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Estados Unidos pedem que Brasil reveja seu protecionismo

Representante dos EUA para assuntos comerciais, Ron Kirk pediu ao governo brasileiro, em carta, que reconsidere intenção de elevar impostos de importação

O representante dos Estados Unidos para assuntos comerciais, Ron Kirk, pediu ao governo brasileiro, em carta, que reconsidere seus planos “protecionistas” de aumento de tarifas de importação – algo que teria efeito negativo significativo sobre as exportações americanas.

“Estou escrevendo para dizer em termos fortes e claros que os Estados Unidos estão preocupados com os aumentos de tarifas definidos e propostos no Brasil e no Mercosul”, disse Kirk, em carta endereçada ao ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota, em 19 de setembro e tornada pública nesta quinta-feira.

Protecionismo – O governo federal anunciou neste mês a elevação do imposto de importação (II) de 100 produtos de 12% para 25%, em média, e afirmou que uma nova lista com mais 100 produtos será divulgada em outubro. Com essa medida, o Palácio do Planalto busca enfrentar a crise internacional e a concorrência de produtos estrangeiros. As tarifas, de qualquer forma, ficaram abaixo do teto de 35% estabelecido junto à Organização Mundial do Comércio (OMC).

“Vivemos um momento em que falta mercado no mundo e os exportadores vêm atrás do Brasil, que é um dos poucos países que crescem. A nossa indústria está sendo prejudicada com isso”, afirmou na época o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

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Kirk afirmou que as autoridades americanas esperam que a elevação das tarifas do Brasil impactem significativamente as exportações dos EUA para o país em áreas-chave. Ele lembrou que essas duas etapas de elevação tarifária seguem aumentos anteriores que foram implementados no decorrer do ano passado. “O aumento de tarifas de importação pelo Brasil vai restringir significativamente o comércio em relação aos níveis atuais e claramente representa medidas protecionistas”, ressaltou Kirk.

Repercussão – Ele também expressou preocupação com a possibilidade de os parceiros comerciais do Brasil responderem da mesma forma, elevando suas próprias tarifas (de importação) – uma medida que “amplificaria o impacto negativo” das ações brasileiras. Segundo o representante americano, os Estados Unidos não se sentem confortáveis com o fato de que os aumentos das tarifas sejam temporários.

O Ministério das Relações Exteriores reagiu às críticas dos EUA por meio do porta-voz do Itamaraty, embaixador Tovar Nunes. “Injustificável” e “inaceitável” foram alguns dos termos usados pelo Itamaraty para classificar o documento. “Não gostamos nem do conteúdo nem da forma. Consideramos injustificadas as críticas, não têm fundamento”, afirmou ele. “Temos um relacionamento muito bom com os Estados Unidos e essa forma de comunicação não é aceitável, não ajuda e não reflete esse bom relacionamento.”

Brasil ameaça – Da mesma forma que os americanos expressam sua crítica às políticas protecionistas do Brasil, o ministro Mantega tem usado o mesmo adjetivo para reclamar dos EUA. Nesta quinta-feira, ele reafirmou, durante entrevista concedida ao jornal Financial Times, em Londres, que a terceira rodada de relaxamento quantitativo (QE3) da política monetária do banco central americano (Federal Reserve, Fed) é “protecionista”. E ameaçou dizendo que a política vai dar início a uma nova “guerra cambial”, com consequências potencialmente desastrosas para o resto do mundo.

“É preciso entender que haverá consequências”, disse o ministro, acrescentando que o programa do Fed para estimular a economia americana “terá apenas um benefício marginal nos EUA”. “Não há falta de liquidez. E a liquidez não está indo para a produção”, acrescentou.

Para Mantega, a chamada QE3 está deprimindo o dólar e impulsionando as exportações americanas. Ele destacou que o recente anúncio do Fed causou até agora apenas uma mudança nas expectativas. “A aversão ao risco caiu, e o instinto animal dos mercados cresceu”, declarou. “As empresas japonesas já estavam reclamando da taxa de câmbio forte. Se um dólar mais fraco levar a uma intensificação da concorrência no comércio, isso também obrigará o Brasil a adotar medidas para impedir que o real se fortaleça”, declarou.

“Eu diria que hoje a moeda está em um nível razoável, ainda sobrevalorizada frente a uma cesta de moedas dos parceiros comerciais do Brasil, mas, nos níveis atuais, ela está ajudando a tornar as empresas brasileiras mais competitivas. Os EUA, a Europa e o Reino Unido são mais protecionistas do que o Brasil”, acrescentou Mantega.

(com agência Reuters)