! À diferença de Aécio Neves e Eduardo Campos, Dilma estava em território conhecido; os outros não. Há mais: se era a candidata que falava, então havia o uso claro de um aparelho público em benefício da campanha.

Vimos imagens de bastidores, não é? Aécio e Campos foram recebidos por William Bonner em sua sala, na sede da TV Globo, no Rio. No Palácio, suponho, a dupla de jornalistas é que foi recebida por Dilma. Ser o anfitrião, nessas horas, faz diferença, sim — e fez (já chego lá). Não que a entrevista tenha sido chapa branca. Não foi, não! Houve honestidade jornalística. Mas, em certo momento, houve mais dureza do que objetividade. Nota à margem antes que continue: não me venham com a cascata de que o Alvorada é a casa de Dilma, e por isso a entrevista foi concedida lá. Por esse critério, Campos e Aécio deveriam ter recebido os jornalistas, então, em suas respectivas residências. Ou bem Dilma fala como candidata ou bem fala como presidente. Como um híbrido, é que não dá. Até a luz que se via ali era pública, ora. Sigamos.

O ponto da entrevista mais escandalosamente significativo foi aquele em que Dilma se negou a censurar o seu partido por ter defendido os mensaleiros. Mais do que isso: lendo a transcrição de sua fala, a gente percebe que ela não criticou nem mesmo os criminosos. Bonner foi incisivo:
“Então, me deixa agora perguntar à senhora. E em relação a seu partido? O seu partido teve um grupo de elite de pessoas corruptas, comprovadamente corruptas, eu digo isso porque foram julgadas, condenadas e mandadas para a prisão pela mais alta corte do Judiciário brasileiro. Eram corruptos. E o seu partido tratou esses condenados por corrupção como guerreiros, como vítimas, como pessoas que não mereciam esse tratamento, vítimas de injustiça. A pergunta que eu lhe faço: isso não é ser condescendente com a corrupção, candidata?”.

Observem que Bonner a chamou por aquilo que ela era naquele momento: “candidata”. E o que ela respondeu? Isto (a gramática é miserável, mas o sentido é claro):
“Eu vou te falar uma coisa, Bonner. Eu sou presidente da República. Eu não faço nenhuma observação sobre julgamentos realizados pelo Supremo Tribunal, por um motivo muito simples: sabe por que, Bonner? Porque a Constituição, ela exige que o presidente da República, como exige dos demais chefes de Poder, que nós respeitemos e consideremos a importância da autonomia dos outros órgãos.”

Acontece que os jornalistas a indagavam sobre o comportamento do partido, não do Supremo. Bonner insistiu duas outras vezes que eles haviam feito uma indagação sobre o partido. Ela não mudou a resposta. Faltou ao editor-chefe do Jornal Nacional deixar claro que a pergunta era dirigida à candidata, não à presidente. Isso não foi dito. Convenham: afinal de contas, candidatos à Presidência não frequentam a biblioteca do Palácio da Alvorada. Na prática, entre os corruptos punidos e o Supremo que os puniu, Dilma preferiu decretar um empate, embora saibamos que ela não teria autonomia para criticar os criminosos ainda que quisesse.

A presidente se enrolou na pergunta sobre a saúde, mas não sei se o telespectador percebeu desse modo. Os entrevistadores fizeram uma síntese das calamidades da área e lembraram que o partido está há 12 anos no poder. A presidente, então, acionou a tecla do programa “Mais Médicos” para demonstrar como seu governo é operoso, embora tenha dito, num dado momento, que a saúde não é “minimamente razoável”. Pois é… Não é minimamente razoável depois de 12 anos de poder petista.

É nessa hora que faltou um tanto de objetividade, números mesmo: entre 2002 e 2013, houve uma redução de 15% na taxa de leitos hospitalares (públicos e privados) por mil habitantes. Entre 2005 e 2012, o SUS perdeu mais de 41 mil leitos. Isso quer dizer que os hospitais privados pediram seu descredenciamento porque não conseguem conviver com a tabela miserável paga pelo sistema. Atenção! Há apenas 0,15 leito psiquiátrico por mil habitantes no país. É a metade do que havia quando o PT chegou ao poder. E já era pouco. Nos países civilizados, a média é de um leito psiquiátrico por 1.000. Isso quer dizer que o Brasil tem menos de um sexto do necessário. Esses poucos leitos, de resto, estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. Os médicos cubanos são a resposta para isso? É claro que não!

Mas ok. Hoje começa o horário eleitoral gratuito. Em razão de uma legislação indecente, que não vem de hoje — é evidente —, Dilma terá mais de 11 minutos, quase o triplo de Aécio, que vem logo a seguir, com mais de quatro minutos. O PSB terá pouco mais de 2 minutos. Dilma poderá falar, então, à vontade, sem ser contraditada por ninguém. É nessas horas que dá o seu melhor.

