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Profissionais qualificados formam nova onda migratória para o Brasil

Reportagem de VEJA mostra que, em três anos, o número de estrangeiros que receberam autorização de trabalho saltou de 43 000 para 70 000

Em 2009, o primeiro ano após a crise financeira que abalou os Estados Unidos e a Europa, o economista italiano Rosario Cannata, que vivia em Nova York fazia um ano, se assustou ao ver seu mercado de trabalho encolher depois que várias instituições financeiras fecharam as portas. Numa entrevista para um novo emprego, ouviu que não havia vagas nos EUA, e sim no Brasil. Cannata recusou a oferta, mas um fato mudaria sua opinião. Ao ver o Cristo Redentor estampado na capa da revista The Economist, acompanhado da chamada “O Brasil decola”, ele resolveu aceitar o emprego. Hoje, Cannata mora em São Paulo e trabalha numa empresa de prospecção de petróleo que presta serviços para a Petrobras. Assim como Cannata, milhares de outros estrangeiros estão desembarcando no Brasil em busca de melhores condições de vida e emprego. Desde 2010, foram 550 000 novos imigrantes que estabeleceram residência no país. O número de autorizações de trabalho, temporárias e permanentes, saltou de 43 000, há três anos, para 70 000, em 2011. Vinte anos atrás, não passavam de 2 600 por ano.

ENGENHEIROS EM ALTA – A portuguesa Marisa Gomes, de 30 anos, chegou ao Brasil em 2011 para suprir o déficit de profissionais ligados à engenharia no mercado de trabalho nacional. Ela foi chamada para implantar a operação brasileira da Somarsil, uma empresa portuguesa de construção civil. “O fato de a Europa estar em crise limitou muito o mercado de construções no continente”, ela diz. “Já o Brasil passa por uma situação totalmente oposta, com grande otimismo econômico”

ENGENHEIROS EM ALTA – A portuguesa Marisa Gomes, de 30 anos, chegou ao Brasil em 2011 para suprir o déficit de profissionais ligados à engenharia no mercado de trabalho nacional. Ela foi chamada para implantar a operação brasileira da Somarsil, uma empresa portuguesa de construção civil. “O fato de a Europa estar em crise limitou muito o mercado de construções no continente”, ela diz. “Já o Brasil passa por uma situação totalmente oposta, com grande otimismo econômico” (/)

Ocorre que esse novo fluxo migratório é muito diferente daquele ocorrido no fim do século XIX e início do século XX, em que milhões de imigrantes europeus e japoneses substituíram a mão de obra escrava nas lavouras. Os novos imigrantes são profissionais qualificados que fogem da estagnação econômica e das altas taxas de desemprego em seu país de origem. Embora o Brasil, atualmente, venha crescendo a um ritmo menor que o dos últimos anos, o desemprego continua baixo e existe muita oferta de mão de obra em áreas como engenharia e nos setores financeiro e de tecnologia da informação, para os quais não há brasileiros qualificados em número suficiente no mercado de trabalho. Segundo dados do Ministério do Trabalho, dessas 70 000 pessoas que obtiveram visto de trabalho em 2011, mais da metade possui curso superior completo. “A maior demanda de mão de obra hoje no Brasil é na área de petróleo, para conduzir o processo de exploração em plataformas”, diz Paulo Sérgio Almeida, diretor da Coordenadoria-Geral de Imigração do Ministério do Trabalho.

APOSTA – O empresário americano Jacob Rosenbloom, de 31 anos, está na sua segunda passagem pelo Brasil. Em 2007, trabalhou para o banco Goldman Sachs, em São Paulo, por dois anos. A experiência brasileira foi positiva. Além de aprender kitesurf, percebeu que tinha aqui uma oportunidade de negócio. “Resolvi voltar, desta vez como investidor”, diz Rosenbloom, que fundou em São Paulo uma empresa de recursos humanos, em funcionamento há seis meses

APOSTA – O empresário americano Jacob Rosenbloom, de 31 anos, está na sua segunda passagem pelo Brasil. Em 2007, trabalhou para o banco Goldman Sachs, em São Paulo, por dois anos. A experiência brasileira foi positiva. Além de aprender kitesurf, percebeu que tinha aqui uma oportunidade de negócio. “Resolvi voltar, desta vez como investidor”, diz Rosenbloom, que fundou em São Paulo uma empresa de recursos humanos, em funcionamento há seis meses (/)

O setor de obras de infraestrutura e a construção civil também têm uma demanda grande por profissionais. Os eventos esportivos mais importantes do planeta que acontecerão no Brasil, a Copa do Mundo em 2014 e a Olimpíada de 2016, envolvem obras que têm atraído os estrangeiros. A portuguesa Marisa Gomes chegou ao país no início do ano passado para chefiar a operação brasileira da Somarsil, empresa portuguesa do setor de construção. “O mercado na Europa está bastante limitado, e minha empresa notou que aqui existe uma enorme carência em infraestrutura e instalações adequadas”, diz ela, que veio com o marido. A mudança resultou em uma melhora inclusive financeira para Marisa, mesmo com o alto custo de vida no Brasil. “Esses expatriados veem a oportunidade de liderar uma operação estrangeira como um trampolim na carreira”, diz o advogado Renê Ramos, sócio da Emdoc, escritório que oferece assessoria a empresas que desejam contratar funcionários estrangeiros. “Uma experiência bem-sucedida no Brasil pode ser o caminho mais rápido para uma posição de destaque na firma caso o profissional decida um dia voltar para a matriz”, ele completa.

