Revista americana usa Brasil para alertar sobre rumos da economia global
Juros elevados e rigidez fiscal transformam o país em exemplo das dificuldades que começam a atingir nações desenvolvidas, como os Estados Unidos
Durante décadas, o Brasil foi retratado como o aluno problemático das finanças públicas: vulnerável à inflação elevada, aos juros altos e às crises recorrentes. Agora, segundo a revista americana The Economist, o país deixa de ser apenas um estudo de caso de economia emergente para se transformar em um espelho incômodo para as nações ricas.
Em artigo publicado em 12 de fevereiro, a revista sustenta que o mundo desenvolvido deveria temer a chamada “brasileirização” fiscal, um cenário em que o custo da dívida cresce mais rapidamente do que a capacidade política de controlá-la. Não se trata de afirmar que os países ricos vão se tornar o Brasil, mas de sugerir que podem enfrentar um dilema semelhante: juros persistentemente elevados corroendo o orçamento público mesmo quando os indicadores tradicionais ainda parecem saudáveis.
O diagnóstico parte justamente de uma contradição. À primeira vista, o Brasil reúne sinais que, em manuais econômicos, seriam considerados positivos: crescimento moderado, com projeção próxima de 1,8% segundo o Focus; Banco Central independente; resultado primário próximo do equilíbrio; e inflação sob vigilância. Ainda assim, a dívida pública segue em trajetória preocupante.
Para a revista, a explicação está no preço do dinheiro. Com a taxa Selic em torno de 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas, o governo brasileiro pode precisar tomar emprestado algo próximo de 8% do PIB anualmente apenas para arcar com o pagamento de juros. Em outras palavras, mesmo sem déficits primários expressivos, a dinâmica da dívida continua desfavorável.
A projeção do Fundo Monetário Internacional reforça esse alerta: a dívida pública bruta pode alcançar cerca de 99% do PIB em 2030, depois de ter girado em torno de 62% em 2010. O salto ilustra como juros altos, quando persistentes, alteram rapidamente a trajetória fiscal de um país.
A publicação alerta que economias avançadas já exibem sintomas iniciais da mesma doença fiscal, especialmente os Estados Unidos, onde déficits persistentes e a inflação pós-pandemia reacenderam o debate sobre sustentabilidade da dívida. A lógica é que, em um mundo que deixou para trás a era dos juros próximos de zero, governos altamente endividados descobrem que o serviço da dívida pode crescer muito mais rápido do que a arrecadação.
A diferença, porém, está na percepção de risco. Países ricos ainda conseguem se financiar a taxas menores porque suas instituições são vistas como mais estáveis, um privilégio que reduz o custo do endividamento. A reportagem, contudo, sugere que essa vantagem pode não ser permanente.
Segundo a publicação, a falta de credibilidade fiscal custa caro: poderia reduzir em até um ponto percentual o crescimento anual, um peso silencioso que ajuda a explicar por que o investimento no Brasil permanece baixo.
Talvez o aspecto mais interessante do debate seja o simbólico. Por décadas, o Brasil observou as economias avançadas como referências de estabilidade macroeconômica. Agora, a narrativa se inverte: o país passa a funcionar como um aviso prévio. A “brasileirização” fiscal não descreve apenas uma economia específica, mas um mundo em que a política encontra cada vez menos espaço para prometer simultaneamente baixa inflação, juros reduzidos, crescimento robusto e expansão do gasto público.