Texto publicado originalmente às 4h44
Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 7:05

Dilma diz no “Jornal Nacional” que PT criou a Controladoria-Geral da União. Está errado! A CGU foi criada em 2001, no governo… FHC!

Cuidado, Wikipédia! O Planalto pode tentar mudar a história da Controladoria-Geral da União e atribuir a paternidade a Lula. Seria mais uma batida na carteira do governo FHC. Afinal, como se sabe, o PT reivindica até mesmo ter debelado a inflação no país, não é? Daqui a pouco, vai dizer que foi o criador do Plano Real. Ao afirmar que os governos petistas combateram a corrupção como nenhum outro, Dilma saiu-se com a seguinte resposta:

“Bonner, (…) nós, justamente, fomos aquele governo que mais estruturou os mecanismos de combate à corrupção, à irregularidade e malfeitos. Por exemplo, a Polícia Federal, no meu governo e no do presidente Lula, ganhou imensa autonomia. Para investigar, para descobrir, para prender. Além disso, nós tivemos uma relação muito respeitosa com o Ministério Público. Nenhum procurador-geral da República foi chamado, no meu governo ou no do presidente Lula, de engavetador-geral da República. Por quê? Porque também escolhemos, com absoluta isenção, os procuradores. Outra coisa: fomos nós que criamos a Controladoria-Geral da União, que se transformou num órgão forte e também que investigou e descobriu muitos casos. Terceiro, aliás, eu já estou no quarto. Nós criamos a Lei de Acesso à Informação. Criamos, no governo, um portal da transparência. (…)

Bem, vamos ver. Quem apelidou o então procurador-geral da República de “engavetador-geral da República” foi o PT, que sempre é bom para dar apelidos que desmerecem os adversários, não é mesmo? De resto, o Ministério Público não tem hoje nem mais nem menos autonomia do que tinha no governo FHC. A acusação que Dilma faz, no fim das contas, não é dirigida nem contra Brindeiro nem contra o ex-presidente, mas atinge o próprio MP. Como esquecer que, quando o PT era oposição, uma ala de procuradores militantes passou a atuar de maneira escancaradamente política para produzir uma indústria de denúncias? Isso é apenas um fato.

Mas esse nem é o ponto principal. À diferença do que disse a presidente no Jornal Nacional, não foi o governo petista que criou a Controladoria-Geral da União. Foi o governo FHC, em 2001, por meio da Medida Provisória n° 2.143-31, de 2 de abril de 2001. O órgão se chamava, então, Corregedoria-Geral da União. Houve apenas uma mudança de nome, mas não de função: combater, no âmbito do Poder Executivo Federal, a fraude e a corrupção e promover a defesa do patrimônio público.

A ministra que primeiro assumiu a CGU foi Anadyr Mendonça, que prestou um relevante serviço na consolidação do órgão. Pois é… Lula já tomou para si o “Bolsa Família”, que é um ajuntamento de benefícios que já eram pagos no governo FHC. Agora, Dilma muda a história para afirmar que a CGU, criada na governo tucano, também é obra de seu partido.

É até desejável que governantes sejam criativos em matéria de futuro. Ser criativo com o passado costuma caracterizar fraude intelectual.

Texto publicado originalmente às 5h49
Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 6:57

Renata diz não querer ser vice. Ou: De Campos, Cavalcantis e cavalgados

Tudo indica, enquanto escrevo ao menos, que Renata Campos, a viúva de Eduardo Campos, vá recusar a proposta para ser candidata a vice-presidente na chapa encabeçada por Marina Silva. Deve alegar que a sua prioridade, no momento, são os cinco filhos, um deles, Miguel, ainda um bebê de colo. Se a razão e o bom senso se divorciaram da cabeça dos líderes do PSB, parece que Renata ao menos não perdeu o juízo.

Toda a história é estapafúrdia. Consta que o presidente do PSB, o lulista Roberto Amaral, conversou com Renata nesta segunda para pedir, informa a Folha, o seu aval para fazer de Marina Silva a candidata. Aval de Renata? Por quê? Viúva é parente, claro!, mas não é autoridade partidária. Às vezes, fico com a impressão de que o PSB funciona como o Partido Comunista da Coreia do Norte, que inventou o socialismo hereditário. Mais um pouco, e o primogênito de Eduardo Campos será promovido de príncipe herdeiro a novo rei do PSB. Não sabia que se havia fundando uma monarquia em Pernambuco.

