22/02/2012
às 20:34Prefeitura de São Paulo: Kassab, Serra e os misteriosos “interlocutores”
Há uma reportagem de Fernando Gallo no Estadão de hoje que merece ser lida com atenção. Eu a reproduzo abaixo. Comento depois.
Nas mesmas conversas mantidas com dirigentes petistas semana passada, nas quais avisou-os de que estancaria o movimento de aproximação ao PT atendendo a um pedido de José Serra (PSDB), o prefeito Gilberto Kassab (PSD) afirmou que, embora não tenha como deixar de embarcar na possível candidatura do tucano na capital paulista, considera o eventual apoio ao ex-governador um atraso em seu projeto político nacional.
Em pleno carnaval, Kassab fez questão de ir até Recife elogiar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), aliado do Planalto. Foi também com essa preocupação, diz um petista que conversou com o prefeito, que Kassab esteve em Brasília há uma semana para um encontro com a presidente Dilma Rousseff: queria convencê-la de que o suporte que poderá vir a dar a Serra na eleição deste ano não compromete os entendimentos já firmados por ele com o governo federal nem os acertos entre PT e PSD pelo País afora.
O encontro não estava previsto na agenda presidencial, que foi alterada no início da noite para a inclusão do compromisso. Naquele dia, a agenda de Dilma previa apenas despachos internos. A mudança de última hora foi interpretada por petistas como um sinal claro não apenas de que Serra está cada vez mais inclinado a disputar a eleição como também de que Kassab estava preocupado com os efeitos dessa mudança de cenário.
O prefeito de São Paulo, bem como boa parte dos que ingressaram no PSD, fazem um movimento de migração da oposição para a situação, tanto na esfera federal como nos Estados e municípios. Kassab vê na aproximação com o petismo um futuro político mais próspero do que na órbita tucana. O único entrave para uma mudança completa de lado é justamente a dívida de gratidão que tem com José Serra, de quem foi vice-prefeito e quem o projetou na cena política.
Os petistas que travaram contato com Kassab na última semana disseram ao Estado que o prefeito parecia abatido e afirmaram ter ficado com a impressão de que ele preferia o ex-governador fora da disputa, inclusive porque vislumbrava, com o PT, um horizonte mais límpido para 2014, no qual teria boas chances de assegurar a vaga de postulante ao Senado ou a vice-governador, algo mais incerto no PSDB, onde permanecem as rusgas entre serristas e alckmistas.
Com um pé na canoa petista e outro na canoa tucana, o prefeito tende a ser visto com desconfiança pelos dois lados porque não deixa claro em que campo pretende estar nas eleições de daqui a dois anos. A ambiguidade, porém, também pode aumentar o valor de seu futuro apoio.
Serra
A ao menos duas pessoas Kassab relatou uma mesma versão de um diálogo que afirmou ter mantido com Serra. Segundo o prefeito, o tucano se sente pressionado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) e vê uma tentativa de parte do partido de jogar em suas costas a responsabilidade de uma eventual derrota no pleito de outubro, caso opte por não concorrer.
De acordo com o relato dos que conversaram com Kassab, o prefeito disse que seus gestos de aproximação com o PT despertaram em Alckmin o medo de que uma eventual vitória petista nas eleições municipais não apenas comprometesse sua reeleição em 2014, mas também colocasse em xeque a própria existência do PSDB no Estado onde está sua maior trincheira de resistência.
Na avaliação de Kassab, foi o que deflagrou a operação de convencimento de Serra gestada no Palácio dos Bandeirantes em reunião entre Alckmin e aliados próximos. A partir de então, alckmistas e serristas passaram a pressionar diariamente Serra.
Voltei
Acho que todos já superamos a era de certa inocência, e alguns procedimentos que marcaram o jornalismo no passado precisam ser modernizados. Um deles é justamente o que chamo de “meio-off”. No “off total”, o repórter põe a informação para circular e não dá pista nenhuma da origem. A fonte simplesmente não quer aparecer. O que lhe interessa é a divulgação da notícia. Esta outra modalidade é caracterizada por um maneirismo: o jornalista conversa com a “fonte A”, só que esta prefere não aparecer; dissesse certas coisas da própria voz, poderia haver alguma crispação. Então se recorre a esse truque do “Fulano disse a interlocutores…” Não! Em quase 100% das vezes, disse mesmo foi ao jornalista.
Não estou aqui para estragar as prestidigitações de ninguém. Só estou dando a informação jornalisticamente relevante de como costumam ser as coisas. Pode até ser que o que vai acima não tenha mesmo saído da boca do próprio Kassab. Se foram seus “interlocutores” que revelaram essa tão bem-amarrada urdidura, o prefeito precisa tomar mais cuidado com os petistas. Que gente bocuda, né? Ele sai fazendo confidências políticas, e eles saem contando tudo para jornalistas?
Se os “interlocutores” de Kassab reproduzem a verdade do que ele disse, então estamos diante de um líder partidário que apoiaria a eventual candidatura Serra não com o entusiasmo de quem verá seu próprio legado defendido numa campanha, mas com o tédio de quem vê retardado seu projeto político de adesão ao governo. Nesse caso, a melhor coisa que poderia acontecer ao prefeito seria assistir à derrota de seu aliado — ou já seria prudente começar a escrever “antigo aliado”?
Se Kassab disse mesmo a seus “interlocutores” que a sua aproximação com o PT despertou em Alckmin o temor de uma derrota em 2014 e até mesmo o temor da extinção (!) do PSDB em São Paulo, então se deve entender que a eventual candidatura Serra deixa o prefeito meio contrariado porque não será, por enquanto, sei lá como chamar…, esse eventual agente de extermínio de um partido de oposição no maior estado da federação?
Sigamos adiante com as ilações decorrentes das revelações desses “interlocutores” que falam demais. Deve-se concluir também que, desde o início, a exigência de que o PSD tivesse o titular da chapa numa eventual composição com o PSDB era só um preço alto o bastante para afastar um lado (os tucanos) e se ligar ao outro, o PT? Só isso explicaria o “abatimento” do prefeito, percebido por seus “interlocutores”.
Finalmente, observo que esses “interlocutores” estão fazendo de tudo para que Kassab caia mesmo no colo do PT, não é? Notem que eles (ah, como essa gente fala!!!) caracterizam a eventual aliança com Serra como um sacrifício para o “projeto” do prefeito. E, curiosamente, sacrifício tanto maior se o tucano realmente vencer a disputa, situação que o colocaria, obviamente, com mais força no cenário nacional, seja lá para o que for. Se derrotado, Serra ficaria numa situação obviamente difícil, e a dívida, como diriam aqueles “interlocutores”, já estaria paga.
Eu diria que os “interlocutores” estão fazendo de tudo para desestimular Serra a se candidatar, sugerindo que Kassab não vai se animar tanto assim na disputa. Eles não querem Serra de jeito nenhum! Vai que a oposição sobreviva…









