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Por que sumiram US$ 28 bilhões do valor do Nubank antes do seu IPO

Apesar de ruim para a empresa, a notícia é comemorada pelos que esperam pelo seu IPO

Por Luisa Purchio 4 dez 2021, 13h16

O IPO do Nubank está previsto para ocorrer na segunda semana de dezembro, na Bolsa de Nova York (NYSE), mas a pouco menos de duas semanas da data, o banco digital teve de reduzir o valor dos papéis da empresa, fazendo o seu valor de mercado ser reduzido em 28 bilhões de dólares frente ao esperado inicialmente. Os acionistas do banco digital queriam, a princípio, vender as suas ações a um valor de mercado de 70 bilhões de dólares, o que superaria os principais bancos brasileiros somados. Depois, baixaram para 50 bilhões de dólares, e agora esperam atingir 41,7 bilhões de dólares. O preço-alvo do IPO foi estabelecido entre 10 e 11 dólares por ação, mas, com a reprecificação feita na última semana, baixou para um intervalo entre 8 e 9 dólares, cerca de 20% de desconto.

“O IPO do Nubank talvez tenha dado o azar de entrar na bolsa em um momento não tão propício para as empresas de tecnologia. O fato de estar em um mercado emergente é um agravante ainda maior”, diz Guilherme Zanin, analista da Avenue Securites. Com a expectativa da alta de juros pelo Federal Reserve Bank no ano que vem, as ações de tecnologia deixaram de viver seu melhor momento. “O setor tradicional financeiro até se beneficia do aumento do juros, porque as empresas conseguem emprestar dinheiro a taxas mais altas, mas as fintechs e empresas de meio de pagamento acabam vendo diminuição da demanda principalmente porque o mercado acaba ficando mais retraído”, diz Zanin.

Soma-se a isso a preocupação com a nova variante ômicron da Covid-19 e, então, os investidores estão optando por ações mais tradicionais. Tanto que a Nasdaq, a bolsa americana de tecnologia, saiu dos 9 mil pontos em fevereiro de 2020 para ultrapassar os 16 mil pontos em novembro de 2021, mas agora, com os sinais do Fed de que terá que antecipar a subida dos juros, a bolsa de tecnologia vêm caindo e nesta sexta-feira, 3, oscilava abaixo dos 15 mil pontos.

A mudança da expectativa sobre a política monetária americana afetou diversas empresas de tecnologia. A Stone, por exemplo, fintech brasileira de meio de pagamentos, acumula uma queda de 51,24% na Nasdaq, agravada pela apresentação de resultados ruins do terceiro trimestre de 2021 e denúncias de que teria escondido números desfavoráveis. Até o IPO da indiana Paytm apoiada pelo megabilionário Warren Buffett, em novembro, decepcionou.

O fenômeno, no entanto, não atinge apenas empresas brasileiras, de países em desenvolvimento e nem restritas à área financeira. A empresa de pagamentos americana PayPal acumula uma queda de 20,30% no mês, enquanto o argentino Mercado Livre caiu no período 32,72%, ambos na Nasdaq. Já a Magalu caiu 35,83% na B3.

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Desafios do maior banco digital do mundo

Os analistas financeiros já acreditavam que a avaliação do Nubank estava exagerada, mas os resultados ruins de seus pares na área de tecnologia ajudaram a empresa a ter de oferecer um significativo desconto nos papeis. Ainda assim, muitos ainda acreditam que a precificação atual ainda está muito acima do quanto de fato a empresa vale. “Mesmo com o desconto, a precificação do Nubank equivale à do Itaú Unibanco. Não acho isso sensato”, diz Rodrigo Knudsen, gestor da Vitreo. “Pode ser que a empresa venha a valer isso daqui a 10 ou 20 anos, mas consideramos esticada demais uma precificação inicial neste valor”, diz ele.

Contra a empresa pesa os desafios de rentabilizar o seu alto número de clientes. Criada com o mote de oferecer serviços gratuitos como conta corrente e com atendimento mais bem avaliado que os mais tradicionais bancos brasileiros, o Nubank se tornou o maior banco digital do mundo ao atrair mais de 40 milhões de clientes e se tornar um caso de referência internacional. Entre eles, estão pessoas antes excluídas do sistema financeiro brasileiro, mais conhecidos como “desbancarizados”. O desafio está, no entanto, justamente em conseguir rentabilizar esta base de clientes gigantesca.

A primeira etapa da empresa foi angariar clientes e a segunda foi começar a monetizá-los por meio da oferta de crédito pessoal. Até que, mais recentemente, a empresa comprou a corretora digital Easynvest para oferecer soluções de investimento. “A parte de investimentos tem muita concorrência, então é muito difícil atrair clientes para esta área. Já a parte de crédito é extremamente difícil de executar, os bancos tradicionais fazem isso há anos e o Nubank tem como alvo público de baixa renda, o que pode aumentar o risco de inadimplência nos pagamentos”, diz Knudsen, da Vitreo.

A empresa já provou ser capaz de superar muitos desafios, mas o horizonte fechou até mesmo para as maiores companhias do mundo. Para o Nubank, esta é uma má notícia, mas os investidores comemoram poder adquirir os papeis da gigante a preços menores.

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