Mais política, menos juros: as respostas de Powell em dia de ‘superquarta’
Em meio a investigações, intimações, e sucessão no cargo, Jerome Powell evita embates e reforça o foco nos dados econômicos
O presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, passou boa parte da coletiva desta quarta, 28, fazendo aquilo que um presidente de um banco central raramente gosta de fazer: evitar perguntas que não sejam sobre juros.
A decisão de manter a taxa básica inalterada era amplamente esperada. O que não estava no roteiro era o clima de tensão institucional que pairava sobre a sala. Pela primeira vez desde que veio a público uma investigação criminal do Departamento de Justiça relacionada aos custos da reforma dos prédios históricos do Fed, além de intimações enviadas à instituição, Powell teve de enfrentar diretamente questionamentos sobre sua conduta e sobre o futuro da autoridade monetária.
A resposta foi cautelosa, econômica e, em vários momentos, evasiva.
Questionado pela Associated Press sobre sua presença na audiência da Suprema Corte envolvendo o caso da diretora Lisa Cook – gesto criticado pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, como politização do cargo – Powell evitou confronto. “Não respondo a comentários de outras autoridades”, afirmou. Ainda assim, justificou a ida ao tribunal afirmando tratar-se “talvez do caso jurídico mais importante nos 113 anos de história do Fed”. Ao citar Paul Volcker, que compareceu à Suprema Corte em 1985, tentou enquadrar sua decisão dentro da tradição institucional, não da política partidária.
Mas o dano já estava feito. O simples fato de o presidente do Fed precisar explicar por que foi à Suprema Corte é sintomático de um ambiente em que as fronteiras entre política fiscal, jurídica e monetária começam a se misturar.
A tensão ficou ainda mais evidente quando Powell foi questionado sobre as intimações enviadas ao Fed. “Não tenho nada para informar sobre isso hoje”, respondeu, encerrando o assunto.
Perguntado pela Bloomberg se pretende permanecer no cargo, voltou a se esquivar.
Powell também se recusou a comentar os movimentos recentes do dólar, devolvendo o tema ao Departamento do Tesouro. Tecnicamente correto, mas politicamente revelador. Em momentos de estabilidade institucional, esse tipo de resposta costuma passar despercebido. Em meio a uma crise latente, ganha outra leitura: a de um banco central retraído, consciente de que cada palavra pode ser usada fora de contexto.
O mandato de Powell termina em maio, e sua sucessão já começa a dominar as conversas em Washington. A possibilidade de um novo presidente do Fed com perfil mais alinhado politicamente, e potencialmente mais tolerante à inflação, preocupa investidores e economistas atentos à credibilidade do regime monetário americano.
O mercado, por ora, mantém a calma. As expectativas de inflação seguem ancoradas, e os rendimentos de longo prazo não sinalizam fuga de ativos. Mas a história mostra que a confiança em bancos centrais costuma se perder rapidamente, e levar anos para ser reconstruída.
Durante décadas, o Fed cultivou uma imagem de tecnocracia acima da política. Essa blindagem começa agora a mostrar fissuras. O maior desafio do Fed neste momento não está na curva de juros, e sim na preservação de sua autonomia.






