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Petróleo da Venezuela vira eixo da ofensiva de Trump contra Maduro

Diplomacia brasileira rejeita intervenções militares externas e sustenta que a crise venezuelana deve ser resolvida por meio de negociações

Por Ernesto Neves 17 dez 2025, 12h40 • Atualizado em 17 dez 2025, 12h57
  • A escalada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o regime de Nicolás Maduro tem como eixo central o petróleo venezuelano, apesar do discurso oficial de combate ao narcotráfico. Nos bastidores, autoridades americanas tratam o acesso às maiores reservas do mundo como prioridade estratégica da política externa para a América Latina.

    A Venezuela concentra cerca de 17% das reservas globais comprovadas de petróleo, o equivalente a mais de 300 bilhões de barris, volume quase quatro vezes superior ao dos Estados Unidos. O país ocupa posição-chave na estratégia de Trump de reafirmar a influência americana no hemisfério ocidental e conter o avanço da China na região.

    Nos últimos dias, Washington elevou o tom ao apreender um petroleiro no Caribe que transportava petróleo venezuelano com destino a Cuba e à China. Trump anunciou ainda que os Estados Unidos passarão a bloquear embarcações associadas a sanções impostas ao setor energético venezuelano. Especialistas em direito internacional questionam a base legal dessas ações.

    A ofensiva ocorre após meses de ataques a embarcações ligadas ao comércio de petróleo do país. Segundo estimativas de autoridades e analistas, ao menos 25 ações desse tipo resultaram na morte de dezenas de pessoas, ampliando as tensões diplomáticas e o risco de escalada militar.

    Trump já declarou publicamente seu interesse nas reservas venezuelanas. Em discurso a aliados republicanos, afirmou que, ao deixar a Presidência em seu primeiro mandato, a Venezuela estava próxima do colapso e que os Estados Unidos teriam assumido o controle do petróleo do país. Declarações semelhantes foram feitas por ele no passado em relação ao Iraque, à Líbia e à Síria, defendendo a apropriação de recursos naturais como compensação por intervenções militares.

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    Oposição promete abertura ao capital estrangeiro

    A principal líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, tem reforçado esse discurso junto a empresários e políticos americanos. Em eventos e entrevistas, defendeu a abertura total da cadeia de petróleo e gás ao capital privado internacional, além de privatizações no setor de energia e mineração.

    Machado também se comprometeu a reduzir drasticamente a presença chinesa e russa na indústria venezuelana caso chegue ao poder. A proposta é bem recebida por setores do governo Trump, especialmente pelo Secretário de Estado Marco Rubio, que defende a remoção forçada de Maduro e a instalação de um governo alinhado ao livre mercado.

    Outros assessores da Casa Branca tentaram negociar diretamente com Caracas um acordo que ampliaria a presença de empresas americanas no setor petrolífero. Maduro sinalizou disposição para discutir maior abertura, mas manteve a condição de permanecer no poder, o que levou Trump a recuar das negociações.

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    China, sanções e o risco de instabilidade

    Maduro utiliza o petróleo como ferramenta geopolítica. Atualmente, cerca de 80% das exportações venezuelanas têm como destino a China, que funciona como principal sustentação econômica do regime diante das sanções impostas pelos Estados Unidos desde 2019.

    Pequim, no entanto, reduziu investimentos diretos na Venezuela nos últimos anos e passou a atuar de forma mais cautelosa, receosa de violar sanções americanas. Ainda assim, empresas chinesas privadas seguem comprando petróleo venezuelano, mantendo o fluxo de receitas do governo Maduro.

    Analistas alertam que uma eventual derrubada violenta do regime pode gerar instabilidade prolongada. Simulações feitas por agências americanas ainda em 2019 indicaram que o caos político e social afastaria grandes petroleiras ocidentais, como ocorreu no Iraque e na Líbia após intervenções militares.

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    A Chevron é atualmente a única grande empresa americana em operação no país, atuando sob licença especial e em parceria com a estatal PDVSA. O setor foi estatizado nos anos 1970, processo consolidado na Constituição durante o governo Hugo Chávez e que ainda conta com apoio relevante da população, tornando politicamente sensível qualquer proposta de privatização ampla.

    A posição do Brasil

    O Brasil adota postura distinta da estratégia americana. O governo Lula defende a normalização das relações diplomáticas com Caracas, o diálogo político e o fim das sanções unilaterais, que considera responsáveis por agravar a crise econômica e humanitária na Venezuela.

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    Brasília reconhece Nicolás Maduro como presidente e atua para reintegrar o país a instâncias regionais de diálogo. No campo energético, a relação é pragmática. A Petrobras já importou petróleo venezuelano em volumes limitados e avalia possibilidades de cooperação, mas evita compromissos estruturais diante da insegurança jurídica e do impacto das sanções internacionais.

    A diplomacia brasileira rejeita intervenções militares externas e sustenta que a crise venezuelana deve ser resolvida por meio de negociações internas e mediação internacional. Nesse contexto, a ofensiva de Trump recoloca o petróleo venezuelano no centro de uma disputa geopolítica que envolve Estados Unidos, China e América Latina, com impactos diretos sobre a segurança energética da região.

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