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Questões econômicas acentuam perigos no novo caminho político do Egito

País sofre com crescimento econômico desprezível e crise financeira que pode atrapalhar o processo de transição política

Depois de um ano de tumultos sem fim e governo militar, o Egito enfrenta uma crise financeira que pode solapar a transição política e representar um desafio enorme para os islamitas que estão chegando ao poder. Com dívidas, crescimento econômico desprezível e reservas externas minguantes, o governo militar e o novo Parlamento – liderado pelos islamitas – agora encaram escolhas difíceis, começando com uma quase inevitável desvalorização da moeda egípcia, o que deve levar a uma alta dos preços dos alimentos e outros produtos.

O governo também pode logo ser forçado a rever o amplo sistema de subsídios de energia que agora representa um quinto dos gastos governamentais. “A situação é terrível”, disse Magda Kandil, diretora executiva do Centro Egípcio de Estudos Econômicos, que classificou como “alarmantes” alguns dos últimos indicadores.

Num sinal da gravidade da situação, o conselho do governo militar recentemente se dissolveu e reabriu conversas com o Fundo Monetário Internacional sobre os termos de um empréstimo de 3,2 bilhões de dólares. Antes, os generais rejeitaram o mesmo acordo declarando-o uma afronta à soberania nacional, porém, membros do governo militar agora dizem que podem buscar um empréstimo ainda maior. Além disso, a Irmandade Muçulmana, grupo islâmico há muito na ilegalidade que controla metade dos assentos do novo Parlamento, também indicou sua abertura à ajuda financeira num encontro em separado com representantes do FMI – uma reversão ainda mais impressionante depois de oito décadas denunciando o colonialismo ocidental e a dependência árabe.

Os líderes da Irmandade reconheceram de imediato que comandar o Egito durante a crise será um teste formativo de sua capacidade de governar. Enquanto isso, ativistas concentrados em forçar o governo militar do Egito a renunciar afirmam que o declínio econômico se tornou um grande obstáculo à sua causa porque muitos egípcios passaram a desejar uma volta à estabilidade. Outras pessoas observam com desalento que as frustrações básicas que ajudaram a estimular os protestos que derrubaram o presidente Hosni Mubarak em 2011 se tornaram ainda mais agudas, principalmente para as legiões de jovens desempregados ou subempregados.

Em nenhum outro lugar o tormento econômico é mais evidente do que no setor de casamentos, um caro rito de passagem egípcio que marca a entrada na vida adulta e gera uma receita que rivaliza com a ajuda financeira anual dos EUA para o país. Em um sofrido bairro cairota, organizadores de casamento dizem que os casais podaram eventos que antes da revolução poderiam custar 300 dólares porque agora só podem pagar cerca de US$ 100. Segundo joalherias, a quantia média que os noivos gastavam nos presentes tradicionais de ouro para as noivas desabou abruptamente. Já os DJs dizem que agora se apresentam em apenas duas ou três cerimônias por mês, contra cerca de dez antes da revolução. “Ninguém está se casando depois da revolução”, disse Amr el-Khodary, 37 anos, forçado a fechar a loja de aluguel de veículos para casamentos.

Ibrahim Mohamed, taxista de 26 anos com diploma universitário, é um bom exemplo. De acordo com ele, a queda acentuada nas férias o impediu de economizar cerca de US$ 7 mil para o apartamento, mobília, uma cerimônia de casamento simples e o tradicional presente de joias de que precisa para se casar. “Se não fosse a revolução, eu conseguiria me casar”, disse.

Os motivos de seu problema se acumulam o ano inteiro: corte virtual do investimento estrangeiro, declínio de 30% nas visitas de turistas e estagnação do crescimento econômico. A taxa oficial de desemprego é de 12%, mas, entre os jovens, o índice real de desemprego é de pelo menos o dobro dessa cifra.

O governo militar também dirigiu um período de tumulto financeiro. A inflação passou a dois dígitos e a taxa cambial da libra egípcia está sob forte pressão. As reservas cambiais estrangeiras despencaram, enquanto o governo gasta cerca de 2 bilhões de dólares mensais numa batalha perdida para sustentar a libra. Economistas afirmam que o governo militar contribuiu para a tensão ao descartar o empréstimo do FMI em junho, quando poderia ter fornecido a tão necessária moeda forte e um selo financeiro de aprovação – o que tranquilizaria os investidores e doadores estrangeiros.

Ao contrário, a junta militar tentou sustentar o crescente déficit governamental com empréstimos internos, enquanto as empresas lutam para obter os empréstimos de que necessitam para expandir e recuperar a economia.

Agora, o governo militar parece ter também exaurido as fontes domésticas. Em 23 de janeiro, o governo só conseguiu vender aos bancos egípcios cerca de um terço de um título avaliado em 580 milhões de dólares, mesmo com rendimentos que chegaram a um novo pico de quase 16 por cento. (Depois de contabilizada a expectativa de inflação, entre dez e 12%, é o equivalente a uma taxa de juros de 4% a 6%.)

“O empréstimo continuado dos mercados domésticos é, literalmente, uma política de falência”, disse Ragui Assaad, economista egípcio da Universidade de Minnesota que agora está no Cairo. Segundo ele, mesmo com novas fontes de dinheiro externo do FMI, o Egito logo se veria forçado a capitular diante de uma queda ainda maior na taxa de câmbio – gradualmente, se o governo tiver sorte. “É claro que vai doer, porém, não haverá outra escolha além de desvalorizar a moeda”, disse Assaad.

O temor de uma disparada da inflação é agudo. “Ninguém põe dinheiro no banco porque tem medo de que depois não vai valer nada”, afirmou Hamdy Shaaban, mecânico de 40 anos. “Por que eu depositaria num banco? Não sei o que vai acontecer.”

Contudo, a outra solução que muitos economistas apoiam – rever as políticas que levam o Egito a gastar mais de 15 bilhões de dólares por ano em subsídios energéticos – parece ser politicamente impossível agora. É um sistema regressivo que beneficia mais quem dirige um SUV e mora em condomínios com ar-condicionado. Outros países com sistemas similares os substituíram com sucesso por subsídios mais voltados para os necessitados.

Todavia, a maioria dos egípcios trata o subsídio como direito nato, e poucos acreditam que o governo de transição tenha credibilidade ou legitimidade para efetuar uma grande mudança. “Alguém precisa conseguir convencer as pessoas de que serão recompensadas”, declarou Assaad.

Mesmo assim, muitos economistas argumentam que o Egito pode evitar um possível colapso. Eles assinalam que o governo militar anunciou recentemente planos para cortar quase 4 bilhões de dólares do acentuado déficit de mais de bilhões de dólares; mais de 10% do Produto Interno Bruto. Entre outras coisas, ele começou a podar subsídios energéticos da indústria pesada, talvez em preparação para as mudanças que o FMI pode exigir.

Além disso, Ahmed Galal, diretor-presidente do Economic Research Forum, com sede no Cairo, disse que os economistas estavam ficando mais e mais otimistas em relação às políticas da Irmandade Muçulmana. O grupo já deixou claro que defende o livre-mercado e já começou a falar sobre a urgência da reforma dos subsídios. Seus legisladores começaram a esboçar propostas para atacar a questão quando eram membros da oposição ao governo Mubarak.

Em relação aos legisladores da Irmandade, Galal afirmou que “esses sujeitos querem ser bem-sucedidos. O discurso deles está bastante moderado, cívico e inclusivo, e eles se espelham em países como a Turquia, não no Irã ou Afeganistão”.