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Economia aquecida, inflação e alta de juros alimentam dilema americano

Diminuir as despesas e aumentar as receitas seria o recomendável, mas isso parece pouco provável diante da aproximação da eleição presidencial no país

Por Luana Zanobia, Pedro Gil 15 out 2023, 08h00

A economia americana está em uma encruzilhada. De um lado, consumo em alta e geração forte de empregos. De outro, a escalada da inflação, que tem acelerado no embalo da atividade econômica aquecida. Para conter o ímpeto inflacionário, o único remédio possível é o aumento dos juros — mas o exagero na dose poderá levar à temida recessão. O dilema ecoa de Wall Street à Faria Lima, e não há saída simples em vista. É fácil entender a complexidade do cenário enfrentado pelos americanos. Atualmente, os juros da dívida pública pagos pelo governo correspondem a 2% do PIB. Segundo o banco Goldman Sachs, o percentual deverá subir para 3% se o Fed, o Banco Central dos Estados Unidos, continuar na mesma toada de juros altos. Ou seja, as contas públicas ficarão mais apertadas. “O lado bom é que não estamos diante de um cenário inédito”, disse a VEJA Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs para a América Latina.

O governo americano passou por situação semelhante na década de 1980, quando as despesas com juros também cresceram de forma acelerada. Na ocasião, a solução encontrada foi a redução do déficit primário. Agora, como no passado, a abordagem recomendada seria a implementação de um ajuste fiscal, segundo análise de Ramos. Ou seja: diminuir as despesas e aumentar as receitas, mas isso parece pouco provável diante da aproximação da eleição presidencial no país, em 2024, período em que os governos costumam ser menos ciosos com suas responsabilidades fiscais. Além disso, a situação atual é mais complicada. Nos anos 1980, a dívida do governo americano correspondia a 35% do PIB. Agora, o índice chegou a 96%.

arte EUA

O aumento dos gastos públicos é uma característica inerente ao Partido Democrata, do atual presidente, Joe Biden. Entre outras demandas de aliados políticos, Biden vem sendo pressionado a aumentar os investimentos sociais, movimento que se intensificou no pós-pandemia. Além disso, o país enfrenta agora um desafio típico das nações europeias: o envelhecimento da população. Cálculos oficiais apontam que os gastos com o Medicare, o programa governamental de saúde para idosos, aumentarão em torno de 30% na próxima década. Ao mesmo tempo, os esforços de Biden na transição para energias renováveis — mais custosas, ressalte-se — também têm pressionado as finanças públicas. De acordo com analistas, o desequilíbrio fiscal, associado ao elevado nível de endividamento, limita as ações do Banco Central. Portanto, será mais difícil conter a escalada inflacionária.

O cenário, que já era desafiador, ganhou contornos mais alarmantes com o ataque do grupo extremista Hamas a Israel. Para analistas, há chance de o conflito se estender a grandes produtores de petróleo. Se isso ocorrer, o preço do combustível tende a aumentar, o que significará combustível extra para a inflação. “Até agora, havia esperança de um pouso suave da economia americana, mas a guerra complica sempre”, disse a VEJA Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos. “O efeito inflacionário poderá levar o Banco Central americano a manter juros altos e até elevá-los”. Há alguma chance de recessão? “O risco existe, porque tudo o que está acontecendo no mundo é desfavorável”, afirma Ricupero.

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DESPESAS EM ALTA - Joe Biden: pressionado por aliados políticos, o presidente americano aumentou os gastos públicos
DESPESAS EM ALTA - Joe Biden: pressionado por aliados políticos, o presidente americano aumentou os gastos públicos (Susan Walsh/AP/Imageplus)

Ainda assim, é preciso apontar a impressionante capacidade da economia americana para resistir a turbulências, mesmo as mais severas. O ritmo surpreendente de geração de empregos, que pode ser comprovado nas placas espalhadas pelas grandes cidades, onde se lê now hiring (o equivalente americano ao brasileiro “estamos contratando”), tem levado analistas a errar constantemente as suas previsões. O mais recente indicador, divulgado há alguns dias, informou que os Estados Unidos criaram 336 000 postos de trabalho em setembro. A previsão dos especialistas apontava para 170 000. Uma frase inesquecível do americano Warren Buffett, um dos investidores de melhor desempenho de todos os tempos, traduz a força irrefreável de seu país. “Nunca aposte contra os Estados Unidos”, recomendou Buffett.

