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O consumo consciente impulsiona as vendas de brechós

A diversidade de produtos e a crise econômica também ajudam a emplacar a tendência

Por Paula Pacheco Atualizado em 6 nov 2020, 09h41 - Publicado em 6 nov 2020, 06h00

O comportamento é um clássico. Roupas que ficam no fundo do guarda-roupa ou na parte de baixo das pilhas dificilmente são a escolha do dia a dia e, sem uso, acabam servindo apenas para abarrotar cabides e prateleiras. Agora, porém, elas podem ter um novo destino — os brechós. Os jovens, especialmente aqueles que fazem parte das gerações Y (nascidos entre 1980 e 1995) e Z (1996 e 2010), têm sido os grandes incentivadores da nova tendência. Preocupados com o consumo sem limites, eles investem cada vez mais em itens que já tiveram um ou mais donos, aumentando o ciclo de vida da produção de uma das indústrias mais poluentes do mundo — a da moda. A crise econômica, que fez sumir milhões de empregos, também foi outro fator decisivo para impulsionar esse tipo de comércio.

Em 2016, meses depois de fechar a clínica de estética Beaux, no Rio de Janeiro, a advogada Flávia Sampaio, namorada do ex-bilionário Eike Batista, apostou no lançamento do PowerLook, um brechó de aluguel de vestidos de festa para a alta renda. O negócio decolou. Além do e-commerce, possui três lojas físicas e desenvolveu um projeto de expansão por meio de franquias. Na plataforma, é possível alugar um Versace por 2 000 reais ou desfilar com um modelo da própria marca por 198 reais. Quem também decidiu apostar no segmento de luxo foi a atriz Fiorella Mattheis, fundadora da Gringa. Em vez de brechó, a agora empresária prefere chamar seu negócio de recommerce (ou revenda de artigos usados). Os acessórios, principalmente as bolsas, são de grifes como Louis Vuitton e Gucci. O modelo da Chanel mais em conta — uma vintage — custa 3 490 reais. “A indústria fashion passa por uma grande revolução e o movimento da moda circular agrega valor a essa mudança”, diz ela.

Uma pesquisa da consultoria internacional Boston Consulting Group (BCG) para a plataforma Vestiaire Collective concluiu que o mercado de peças usadas de luxo representa 2% da receita total do segmento, movimentando de 30 bilhões a 40 bilhões de dólares por ano. Nos próximos cinco anos, o crescimento é estimado entre 15% e 20%. Pela projeção da BCG, em 2023 27% dos guarda-­roupas dos consumidores terão um item de segunda mão (atualmente esse número é de 21%). Para 70% dos entrevistados — 7 000 pessoas, em seis países —, o caráter sustentável desse mercado, acentuado durante a pandemia, é a primeira justificativa para a compra. Mas o aspecto econômico, a variedade de itens e a exclusividade também influenciam na decisão.

LUXO - Flávia Sampaio, do brechó PowerLook: vestido Versace por até 2 000 reais – Reprodução/Instagram

O novo comportamento tem estimulado investimentos no setor. O e-commerce Enjoei, fundado em 2009, pretende fazer ainda em 2020 uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) e captar até 1,8 bilhão de reais. Neste ano, a Redpoint Ventures e a Bossa Nova Investimentos fizeram um aporte de 7,5 milhões de reais no Repassa, o que permitirá à startup multiplicar por dez seu crescimento nos próximos dois anos. O Repassa foi fundado pelo publicitário Tadeu Almeida em 2014. As vendas, segundo ele, têm triplicado a cada ano. No modelo de negócio, quem tem roupa ou acessório para vender recebe em casa uma sacola, que é enviada para o depósito da startup, em São Paulo. Lá, as peças são higienizadas, fotografadas e exibidas no site. O comprador recebe o item em casa e o Repassa fica com uma comissão. Atualmente, o estoque conta com cerca de 150 000 peças — a maioria de moda feminina. “Não queremos ser um personal stylist para nossos clientes, mas sim pegar as peças em bom estado que estão paradas no guarda-roupa e trazer de volta para a economia”, diz Almeida.

O público infantil também está na mira dos investidores. O brechó Cresci e Perdi, focado nesse universo, conta com uma rede de 117 franquias, entre Goiás, Paraná, Minas Gerais e São Paulo. Nos primeiros meses da pandemia, a oferta de roupas caiu porque muitas pessoas preferiram doar o que não servia mais a vender. A solução foi comprar peças novas, de coleções passadas, para manter a oferta nos pontos de venda. O sucesso no mercado brasileiro fez a empresária Elaine Alves, dona do negócio, planejar voos mais altos. A ideia é levar o brechó para Portugal em 2021. “Esse mercado não vai acabar nunca”, diz. As roupas são de segunda mão, mas usá-las é cada vez mais fashion.

Publicado em VEJA de 11 de novembro de 2020, edição nº 2712

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