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Mercado financeiro amplia opções de investimentos ligadas ao agronegócio

Impulso do setor, alimentado pela alta demanda internacional por commodities e pela desvalorização do real, vem chamando a atenção dos investidores

Por Luisa Purchio Atualizado em 2 set 2021, 21h59 - Publicado em 5 set 2021, 08h00

A meca do mercado financeiro brasileiro, a Avenida Faria Lima, em São Paulo, nunca foi próxima do mundo rural — e não apenas geograficamente. À parte algumas grandes empresas processadoras de produtos agropecuários com ações na bolsa de valores, como JBS, Marfrig e BRF, eram poucas as opções para o investidor comum apostar o seu dinheiro no que é produzido nas fazendas. Para um país com forte vocação agrária, é uma imensa lacuna. Afinal, enquanto a produção dos outros setores caiu com a pandemia, a agricultura se expandiu. Em 2020, o PIB agrário foi de 1,98 trilhão de reais, 26,6% do total produzido pelo país. No primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano anterior, o Brasil cresceu 1,2%, enquanto a agropecuária, 5,3%.

Tamanho impulso, alimentado pela alta demanda internacional por commodities e pela desvalorização do real, chamou a atenção dos investidores e levou à expansão de produtos financeiros que já existiam e também à criação de novas opções ligadas ao agronegócio. Entre os papéis já disponíveis, as Cédulas de Produto Rural (CPRs), títulos negociados na bolsa que representam um produto agropecuário que será entregue no futuro, cresceram em volume negociado de 22 bilhões de reais para 56 bilhões de reais, entre dezembro de 2020 e julho de 2021. O volume negociado de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), outra modalidade de investimento ofertada por securitizadoras, passou de 48,8 bilhões de reais para 57,8 bilhões de reais, entre agosto de 2020 e agosto de 2021.

CRESCIMENTO - Bolsa: maior negociação de papéis ligados à agropecuária -
CRESCIMENTO - Bolsa: maior negociação de papéis ligados à agropecuária – Renato S. Cerqueira/Futura Press

Além dessas opções, um novo produto financeiro criado a partir de uma lei sancionada em março se revela altamente promissor. Trata-se dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro), que dotou o setor agropecuário de uma regulamentação própria e introduziu estímulos tributários como incentivo à modernização a partir de ativos negociáveis em bolsa. É um mecanismo de investimento semelhante aos fundos imobiliários, que ajudaram a transformar o setor de imóveis nos últimos anos, permitindo aos investidores aplicar recursos no segmento sem precisar necessariamente comprar apartamentos e prédios comerciais. “Além de ser uma nova opção de investimento, o Fiagro desburocratiza e democratiza o acesso ao crédito rural, pois as outras possibilidades disponíveis para os produtores traziam muitas exigências e intermediários, o que impactava no custo final do produto”, explica Larissa Wachholz, que acaba de deixar o cargo de assessora especial da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para abrir com executivos do ramo a Flora Capital, assessoria financeira dedicada à estruturação de Fiagros.

No último semestre, sete Fiagros foram protocolados na CVM, em um volume total de 2,1 bilhões de reais, e eles chegarão ao mercado em poucas semanas. Um deles pertence à Riza Asset Management, o primeiro a ser distribuído para o investidor de varejo. Mas, já em outubro do ano passado, a gestora se antecipou à tendência com o fundo Riza Terrax, com patrimônio de 1,07 bilhão de reais e composto por catorze fazendas, que combinam 51 777 hectares de área total e 35 800 hectares de área de plantio. Como não havia ainda uma regulamentação específica à época, o fundo foi enquadrado como imobiliário e investe na compra de terras para arrendá-las ao próprio produtor ou a um produtor terceiro, além de buscar terras com preços abaixo do cotado por seus modelos de avaliação. “Existia uma carência muito grande de financiamento de longo prazo. Os produtores queriam linhas de dez anos para expandir e consolidar a produção, mas os mecanismos de fomento dos bancos têm limitações”, diz Daniel Lemos, CEO da Riza. Neste ano, até julho, o fundo rendeu 5,22%. Outra instituição que resolveu apostar no ramo foi o BTG Pactual, que, de fevereiro a maio deste ano, já realizou onze aquisições de estruturas de armazenamento e terminais no valor de 555 milhões de reais. Anteriormente tão distante do mundo das altas finanças, o campo finalmente ganha a atenção que lhe é devida.

Publicado em VEJA de 8 de setembro de 2021, edição nº 2754

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