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Graça: prejuízos com corrupção na Petrobras podem ser maiores

Em teleconferência, presidente da estatal reconheceu que número de empresas e contratos investigados pela Operação Lava Jato pode ser ampliado

Por Luís Lima - 29 jan 2015, 15h39

A presidente da Petrobras, Graça Foster, admitiu que as perdas causadas à companhia por corrupção podem ser maiores, dependendo do avanço das investigações da Operação Lava Jato, da Política Federal (PF). “Novos ajustes podem ser feitos, dependendo das novas informações”, afirmou em teleconferência com analistas e investidores. No balanço não auditado do terceiro trimestre, a estatal apresentou um total de 88,6 bilhões de reais em ativos superavaliados, ou seja, que tiveram um valor contábil maior do que o de mercado. A estimativa se refere a 31 contratos firmados com 23 empresas investigadas no âmbito da Lava Jato no período entre janeiro de 2004 e abril de 2012. No entanto, segundo Graça, poderá haver a “ampliação do escopo dos contratos, empresas e do período de análise”, caso venham à tona novos indícios de corrupção.

“Se tivermos mais depoimentos em que surjam mais empresas, temos que buscar, abrir esse número e esse número (relacionado à corrupção) cresce”, afirmou. Ainda segundo Graça, a resposta para o valor provocado por atos ilícitos na empresa “não é trivial” e depende dos trabalhos da PF. A executiva ainda justificou o motivo de não ter usado a metodologia que apresentou o valor de 88,6 bilhões de reais em ativos superavaliados. “Decidimos não usar a metodologia do valor justo (de mercado) para ajustar os ativos imobilizados devido à corrupção, pois o ajuste seria composto de elementos que não teriam relação direta com pagamentos indevidos”, disse a presidente, citando como exemplo variáveis econômicas, como câmbio, taxa desconto, indicadores de risco e mudanças nas projeções de preços de equipamentos e insumos.

Graça também reconheceu a limitação da Petrobras em dimensionar as perdas provocadas por desvios devido ao fato de que diversos pagamentos foram efetuados entre empresas contratadas e fornecedores externos, ou seja, não fazem parte dos registros contábeis da estatal.

No total, a petroleira considerou 52 ativos, que somam 188,4 bilhões de reais, sendo que 21 deles estiveram com o valor contábil menor do que o justo, somando 27,2 bilhões de reais. Na teleconferência, Graça explicou que do total de 52 ativos avaliados, 24 ativos ficaram sob responsabilidade de consultorias independentes e 28 foram avaliados pela própria Petrobras, que diz ter seguido premissas dos avaliadores independentes. Com os independentes ficaram os ativos de maior valor, como as refinarias do Comperj, no Rio de Janeiro, e Abreu e Lima, em Pernambuco.

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Durante a apresentação, Foster classificou as investigações da Lava Jato como “episódios fortes e marcantes” na história da companhia e disse que irá fazer uma “limpeza muito firme e dedicada para ter uma avaliação correta para nosso patrimônio liquido”. “A posição de caixa da Petrobras, no entanto, não é afetada por ajustes da corrupção ou por reavaliação dos seus ativos”, ponderou. Ainda de acordo com Graça, a estatal segue intensificando o trabalho de aprimoramento da governança, controle interno e gestão de riscos.

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Caixa – A simulação de fluxo de caixa demonstrada pela Petrobras mostra que a companhia poderia chegar ao final do ano com 8 bilhões a 12 bilhões de dólares em caixa. A projeção considera a possibilidade de a companhia não realizar nenhuma captação ao longo de 2015. No início do ano, o volume de recursos em caixa, em dólar, seria de 25 bilhões de dólares. Na mesma simulação, a Petrobras considera uma geração operacional de 28 bilhões a 32 bilhões de dólares e investimentos no valor de 31 bilhões a 33 bilhões de dólares. A companhia também prevê desembolsos de 16 bilhões a 18 bilhões com dividendos, amortizações e juros, além da captação de 3 bilhões de dólares com a venda de ativos.

Durante a apresentação dos resultados, o diretor financeiro da estatal, Almir Barbassa admitiu a possibilidade de não pagar dividendos a acionistas, caso a situação financeira da companhia piore. “Há a possibilidade de não haver pagamento de dividendos, essa é uma alternativa que pode ser avaliada dependendo (da situação da companhia)”, disse Barbassa, sem especificar um período de tempo.

A companhia ainda projeta que o preço médio de realizações com a venda de combustíveis para 2015 é estimado em 80 dólares por barril. Entram na conta, por exemplo, o diesel e a gasolina. O preço de ambos os combustíveis será mantido, a despeito da recente tendência de queda das cotações internacionais.

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Balanço – Na madrugada da quarta-feira, a estatal anunciou lucro líquido de 3,087 bilhões de reais, em queda de 38% ante o segundo trimestre do ano passado. Os números foram divulgados após uma reunião de onze horas do Conselho de Administração da estatal, que não chegou a um consenso sobre como separar no balanço as perdas provocadas pelos desvios apontados na Operação Lava Jato dos prejuízos com outros fatores, como projetos ineficientes e atrasos causados por chuvas.

Barbassa ressaltou, na teleconferência, que a companhia tem até junho para a apresentação do balanço anual auditado, mas admitiu que considera uma ampliação desse prazo. “Dependendo de outros elementos que fogem do controle da empresa, temos que ser sempre prudentes na evolução de alternativas”, disse.

(Com Estadão Conteúdo)

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