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Potências verdes: a aposta da indústria automotiva na sustentabilidade

O objetivo é agradar a consumidores e apagar a fama de ser um dos setores mais poluentes do planeta

Por Sabrina Brito Atualizado em 22 out 2021, 09h46 - Publicado em 23 out 2021, 08h00

Assim como conforto e beleza, luxo é um conceito que muda com a passagem dos anos. Casacos de pele já foram considerados símbolos de requinte. Hoje, nenhuma mulher se atreve a desfilar com a peça sob pena de ser criticada por ostentar uma vestimenta criada à custa da morte de um animal. Em certa medida, a mesma. lógica vem se aplicando aos carros produzidos por marcas que há décadas fazem parte de um pedaço do mercado aberto a poucos, mas venerado por muitos. Nomes como a inglesa Bentley, a sueca Volvo e a alemã BMW perceberam que, agora, luxo mesmo, indispensável, é fabricar modelos com materiais sustentáveis, no espírito de nosso tempo.

O setor tem se mostrado bastante criativo na incorporação de compostos verdes aos novos veículos. O Volvo XC60 T8 Inscription, por exemplo, tem acabamento feito a partir de garrafas PET recicladas. Até 2025, a marca espera que 25% dos materiais utilizados sejam recuperados e, portanto, pouco agressivos ao meio ambiente. Para 2030, a meta é não usar mais nada de couro. No BMW i3, o plástico derivado de petróleo presente no interior do carro (mais especificamente nos elegantes painéis laterais e nos bancos) deu lugar a fibras de kenaf, vegetal usado como matéria-prima na indústria de papel e que ajuda a capturar gás carbônico da atmosfera.

VEGETAL - O plástico do interior do BMW i3 foi trocado por material produzido a partir da planta kenaf -
VEGETAL – O plástico do interior do BMW i3 foi trocado por material produzido a partir da planta kenaf – ./Divulgação

A Bentley foi mais longe: o EXP 100 GT tem seu interior montado com material composto de cascas de uva. Além disso, a nova versão usará uma forração parecida com couro, mas constituída a partir da raiz de cogumelos. Utilizado também na moda, o tecido é incrivelmente resistente. Os elegantes modelos da inglesa Jaguar serão lançados com tapetes e detalhes produzidos a partir de lixo encontrado nos oceanos e em aterros sanitários, de forma que não será preciso produzir ainda mais plástico.

A virada verde das grifes de luxo da indústria automotiva é uma entre várias tentativas recentes do setor de mudar sua imagem. Há muito tempo ele é considerado uma das maiores fontes de poluição do mundo. Estima-se, por exemplo, que um carro médio emita cerca de 4,6 toneladas de dióxido de carbono todos os anos. Atualmente, o transporte rodoviário é responsável por aproximadamente um quinto dos gases de efeito estufa que são lançados na atmosfera por todo o planeta.

RECICLAGEM - O Volvo XC60 T8 Inscription conta com acabamento feito de garrafas PET recicladas -
RECICLAGEM – O Volvo XC60 T8 Inscription conta com acabamento feito de garrafas PET recicladas – ./Divulgação

A primeira grande mudança de direção dos fabricantes foi o investimento em carros elétricos, que prescindem de combustíveis fósseis. A receptividade foi ótima. De acordo com a Agência Internacional de Energia, mais de 10 milhões de veículos elétricos transitaram pelas ruas e estradas do mundo em 2020 e a procura por esse tipo de carro tem crescido a cada ano que passa, inclusive no Brasil. Uma pesquisa realizada pela consultoria HSR-Route Automotive em nove regiões metropolitanas do país revelou que 53,5% dos brasileiros consideram mudar para um veículo elétrico ou híbrido dentro dos próximos cinco anos. Por trás das transformações, há dois movimentos. O primeiro, sem dúvida, é o desejo do consumidor, hoje muito mais comprometido com a questão ambiental, como atesta o levantamento da HSR-Route Automotive. O segundo é a pressão dos órgãos regulatórios da maioria dos países. “Cada vez mais são estabelecidos prazos para que veículos com motores a combustão interna deixem de ser produzidos”, explica Marcelo Alves, professor de engenharia mecânica e membro do Centro de Engenharia Automotiva da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Por enquanto, as respostas das empresas têm mostrado potencial para reduzir o despejo de poluentes no planeta e o uso de recursos naturais. “O emprego de materiais reciclados pode diminuir a necessidade da mineração, muitas vezes prejudicial à natureza”, diz Clayton Barcelos Zabeu, professor de engenharia mecânica do Instituto Mauá de Tecnologia, de São Paulo. É isso. Carro de luxo agora tem de ser verde. É a civilização acelerando.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

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