Mercado já sabia que o Banco Pleno era um ‘morto-vivo’
Economista explica o que está em discussão sobre mudanças no FGC: 'Regras mais duras'
O caso envolvendo o conglomerado Master e o Banco Pleno reacendeu uma discussão que costuma ficar restrita aos bastidores do sistema financeiro: até onde vai a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — e quem paga essa conta no fim do dia. Para Bruno Perri, economista-chefe da Fórum Investimentos, o fundo não está quebrado, mas saiu menor da crise. Segundo ele, houve uma descapitalização de 30% a 35% do caixa após os desembolsos ligados ao caso, o que acende um alerta sobre a sustentabilidade do modelo atual.
Mudança na estrutura
Perri defende uma mudança estrutural: que o FGC garanta o principal investido, mas não assegure integralmente os juros prometidos por bancos que pagam taxas muito acima da média. Na prática, isso obrigaria o investidor a olhar o risco antes de se encantar com a rentabilidade. Hoje, diz ele, cria-se um “apetite voraz” por retornos elevados, muitas vezes sem a devida precificação do risco. A proposta mexe num ponto sensível: a cultura de investir como se todo CDB fosse igualmente seguro, independentemente da saúde da instituição emissora.
Morto-vivo
No centro da crise, o Banco Pleno é descrito pelo economista como um “morto-vivo” no sistema. Após a prisão de seu controlador, a reputação foi abalada e as plataformas deixaram de distribuir seus produtos, inviabilizando a captação. Para Perri, o Pleno funcionava como um “apêndice” do conglomerado Master, explorando a cobertura do FGC para vender títulos arriscados como se fossem quase livres de risco. O descasamento de fluxo virou uma bomba-relógio — e a liquidação, questão de tempo.
Impacto
O impacto, porém, não fica restrito às instituições envolvidas. Para recompor o caixa do fundo, grandes bancos podem ser chamados a antecipar contribuições, o que tende a pressionar o spread bancário. Traduzindo: o crédito pode ficar mais caro para empresas e consumidores. Perri também questiona o timing da atuação do Banco Central do Brasil, sugerindo que a autoridade monetária poderia ter liquidado o Pleno junto com o Master, em novembro, após a operação policial. Ainda assim, reconhece que a intervenção final foi necessária para evitar contaminação no sistema. No fim das contas, o episódio deixa uma lição incômoda: proteção excessiva pode distorcer incentivos — e, quando a conta chega, ela nunca fica apenas no mercado financeiro.