Deus do Céu! Será preciso recuperar, acho, as gloriosas tradições pernambucanas, não é mesmo? O Estado foi palco da “Revolta Praieira” ou “Insurreição Praieira”, entre 1848 e 1850, de caráter liberal. Uma quadrinha popular se tornou famosa, ironizando a família mais poderosa, então, da terra: os Cavalcantis. Era assim:
“Quem viver em Pernambuco
não há de estar enganado:
Que, ou há de ser Cavalcanti,
ou há de ser cavalgado.”

Em tempos recentes, não se tem notícia de entes familiares herdarem o poder partidário dos que morreram. Antonio Campos, irmão de Eduardo, afirmou sobre a cunhada: “Se decidir, tem o nosso apoio”.

É mesmo uma coisa fabulosa. O ex-governador de Pernambuco vinha enfrentando, como é sabido, dificuldades eleitorais severas em seu próprio Estado. Na mais recente pesquisa Datafolha, seu candidato ao governo, Paulo Câmara, ex-secretário da Fazenda, apareceu com apenas 13% dos votos. Armando Monteiro, do PTB, que disputa com o apoio do PT, marcou 47%. Vale dizer: as coisas andavam difíceis na sua própria terra. Pernambuco é também um dos poucos estados que têm um candidato do PT disputando a liderança para o Senado: João Paulo, com 43% dos votos. Fernando Bezerra, o nome dos Campos, tem apenas 16%.

Isso significa que, se Renata está mesmo disposta a manter a sua militância política, tem um trabalho enorme a fazer na sua própria terra. Imaginar que possa ser vice de Marina porque, afinal, seu marido era o comandante da sigla é um despropósito.

Acompanhada dos filhos, ela fez um pronunciamento político nesta segunda e disse que vai trabalhar “por dois” na eleição. Tudo indica que se referia às disputas locais. Vamos ver… Há um cheirinho de uma crise, com risco de dissolução, do PSB em futuro nem tão distante.

Seja lá qual for o desempenho de Marina nas urnas, não parece que o partido vá conseguir resistir. Digamos que ela se eleja: a líder da Rede já está de malas prontas para migrar para o seu próprio partido. Ainda que não se sagre presidente, terá uma votação maior do que teria Campos: quantos a seguirão? Quem manterá unida a sigla, que tem, sim, um sotaque de esquerda, mas que, como se vê, era controlado por uma espécie de neocoronelismo urbano?

As conjecturas que se seguiram à morte de Campos não deixam a menor dúvida: ali decidem os… Cavalcantis.

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 3:49

O DEBATE DESTA SEGUNDA NA VEJA.com

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 3:29

Em 24 anos de Senado, Suplicy só pensou na “Renda Mínima”. E a tese é um despropósito em favor dos… ricos!!!

Eduardo Suplicy está no Senado há… 24 anos. E quer mais oito. Levante a mão quem souber dizer que projeto leva a sua marca em benefício do Estado — sim, senadores representam unidades da Federação. Mas digamos que ele tentasse ser, assim, um homem universal, a serviço do Brasil, sem dar bola para a sua origem regional. Que ideia ele teve? É possível que apareça alguém para responder: “O Renda Mínima”.

Recomendo, então, que vocês leiam artigo publicado hoje na Folha pelo economista Felipe Salto, que é economista especializado em finanças públicas da Tendências Consultoria Integrada e professor da FGV/EESP. Reproduzo um trechos.
*
O mítico herói inglês, que tirava dos ricos para dar aos pobres, ficaria boquiaberto diante da tese da renda básica de cidadania (ou renda mínima), defendida há anos pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP).

A renda básica é uma transferência mensal a ser paga pelo Estado a todos os cidadãos — ricos e pobres. Na prática, a adoção de tal política, no Brasil, seria um retrocesso em relação aos consagrados programas de transferência de renda com condicionalidades — Bolsa Escola (no governo Fernando Henrique Cardoso) e Bolsa Família (no governo Luiz Inácio Lula da Silva).
(…)
Se o governo do PT tivesse seguido a lei nº 10.835, de 2004, a chamada “renda básica de cidadania” já deveria estar sendo paga a todos os brasileiros, sem distinção socioeconômica. O benefício, porém, nunca foi concretizado.
(…)
Uma conta simples mostra o grau de desatino da tese. Há 200 milhões de habitantes no Brasil. Se fixarmos um valor de R$ 100 ao mês por habitante (quantia relativamente baixa, quando consideramos que a lei preconiza que o recurso transferido seja suficiente para custear as despesas de saúde, educação e alimentação), o montante necessário para financiar a empreitada totalizaria R$ 240 bilhões ao ano!

