Perfis e ideias diferentes fazem um BC melhor, opinam economistas
Alex Agostini e Marcelo Mello opinam sobre a opção de Haddad por Guilherme Mello na diretoria do Banco Central
A confirmação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que Guilherme Mello, secretário de política econômica da Fazenda, é o indicado para uma diretoria do Banco Central do Brasil reacendeu um debate que o mercado adora: até onde vai o técnico e onde começa o político. A escolha foi anunciada em 205 ao presidente Lula, mas segue pendente da formalização da escolha e o envio ao Senado. Bastou a confirmação para a Faria Lima torcer o nariz — movimento quase automático quando o nome foge do script tradicional.
O incômodo passa, sobretudo, pelo perfil de Mello. Economista com trajetória acadêmica robusta — USP, PUC-SP e doutorado pela Unicamp —, ele é visto por parte dos investidores como “acadêmico demais” e com pouca vivência no mercado financeiro. Soma-se a isso a proximidade com o PT e a participação na elaboração do plano de governo de Lula, ingredientes que, juntos, alimentam a leitura de risco político, ainda que indireto.
Reação exagerada
Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a reação foi exagerada. Ele lembra que a presença de acadêmicos em bancos centrais é regra, não exceção, citando o Federal Reserve como exemplo. “Ele sempre se posiciona de forma muito técnica, com profundo conhecimento”, afirmou. Agostini questiona o preconceito com a origem acadêmica e reforça um ponto-chave: decisões como a taxa de juros não são individuais, mas tomadas em colegiado. Agostini afirma que, em seu entendimento, a “polaridade dentro do Banco Central acaba sendo um ponto importante” para que existam visões que, embora não sejam contraditórias, tragam pontos de vista específicos em determinados momentos.
Mais barulho do que mudança
Na mesma linha, Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, avalia que o desconforto é mais barulho do que mudança estrutural. “Acho que esse é um ruído natural de alguém que é desconhecido para o mercado, mas passageiro”, disse. Ele lembra que o BC tem oito diretores além do presidente, o que dilui o peso de qualquer nome isolado: “Obviamente, ninguém toma decisão sozinho”.
Polaridade
Os dois economistas reforçam que o Banco Central é composto por um colegiado (oito diretores e o presidente), o que garante que diferentes perspectivas sejam debatidas, já que “ninguém toma a decisão sozinho”. A experiência mostra que, no BC, o discurso costuma ficar mais pragmático quando a porta se fecha e a reunião começa. O resto é ruído — alto no início, menor com o tempo.






