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Caminhoneiros ameaçam entrar em greve contra a alta do diesel

Categoria cobra medidas mais efetivas do governo para conter alta dos combustíveis e afirma que o transporte de cargas está cada vez mais inviável

Por Ligia Moraes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 mar 2026, 08h58 • Atualizado em 18 mar 2026, 14h22
  • O movimento para deflagrar uma greve de caminhoneiros ganhou força nos últimos dias, em meio à alta do diesel e à avaliação de que as medidas adotadas pelo governo federal não tiveram efeito prático para a categoria. Lideranças do setor afirmam que a mobilização já foi deliberada em assembleias e pode se concretizar no curto prazo, com adesão de motoristas autônomos e também de profissionais contratados por transportadoras.

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    À frente do movimento, o presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, afirma que a paralisação deixou de ser uma hipótese distante. “Vai ter greve. Se for preciso, vamos fechar rodovias. A categoria já deliberou por isso e estamos articulando nacionalmente com outros grupos.”

    Segundo ele, o cenário atual é de estrangulamento financeiro da atividade. “Esse movimento agora é pela sobrevivência da categoria. Não é mais uma questão pontual, é porque a conta simplesmente não fecha.” A principal pressão vem do custo do diesel, que subiu de forma acelerada nas últimas semanas, impulsionado pela alta do petróleo no mercado internacional em meio à escalada de tensões no Oriente Médio.

    Dados do setor indicam que o preço do diesel acumulou aumento próximo de 19% desde o fim de fevereiro. O reajuste ocorreu mesmo após o governo federal anunciar, no início de março, a zeragem das alíquotas de PIS/Cofins e a criação de uma subvenção para reduzir o preço do combustível. Na prática, porém, o alívio foi neutralizado por um reajuste de 38 centavos por litro promovido pela Petrobras nas refinarias no dia seguinte ao anúncio.

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    Para os caminhoneiros, a combinação entre medidas fiscais e política de preços da estatal gerou frustração e aprofundou a percepção de falta de previsibilidade. “O governo tem que assumir responsabilidade. Já sabia que a Petrobras ia aumentar o diesel depois das medidas, então, na prática, não resolveu nada para a gente.”

    Na ponta, o impacto recai diretamente sobre a renda dos motoristas. “Não compensa rodar. Tem caminhoneiro que não tem dinheiro nem para voltar de uma viagem, porque o diesel subiu e o frete não acompanha.” A dificuldade de repassar o aumento de custos para o valor do frete é apontada como um dos principais gargalos do setor. “O problema é que o custo sobe e não conseguimos repassar isso no frete. Quem contrata pressiona para pagar menos.”

    A pauta da categoria retoma reivindicações já apresentadas após a greve de 2018, quando foi instituída a política de pisos mínimos para o transporte rodoviário de cargas, por meio da Lei 13.703. Segundo Chorão, a legislação não é efetivamente aplicada. “É a mesma situação de 2018. A gente conquistou direitos, como a lei do piso mínimo do frete, mas hoje ela não é cumprida na prática.” Ele afirma ainda que há falhas na fiscalização. “Não tem fiscalização nem penalização para as empresas que não respeitam a lei, e isso acaba jogando o caminhoneiro para baixo.”

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    Entre as propostas defendidas pelo setor estão o cumprimento efetivo da tabela de frete, a criação de mecanismos de controle para garantir valores mínimos nas contratações, a isenção de pedágio para caminhões sem carga e medidas estruturais para conter o preço do diesel. “A gente precisa discutir medidas como teto para o diesel, reestatização da distribuidora e travamento eletrônico do frete para garantir o mínimo.”

    A categoria também argumenta que os efeitos da crise vão além do setor. “A isenção de pedágio em momentos de crise ajudaria não só os caminhoneiros, mas a população, porque reduz custo e impacta a inflação lá na ponta.”

    A mobilização tem caráter nacional e, segundo lideranças, já conta com adesão relevante em diferentes regiões do país, incluindo polos logísticos como os portos de Santos (SP) e Itajaí (SC). “A categoria está bem articulada, com apoio de diferentes regiões e também de motoristas contratados, não só autônomos.”

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    O potencial de impacto é elevado. Estimativas do setor apontam que o Brasil conta com cerca de 790 000 caminhoneiros autônomos e aproximadamente 750 000 motoristas celetistas. Uma paralisação coordenada dessas duas frentes afetaria o transporte de cargas e o abastecimento em diversas regiões, com reflexos diretos sobre preços e atividade econômica.

    Diante do avanço da articulação, o governo federal intensificou o monitoramento do movimento e iniciou novas rodadas de negociação. Integrantes da Casa Civil procuraram representantes da categoria nos últimos dias, enquanto o Ministério dos Transportes prepara medidas para ampliar a fiscalização do cumprimento da tabela de frete e responsabilizar empresas que descumprirem as regras.

    Em paralelo, o governo também reforçou ações de fiscalização sobre postos e distribuidoras, diante de suspeitas de que reduções de custos não estejam sendo integralmente repassadas ao consumidor. Ainda assim, o clima entre os caminhoneiros é de ceticismo quanto à efetividade das medidas.

    A orientação inicial das lideranças é que a paralisação ocorra, em um primeiro momento, sem bloqueios de rodovias, como forma de evitar multas. A estratégia prevê que motoristas deixem de rodar ou permaneçam parados em pontos de apoio, como postos de combustível. A possibilidade de interdição de estradas, no entanto, não está descartada.

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