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Bancos podem precisar de socorro compulsório, diz IIF

Por Fábio Alves

São Paulo – Alguns bancos europeus na Grécia, Portugal, Irlanda e até na Espanha e Alemanha teriam de entrar num programa de recapitalização compulsória semelhante ao que o governo dos Estados Unidos forçou junto aos grandes bancos americanos, como o Citigroup, o Bank of America e o Goldman Sachs, depois do colapso do Lehman Brothers, em 2008, segundo Hung Tran, vice-diretor-gerente e chefe do departamento de mercado de capitais do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), o equivalente a uma Febraban internacional. Com o agravamento da crise da dívida soberana da zona do euro, há instituições financeiras que necessitam fortalecer seu nível de capital para evitar um problema maior, disse Tran.

Em entrevista exclusiva ao jornalista à Agência Estado, Tran, economista nascido no Vietnã há 61 anos, exortou os países do Brics (Brasil, China, Índia e Rússia e África do Sul) a contribuir com 20 bilhões de euros para um esquema conjunto com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para que a Grécia possa recomprar os seus títulos públicos no mercado secundário e assim reduzir o nível de endividamento. Tran espera um gesto simbólico dos Brics ao final da reunião anual do FMI e Banco Mundial que começa esta semana em Washington, Estados Unidos.

Veja a seguir trechos da entrevista:

P – Qual a sua expectativa em relação à reunião anual do FMI e do Banco Mundial?

R – Todos os encontros marcados para esta semana em Washington serão muito importantes, pois a economia global está enfraquecendo e a turbulência dos mercados financeiros está se agravando, então é fundamental que os políticos, ministros e presidentes de bancos centrais discutam ações coordenadas de políticas para lidar com esse problema.

P – Que tipo de medidas concretas o IIF espera que sejam adotadas nessas reuniões?

R – Primeiro, quer seja agora, quer seja nas reuniões preparatórias para o encontro de líderes do G-20 em novembro, esperamos a adoção de medidas conjuntas e coordenadas semelhantes as que foram tomadas em Londres depois da reunião de cúpula de G-20 em abril de 2009. Aqueles tipos de medidas claras, precisas e bem coordenadas serão necessárias agora para restaurar a confiança dos mercados. Segundo, os líderes mundiais deveriam concordar em adotar uma série de medidas fiscais de forma sequenciada e no tempo adequado, ajustadas para as circunstâncias de cada país. Assim, um país que estiver sob pressão para reduzir seu déficit fiscal terá que adotar medidas severas para reduzir seu déficit e restaurar a confiança dos investidores. Por outro lado, países com situação fiscal confortável, como a Alemanha e a China, deveriam tomar medidas para estimular a demanda doméstica e também dar maior suporte à economia mundial. Já os Estados Unidos, que se encontram pressionados desde o debate para aumentar o teto da dívida, deveriam elaborar um plano para endereçar seus problemas fiscais no médio prazo, mas também adotar medidas no curto prazo para evitar cair de novo numa recessão.

P – Qual a importância da ajuda financeira dos países Brics para os países da zona do euro?

R – É bem-vinda a declaração dos Brics de que se reuniriam em Washington para discutir o que podem fazer para ajudar a Europa porque reflete o reconhecimento de que os problemas da Grécia e de outros países periféricos da zona do euro, se continuarem sem solução por muito tempo, terão um impacto muito negativo na economia global, afetando suas economias também. Esses países do Brics dependem da demanda global para manter suas exportações. Mesmo gestos simbólicos podem enviar uma mensagem poderosa para os mercados financeiros de que a comunidade mundial está se unindo e ajudando para superar os problemas de curto prazo. Eu tenho tido conversas com autoridades de países Brics para que eles contemplem emprestar dinheiro à Grécia numa estrutura de cofinanciamento com o FMI. A Grécia então poderia usar o dinheiro para recomprar sua dívida no mercado secundário. Os preços atuais do mercado secundário estão num nível tal que a Grécia poderia recomprar seus títulos com um grande desconto sobre o valor de face, o que poderia resultar numa redução significativa no valor nominal da dívida grega. Então, com uma pequena contribuição, os países Brics poderiam enviar para os mercados uma mensagem muito poderosa.

