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Em Davos, Guedes vende a imagem de um Brasil tipo exportação

O problema para conquistar os investidores continua o mesmo: a desconfiança estrangeira na gestão de Jair Bolsonaro

Por Machado da Costa, Larissa Quintino - Atualizado em 24 jan 2020, 10h40 - Publicado em 24 jan 2020, 06h00

Todos os anos, desde 1971, na penúltima semana de janeiro, a elite do planeta — financeira e política — se reúne na cidade de Davos, encravada nos Alpes suíços, para discutir os rumos da economia global. O governo brasileiro sempre se fez presente no Fórum Econômico Mundial — esse é o título do evento que reúne os figurões —, porém, diferentemente do que ocorreu nos últimos anos, neste o presidente Jair Bolsonaro deixou a tarefa maior de representar o país para o ministro da Economia, Paulo Guedes. Não por acaso. O tema escolhido para o encontro de 2020 foi meio ambiente — assunto no qual o Brasil está com a imagem, digamos assim, chamuscada. Guedes, de largada, não ajudou a retirar do governo federal a pecha de adversário do clima. Equivocadamente, afirmou que a pobreza é “o pior inimigo do meio ambiente”. Ora, na crise das queimadas na Amazônia em 2019, ficou claro que não eram pessoas necessitadas as responsáveis por intensificar os incêndios na região, mas criminosos que se acreditaram respaldados pela negligente condução das políticas climáticas da atual gestão. Além da questão amazônica, a tragédia que matou mais de 500 milhões de animais durante os incêndios na Austrália pesou na escolha do tema do Fórum de 2020. Tanto que a ativista sueca Greta Thunberg foi uma das presenças mais marcantes do evento.

No palco do mundo, o objetivo do governo federal foi justamente tirar o Brasil do foco da polêmica ambiental. Nas palestras e nas reuniões, Paulo Guedes buscava atrair o interesse de investidores para a agenda de reformas que pretende implementar. Sem o dinheiro vindo de fora, o país poderá não alcançar o ritmo de crescimento desejado para este ano. Estima-se que o PIB avance 2,3% em 2020, contudo há uma dose de otimismo em relação ao ingresso de dólares. Em 2019, a fuga das verdinhas somou 44,7 bilhões de dólares. Foi a maior retirada de moeda estrangeira do Brasil de que se tem notícia — o Banco Central faz tal tipo de cálculo há 38 anos, desde 1982. “O presidente Bolsonaro é uma pessoa que fala demais, e às vezes isso tira a atenção do que interessa no momento, que é atrair o capital estrangeiro”, diz Marcílio Marques Moreira, ex-­ministro da Fazenda.

A falta de confiança dos investidores estrangeiros, evidentemente, gera um clima de tensão no Ministério da Economia. Por isso as apresentações do titular da pasta foram pautadas pelos projetos que serão licitados nos próximos anos. Com inglês fluente e de forma muito inteligente, Guedes anunciou a abertura dos pleitos para empresas de fora e ofereceu um cardápio com opções que vão de ferrovias a infraestrutura para a instalação de rede 5G, oportunidades que somam 320 bilhões de reais em investimentos. Houve boa receptividade entre os presentes.

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Aliás, a decisão de delegar a Guedes a representação brasileira em Davos foi extremamente acertada. Há um ano, Jair Bolsonaro estreou em palanques internacionais precisamente na cidade suí­ça. Deixou uma impressão ruim. Ele fez o discurso inaugural do evento, porém decidiu usar apenas seis dos 45 minutos que lhe haviam disponibilizado, lendo um texto raso e confrontador. Ficou isolado, desmarcou reuniões e chegou a almoçar sozinho num supermercado local, desperdiçando a chance de estabelecer contato direto com líderes globais. O discurso pouco equilibrado ao longo do ano passado, especialmente na questão ambiental, só piorou a percepção internacional, provocando uma profusão de comentários receosos sobre seu compromisso de garantir o patrimônio natural brasileiro. A edição deste ano mostrou que, de certa forma, estamos na contramão do que os grandes players mundiais querem no momento. Enquanto o presidente faz frases de efeito para sua claque, os grandes fundos e investidores internacionais, por exemplo, vêm criando regras de compliance ambiental para realizar aportes em projetos e países.

