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Blade Runner 2049: ficção do século 21 tem a primeira obra-prima

Contra todas as expectativas, a continuação dirigida por Denis Villeneuve é mais e maior que o filme original

Eram tantas as maneiras de dar errado que mal parecia possível haver uma maneira de dar certo: quantas vezes já não fui ver a refilmagem ou a retomada de um filme sensacional do passado para sair do cinema com aquele gosto de que estragaram as minhas melhores lembranças? Acho A Chegada belíssimo, e a esta altura tenho a convicção de que ele é que deveria ter levado o Oscar deste ano. Mas nem a notícia de que o mesmo Denis Villeneuve de A Chegada e também de Incêndios, Os Suspeitos e Sicario é que dirigiria esta continuação servia como qualquer espécie de garantia; quanto mais o orçamento e a expectativa crescem, mais os estúdios interferem (ou tentam interferir) com o trabalho do cineasta, e não é raro que terminem por desfigurar o produto final. Pois uns poucos minutos depois de as luzes da sala se apagarem meu pessimismo já se desfez, e então foi completamente esquecido. Villeneuve dá a partida em Blade Runner 2049 com tanta segurança e imaginação, e toma as rédeas do mundo criado por Ridley Scott no Blade Runner original de 1982 (baseado num livro de Philip K. Dick) com tanta autoridade, que não há dúvida: este é um filme dele, do começo ao fim, como ele o quis e o concebeu. E que filme. Visualmente, é acachapante. Andando por toda Califórnia e indo até Las Vegas, em Nevada (o primeiro filme não saía de Los Angeles), K, o replicante interpretado por Ryan Gosling, descortina um futuro tão detalhado e desolador que é como estar lá, com ele, nas vastidões cinzentas onde se cultivam alimentos sintéticos, nos lixões a perder de vista, nos desertos cheios de ruínas e escombros, nos diques de concreto que seguram o mar cada vez mais alto – uma versão horrível do que um dia foram as praias. Em Los Angeles, ainda mais maciça e opressiva do que antes, e lotada de refugiados russos, chineses e africanos, chove água, como no filme de Scott, mas com mais frequência ainda chovem cinzas. É o primeiro mandamento da ficção científica, e o mais difícil de cumprir de forma integral, contínua e aprofundada: se você quer mostrar um outro mundo, é preciso que a plateia sinta estar nele, viver nele também, e respirar seu ar.

Blade Runner 2049

(Sony Pictures/Divulgação)

Em 2049, exatos trinta anos depois dos eventos do primeiro filme, a relação da humanidade com os replicantes passou por várias transformações. Em 2022, os Nexus 8, replicantes ultra-avançados e sem uma data predeterminada de expiração (e pode-se argumentar que muito dos que nos faz humanos é saber que vamos morrer, mas não quando), provocaram um apagão de dados de escala global para se proteger da caçada a eles – e, ao mesmo tempo, para pôr a humanidade de joelhos, e fazê-la sentir sua fragilidade e inferioridade. Em consequência, a manufatura de androides foi proibida, e a toda-poderosa Corporação Tyrrell faliu. Mas um outro homem começou a acumular influência: com o planeta cada vez mais perto da esterilidade total, Niander Wallace (Jared Leto) estancou a ameaça da fome com suas patentes de cultivo sintético de alimentos. E então usou-as como forma de pressão para retomar o fabrico de androides – agora, como K, obedientes e conscientes de que são servos sem independência. Da mesma maneira que o Rick Deckard interpretado por Harrison Ford (e aí? Deckard é ou não um replicante? Assista para saber – ou para continuar na dúvida), K é um caçador de replicantes. Especificamente, de modelos Nexus 8 foragidos, como Sapper (Dave Bautista), que K localiza numa fazenda de proteína na abertura do filme, e em cuja propriedade ele encontra algo fora do lugar – um detalhe, apenas. É como se K puxasse a ponta de uma meada: perseguindo esse fio por todas as suas voltas e nós, ele vai refazer o caminho existencial dos replicantes e encontrar intersecções imprevistas entre eles e os seres humanos. K vai, sobretudo, viajar para dentro de si mesmo: por mais subordinados à vontade humana que os androides agora sejam, o fato de eles serem tão convincentes – para si e para os outros – inevitavelmente os leva a desejar serem eles, também, plenos.

