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Rafale, o caça que ninguém quer comprar

Ganhar a licitação dos caças no Brasil é crucial para a fabricante francesa Dassault, que não consegue vender seu produto para mais ninguém

Por Ana Clara Costa - 17 mar 2011, 16h14

Caso a França não consiga costurar a venda dos caças Rafale a nenhum país, a Dassault corre o risco de paralisar a linha de produção

Enquanto os EUA podem se dar ao luxo de não se preocuparem tanto com o caminhar das negociações entre a Boeing e o governo brasileiro, o mesmo não se pode dizer da França. Os caças Rafale jamais foram comercializados fora de seu território e uma venda ao Brasil seria uma forma de mostrar aos próprios franceses que os investimentos feitos no desenvolvimento das peças não teriam sido em vão. Daí o envolvimento severo de Nicolas Sarkozy nos diálogos com o governo anterior. Contudo, no que diz respeito às negociações com a equipe da presidente Dilma Rousseff, os caças franceses já ficaram para trás. Antes favoritos para levar a licitação, agora ocupam o último lugar da fila por conta de divergências entre o Brasil e a França.

O presidente francês também participou ativamente das negociações para venda dos caças Rafale aos Emirados Árabes, que começaram em 2008, antes mesmo que o tema fosse levantado no Brasil. No entanto, em 2009, quando o negócio era dado como certo, o país voltou atrás por conta de uma polêmica envolvendo o jornal Le Fígaro, que pertence a Serge Dassault, dono da empresa que leva seu sobrenome. De acordo com uma reportagem do jornal parisiense publicada na época, os Emirados Árabes estariam comprando equipamentos de vigilância de Israel para se proteger do Irã. O fato gerou desconforto diplomático entre as duas nações de maioria muçulmana e, consequentemente, com a França. Serge Dassault é senador, colega de partido e amigo pessoal de Sarkozy.

Recentemente, o diretor da Dassault para o consórcio Rafale, Éric Trappier, viajou a Abu Dhabi para uma feira de equipamentos de defesa. Na ocasião, tentou reaquecer as conversas com o governo dos Emirados Árabes, informou a imprensa local. “As negociações estão avançando, mas ainda precisamos de tempo”, afirmou o executivo, na ocasião. No entanto, até o término da feira, em 23 de fevereiro, nada havia sido resolvido e os caças franceses continuavam sem comprador.

Fontes ligadas às negociações ouvidas pelo site de VEJA afirmam que, caso a França não consiga costurar a venda dos caças a nenhum país (incluindo Grécia e Suíça, que também chegaram a cogitar a compra), a Dassault corre o risco de paralisar a linha de produção. “Eles estavam fabricando apenas onze aviões por ano. Como nenhuma negociação foi fechada, o governo francês teve de colocar 700 milhões de euros para manter a linha por mais este ano”, afirmou o executivo. No entanto, tendo em vista o grande endividamento do estado francês – que é fator de constante embate com a população -, há dúvidas se os caças Rafale sobreviverão até depois de 2012. Existem rumores de que, antes das revoltas políticas contra Muamar Kadafi, a Líbia havia encomendado dezesseis unidades. Diante de um cliente tão áspero quanto impopular, a Dassault, obviamente, negou tudo – inclusive a existência de qualquer tipo de negociação prévia.

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