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Mudança tática: o que há por trás das trocas na equipe de Guedes

Ministro faz concessões à articulação política, mas traça os limites de defesa de seus domínios contra patrocinadores do aumento nos gastos públicos

Por Victor Irajá Atualizado em 30 abr 2021, 10h27 - Publicado em 30 abr 2021, 06h00

Detentor de uma visão heroica da experiência humana, o escritor americano Ernest Heming­way (1899-1961) argumentou que a coragem é a dignidade sob pressão. Cercado por forças de desestabilização, resta ao indivíduo, para não ser derrotado, desistir dignamente ou fazer as concessões necessárias para recompor as forças, desde que não coloquem os seus princípios a perder. Depois de toda a briga política envolvendo a aprovação do Orçamento de 2021 no Congresso e às vésperas da retomada da agenda de reformas na última chance deste mandato para que elas sejam aprovadas antes do início da corrida eleitoral de 2022, o ministro da Economia, Paulo Guedes, escolheu o segundo caminho.

Na terça-feira 27, o ministério realizou uma série de mudanças em seu primeiro escalão. A principal delas é a saída do secretário de Fazenda, Waldery Rodrigues, do posto. Responsável pela proposta de Orçamento feita pelo ministério, ele acabou enfraquecido após o embate de Guedes com os congressistas que buscavam mais espaço para emendas parlamentares. Guedes defendeu a atuação de seu braço direito, mas revelou que o desgaste dos últimos meses pedia mudanças. “Não tem um ministro demitindo alguém competente, leal, amigo, dedicado, sério, responsável”, disse Guedes ao anunciar que Waldery foi convidado a ser assessor especial, longe do alcance dos políticos. Agora, seria a hora de reconstruir pontes com o Legislativo.

Uma esperança de que a manobra pode dar certo aconteceu após o encontro, na segunda-feira 26, de Guedes com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que se comprometeu a dar andamento às reformas administrativa e tributária. Durante uma reunião com parlamentares do DEM, o ministro mostrou-se confiante com a aprovação dos dois textos até o fim do ano. Mas ele sabe que as resistências serão fortes, e não apenas da oposição no Congresso. Tanto aliados do governo no Legislativo como representantes de outros ministérios têm soprado aos ouvidos do presidente Jair Bolsonaro que o superministério de Guedes deveria ser desmembrado, para a recriação da pasta do Planejamento, responsável por carimbar recursos para obras, ou do Trabalho. Na visão dessa turma, que atua claramente contra o Brasil e a favor dos seus interesses, a postura fiscalista e antieleitoreira de Guedes e Waldery, que sempre foram fortes defensores do cuidado com as contas públicas, é grande adversária.

SACRIFICADO - Waldery: alvo de bombardeio dos inimigos -
SACRIFICADO - Waldery: alvo de bombardeio dos inimigos – Edu Andrade/Ascom/ME/.

Se essa manobra der certo, os beneficiados com tal movimento seriam os ministros do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, vistos no Parlamento como mais flexíveis com o déficit público (o que é verdade em relação ao primeiro, mas nem tanto com o segundo). Bolsonaro tem ouvido os argumentos e sabe que a criação de uma nova pasta, além de ajudar em sua reeleição, resolveria o problema da ausência de senadores no seu time de ministros — e isso no momento que a CPI da Covid investiga no Senado a condução da pandemia pelo governo. Conspirando dia e noite contra Guedes na Esplanada, Marinho poderia ser remanejado para o novo ministério, enquanto um senador assumiria o Desenvolvimento Regional, vistoso palanque eleitoral para 2022.

No Senado, parlamentares admitem abertamente a insatisfação por terem sido ignorados na reforma ministerial do último mês, diferentemente do que aconteceu com a Câmara, com a nomeação da deputada Flávia Arruda à Secretaria de Governo. Um dos nomes aventados para a nova pasta é do ex-­presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP), com quem Bolsonaro chegou a tratar pessoalmente sobre os remanejamentos. Alcolumbre, por sua vez, repete a parlamentares próximos que declinaria do convite por receio de perder eleitores (ele está de olho em sua reeleição no Amapá).

Embora seja pouco ilustrado em economia, como ele mesmo já declarou diversas vezes, Bolsonaro sabe que existem importantes restrições a essa estratégia. Colocar um desafeto de Guedes, como Marinho, numa pasta recriada a partir dos domínios de seu “Posto Ipiranga” poderia provocar a saída de seu “fiador” junto ao mercado financeiro, um mau passo em relação a 2022. Assessores de Guedes garantem que ele não aceitaria o desmembramento. Isolado, mas contando com a confiança da Faria Lima, o ministro virou a última resistência a blindar o governo federal dos partidários do aumento nos gastos públicos. “Guedes tem sido extremamente flexível. Mas tudo tem limite”, diz um assessor. E alguns limites, quando são ultrapassados, não têm volta.

Colaborou Felipe Mendes

Publicado em VEJA de 5 de maio de 2021, edição nº 2736

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