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Reunião expõe divergências de Guedes e Marinho sobre investimento público

O ministro da Economia afirmou que não pode um ministro “querer ter papel preponderante” e que "tem muita gente pensando na eleição desse ano"

Por Victor Irajá - Atualizado em 23 Maio 2020, 11h54 - Publicado em 22 Maio 2020, 18h46

Durante a reunião do dia 22 de abril, os ministros Paulo Guedes, da Economia, e Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, expuseram as divergências quanto às diretrizes de políticas de investimento em infraestrutura para mitigar os efeitos da crise econômica causada pela pandemia de coronavírus. O ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, afirma que o projeto Pró-Brasil, engendrado pela pasta em conjunto com os Marinho e o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, tem foco em “obras que estão paralisadas”. “Esses investimentos que nós estamos perdendo, que estão paralisados. Ele pega infraestrutura de transporte e logística, desenvolvimento regional e cidades, pega energia e mineração, telecomunicações”, apresentou o ministro. Braga Netto disse que os detalhes do projeto seriam apresentados “de agosto a setembro” e implementado a partir de outubro “em larga escala, tendo um foco prioritário naquelas ações que tenham uma resposta mais imediata”. “Porque o brasileiro é o seguinte: na hora que nós lançarmos o programa, eles vão começar a cobrar resultado, né?”, disse Braga Netto. Ele admitiu que a apresentação era uma “primeira ideia”, a partir da qual os ministérios apresentassem medidas para desenvolvê-lo.

Depois de apresentar a proposta, o presidente Jair Bolsonaro passou a palavra para Guedes. “Acho que é o ministro mais importante nessa missão aí”, disse Bolsonaro. Guedes afirmou que a iniciativa é bem-vinda, mas que a origem dos recursos virá por meio de investimentos da iniciativa privada. “Não vamos nos iludir. A retomada do crescimento vem pelos investimentos privados, pela abertura da economia, pelas reformas”, defendeu o ministro da Economia. Guedes, então, começa a criticar a ideia de injetar dinheiro público num projeto de retomada da atividade econômica e comparou a proposta ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), engendrado pela ex-presidente Dilma Rousseff. “Voltar uma agenda de trinta anos atrás, que é investimentos públicos financiados pelo governo, isso foi o que a Dilma fez”, disse ele. Ele, então, diz que está cheio de gente pensando em eleição e que “tem gente botando coisa na cabeça de todo mundo aqui dentro”. “O governo quebrou”, afirmou o ministro. E, depois, deu nome aos bois. “Todo o discurso é conhecido: acabar com as desigualdades regionais. Marinho, claro, está lá, são as digitais dele. É bonito isso, mas é o que o Lula, o que a Dilma estão fazendo há trinta anos”, criticou. “Se a gente quiser acabar igual a Dilma, a gente segue esse caminho”, alfinetou.

Depois de criticar o apelido Plano Marshall, em referência ao pacote de reconstrução da Europa com recursos enviados pelos Estados Unidos, Guedes, então, afirmou que, apesar de “um discurso bonito”, não pode um ministro “querer ter papel preponderante” e “destruir a candidatura do presidente, que vai ser reeleito se nós seguirmos o plano das reformas estruturantes originais”. “Como é que um governo quebrado vai investir, vai fazer grandes investimentos públicos?”, indagou. O ministro, então, afirmou que “quem está sonhando é sonhador” e repetiu: “Tem muita gente pensando na eleição desse ano”.

Depois da intervenção de Guedes, Braga Netto reagiu e disse que o projeto trata sobre investimentos privados. O ministro da Economia cita reportagens publicadas pela imprensa, inclusive por VEJA, que citaram a ausência dele nas discussões sobre o Pró-Brasil. “Alguém foi para a imprensa e falou: ‘Ó, vem um Plano Marshall aí e a Economia está fora'”, citou ele. O presidente Bolsonaro, então, tomou a palavra para criticar a atuação do jornalismo e recomendou aos ministros que não “tem que ignorar esses caras, senão a gente não vai para a frente”. “A gente está sendo pautado por esses pulhas, pô. O tempo todo jogando um contra o outro”, criticou ele. O ministro Onyx Lorenzoni, da Cidadania, elogiou a coordenação de Braga Netto e corroborou com a diretriz de Paulo Guedes. “Recebemos o governo com 36 mil obras paradas. Oriundas de onde? Do PAC”, afirmou ele, defendendo dar “fôlego à iniciativa privada”, afirmando que os ministérios devem ser “mediadores desse processo”. “Temos que rapidamente voltar ao que nós estávamos fazendo, porque nós estávamos no caminho certo e a prova disso é que todo mundo voltou a olhar o Brasil com respeito”, defendeu.

Braga Netto, então, passou a palavra para Rogério Marinho. Idealizador do Pró-Brasil, o ministro do Desenvolvimento Regional afirmou que iria “partir do princípio de que todos que estão aqui são bem-intencionados e querem o bem do Brasil”. Ele afirmou que não tinha a intenção de “solapar os alicerces da República nem abalar a administração do presidente”, mas afirmou que “não existem verdades absolutas”. Ele defendeu a medida como uma medida emergencial, afirmando que a economia mundial retrocederá como um todo por causa da pandemia. “O que eu peço é que tenhamos aqui as mentes aberta. E que os dogmas, quaisquer que sejam eles, presidente, sejam colocados de lado neste momento”, disse ele.

O ministro argumenta que o projeto estabelece um limite temporal e defendeu que até governos com medidas liberais na economia estão adotando programas similares. “Eu tenho visto governos extremamente liberais preparando programas de reconstrução, levando em consideração a necessidade de que o Estado nacional passa a ter um papel diferente como tomador de risco nesse momento em que há uma queda abrupta de liquidez”, defendeu ele. “Os países vão utilizar as suas respectivas liquidez para resolver os seus problemas de infraestrutura”, disse ele. “Nós temos que ter segurança jurídica, senhor presidente, respeito a contrato, senhor presidente. Capacidade de alavancar recursos privados com a inversão de recursos públicos, sim”, defendeu.

Ele continuou: “Essa pode ser uma catástrofe, que vai nos afundar, ou pode ser uma onda para a gente surfar, uma alavanca para recuperar o país”, disse ele. O ministro defendeu a injeção de recursos públicos para alavancar empregos. “Se vamos gastar 600 bilhões de reais para resolver uma situação que é emergencial e todos reconhecemos que é necessária, e darmos segurança à população, no caso alimentar, para evitarmos o caos, para diminuirmos a mortandade das empresas, muito bem. Está correto, essa é a boa direção”, disse ele. “Por que não cinco, seis, sete por cento desse total, dez por cento desse total, em obras de infraestrutura?”, continuou, afirmando que o Brasil não terá a capacidade de alavancar o emprego em um momento de retomada lenta.

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