Isso corresponderia a 4,6% do PIB, ou a dez vezes o orçamento anual do Bolsa Família. Ainda que a ideia fosse acatada pelo governo, caberia perguntar: de onde sairiam os recursos? De mais impostos, ou de menos gastos sociais?

A classe A representa, hoje, 2% da população brasileira — ou cerca de 4 milhões de pessoas. Isto é, dos R$ 240 bilhões, R$ 4,8 bilhões seriam destinados aos mais ricos da sociedade, que recebem acima de R$ 13,8 mil mensais. Essa pequena parcela da sociedade já detém 17% de toda a massa de renda do país e seria ainda mais beneficiada.

Lição número um da economia: a utilização dos recursos (privados e públicos) deve buscar o melhor resultado possível e a melhor relação de custo e benefício.
(…)

Vale a pena ler a íntegra do artigo.

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2014

às 2:48

Luiz Moura, aquele…, com Dilma, Padilha e Suplicy. “Diz-me com quem anda…”

Então… Publiquei a foto de um cavalete em que o deputado estadual Luiz Moura (PT-SP), candidato à reeleição — aquele, vocês sabem, que participou de uma reunião com membros do PCC — aparecia fazendo dobradinha com Andrés Sanchez, amigão de Lula e ex-presidente do Corinthians (ah, meu Timão!!!). Agora um leitor me manda uma outra preciosidade. Vejam.

LuizMoura

Então… Uma das frases do tempo de eu ser menino, de que me lembro, repetida insistentemente por minha mãe e meu pai lá na perifa onde morei, era assim, com todos os erros gramaticais a que tinha direito, mas de sentido inequívoco: “Diz-me com quem anda e te direi quem és”. Eu gostava do “és” porque me parecia conferir gravidade à advertência. Sabe o leitor que, segundo a gramática, o certo é “Dize-me com quem andas, e te direi quem és”. O sentido é o mesmo. Pode não ser uma verdade absoluta, mas não é um despropósito.

Especialmente porque meus pais tentavam nos preservar, a mim e à minha irmã, das, digamos, “más influências”. Há mais de 40 anos, não se falava de cocaína ou crack entre os pobres, mas os, como é mesmo?, “maconheiros” já estavam por lá. Aí era questão de escolha: você poderia escolher não ter uma calça “liamericana” (Lee americana) — falava-se assim, tudo junto, de supetão, ou ter. Como os pais e mães do lugar não tinham dinheiro para isso, ter a calça poderia implicar fazer alguns servicinhos. Fiquei do lado dos que escolheram não fazer. Pobres têm poder de escolha, já escrevi aqui umas quinhentas vezes, coisa que as esquerdas não reconhecem porque não os conhecem. Mas deixo isso pra lá agora.

Volto ao ponto. Ali está o “santinho” — ou “santão” — de Luiz Moura, com Dilma, Padilha e Suplicy. “Ah, ele imprimiu, e os outros nem sabem disso…” É mesmo, é? Até anteontem, eram todos aliados, e o partido conhecia muito bem as afinidades de Moura. Como o eleitorado as ignorava, o PT não viu nenhum mal naquilo…

“Diz-me com quem anda, e te direi quem és”, repetiam o Rubão e a Aparecida. Erravam na gramática, mas acertavam na orientação moral. Gramática, os petistas aprenderam…

Por Reinaldo Azevedo

18/08/2014

às 19:15

Daqui a pouco, às 20h30, estou ao vivo na “TVeja”

Hoje, às 20h30, estreia o programa “Aqui entre nós”, na TVeja — a TV do site da VEJA, criada para a cobertura das eleições de 2014. O programa será sempre ao vivo, de segunda a sexta, com um colunista da VEJA. Na estreia, excepcionalmente, haverá um debate sobre as novas circunstâncias da eleição: participarão, além deste escriba, Ricardo Setti e Marco Antônio Villa. A mediação é de Joice Hasselmann. Para assistir ao programa, basta acessar a página da VEJA.

 

Por Reinaldo Azevedo

18/08/2014

às 19:12

Um país errado – Criação de emprego em 2013 foi puxada pelo funcionalismo público

Vocês querem um exemplo de um país errado? Pois não! Sabem quem puxou a criação de empregos no ano passado? O funcionalismo público. Pode-se tentar dourar a pílula aqui e ali, mas o fato é que mais contratou quem não gera riqueza, mas a consome: o estado. A melancolia não é por acaso. Leiam o que vai na VEJA.com.

