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O keynesiano enrustido da Grã-Bretanha

Ministro das Finanças, George Osborne, adia corte de gastos para preservar o crescimento econômico. A pergunta que resta: até quando isso será possível?

Por Robert Skidelsky 24 dez 2014, 12h38

Há uma crescente apreensão entre os especialistas financeiros britânicos de que o ministro das Finanças, George Osborne, não esteja nem de longe tão determinado a cortar gastos quanto ele finge estar. Osborne estabeleceu prazos para si mesmo para equilibrar o orçamento, mas quando a data chegar, com as contas ainda desequilibradas, ele simplesmente irá estabelecer um novo prazo.

Levemos em conta alguma aritmética fiscal. Quando Osborne se tornou ministro, em 2012, o déficit orçamentário – com os gastos deduzidos da receita – era de 153 bilhões de libras (239 bilhões de dólares), ou 10,2% do PIB. Ele prometeu que até 2015 o déficit seria reduzido para apenas 37 bilhões de libras, ou 2,1% do PIB – o equivalente a equilibrar os gastos e a receita atuais. Em vez disso, espera-se que o déficit de 2014-2015 seja de 97 bilhões de libras. A conclusão é que a tentativa de equilíbrio tenha sido adiada até o orçamento de 2019-2020.

Osborne fala sobre a necessidade de cortar gastos, mas suas ações dizem o contrário. Embora ele tenha prometido reduzir os gastos em mais de 10 bilhões de libras até hoje, ele cortou menos do que a metade disso, simplesmente estendendo o seu programa de cinco anos de corte em mais alguns anos. Como resultado, Osborne, o garoto-propaganda da austeridade britânica, está começando a parecer um keynesiano enrustido.

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Há uma escola de pensamento que sustenta que o compromisso, e não o desempenho, dá credibilidade a uma política. Por exemplo, o Banco da Inglaterra está comprometido em atingir uma inflação de 2% “em médio prazo”. A inflação anual não foi de 2% nos últimos seis anos, mas é possível que o comprometimento da instituição financeira tenha tido algum efeito em baixar as taxas de juros.

Os defensores de Osborne podem utilizar o mesmo argumento para a sua política fiscal. Segundo eles, uma política de consolidação fiscal de credibilidade teria o mesmo efeito estimulante na confiança do que a consolidação fiscal em si.

Os economistas chamam isto de “efeito sinalizador”. Se você anunciar que pretende equilibrar as contas em cinco anos e agendar diversos cortes de gastos, os consumidores, aliviados do seu medo de futuros aumentos de impostos, começarão a gastar mais livremente. Isto fará a renda nacional crescer e, com sorte, o déficit orçamentário começará a encolher, mais ou menos de acordo com o planejado, sem exigir muita, ou mesmo nenhuma, contenção.

Com a sua ênfase na importância de sinalizar, a economia entra no território pós-modernista. O sinal – neste caso, a promessa de equilibrar o orçamento – cria a realidade. As pessoas começam a se comportar como se as contas estivessem equilibradas, ignorando o fato de que não estão. Quando você acredita na narrativa, começa a agir de um modo que a faz tornar-se realidade.

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Na verdade, não acredito que o próprio Osborne tenha atribuído importância aos efeitos sinalizadores de seus pronunciamentos. Ele queria mesmo equilibrar o orçamento fazendo os cortes de gastos que prometeu. Se acabou se revelando mais keynesiano do que pretendia, foi por razões pragmáticas.

O que os ideólogos do livre mercado seguidamente falham em perceber é que políticas eventualmente transformam formuladores de políticas em keynesianos em algum nível. Não importa quanto um político defenda um aperto de curto prazo para benefícios de longo prazo, os eleitores só têm estomago para uma determinada quantia de “sofrimento”. Então políticos sensíveis desaceleram os cortes que o mercado exige e pedem empréstimos que sabem que não conseguirão pagar a fim de manter os serviços públicos funcionando.

É claro, não se deve dar muito crédito a Osborne pelo seu keynesianismo enrustido. Um verdadeiro keynesiano teria dito que o que era necessário, em 2010, era uma expansão fiscal, não uma consolidação. Osborne acreditou, ou parecia acreditar, que a austeridade aceleraria a recuperação econômica ao restabelecer a confiança nas finanças do governo.

Mas há um forte argumento de que os cortes que Osborne fez de fato impediram a recuperação econômica ao remover o poder de compra de uma economia que já sofria com uma deficiência de demanda agregada. O resultado foi uma estagnação econômica de 2010 a 2013, comprometendo a habilidade de Osborne de atingir as suas metas de redução de déficit.

Agora que Osborne novamente prometeu novos cortes e um novo prazo de cinco anos para equilibrar o orçamento, a questão é se ele irá cumprir sua palavra desta vez. Sim, a economia britânica finalmente começou a crescer; e sim, espera-se que o crescimento continue. Mas há alguma razão para acreditar que a recuperação não será minada por outros cincos anos de austeridade, levando Osborne (ou seu sucessor) a adiar o prazo outra vez?

Todos concordamos que o que acontece com o orçamento afeta a economia. Mas eu argumentaria, como fez Keynes, que “o boom, não a crise, é o período certo para medidas de austeridade no Tesouro”. Tentar cortar gastos durante uma crise, como Osborne está fazendo, é prolongá-la. E, como ele está aprendendo a contragosto, isso significa adiar o dia em que as contas estarão equilibradas.

Robert Skidelsky é membro da Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha e professor emérito de política econômica na Universidade de Warwick.

© Project Syndicate, 2014

(Tradução: Roseli Honório)

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