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Opção brasileira pelo Gripen abala fornecedores da Boeing

Recusa pelos caças F-18 e perda de contrato com Coreia do Sul ameaçam ainda linhas de produção em cidade que emprega funcionários da Boeing nos EUA

Por Da Redação - 21 Dec 2013, 19h04

A opção do governo brasileiro pelos caças suecos Gripen causou surpresa ao ser anunciada na última quarta-feira. Como as atuais aeronaves usadas pela Força Aérea Brasileira (FAB), os Mirage 2000, da francesa Dassault, já ultrapassaram todos os limites da recauchutagem e serão aposentadas em 31 de dezembro, o governo se viu obrigado a revelar sua escolha após um processo que passou por diversos adiamentos nos últimos anos e remonta a 1991. Ao optar pelo Gripen, o Brasil descartou a Dassault e a americana Boeing – favorita da presidente Dilma Rousseff até a revelação da extensão do programa de espionagem dos Estados Unidos. Confiante que o negócio seria fechado, a cidade rural de Alton, no Missouri, foi atingida em cheio pela notícia. E teme agora pelo futuro.

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Ao ser preteria pela sueca Saab, a Boeing deixou de assinar um contrato de 4,5 bilhões de dólares com o Ministério da Defesa. As aeronaves Gripen NG ainda estão no papel, o que as deixa atrás das concorrentes do contrato, Dassault (com o Rafale) e Boeing (com o Super Hornet F18), no quesito horas de voo. Mas o governo brasileiro insistiu que se tratava do melhor custo-benefício para o país, tendo em vista que o Gripen custará menos e sua manutenção é mais barata. Após o anúncio da decisão, a companhia francesa e a americana demonstraram frustração, em notas enviadas à imprensa.

Agora, a recusa brasileira do Super Hornet e a perda de um grande contrato de F-15s com a Coreia do Sul no mês passado ameaçam as linhas de produção na área de St. Louis que emprega funcionários da Boeing, os fornecedores e a qualidade do crédito do município. Nos níveis de produção atuais, o Super Hornet sairia de linha em 2016, e os F-15 dois anos depois. A Boeing e seus fornecedores vinham contando com acordos militares no exterior para ampliar a vida dos dois aviões, mas as pressões orçamentárias estão atrasando os fechamentos de contrato em alguns mercados cruciais, além de reduzir compras nos Estados Unidos.

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“Certamente estamos preocupados com o desfecho disso”, declarou Chet Sisco, gerente-geral da Central Ozark Machine Inc., que emprega 25 pessoas e obtém cerca de 85% de seu trabalho fabricando peças de alumínio e titânio para Super Hornets e F-15s. O Super Hornet, cujo maior cliente é a Marinha dos EUA, sustenta cerca de um terço dos 15.000 empregados da Boieng no Missouri. O avião e outros negócios da empresa fornecem cerca de 1 bilhão de dólares em encomendas anuais para quase 700 fornecedores no Missouri.

O tema dos caças foi preterido ao longo do governo Dilma. Nas poucas discussões consistentes sobre o tema, a favorita da presidente era Boeing. Não só a proposta de transferência de tecnologia da gigante americana havia agradado à FAB, como a vinda da empresa ao Brasil havia suscitado uma série de possibilidades de parcerias com a indústria que iam além dos F18. Segundo documentos sigilosos divulgados pelo Wikileaks, o brigadeiro Juniti Saito também havia explicitado, em 2009, a superioridade técnica da aeronave americana. Contudo, a saia-justa causada pelas denúncias do ex-técnico da CIA e da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, Edward Snowden, que revelaram práticas de espionagem do órgão a diversos governos – inclusive o brasileiro – colocaram a Boeing no fim da fila e colocaram no páreo apenas franceses e suecos.

Em entrevista ao site de VEJA, a presidente da Boeing no Brasil e ex-embaixadora, Donna Hrinak, afirmou que o F18 não só é tecnicamente superior, como também a proposta da empresa para o projeto foi aprimorada ao longo dos anos. Segundo Donna, o governo brasileiro tem toda a razão em condenar as ações da NSA, mas reafirmou que a força das relações comerciais entre Brasil e EUA vai muito além das denúncias. “É uma relação bilateral de muitos anos. Compartilhamos valores e interesses. E não podemos deixar que essa relação seja afetada por Edward Snowden”, afirmou.

(Com agência Reuters)

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