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CPI da Pandemia não pretende convocar Guedes, mas apura responsabilidade

Senadores querem entender papel da pasta na tese da imunidade de rebanho e na compra de vacinas; convocação do ministro não é cogitada — por ora

Por Victor Irajá Atualizado em 21 jul 2021, 15h58 - Publicado em 21 jul 2021, 15h42

Mesmo durante o recesso, os senadores que compõem a Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga as omissões e possíveis responsabilidades na gestão do governo federal durante a crise da Covid-19 não param de escarafunchar em narrativas e documentos. A CPI da Pandemia quer entender os a participação do Ministério da Economia na gestão financeira da crise — e o papel da pasta comandada por Paulo Guedes na definição das políticas. A convocação do ministro, porém, está fora do radar da CPI. “Eu sempre fui muito reticente em convocar o ministro da Economia, porque passamos por um momento muito difícil na gestão econômica e não queria misturar as coisas”, diz a VEJA o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM). “A convocação poderia, inclusive, ser nociva para os contatos internacionais, tão necessários nesse momento.”

Mesmo com o ministro fora do radar, a pasta da Economia segue na mira dos senadores. A CPI quer ouvir o secretário de Política Econômica do Ministério, Adolfo Sachsida, que defendeu a tese da imunidade de rebanho e a de improvável ocorrência de uma segunda onda de Covid-19, para realizar previsões sobre o crescimento do país e definir a destinação de recursos. A VEJA, Sachsida afirmou que já se desculpou pela hipótese de imunidade. Indagado do motivo de não ouvir o Ministério da Saúde para realizar as projeções, o secretário respondeu: “A SPE (Secretaria de Política Econômica) faz previsoes de PIB. Nesse sentido, nos limitamos a isso”. Perguntado se os dados não se baseavam na percepção de arrefecimento da doença, e tendo constatado que a segunda onda da doença matou mais do que a primeira, Sachsida preferiu não responder.

“Ele tem que dar explicações”, afirma Omar Aziz. “Ninguém é responsável por nada nesse governo. Se o presidente bate de moto num poste, ele bota a culpa no poste — ou manda prender quem botou o poste ali. Essa prática tem sido copiada entre os designados dele, de sempre achar um culpado para os próprios erros”, afirma ele. Sobre a ausência de consultas ao Ministério da Saúde por parte do Ministério da Economia para realizar projeções do crescimento do PIB, Aziz admite que os equívocos serão apurados. “Ninguém nos garantia que a Covid chegaria e nos deixaria sem nenhuma ação do governo. Estamos trabalhando em cima de 540 mil vidas perdidas e milhões de pessoas com sequelas”, afirma. “A aposta do governo em um crime sanitário gravíssimo será apurada. Os que defenderam que as pessoas saíssem por aí e se contaminassem em nome de uma suposta imunidade de rebanho serão investigados”, afirma.

Em resposta a um requerimento de informação do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI da Pandemia, o secretário Saschida afirmou que “não houve qualquer comunicação e/ou troca de documentos do Ministério da Saúde (MS) com a SPE” para a realização das projeções. No ofício, o secretário alega que os números foram projetados com base em uma série de informações levantadas pela equipe técnica da SPE acerca da evolução da pandemia, afirmando ainda que as projeções levam em consideração “o mínimo de inferências de natureza epidemiológica”.

A projeção do Ministério da Economia, porém, levava em consideração a teoria cantada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus assessores de que o país atingiria a chamada imunidade de rebanho, quando parcela significativa da população teria se contaminado pela Covid-19 e criado anticorpos, rechaçando a possibilidade de uma segunda onda da doença, o que acabou acontecendo com força durante o início deste ano. Em novembro, o secretário chamou de “questão hipotética” a possibilidade de uma segunda onda da doença.

Omar Aziz afirma ainda que quer apurar a responsabilidade do Ministério da Economia sobre a demora na compra das vacinas da Pfizer. “Queremos entender o papel deste secretário na construção dessa medida provisória que autorizou o governo a comprar vacinas”, diz ele. A CPI quer entender por que a Economia excluiu da MP um dispositivo que facilitava a aquisição de vacinas da Pfizer e da Janssen, que tratava sobre a assunção dos riscos em torno de possíveis e eventuais efeitos colaterais. Guedes colocou-se contra o dispositivo, e encontrou coro no presidente Jair Bolsonaro e sua já folclórica alusão à possível mutação das pessoas em jacarés caso tomassem a vacina da farmacêutica americana.

Apesar de Omar Aziz projetar que o requerimento de convocação de Sachsida deve ser votado na primeira quinzena de agosto, senadores ouvidos por VEJA afirmam que os trabalhos das duas primeiras semanas após a retomada da CPI devem voltar-se a esmiuçar o suposto esquema de corrupção existente nos contratos para a compra da vacina Covaxin, foco atual da comissão. “Temos algumas linhas de investigação muito sérias e precisamos fechar a convocação das testemunhas do caso Covaxin. Precisamos abrir, também, para a novas oitivas de testemunhas que já foram ouvidas, como o ex-ministro Eduardo Pazuello”, afirma a senadora Simone Tebet (MDB-MS).

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