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Eu não sou o meu carro

As mazelas da burocracia que nos faz perder tempo e produtividade

Fui fisgado por uma blitz! Respiro aliviado, tudo certo. Engano. O licenciamento que tinha comigo era do ano anterior. Lembrei-me de ter pago, sim, via celular. Os poderosos computadores do Detran discordaram da minha memória. Ao cabo de meia hora de burocracia, o carro foi apreendido, dando partida às penitências policialescas. Fui multado, porque “o veículo não estava licenciado”. Em todo o périplo, agentes educados me trataram com correção, até com gentileza. Todos bem-apresentados, prestativos e rigorosamente dentro das leis. Mas cumpriram regras burras.

Como o despachante cuidou da primeira etapa, ao longo de sete dias, desconheço os labirintos percorridos. O imposto tinha sido pago, mas o Detran não mandou o documento, pois havia uma multa na minha carteira. Pela minha lógica ingênua, se sou dono do carro e paguei o imposto, tenho direito a um papel em que se diz isso. Se tenho multa, se tenho carteira vencida ou se sou presidiário, nada disso altera esse direito. Eu não sou o meu carro.

Levo o novo certificado para Nova Lima, cidade onde está o carro. No posto da Polícia Militar da estrada, pergunto onde ele estaria, sendo informado com urbanidade. Por precaução, ao passar pelo quartel da polícia, paro novamente. A teoria é outra, devo primeiro liberar o carro no Detran, cujo endereço me é oferecido. Muita gentileza, mas o endereço está erra­do. Chegando ao lugar correto, espero minha vez. Ao examinar o documento, o policial informa que devo obter cópia do tal boletim de ocorrência na delegacia, em outro prédio (se já estava no computador, para que a cópia?). A impressora está de mau humor e cospe inumeráveis folhas, antes de se dignar de cumprir sua missão.

Levo o BO e volto a esperar minha vez, até que se vão os documentos para as entranhas da burocracia. Bom tempo depois, aparece um papel que devo assinar (por quê?). Mas é preciso também xerox do certificado e da minha carteira (ambos no computador do Detran). Para copiar, tenho de ir à loja próxima. Volto com os papéis e espero um tanto pelas mágicas burocráticas, fabricadas em outro recinto. Finalmente, assino um alvará que me concede o direito de reaver o carro (para que minha assinatura?). Nesse momento, já é tarde, o depósito está fechado. Mas, se há gente vigiando os carros 24 horas, por que eles não são entregues também a qualquer hora?

Tento estimar quantas horas da polícia foram consumidas para resolver um problema que não existia, além de gerar uma papelada cujos dados já estavam nos computadores — mais papel inútil nos armários. Não seria mais óbvio o computador do Detran avisar ao computador do depósito que o carro estava liberado? Como tudo se deu em horário de expediente, produzi menos, perdi tempo. E, com as horas de trabalho consumidas por dezenas de policiais, quantos malfeitores não poderiam ter sido presos? O balanço é triste. Zero benefício para a sociedade, minha produtividade perdida e alguns bandidos a menos no xilindró. Proponho uma nova regra: no dia de sua posse, o chefe desse serviço teria seu carro apreendido e seria obrigado a, pessoalmente, liberá-lo.

Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2019, edição nº 2620

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