Na VEJA.com:
O Brasil criou 1,49 milhão de vagas líquidas de trabalho em 2013, ou seja, já consideradas as demissões do período. Os dados constam da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), um banco de dados que as empresas são obrigadas a preencher anualmente e enviar ao Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE). A diferença entre a Rais e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado pelo MTE mensalmente, é que o primeiro engloba todas as vagas formais, incluindo celetistas (contratados no regime da CLT), estatutários (servidores públicos), temporários e avulsos. Isso significa que a Rais mostra um panorama mais fiel do mercado de trabalho.

O resultado de 2013 mostra que a criação líquida aumentou 29,7% em relação ao ano anterior. Mas, diferente de 2012 e dos anos anteriores, a alta foi garantida pela contratação de servidores públicos de níveis municipal, estadual e federal. Um total de 414,7 mil novas vagas, ou seja, 27,8%, são atribuídas ao setor público. O MTE mostra que, enquanto o emprego formal avançou 3,15% na comparação anual, o funcionalismo cresceu 4,85%. Já o regime celetista teve alta de 2,76%, com a contratação líquida de 1,075 milhão de pessoas. Apesar do avanço no ano passado, o MTE mostrou que se trata do segundo pior resultado em 10 anos, perdendo apenas para o de 2012, quando foram criadas 1,14 milhão de vagas.

O avanço do emprego por setor mostra que, entre os celetistas, a maior criação de emprego ficou em Serviços, com 558,6 mil postos de trabalho líquidos, uma alta de 3,46% em relação a 2012. Em seguia, há o Comércio, com a criação de 284,9 mil empregos. A Indústria de Transformação e a Construção Civil vêm em seguida, com a criação de 144,4 mil e 60,0 mil postos, respectivamente.

No caso da Indústria de transformação, alguns subsetores apresentaram queda do emprego já no ano passado, como a indústria metalúrgica, que cortou 3.646 vagas (queda de 0,44%) e a de calçados, com queda de 6.160 postos (-1,84%).

Por Reinaldo Azevedo

18/08/2014

às 16:00

Hipótese de Renata Campos como vice de Marina é coisa de país na fase das capitanias hereditárias… É essa a “nova política”?

Confesso que cheguei a achar que era piada, mas , percebo agora, não é. Não! Pensa-se mesmo, a sério, em fazer de Renata Campos, a “Dona Renata”, candidata a vice na chapa que será encabeçada por Marina Silva. Dirigentes do PSB têm dito a interlocutores que será a seção de Pernambuco do partido a decidir a vaga — que terá de contar com a aprovação de Marina Silva.

Ai, ai, ai… Eduardo Campos e Marina Silva sempre ancoraram a sua postulação numa certa “nova política”. Mais de uma vez, indaguei aqui que novidade, afinal de contas, era essa. Marina, ainda que tenha tido uma origem pobre, de todos conhecida e bastante cantada em prosa, verso e subprodutos míticos, fez política tradicional segundo o roteiro petista: foi sindicalista, ajudou a fundar uma central de trabalhadores, ligou-se a movimentos sociais, disputou eleições… O que há de tão novo nisso?

Campos, então, era tradicional a mais não poder: neto de político, filho de políticos, vinha de uma tradição verdadeiramente fidalga, ainda que uma fidalguia com viés de esquerda. Por mais que “Dona Renata”, como Campos chamava a própria mulher, seja uma parceira de vida, uma militante política, essa militância nunca se tornou notória ou notável além do círculo doméstico. Seria candidata a vice de alguém que aparece em primeiro lugar numa simulação de segundo turno, ainda que possa ser uma situação transitória, por quê? Não faz sentido!

A menos que estejamos de volta a uma espécie de atualização da política das capitanias hereditárias, deem-me uma boa razão para que seja assim. Como capitania hereditária não é, parece-me que podemos estar diante de algo ainda pior: uma tentativa de fazer com que Campos, morto, possa render os votos que, infelizmente, ele não tinha quando vivo.

Sinceramente, acho tão estapafúrdia a saída que custo a acreditar que possa prosperar. Mas o simples fato de a hipótese estar sendo tratada a sério me parece constrangedora. O PSB tem até o dia 23 para definir a nova chapa. É certo que Marina, que é da Rede, vai estar na ponta. O que se espera é que seja alguém genuinamente do PSB a ocupar o lugar de vice, quando menos para que a candidata se lembre dos compromissos que Campos havia assumido.

Ora, querem Renata por quê? Para que se somem duas pessoas sem nenhuma experiência administrativa, mas com chances efetivas de vir a governar o país? Se querem saber, preocupa-me menos isso ser pensado nos círculos políticos de Pernambuco e do PSB do que a hipótese ser tratada pela crônica política como algo corriqueiro e aceitável.