P – E quanto o IIF sugere que os países Brics contribuam nesse esquema para ajudar a Grécia?

R – Os Brics e outros países fora da Europa poderiam contribuir com 20 bilhões de euros, o que duplicaria a quantia que os governos da zona do euro já concordaram em ajudar a Grécia a recomprar seus títulos públicos. Então, 20 bilhões de euros fariam uma enorme diferença para reduzir a dívida nominal da Grécia, além de que 20 bilhões divididos por um número de países resultaria numa contribuição pequena para cada um, especialmente levando em conta o nível de reservas internacionais que esses países detêm hoje.

P – O IIF apoia uma recapitalização compulsória de bancos europeus como foi feita pelos Estados Unidos depois da crise financeira de 2008 com o colapso do banco Lehman Brothers?

R – O problema de muitos bancos europeus é que eles têm grande exposição à dívida soberana na Europa. Nosso cálculo é de que os 90 bancos que passaram pelo teste de estresse pela autoridade bancária europeia detêm um total de 3 trilhões de euros em títulos de governos europeus, o que corresponde a 8% dos seus ativos, comparado com apenas 1,2% dos ativos dos bancos americanos que está em títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Portanto, à medida que os papéis de governos europeus têm seu rating rebaixado, há uma preocupação com as perdas potenciais que esses bancos terão de enfrentar. É importante saber identificar quais bancos precisariam de uma recapitalização. Diversos bancos nos países problemas, como Grécia, Portugal, Irlanda, e até alguns bancos na Espanha e na Alemanha, estão provavelmente numa posição fraca e precisariam agir para fortalecer seu capital. Mas há também bancos em posição mais forte em termos de capitalização e também em lucros apresentados nos últimos três anos. Esses bancos terão condições de enfrentar possíveis perdas com títulos públicos de governos europeus.

P – Com a deterioração da situação dos bancos mundiais com o recrudescimento da crise financeira, o IIF apoia a entrada em vigor das regras de Basileia III já em 2012?

R – Achamos que o acordo de Basileia III em termos de melhor qualidade e maior quantidade de capital exigido para os bancos, com o cronograma de entrada em vigor já estabelecido, é uma boa medida. Será desafiador para os bancos, mas os bancos têm condições de atender a essa demanda. Contudo, não concordamos que a Basileia III imponha medidas adicionais ao que já havia sido acordado, como a adoção a sobretaxa (porcentual adicional de capital exigido ao que já havia sido estabelecido sobre o acordo anterior) para os maiores bancos do mundo em termos sistêmicos nem uma antecipação do cronograma de implementação das regras, além de imposição de exigências adicionais sobre os níveis de liquidez e muito menos a imposição de imposto sobre as transações financeiras. Então, essas medidas adicionais além do que foi acordado nas regras da Basileia III, seriam algo inadequado para o momento atual porque colocariam mais pressão sobre os bancos, que assim não poderiam emprestar dinheiro e contribuir para a recuperação da atividade econômica mundial. Temos observado um movimento de desalavancagem persistente nos últimos três anos. E agora que o setor público também está reduzindo sua alavancagem, é muito difícil sustentar o crescimento econômico.

P – Qual o impacto para a economia mundial que teria essas medidas adicionais à Basileia III?

R – No geral, se tudo isso for implementado, achamos que o impacto cumulativo líquido seria de reduzir o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2,3 ponto porcentual ao longo dos próximos cinco anos nos Estados Unidos, na zona do euro, no Reino Unido, na Suíça e no Japão, comparado com o cenário das regras acordadas sem essas medidas adicionais.