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Bolsa brasileira é das mais baratas do mundo e perde até para a argentina

O Brasil tem as ações com maior desconto da região, mas mesmo assim não está atraindo investidores, devido às incertezas políticas e fiscais

Por Luana Meneghetti Atualizado em 18 nov 2021, 17h41 - Publicado em 18 nov 2021, 14h05

O que já vinha indo mal nos últimos tempos, está ficando pior. A bolsa brasileira, B3, vem desempenhando mal há alguns meses, com quedas acentuadas bastante relacionadas à conjuntura interna de ruídos políticos e fiscais, que começaram a penetrar no cenário mais fortemente a partir do segundo semestre deste ano. O presidente Jair Bolsonaro tem sido um grande catalisador para os resultados ruins, primeiramente com uma radicalização do discurso político antes do feriado de 7 de setembro e, depois, com a intensificação de declarações e medidas populistas na busca pela reeleição, como forçando a estratégia de aprovar a PEC dos Precatórios para viabilizar o Auxílio Brasil e promessas de aumentos para o funcionalismo público. A bolsa já acumula queda de 18,94% no ano, e hoje é uma das mais baratas do mundo, perdendo até para a argentina, que, surpreendentemente, acumula ganhos de 43,22% em 2021.

O índice de relação Preço das ações/Lucro das empresas (P/L) do Ibovespa, bastante usada pelos investidores que procuram ações baratas, está sendo negociando em 6,87 P/L. No início do ano, esse índice estava em patamares de 23 P/L. Dessa forma, na comparação com os países da América Latina, o Brasil tem as ações mais baratas. No Peru, esse índice é de 15,32 P/L, na Argentina, de 14,18 P/L, na Colômbia, de 11,68 P/L, e no Chile, de 10,20 P/L. Mesmo na comparação em dólar, o preço dos ativos do Brasil ainda são os mais baratos. “Considerando esse múltiplo, a bolsa brasileira realmente é uma das mais baratas, mas isso não quer dizer que seja hora de comprar ações, porque temos uma conjuntura macroeconômica bastante desafiadora”, diz Rodrigo Moliterno, chefe de renda variável da Veedha Investimentos, ligada à XP Investimentos.

Na comparação com as bolsas americanas, o desconto dos preços das ações brasileiras é ainda maior, chegando a mais de 50%. Na Nasdaq, esse índice é de 91,33 P/L, para o índice S&P 500 está em 25,75 P/L e no Dow Jones, em 20,04 P/L. “Historicamente, esse defasagem era bem menor, na casa de 45% a 40% de desconto na comparação entre os pares. Isso mostra que temos bastante oportunidades”, diz Moliterno.

A perspectiva é que esse índice no Brasil suba pouco, para algo em torno de 7 a 8 P/L, no prazo de dois anos, segundo uma média das previsões dos analistas coletada pela Veedha Investimentos. Porém, o momento agora é de bastante volatilidade com a aproximação das eleições e das incertezas sobre os rumos da política econômica para os próximos anos. “Os preços dos ativos locais vão continuar sendo influenciados majoritariamente, salvo outra crise externa, pelas eleições. Até lá, a única certeza é de bastante volatilidade”, diz Erminio Lucci, CEO da BGC Liquidez, corretora de investimentos ligada à americana BGC Partners.

Apesar dos preços baratos e das oportunidades, a bolsa brasileira não tem atraído a atenção dos investidores, muito por conta das incertezas fiscais que estão deteriorando as perspectivas econômicas, piorando as já fortes pressões inflacionárias que vêm do exterior, ao tornar o dólar volátil, e as projeções do Produto Interno Bruto (PIB) menores.

Semanalmente, o Boletim Focus, que coleta as expectativas do mercado, tem revisado as perspectivas do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (ICPA) para cima, devendo encerrar o ano em 9,77% e o próximo ano em 4,79%, fora da meta do Banco Central. O Boletim Focus e os principais bancos também já projetam um PIB abaixo de 1% ou até mesmo de zero no próximo ano. Até o próprio Ministério da Economia baixou as expectativas para o PIB para 2022, embora esteja otimista em comparação com o mercado. Segundo o Boletim Macrofiscal, divulgado pelo ministério nesta quarta-feira, 17, o governo projeta um crescimento de 2,1% no próximo ano, menor que a estimativa anterior de 2,5%. “O mercado financeiro caminha para um consenso de crescimento de zero para 2022. Sem crescimento da economia, não há expansão do lucro das empresas, o que também não justifica se arriscar em ações”, diz Lucci, da BGC Liquidez.

A bolsa brasileira tem tido um desempenho muito aquém das demais. O S&P 500, indicador de ações da bolsa de Nova York, subiu 24,9% no ano. Os mercados americanos, inclusive, acumularam recordes de ganhos neste ano: a Nasdaq com ganhos de 23,54% e o índice Dow Jones, de 17,40. Para efeitos de comparação com outros países emergentes, a bolsa do México acumula alta de 14,1% e da África do Sul, de 11,1% no ano. Além disso, frente aos países da América Latina, o Brasil é o segundo com pior desempenho, perdendo apenas para a Colômbia, que acumula queda de 19,29% em 2021.

Há dois dias, o mercado vem tentando digerir a promessa de Bolsonaro de reajustar os salários dos servidores públicos caso a PEC dos Precatórios venha a ser aprovada. O texto, que abre espaço de 91,6 bilhões de reais no Orçamento, passou na Câmara dos Deputados e agora depende de aprovação do Senado, em votação que está agendada para a próxima semana. Após a fala, a B3 fechou em queda de 1,82%, alcançando os 104,4 mil pontos, na terça-feira, 17, e continuou repercutindo para uma queda ainda maior, de 1,39%, a 102,9 mil pontos na quarta-feira, 18. “As incertezas fiscais sobretudo com a PEC dos Precatórios no Senado incentivaram movimentos mais cautelosos dos investidores, que preferem não se arriscar tanto nos papéis locais”, resume bem a Genial Investimentos, em relatório.

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