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Petrobras publica balanço sem as perdas por corrupção

Estatal não chegou a consenso sobre como calcular as baixas contábeis causadas pelos desvios. Petroleira teve lucro de R$ 3,087 bi no 3º trimestre

A Petrobras publicou na madrugada desta quarta-feira o balanço financeiro do terceiro trimestre de 2014 sem considerar as baixas contábeis causadas por corrupção. O documento, divulgado após dois adiamentos e com mais de dois meses de atraso, não tem a aprovação da auditoria independente PricewaterhouseCoopers (PwC). Depois de 11 horas de reunião na terça, o Conselho de Administração da estatal não chegou a um consenso sobre como separar no balanço as perdas provocadas pelos desvios apontados na Operação Lava Jato dos prejuízos com outros fatores, como projetos ineficientes e atrasos causados por chuvas.

“A companhia entende que será necessário realizar ajustes nas demonstrações contábeis para a correção dos valores dos ativos imobilizados que foram impactados por valores relacionados aos atos ilícitos perpetrados por empresas fornecedoras, agentes políticos, funcionários da Petrobras e outras pessoas no âmbito da Operação Lava Jato”, diz um comunicado da estatal. A petroleira informou que está avaliando “outras metodologias” para atender às exigências dos órgãos reguladores.

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Pessoas próximas à Petrobras esperavam que a empresa reconhecesse uma baixa contábil de até 20 bilhões de dólares (cerca de 52 bilhões de reais), ou o equivalente a 42% do valor de mercado atual da companhia. Além disso, analistas falam em uma possível redução de 30% do plano de investimentos da estatal.

Números – Segundo o balanço sem as baixas divulgado pela Petrobras, a empresa registrou um lucro líquido de 3,087 bilhões de reais no terceiro trimestre do ano passado. O resultado representa uma queda de 38% em relação ao trimestre anterior. No acumulado de janeiro a setembro, o lucro foi de 13.439 bilhões de reais, uma queda de 22% na comparação com o mesmo período de 2013.

A publicação do balanço sem as perdas contábeis não é suficiente para satisfazer os investidores, apontam observadores do mercado financeiro, mas tem como consequência prática evitar que a estatal seja considerada em situação de default ou “calote técnico”. Isso ocorre se a empresa descumpre cláusulas contratuais com seus credores no exterior, entre elas o prazo para publicação de seus resultados.

Graça Foster – Em uma nota endereçada a acionistas e investidores da estatal e divulgada junto com o balanço, a presidente Graça Foster mencionou a Lava Jato para justificar o atraso de dois meses na divulgação do documento. “Como é de notório conhecimento, a Petrobras enfrenta um momento único em sua história. Em março de 2014, a ‘Operação Lava Jato’, deflagrada pela Polícia Federal com o objetivo de investigar suspeitas de lavagem de dinheiro, alcançou a Petrobras com a prisão do ex-diretor de Abastecimento da Companhia Paulo Roberto Costa”, escreveu ela. No comunicado, Graça também tentou explicar a decisão de não contabilizar as perdas por desvios. “Concluímos ser impraticável a exata quantificação destes valores indevidamente reconhecidos, dado que os pagamentos foram efetuados por fornecedores externos e não podem ser rastreados nos registros contábeis da companhia.”

Atrasos – Esperada inicialmente para 14 de novembro, a divulgação do balanço foi adiada para 12 de dezembro, quando também não ocorreu. Em 29 de dezembro, quando venceu o prazo para publicação estabelecido nos contratos que regem os títulos da dívida (bonds) da Petrobras, a estatal informou que pretendia divulgar os resultados até o fim de janeiro e assim evitar a declaração do “calote técnico” – isso ocorre em até 60 dias a partir de um “aviso de default” feito pelos credores.