Para que um imigrante qualificado se estabeleça no Brasil não basta a disponibilidade para se mudar. De acordo com a legislação brasileira, é a empresa ou o órgão contratante que deve solicitar o visto de trabalho para o estrangeiro. Mesmo assim, muitos vêm ao Brasil sem nenhuma garantia, com um visto de turista ou de estudante. “Há um número crescente de pessoas que chegam aqui e tentam se integrar ao mercado através de um MBA ou pós-graduação”, diz Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas. “Elas usam a especialização para entrar em contato com empresas”, ele completa. Na Universidade de São Paulo ocorreu um crescimento no número de alunos vindos de fora do Brasil. Em 2006, havia 399 alunos de graduação oriundos de universidades estrangeiras. No ano passado, eram 977. Também aumentou o grupo de estrangeiros que cursam pós-graduação na universidade: saltou de 785 para 1 150 no mesmo período.

FUGINDO DA CRISE – O economista italiano Rosario Cannata, de 28 anos, morava em Nova York quando sobreveio a crise econômica mundial. Vendo seus possíveis empregadores se retraírem, ou fecharem as portas, ele começou a considerar oportunidades fora dos Estados Unidos. Escolheu o Brasil, onde trabalha numa empresa de prospecção de petróleo e gás. “Todo mundo tem uma expectativa positiva sobre o Brasil”, diz Cannata, que nas horas de lazer acelera nas pistas de enduro com os amigos brasileiros

FUGINDO DA CRISE – O economista italiano Rosario Cannata, de 28 anos, morava em Nova York quando sobreveio a crise econômica mundial. Vendo seus possíveis empregadores se retraírem, ou fecharem as portas, ele começou a considerar oportunidades fora dos Estados Unidos. Escolheu o Brasil, onde trabalha numa empresa de prospecção de petróleo e gás. “Todo mundo tem uma expectativa positiva sobre o Brasil”, diz Cannata, que nas horas de lazer acelera nas pistas de enduro com os amigos brasileiros (/)

De acordo com o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o déficit de mão de obra qualificada vai obrigar as empresas a buscar cada vez mais funcionários no exterior. Diz José Tadeu da Silva, presidente do Confea: “Por ano são registrados cerca de 30 000 novos profissionais da área tecnológica, desde o nível técnico até o superior. Em cinco anos, a expectativa é que vamos precisar de 300 000 trabalhadores nessa área, e teremos formado apenas a metade. Boa parte das vagas restantes deve ser preenchida com mão de obra estrangeira”. A empresa japonesa Kawasaki, que participa da construção de um novo estaleiro na cidade baiana de Maragogipe, se prepara para trazer do Japão 100 funcionários, desde soldadores até engenheiros navais. Carlos Arruda, coordenador do Núcleo de Inovação e Competitividade da Fundação Dom Cabral, que mantém cursos de administração, apresenta mais um motivo para as empresas brasileiras buscarem profissionais no exterior: a má qualidade de muitas faculdades no país. Diz ele: “Empresas do setor de construção civil estão contratando muito no exterior, principalmente na França e na Espanha. Existe outra explicação para isso além do número insuficiente de profissionais sendo formados. A qualificação dos engenheiros diplomados em faculdades de segunda linha é insatisfatória. Por isso, dá-se preferência a um engenheiro formado em uma escola mediana na França, por exemplo”.

O número de estrangeiros que vêm para o Brasil dispostos a investir o próprio dinheiro num negócio também aumentou. De acordo com o Ministério do Trabalho, o montante de investimentos estrangeiros de pessoas físicas cresceu 40% nos últimos três anos, totalizando 204 milhões de reais em 2011. Ao colocar a quantia mínima de 150 000 reais no capital social de uma empresa sediada no Brasil, o estrangeiro ganha o direito ao visto permanente. Os poucos aventureiros que montavam uma pousada em alguma praia do litoral deram lugar a investidores em áreas relacionadas ao crescimento da economia brasileira, como tecnologia e engenharia. O americano Jacob Rosenbloom é um desses imigrantes que vieram se aproveitar da boa fase do Brasil. Depois de conhecer o país, entre 2007 e 2009, trabalhando na operação brasileira do banco Goldman Sachs, decidiu retornar ao Brasil para abrir uma consultoria de RH em São Paulo. “O mundo foi afetado pela crise econômica e os investidores visaram o Brasil. Como eu já tinha morado aqui e visto o desenvolvimento econômico do país com meus próprios olhos, resolvi voltar”, ele diz. Ao contrário do que ocorria na importação de mão de obra estrangeira na virada do século XIX para o XX, o novo fluxo migratório para o Brasil oferece grandes oportunidades de crescimento a quem vem trabalhar.

Com reportagem de Gustavo Simon e Renata Lucchesi

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