Parece-me que boa parte dos políticos e da própria imprensa não está se dando conta das dificuldades por que passa — e passará o país em 2015. Há muita gente brincando com fogo. A projeção de crescimento para este ano voltou a ser rebaixada, agora para 0,79%. A do ano que vem está pouco acima de 1%. Fatores negativos tendem a convergir de forma ameaçadora. E pessoas supostamente responsáveis vêm falar em Renata Campos como candidata a vice de Marina, tendo como principal qualificação para tal desafio ter sido mulher de Eduardo Campos?

Nada contra esta senhora, que, a exemplo de quase 100% dos brasileiros, nem conheço. Mas tenho tudo contra os fundamentos que levam a essa hipótese. Seria bom ter um pouco mais de responsabilidade com os destinos do Brasil.

Por Reinaldo Azevedo

18/08/2014

às 15:19

O “companheiro” de Andrés Sanchez…

Poucas coisas são tão detestáveis como a mistura entre futebol e política. Quase sempre, trata-se de uma trapaça: busca-se usar em favor de uma atividade — a política — a popularidade obtida na outra, o futebol, como se fossem atividades da mesma natureza. E, obviamente, não são. Vejam esta foto, que me foi enviada por um leitor da Zona Leste de São Paulo.

LUIZ MOURA ANDRÉS

Sim, é o que vocês estão vendo: uma dobradinha entre o deputado estadual Luiz Moura, do PT, e Andrés Sanches, ex-presidente do Corinthians e candidato a deputado federal. É um amigão do Lula. É um dos nomes nos quais o PT aposta como puxador de votos. Então vamos lembrar.

Andrés Sanchez foi denunciado pelo Ministério Público por crime fiscal cometido quando esteve no comando do Corinthians. A denúncia foi aceita pela Justiça Federal. O valor do débito é de R$ 94,15 milhões.

E Luiz Moura? É aquele sujeito que foi flagrado numa reunião com representantes do PCC no auge dos ataques a ônibus a São Paulo. O PT está tentando se livrar dele. A Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo pediu a impugnação do registro de candidatura.

Agora os dois estão juntos, no mesmo cartaz.

Por Reinaldo Azevedo

18/08/2014

às 14:39

A única coisa que cresce no PIB brasileiro é a previsão… negativa!

Na VEJA.com:
Economistas de instituições financeiras ouvidas pelo Banco Central (BC) para o relatório Focus acreditam que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro crescerá 0,79% neste ano, menos do que na projeção anterior, de 0,81%. Esta é a 12ª semana seguida que o mercado diminui sua expectativa com relação à expansão econômica. Para 2015, porém, a estimativa média permaneceu em crescimento de 1,20%.

Segundo o BC, só piora a confiança na recuperação no setor industrial, um dos componentes do PIB. Agora os economistas esperam que o setor recue 1,76% – na semana passada, a estimativa era de queda de 1,53%. Mesmo assim, o mercado ainda espera crescimento em 2015, de 1,70%.

O relatório divulgado nesta segunda-feira traz ainda a expectativa média de 6,25% para a inflação, levemente menor do que na semana passada (6,26%). Para o ano que vem, os economistas apostam em alta de 6,25% dos preços. Por fim, para a Selic, o mercado acredita que ela feche o ano nos atuais 11% e 2015 em 11,75% (na semana passada, esperavam 12%).

Por Reinaldo Azevedo

18/08/2014

às 7:01

LEIAM ABAIXO

Por Reinaldo Azevedo

18/08/2014

às 6:48

Datafolha: Por que Dilma, Aécio e Marina podem tanto comemorar como se preocupar

Folha desta segunda traz os números da mais recente pesquisa Datafolha para a corrida presidencial. Querem saber? Todos — Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva — têm motivos para comemorar um pouco e para se preocupar também. Vou dizer por quê. Segundo os números apurados, se a eleição fosse hoje, Dilma, do PT, teria 36% das intenções de voto, marca idêntica à obtida há um mês, quando o candidato do PSB era Eduardo Campos. Também o tucano Aécio Neves fica no mesmo lugar: com 20%. E Marina? Ela ressurge na disputa com 21%, tecnicamente empatada com o candidato do PSDB — há um mês, Campos tinha apenas 8%.

Datafolha 18 de agosto

Se Dilma e Aécio não perderam votos e se Marina aparece com 13 pontos a mais do que Campos, de onde saiu essa diferença? Dos brancos/nulos e dos que não tinham candidato. Há um mês, 13% demonstravam a disposição de não votar em ninguém; agora, são apenas 8%. Os que diziam não saber eram 14%; agora, são 9%. Os demais candidatos somavam 8%; agora, apenas 5% — Pastor Everaldo, do PSC, conservou seus 3% (os infográficos que aparecem neste post foram publicados na edição impressa da Folha).

