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Fim do Gol reafirma a crise de oferta dos carros populares

Gargalos na cadeia produtiva, cenário inflacionário, e a transformação na indústria por processos sustentáveis têm dado fim a era dos carros populares

Por Luana Meneghetti Atualizado em 8 nov 2021, 14h01 - Publicado em 8 nov 2021, 13h19

A Volkswagen do Brasil confirmou na última semana o fim da produção do Gol. Lançado em 1980 e com mais de 40 anos de história, o carro surgiu como um substituto do Fusca e foi um dos maiores sucessos de venda da fabricante automotiva. Mas os gargalos na cadeia produtiva, o cenário inflacionário, e a transformação na indústria por processos que reduzam os impactos ambientais têm dado fim a era dos carros populares.

O Gol será produzido até o fim do próximo ano, quando será substituído pelo Polo Track, ainda em fase de produção com previsão de lançamento para 2023. O carro será o novo modelo de entrada da montadora no Brasil e o mais barato deles, com preço inicial superior ao do Gol. O Gol hoje custa entre 67,8 mil reais e 83,4 mil reais.

A alta nos preços dos carros populares foi desencadeada pela pandemia que gerou desequilíbrios nas cadeias de produção. As montadoras tiveram suas linhas de montagem paralisadas, mas a demanda pelos automóveis não arrefeceu como o esperado. Assim, com a queda na oferta e o aumento da demanda, os preços foram pressionados. De acordo com um levantamento da Bright Consulting, a paralisação no segundo trimestre de 2020 causou prejuízos da ordem de 42 bilhões de reais para a indústria. Somado a isso, a escassez dos chips e semicondutores – item essencial para o funcionamento dos automóveis – também tem impulsionado os preços. Insumos como aço, vidro e plástico também tiveram aumento estratosférico, que foi repassado ao produto final.

Além dos efeitos inflacionários gerados pela pandemia, a alta carga tributária no Brasil, podendo chegar a mais de 35% em carros 1.0, também inviabiliza o preço dos carros populares. A invasão dos carros populares nas ruas se deu após o governo Itamar Franco reduzir a alíquota do imposto sobre produtos industrializados (IPI), de 20% para 0,1%, benefício que perdurou até 2011.

As exigências por mudanças climáticas também têm sido um dos grandes propulsores para a extinção dos carros populares. Fabricar um carro hoje está bem mais caro que há 50 anos atrás devido às óbvias exigências dos componentes de segurança que hoje são considerados itens essenciais mesmo nos modelos mais básicos, mas também pelos compromissos ambientais. De acordo com a montadora, o objetivo é reduzir os impactos ambientais com a utilização da plataforma MQB. Além de ser mais eficiente ao permitir a fabricação de diversos modelos, permitindo a redução de gastos produtivos, o sistema torna o carro mais “leve”, gerando menos consumo de combustível e, consequentemente, menor emissão de poluentes. Os modelos Gol, Voyage, Saveiro são feitos fora dessa plataforma e todos esses modelos serão encerrados. Por fim, e não menos importante, as matrizes das montadoras estão demonstrando o interesse numa estratégia de priorizar produtos com mais margem de lucro para o mercado brasileiro, como forma de apresentar números mais vistosos na operação local.

Apesar da alta dos preços, no acumulado do ano até outubro foram vendidas cerca de 51 mil unidades do Gol no Brasil, posicionado o automóvel como o oitavo no ranking dos mais comercializados. Hoje, o carro mais barato do país é o Mobi, com modelo de entrada a partir de 47.990,00 reais para o modelo 2022.

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