PALANQUE - Luciano Huck e João Doria (com Al Gore) nos Alpes: possíveis candidatos à Presidência, os dois marcaram posição sobre as mudanças climáticas Reprodução/Instagram

O Brasil não tinha só Guedes para participar de reuniões a portas fechadas em Davos. Duas personalidades que despontam como candidatos à Presidência em 2022, João Doria, governador de São Paulo, e o apresentador Luciano Huck, aproveitaram o Fórum para marcar terreno. Posicionados mais ao centro, eles buscaram ocupar no evento o vácuo deixado pela principal autoridade política do país. Em meio aos Alpes, ambos usaram suas redes sociais para anunciar reuniões e explicar aos seguidores a importância do encontro. Um dos vídeos postados pelo apresentador da Rede Globo, em que ele aparece todo encasacado, estava na marca de 1,7 milhão de visualizações até quinta-feira 23. “Como eu tô numa fase em que eu quero aprender, onde fazer pergunta é mais legal do que saber a resposta, eu tô aqui”, disse Huck. Como base, ele utilizou um vídeo feito pela própria organização do Fórum para explicar sua ida à Suíça. “Este é um daqueles eventos para tentar fazer o mundo um lugar mais igualitário”, concluiu, com a desenvoltura de quem reforma casas de pessoas humildes na TV — mas num tom mais “presidencial”.

Não é de agora que Huck se comporta como um postulante a ocupar o Palácio do Planalto. Sua campanha já era aguardada para 2018. Com a escala na cidade suíça, pode-se dizer que começou em janeiro de 2020. “O fato é que ele é um possível candidato”, avalia Roberto Freire, presidente do Cidadania, partido que está namorando o apresentador para encabeçar sua chapa em 2022. No Brasil do futuro de Huck, educação e respaldo social serão prioridades do governo. Em conversas reservadas, ele comenta que Bolsonaro deixou de dar atenção às camadas mais pobres para promover uma reforma excessivamente liberalizante. “Não se fala mais da vida humana”, observa Freire. “Luciano tem dado declarações reiteradas para despertar a sociedade para isso.”

Doria não seguiu o mesmo roteiro. O tucano focou a atração de investimentos para São Paulo e se saiu muito bem nisso: anunciou que já tem 17,2 bilhões de reais em contratos fechados. Bom marqueteiro, publicava no Instagram cada reunião realizada com empresários. Uma delas recebeu tratamento especial, para que ele se mostrasse ao lado do ex-vice-presidente americano Al Gore (governo Clinton: 1993-2000). Não foi à toa. Mais que um político renomado, Al Gore produziu o documentário que chamou a atenção do planeta para as mudanças climáticas: Uma Verdade Inconveniente (2006).

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O futuro da economia global aponta para um mosaico que reúne integração comercial, políticas pró­-empreendedorismo, desenvolvimento de tecnologia e sustentabilidade — itens em que o Brasil historicamente sempre exibiu um desempenho medíocre, com exceção exatamente da sustentabilidade. Acertadamente, a política econômica do atual governo tem decifrado as questões ligadas aos três primeiros temas, e o que se espera é que o país deixe para trás as vexatórias colocações em rankings internacionais de competitividade. No último quesito, no entanto, éramos referência e deixamos de sê-lo. O palco montado em Davos deixou claro que o tema ambiental não é mais conversa da turminha que abraça árvore. Virou condição obrigatória para a turma do big money.

Publicado em VEJA de 29 de janeiro de 2020, edição nº 2671

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