Conclusão óbvia: Marina, a candidata que mais se identificou com os protestos de rua iniciados em abril do ano passado e que nunca censurou, de modo inequívoco, nem mesmo as manifestações violentas,  beneficia-se, vamos dizer assim, do ódio à política e aos políticos. Ela sempre foi muito hábil em fazer de conta que não é feita do mesmo barro que compõe os mortais da vida pública. Há mais: fica evidente, como apontei aqui tantas vezes, que ela não transferia votos para Campos.

No segundo turno, a estarem certos os números, há uma novidade importante. Marina Silva aparece em empate técnico com Dilma, mas numericamente à frente: 47% a 43%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. Contra Aécio, a petista lideraria com 47% a 39%, com oito pontos de diferença.

Datafolha 2 18 de agosto

Então vamos pensar um pouco na contramão do que parece óbvio. A tragédia que colheu Eduardo Campos já atingiu o seu auge. Não há mais como espetacularizar o acontecimento. O Datafolha ouviu 2.843 pessoas nos dias 14 e 15 de agosto. O ex-governador de Pernambuco morreu no dia 13. Obviamente, cairá, a partir de agora, o impacto do acontecimento.

Não dá para ignorar que a nova realidade é ruim para Dilma porque está eliminada, agora de modo inequívoco,  a possibilidade de ela vencer no primeiro turno: seus adversários somam 46 pontos — 10 a mais do que os seus 36. Ela tem ainda a lamentar a rejeição, que segue altíssima: 34% dizem não votar nela de jeito nenhum, índice praticamente igual aos que votam: 36%. Resta o que a comemorar? Duas coisas: apesar da avalanche do noticiário, manteve seu patrimônio eleitoral no primeiro turno e se distanciou um pouco de Aécio no segundo. Também melhorou a avaliação do governo, segundo o Datafolha ao menos: ele é agora considerado ruim ou péssimo por 23% — há um mês, eram 29%. Dizem ser bom ou ótimo 38% — contra 32% em julho. Os mesmos 38% o consideram regular.

Datafolha 3 18 de agosto

A exemplo de Dilma, Aécio conservou os pontos que tinha: 20%. Como a sua candidatura poderia ter sido a mais exposta a prejuízos em razão da entrada de um novo nome no terreno oposicionista, não deixa de ser positivo que tenha mantido o seu eleitorado. A diferença de oito pontos no segundo turno é ruim quando se compara com os apenas 4 do Datafolha anterior. No Ibope de há 11 dias, no entanto, era de 6 pontos. O patamar é o mesmo.

E Marina? Só recebeu boas notícias da pesquisa? Não custa lembrar que, no último Datafolha em que o nome dela apareceu, em abril — antes que ficasse claro que o candidato seria Campos —, ela chegou a marcar 27%. Vale dizer: nem a tragédia monumental, que lhe garantiu uma visibilidade inédita, com todas as tintas da tragédia e da evidente exploração política, lhe devolveu ao patamar a que já havia chegado.

Aparecer à frente de Dilma no segundo turno, dadas as circunstâncias e considerando o momento em que se faz a pesquisa, me parecia desde sempre plausível. O horário eleitoral começa amanhã. Dilma tem um latifúndio: 11min24s contra apenas 4min35s de Aécio e 2min3s de Marina. Mais: a candidata da Rede — ora no PSB — agora terá de falar o que que quer. Como vice de Campos, ela se limitava a dizer alguns “nãos”. Vamos ver.

A síntese das sínteses:
1: Dilma e Aécio certamente esperavam notícias piores;
2: Marina certamente esperava notícia ainda melhor;
3: o segundo turno já é uma realidade inescapável;
4: a estarem certos os números do Datafolha, o horário eleitoral começa com uma certa recuperação de prestígio do governo;
5: a rejeição a Dilma continua elevadíssima;
6: Marina e Dilma são certamente mais conhecidas do que Aécio, e o início do horário eleitoral pode ser, relativamente, mais positivo para ele do que para elas;
7: estamos diante da disputa eleitoral de resultado mais incerto desde a redemocratização do Brasil.

 

Por Reinaldo Azevedo

18/08/2014

às 4:24

A segunda viuvez eleitoreira de Marina no velório e no sepultamento que acabou deixando de lado o decoro e se transformando em micareta eleitoral

Marina, à beira do caixão de Campos, ergue o retrato do candidato morto:viúva política e rainha posta

Marina, à beira do caixão de Campos, ergue o retrato do candidato morto: viúva política e rainha posta. Isso não é dor. É política.