Blade Runner 2049

(Sony Pictures/Divulgação)

Com quase três horas de duração e um ritmo muito deliberado, que Villeneuve manipula de forma a obrigar a plateia a rever suas expectativas sobre ação, catarse e recompensa, Blade Runner 2049 se desenrola com um quê de sonho. Sozinho no seu pequeno apartamento, K e sua mulher virtual, Joi (a sensacional Ana de Armas), vivem uma imitação de felicidade romântica – mas uma imitação tão cheia de anseio e de vontade que nela é que se vão encontrar os sentimentos mais autênticos de todo o filme. Poderia aquela Las Vegas cheia de estátuas colossais enterradas na areia – as decorações que restaram dos cassinos – ser um lugar real? Na concepção de Villeneuve, nunca o foi, uma ideia que ele sublinha com os arquivos holográficos de Elvis Presley e Liberace se apresentando – tão corrompidos que engasgam, voltam e saltam adiante como se eles próprios estivessem presos num sonho ruim. Em Blade Runner 2049, a hecatombe que década a década foi devolvendo o planeta ao pó é real, e vem conjurada pelo trabalho magistral de Roger Deakins na direção de fotografia e de Neil Gassner no desenho de produção. Mas essa esterilidade é também a expressão de uma catástrofe maior: aqui, é a ideia mesmo de humanidade que foi por terra. Reencontrar essa ideia e o significado dela é a missão que, sem saber, K se impôs. E na qual o canandense Villeneuve, um dos muitos cineastas que decidiram se iniciar na carreira depois de verem o Blade Runner de Ridley Scott ou o 2001 – Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick, conduz K com virtuosismo e com algo muito maior ainda que sua imensa capacidade técnica e conceitual: com a certeza de que para isso, afinal, é que se faz cinema.

Blade Runner 2049

(Sony Pictures/Divulgação)

E, FINALMENTE… Preste muita atenção à última imagem de Blade Runner 2049 porque, com ela, Villeneuve junta este fio a um outro, inesperado e muito importante para ele.


Trailer

BLADE RUNNER 2049
Estados Unidos/Inglaterra/Canadá, 2017
Direção: Denis Villeneuve
Com Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Robin Wright, Jared Leto, Sylvia Hoeks, Dave Bautista, Mackenzie Davis, Edward James Olmos, Hiam Abbas
Distribuição: Sony Pictures

 

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  1. Claudio Stainer

    A ansiedade tomou conta de mim.

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  2. Carlos Steinsfield

    Acreditava que uma continuação de Blade Runner jamais ficaria à altura do original. Da mesma forma que a continuação de 2001 uma Odisséia no Espaço, foi muito inferior… de qualquer forma, devemos ponderar também, que Ridley Scott não é Stanley Kubrick. – Ainda não assiti à Blade Runner 2049; porém, a maioria da critica internacional, assim como você Isabela, trata esta constinuação como uma obra-prima! – Bem, é assitir para comprovar…

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  3. Sou fã incondicional do primeiro, mas achei este longo demais. Quanto a crítica, Isabela Boscov fez um trip alucinógeno cibernético que, pra mim, viu coisas demais nesta “obra de arte”…

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  4. Francisco Chico

    Assisti ao primeiro Blade Runner no início dos 1980. Lembro-me de como saí do cinema perturbado. As cenas impactantes de um futuro tenebroso e a trilha sonora futurista do grego Vangelis me deixaram sem fala. Agora, tanto tempo depois, assisto a essa continuação brilhante do Villeneuve. A fotografia do filme, certamente estará no Oscar, é simplesmente arrebatadora. Foram quase 3 horas de poesia na tela. Você não exagerou, Boscov, o filme é uma obra prima.

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  5. Isabella, que belo texto! O filme é bom, embora o “pace” pudesse ser melhor (houve o mesmo com o filme de 82).
    Não é tão descaradamente noir quanto o primeiro filme, mas tem uma fotografia inebriante, fantástica!

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  6. Belo texto, Isabella! O filme é bom, embora o “pace” pudesse ser melhor (houve o mesmo com o filme de 82).
    Não é tão descaradamente noir quanto o primeiro filme, mas tem uma fotografia inebriante, fantástica!

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  7. Silas Costa Ferreira Jr.

    Acabei de ver, e vou ver de novo pois é muita coisa para assimilar. Concordo com tudo que a Isabela disse, e o filme ainda por cima deixou um monte de pontas soltas, para o caso de quererem fazer uma sequencia.

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  8. Ernesto Ribeiro

    ASSISTI DUAS VEZES EM DOIS DIAS. FANTÁSTICO. BRILHANTE. GENIAL. INSTIGANTE. TÃO BOM QUANTO O PRIMEIRO. Só não tem um ator iluminado como Rutger Hauer ou um personagem inspirado como Roy Batty. Faltou os meganha enquadrar o vilão que escapou, e devia comer capim pela raiz também como o Coringa. E falou um final feliz pro herói: pois é, o Ryan Golem tá ÓTIMO!

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  9. Ernesto Ribeiro

    O herói K (Ryan Goslin) de nome completo KD, é uma analogia ao próprio autor da estória no livro que deu origem aos filmes Blade Runner, o escritor de ficção científica Phillip K. Dick (1928-1982). Um fato determinante na vida real dele que é espelhado no segundo filme é a perspectiva em relação á morte e á irmã gêmea dele: Phillip K. Dick nasceu fisicamente tão fraco (morreu de ataque cardíaco aos 54 anos) que os pais dele cavaram uma cova para o filho recém-nascido ao lado do túmulo da irmã gêmea dele morta ao nascer. Então ele cresceu com a certeza que morreria logo, como todos acreditavam. Olhando para as duas covas.

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