ATRASO - Powell, do Fed: críticos dizem que ele demorou a aumentar os juros
ATRASO - Powell, do Fed: críticos dizem que ele demorou a aumentar os juros (Win McNamee/Getty Images)

De todo modo, os solavancos por lá têm potencial para causar estragos no Brasil. A lógica é óbvia. Com taxas de juros altas nos Estados Unidos, os títulos públicos do país passam a entregar um retorno maior para os seus investidores. Se eles rendem mais, é natural que atraiam recursos de outras nações. Nesse sentido, os emergentes como o Brasil são mais afetados — em vez de correr risco de colocar seu dinheiro em ativos instáveis, os investidores correm para a segurança dos títulos públicos americanos, que, afinal, estão pagando mais em um cenário de juros elevados. Ressalve-se que a retirada de recursos da B3, a bolsa de valores de São Paulo, poderá causar impacto negativo na cotação das ações das empresas brasileiras. A saída de capital estrangeiro traz outro complicador: a desvalorização do real em relação ao dólar. Há algumas semanas, a moeda americana voltou a ser negociada acima de 5 reais e, segundo economistas, tudo indica que não recuará por um bom tempo.

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NAS GÔNDOLAS - Promoção em mercado americano: inflação fora da meta
NAS GÔNDOLAS – Promoção em mercado americano: inflação fora da meta (Mario Tama/Getty Images)

Nem todos os analistas, contudo, enxergam as condições brasileiras com pessimismo. Para o americano Robin Brooks, economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), “o Brasil está se tornando um porto seguro global”. Brooks lembra que, nos últimos meses, as incertezas com relação ao vigor da economia chinesa fizeram com que os mercados globais aumentassem a sua exposição ao Brasil. O especialista acha que o mesmo pode ocorrer agora, especialmente se os Estados Unidos interromperem o ciclo de alta de juros. Nesse aspecto, ele elogia o trabalho do Banco Central brasileiro, um dos primeiros do mundo a elevar as taxas para conter a inflação — e, mais recentemente, um dos primeiros a reduzi-las. Cedo ou tarde, as principais economias do mundo terão de fazer o mesmo, mas com atraso em relação ao que fez o BC do Brasil.

BOLSA - B3, em São Paulo: mercado financeiro sofre com instabilidade nos EUA
BOLSA - B3, em São Paulo: mercado financeiro sofre com instabilidade nos EUA (Cris Faga/NurPhoto/Getty Images)

Não são poucas as vozes que criticam a maneira como o Fed administrou a disparada inflacionária. Para Mohamed El-Erian, ex-CEO da gestora Pimco e presidente do Queen’s College em Cambridge, o Banco Central americano esperou demais para elevar os juros e, até agora, fez muito pouco para controlar as maiores altas de preços registradas em décadas nos Estados Unidos. Celebrado por suas previsões acertadas sobre os rumos da economia global, El-Erian está indignado com o que chama de ineficiência de Jerome Powell, presidente do Fed. “Passar os juros de zero para 2% foi quase como não aumentar”, disse. Em vez de atacar de vez o problema, Powell tratou o paciente — a economia americana — a conta-gotas, e o resultado, na avaliação mordaz de El-Erian, foi péssimo. Agora, a taxa de juros está entre as bandas de 5,25% e 5,5%, mas há quem acredite que poderá chegar a 7%. Antes da pandemia de Covid-19, o índice era 0%. Mais uma vez, a economia americana deverá provar a sua capacidade para suportar crises. A história ensina que o país venceu todas as que enfrentou. Provavelmente não será diferente agora — mas o desafio é grande.

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Publicado em VEJA de 13 de outubro de 2023, edição nº 2863

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