Explico. Deixo textos fáceis para outros. Alinho-me com aqueles que preferem os difíceis, ainda que sob pena de desagradar a muitos, até mesmo a alguns leitores habituais. Não posso fazer nada. Penso o que penso. E meu único compromisso aqui no blog, na Folha ou na Jovem Pan é este: dizer o que penso. Vamos lá. De súbito, Eduardo Campos virou a versão masculina e brasileira de Inês de Castro, aquela “que, depois de ser morta, foi rainha”, na formulação imortal de Camões, em “Os Lusíadas”. Se tiverem curiosidade, pesquisem a respeito da personagem. As circunstâncias são outras, mas, nos dois casos, há uma espécie de coroação post mortem. Marina Silva, já apontei aqui, para a minha não supresa, fez-se a viúva profissional de mais um cadáver. Campos foi, sim, coroado rei. Morto no entanto, logo alguém se lembrou de dar vivas à nova rainha. Tudo bastante constrangedor para quem repudia a demagogia, o mau gosto e a exploração da morte como moeda eleitoral.

Vocês sabem que tratei aqui de modo muito decoroso — e não pretendo mudar a rota — a morte de Campos. Mesmo o comportamento da família me parecia correto a mais não poder. Havia dor genuína, mas também comedimento. Havia sofrimento, porém temperado pelo pudor. Afinal, morria o marido, o filho, o pai… Vi, bastante comovido, e comentei nesta página o vídeo que seus filhos fizeram em homenagem ao Dia dos Pais, tornado público três dias antes da tragédia. Renata, a viúva de verdade, preferia, então, o silêncio e, a despeito do aparato que a cerca, não vi partir dela nenhuma nota fora do tom. A cerimônia de sepultamento neste domingo, no entanto, fugiu, obviamente, ao controle. Assistimos ao enterro inequívoco de um político. E o que se via ali era muita gente organizada para fazer o cadáver procriar… votos.

Viatura do Corpo de Bombeiros com lema político da campanha de Campos, estampado também na camiseta de três de seus filhos: punhos cerrados

Viatura do Corpo de Bombeiros com lema político da campanha de Campos, estampado também na camiseta de três de seus filhos: punhos cerrados

Não me peçam para compactuar com isso. Achei justo e correto que se organizasse um velório público. Campos era um governante popular em sua terra e morreu de forma trágica. Mas pergunto: o que fazia aquela faixa no veículo do Corpo de Bombeiros com a declaração “Não vamos desistir do Brasil”, lema idêntico ao que se lia na camiseta de seus filhos, três deles desfilando sobre a viatura, com os punhos cerrados, numa manifestação inequivocamente política? Não! Eu não posso me desculpar por estar aqui a apontar a inadequação da manifestação se eles próprios não souberam separar, como seria o correto, o domínio da dor, que creio ser verdadeira, daquele em que se aloja a pregação eleitoral. Os fogos de artifício, então, não deixaram a menor dúvida de que o velório e sepultamento haviam se transformado numa micareta política. Lamentável. Como era o esperado, houve tempo para vaias à presidente da República e a seu antecessor, Lula, aos gritos de “Fora, Dilma!”, “Fora, PT!” e, é óbvio, “Marina Presidente!”.

Infelizmente, para a tristeza do Brasil, no sentido mais amplo da expressão, o Campos morto ganhou uma projeção que o vivo jamais conseguiu. E Marina, mais uma vez, se apresentou como a viúva de plantão. O PSB ainda não fez dela a candidata, mas é só uma questão de tempo. A já presidenciável teve cinco dias ininterruptos de horário eleitoral gratuito. E, com seu ar sempre pesaroso, magro, quase quebradiço — mas sem se esquecer de acenar de vez em quando e de deixar escapar furtivos sorrisos —, empertigou-se quando necessário para vestir o manto da fortaleza moral e se apresentar para a batalha.

Não foi, assim, então, quando se transformou numa espécie de viúva oficiosa de Chico Mendes? Até hoje há quem acredite que ela era uma seringueira dos pés descalços quando ele foi assassinado, em dezembro de 1988. Não! Ela já tinha sido eleita vereadora um mês antes e, àquela altura, já era militante do PT e da CUT. Tinha fundado com Mendes, em 1985, a central sindical no Acre. Mas ficou com o espólio político do cadáver, como fica, agora, com o de Campos. Rei morto, viúva posta. Em vez de “Brasil pra frente, Eduardo presidente”, o grito de guerra dos campistas, ouviu-se, então, no velório, “Brasil, pra frente! Marina presidente!”.

Não foi um dia feliz para o comedimento, para o decoro, para o bom gosto e para o bom senso. Que Deus tenha piedade do Brasil se os eleitores não tiverem!

Por Reinaldo Azevedo
 

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