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Cinco razões para o crescimento econômico fraco

Segundo o ganhador do Nobel Michael Spence, governos e analistas precisam aprender a fazer previsões econômicas mais acertadas para que seja possível combater os problemas à tempo

Por Michael Spence 3 jan 2015, 06h50

Um padrão notável emergiu desde a crise financeira de 2008: governos, bancos centrais e instituições financeiras consistentemente tiveram de revisar suas perspectivas de crescimento para baixo. Salvo raras exceções, essa tem sido a projeção para a economia global e para países individuais.

Esse é o padrão que tem causado danos reais, porque previsões superotimistas acabam adiando medidas que são necessárias para estimular o crescimento. E, por consequência, impedem a recuperação econômica. Analistas precisam chegar a um mínimo consenso sobre o que deu errado; felizmente, como a experiência do pós-crise se prolonga, algumas das peças que estavam faltando começam a ser encontradas. Eu identifiquei cinco.

Primeiramente, a capacidade de intervenção fiscal – ao menos entre os desenvolvidos – tem sido subutilizada. Como o ex-secretário-adjunto do Tesouro dos Estados Unidos, Frank Newman, argumentou em seu livro Freedom from National Debt (Livre da Dívida Pública), a capacidade de um país intervir é mais perceptível quando se examina sua balança agregada, do que pelos métodos tradicionais de comparação entre dívida e PIB.

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Relegar-se ao método tradicional resulta em perder oportunidades, particularmente porque o investimento produtivo no setor público mais do que se paga sozinho. Investimentos em infraestrutura, educação e tecnologia ajudam a conduzir o crescimento de longo prazo. Eles aumentam a competitividade, facilitam a inovação e aumentam os retornos do setor privado, gerando crescimento e emprego. Não é preciso muito crescimento para superar um investimento público vultoso – especialmente devido aos atuais baixíssimos custos de empréstimos.

Uma pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI) indica que esses multiplicadores fiscais – o segundo fator que os analistas não olham direito – variam conforme as condições econômicas. Em economias com excesso de capacidade (inclusive humana) e alto grau de flexibilidade estrutural, os multiplicadores são maiores do que se imagina.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a flexibilidade estrutural contribuiu para a retomada econômica e ajudou o país a se adaptar às mudanças tecnológicas no longo prazo. Na Europa, em contraste, mudanças estruturais encontram resistência. Estímulo fiscal na Europa pode ainda ser justificado, mas rigidez estrutural vai mitigar seu impacto no crescimento de longo prazo. As intervenções fiscais na Europa seriam mais fáceis de se justificar se viessem acompanhadas de reformas microeconômicas bem direcionadas e aumento da flexibilidade.

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Uma Terceira peça do quebra-cabeças das previsões é a disparidade entre o comportamento do mercado financeiro e o da economia real. Ao se julgar apenas pelo preço dos ativos, é possível concluir que o crescimento está avançando. Claro que não está.

Um grande impulsionador dessa discrepância é a política monetária frouxa que, ao inundar os mercados com liquidez, deveria estimular o crescimento. Mas ainda não está claro se os preços elevados dos ativos são compatíveis com a demanda agregada ou simplesmente mudando a distribuição de riqueza. Também é incerto o que vai acontecer aos preços dos ativos quando a resistência monetária for retirada.

Um quarto fator é a qualidade dos governos. Nos últimos anos, não houve falta de exemplos de governos abusando do poder em favor da elite dominante, seus apoiadores e uma variedade de interesses específicos, em detrimento de mudanças regulatórias, investimento público e a entrega de serviços e crescimento. É de suma importância que os serviços e o investimento sejam bem geridos. Países que atraem e motivam a boa formação de administradores públicos vão sair na frente.

Finalmente, o mais importante: a magnitude e a duração da queda da demanda agregada tem sido maior do que o esperado, em parte porque o emprego e a renda média têm oscilado abaixo do crescimento. Esse fenômeno precedeu a crise, e os altos níveis de dívida das famílias exacerbaram seu impacto no fim das contas. A estagnação da renda dos 75% mais pobres apresenta um grande desafio, pois diminui o consumo, mina a coesão social (e, por consequência, a estabilidade política), e prejudica a mobilidade social entre gerações – sobretudo onde a educação pública é de baixa qualidade.

Algumas vezes, a mudança ocorre num ritmo que supera a capacidade de indivíduos e governos conseguirem responder. Parece que vivemos nesses tempos. O mercado de trabalho se desequilibra conforme a tecnologia e a mudança das cadeias globais fizeram a demanda por emprego mudar mais rápido do que a oferta pode se ajustar.

Essa condição não é permanente, mas a transição será longa e complexa. As mesmas forças que estão dramaticamente aumentando o potencial produtivo da economia mundial também são responsáveis por tendências adversas na distribuição da renda. A tecnologia digital e o capital eliminaram empregos de renda média e os moveram para baixo, criando um excesso de oferta de trabalho que contribui para a estagnação da renda justamente nessa faixa média.

Uma resposta mais eficaz requer consciência da natureza do desafio e vontade de resolvê-lo investindo em áreas primordiais – em especial educação, saúde e infraestrutura. É preciso que se reconheça que passamos por um momento difícil e os países precisam mobilizar seus recursos para ajudar as pessoas com essa transição.

Isso significará redistribuir riqueza e assegurar acesso a serviços básicos essenciais. Se combater a desigualdade e promover oportunidades entre gerações causar algum tipo de ineficiência marginal e requerer alguns incentivos, valerá a pena. Planejamento público para serviços básicos como educação ou saúde pode nunca ser tão eficiente quanto uma alternativa privada. Mas onde eficiência traz exclusão e desigualdade de oportunidades, gasto público nunca será um erro.

Tomara que cresça a consciência de que esses e outros fatores terão impacto positivo nas agendas políticas no ano que começa.

Michael Spence foi laureado com o Nobel de Economia, é professor da Universidade de Nova York e pesquisador sênior na Universidade de Stanford. Seu livro mais recente é A Próxima Convergência: O Futuro do Crescimento Econômico em um Mundo Acelerado.

© Project Syndicate, 2015

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