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O novo negócio das empresas de telefonia é seguir passos das fintechs

Para não desperdiçar a base de consumidores com dados preciosos, empresas se atentam a serviços financeiros: é o que faz a TIM, com 50 milhões de clientes

Por Josette Goulart - Atualizado em 7 out 2020, 16h06 - Publicado em 7 out 2020, 15h34

Quando os bancos digitais começaram a crescer desenfreadamente, os executivos da TIM olharam ao seu redor e se perguntaram: como podia o cliente de uma fintech valer sete vezes mais do que o de uma empresa de telefonia? Enquanto o Nubank, a startup financeira mais famosa do país, se gaba de ter conquistado 25 milhões de clientes, a TIM tem o dobro disso. Se fosse um banco, a empresa de telefonia estaria entre os cinco maiores do país, desbancaria o Santander. A reflexão não fez com que a companhia quisesse se tornar um banco, mas sim em potencializar o valor dos seus 50 milhões de clientes e ganhar dinheiro com isso. A empresa começou então a promover uma grande transformação que vai desde a criação de uma área para fazer análise de dados, cada dia mais valiosos, passando por uma completa reestruturação para contratação de startups até usar seus clientes para “comprar” uma participação em um banco, o C6Bank. Não foi exatamente uma compra, eles chamam de parceria, mas a cada novo cliente TIM que abre uma conta no C6, a telefônica ganha mais participação acionária, até chegar ao limite de 15%. “Queríamos ganhar com o crescimento de valor de mercado do C6”, diz o vice-presidente, Renato Ciuchini.

O C6 é um banco digital ao estilo Nubank, foi criado por um ex-sócio do BTG Pactual e tem cerca 3 milhões de clientes, em apenas um ano. No primeiro mês de parceria com a TIM, em julho, 200 mil novos clientes chegaram ao banco. Agora, eles não revelam mais como essa base vem crescendo. De qualquer forma, a união das duas equipes, de setores tão diferentes, está incentivando a criação de novos produtos. Foi a partir da parceria com o C6, que a telefônica percebeu que poderia fazer uma nova modalidade de débito automático de conta, em que o cliente limita o valor que pode ser descontado, segundo conta Ciuchini. Boa parte dos clientes reluta em usar o débito automático com medo de que a telefônica erre e cobre mais em um determinado mês.

A telefônica também está debruçada sobre sua base de clientes para poder dar crédito, especialmente para aqueles que hoje são rejeitados pelo sistema financeiro. A empresa acredita que pode fazer uma análise diferenciada com base nos dados de pagamentos de contas. Com os dados que já tem desses clientes, conseguem saber o comportamento financeiro deles. A Tim também está engajada a conseguir que o telefone pré-pago possa ser usado para fazer compras, como um cartão de banco, aumentando o acesso de diversos clientes a meios de pagamentos digitais. 

O movimento da TIM exemplifica que as telefônicas estão dispostas a entrar para valer no mercado financeiro, seja direta ou indiretamente. Especialmente por conta da agenda BC# que a partir do novembro começa a mudar a relação dos clientes com os bancos por meio do Pix, o novo sistema de pagamentos, e também por conta do open banking, que vai permitir o acesso aos dados de crédito de diferentes clientes.

O Pix muda especialmente o sistema de pagamentos de contas das telefônicas, hoje dependentes dos boletos e de contas em bancos tradicionais. A Vivo afirma que a agenda BC# vai permitir que a empresa se torne um hub de serviços digitais para seus clientes. A Claro também estuda o lançamento de serviços financeiros. Segundo alguns analistas, as telefônicas correm para se tornarem super Apps, ou seja, mais uma revolução no setor que começou com tarifas fixas, depois teve que lidar com a chegada do WhatsApp — outro na corrida para se tornar um super App — , partiu para serviços de televisão e internet e agora engata um namoro com o setor financeiro. Clientes, elas têm de sobra: 80% dos brasileiros têm um celular hoje em dia. O potencial para oferecer serviços, é imenso. 

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