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Nobel de Economia premia estudos sobre trabalho e experimentos naturais

Honraria foi concedida metade ao canadense David Card, e a outra metade para o americano Joshua Angrist e o holandês Guido Imbens

Por Luana Meneghetti Atualizado em 12 out 2021, 13h06 - Publicado em 11 out 2021, 08h40

O Prêmio Nobel de Economia de 2021, batizado Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, foi concedido nesta segunda-feira, 11, para os economistas David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens. A honraria foi dada pela importância dos estudos que forneceram novas conclusões sobre o mercado de trabalho e mostraram quais conclusões sobre causa e efeito podem ser tiradas de experimentos naturais.

O canadense Card recebeu metade do prêmio “por suas contribuições empíricas para a economia do trabalho”. Já o americano Angrist e o holandês Imbens foram reconhecidos, com a outra metade em conjunto, “por suas contribuições metodológicas para a análise de relações causais”, segundo o órgão responsável pelo prêmio, que é diferente das outras categorias do Nobel, instituídas com a morte do empresário criador da premiação. O de Economia passou a ser concedido décadas depois.

Segundo o comitê, os laureados de 2021 demonstraram que muitas das grandes questões da sociedade podem ser resolvidas. A solução deles foi usar experimentos naturais para isso, aquelas situações surgidas da vida real que se parecem com experimentos aleatórios. Os economistas conseguiram responder questões como, por exemplo, o impacto da imigração nos níveis salariais e de emprego ou como uma educação mais longa afeta a renda futura. A metodologia do estudo ainda ajuda a responder uma questão mais recente: Os lockdowns reduzem a propagação de infecções?

“Uma maneira de tirar conclusões de causa e efeito é conduzir experimentos randomizados. Esse método foi muito bem-sucedido no desenvolvimento de medicamentos. Mas muitas questões nas ciências econômicas e sociais não são possíveis de serem realizadas por questões práticas e éticas por experimentos randomizados. Este ano os laureados mostram que é possível responder questões sobre causa e efeito usando experimentos naturais”, disse Eva Morik, professora e membro do Comitê.

As conclusões de causa e efeito percebidas nos experimentos naturais do trabalho de David Card foram possíveis de serem estabelecidas pelas contribuições metodológicas de Joshua Angrist e Guido Imbens. A metodologia desenvolvida por Card diferia de testes clínicos por não permitirem, por motivos éticos ou práticos, controle completo dos grupos de pessoas analisadas. Mas traziam resultados tão consistentes quanto estes, revolucionando as pesquisas sobre trabalho.

Por exemplo, em um estudo clássico de 1991, Angrist e o seu colega já falecido Alan Krueger fizeram outro experimento natural, comparando os alunos nascidos no primeiro trimestre do ano com os do quarto trimestre. Como nos Estados Unidos as crianças podem deixar as escolas quando completam 16 ou 17 anos — de acordo com cada estado –, eles perceberam que as nascidas no início do ano passaram menos tempo em educação, e também que mais à frente na vida tiveram rendimentos menores do que as que faziam aniversário no fim de ano e que, por isso, precisavam cumprir o período letivo até o final, antes de decidirem pelo abandono.

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O curioso é que a pesquisa concluiu que um ano a mais de estudos garantia 9% mais de renda, enquanto estudos anteriores demonstravam que, em média, um ano adicional de estudo dava renda 7% maior. Imaginava-se, antes disso, que uma pesquisa natural mostraria correlação menor do que 7% e não maior, afinal, o tempo de estudo poderia ser afetado não apenas por conta de mais horas de aprendizado, mas também porque as pessoas que acabavam permanecendo na escola já eram mais dedicadas ou mais afeitas a isso, ou mesmo que pertenciam a famílias mais bem estruturadas e que priorizavam a educação. Mas o puro acaso da data de nascimento, que isolava essas variáveis da análise, desmentiu a tese. Essa observação trouxe novas questões sobre como interpretar os experimentos naturais, às quais acabaram sendo respondidas por Angrist e Imbens, em descobertas sobre como aplicar melhor a metodologia dessas pesquisas e tirar dados mais confiáveis e precisos.

David Card, de 65 anos, é canadense e professor de Economia da Turma de 1950, Universidade da Califórnia, Berkeley. Ele iniciou os estudos sobre os efeitos do salário mínimo, da imigração e da educação formal no mercado de trabalho no início dos anos 1990. As conclusões foram que o aumento do salário mínimo não leva necessariamente a menos empregos e que os recursos nas escolas são muito mais importantes para o sucesso futuro dos alunos no mercado de trabalho do que se pensava anteriormente.

Sobre imigração, os resultados da pesquisa mostraram que a renda das pessoas que nasceram em um país pode se beneficiar de uma nova imigração, enquanto as pessoas que imigraram anteriormente correm o risco de serem afetadas negativamente.

Segundo o secretário de política econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, em seu Twitter, “quando lecionava economia do trabalho, os estudos do professor Card eram sempre objeto de ampla análise de debates”.

Joshua Angrist, de 61 anos, é professor de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Guido Imbens, de 58 anos, é holandês e professor de Econometria Aplicada e de Economia da Universidade de Stanford, na Califórnia. A metodologia desenvolvida por eles foi largamente adotada por pesquisadores que trabalham com dados observacionais. Os três vão dividir o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (cerca de 6,3 milhões de reais).

 

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