Banco central dos EUA interrompe ciclo de cortes e mantém juros contra vontade de Trump
O Federal Reserve optou por cautela a despeito das pressões da Casa Branca
O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) decidiu nesta quarta-feira, 28, manter os juros locais no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano, como era esperado pelo mercado financeiro. Com isso, a autoridade monetária interrompeu o ciclo de cortes que era promovido desde outubro do ano passado. A postura cautelosa contraria a vontade do presidente Donald Trump, ferrenho defensor de cortes radicais na taxa.
“Os indicadores disponíveis sugerem que a atividade econômica tem crescido em ritmo sólido. A geração de empregos continua pequena e a taxa de desemprego mostrou alguns sinais de estabilização”, diz o comunicado publicado pelo Fed na tarde desta quarta-feira. “A inflação segue um tanto elevada”, conclui.
Apesar do Fed ter mantido os juros no mesmo nível, a taxa básica entre 3,5% e 3,75% é a menor praticada nos EUA em cerca de três anos. Em paralelo, a inflação americana encerrou o ano de 2025 em 2,7%, segundo dados do governo, portanto acima da meta de 2% perseguida pela autoridade monetária local.
O mercado considera provável que dois cortes de juros aconteçam até o fim do ano, mas sem perspectiva em relação às datas. O Fed frisou que está preparado para ajustar sua política monetária caso “riscos que podem impedir o cumprimento das metas do Comitê (de Política Monetária) emerjam”.
Na deliberação anterior do Fed, em dezembro de 2025, a autarquia cortou os juros locais em 0,25 ponto percentual. Foi o terceiro corte consecutivo, motivado por um enfraquecimento dos dados de emprego nos EUA. A autoridade monetária havia reforçado, contudo, que as incertezas sobre as perspectivas econômicas permaneciam elevadas — algo reforçado no comunicado de hoje: “O Comitê está atento aos riscos de ambos os lados de seu mandato duplo (controle da inflação e garantia de emprego)”.
O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, virou alvo de uma investigação criminal federal neste mês de janeiro, episódio que o mercado interpretou como mais uma pressão do governo contra a política monetária vigente. O caso envolve um depoimento que Powell prestou ao Senado americano sobre um projeto de reforma da sede do Fed em Washington (DC).
O presidente dos EUA tem prometido que os juros praticados no país vão cair rapidamente depois que Jerome Powell for substituído por um indicado da Casa Branca. O mandato de Powell vai até o mês de maio. Até lá, outras duas deliberações sobre os juros vão ocorrer, em março e abril.
Trump ainda não anunciou quem vai indicar para substituir o atual comandante do Fed. “Acho que vamos ter um anúncio (do sucessor de Powell) muito em breve”, disse o presidente dos EUA durante discurso a apoiadores na terça-feira, 27, no estado de Iowa. “Vocês vão ver os juros caírem muito”, concluiu. Em falas anteriores, Trump xingou Powell de “burro” e disse que ele trabalha contra o país ao fixar os juros em níveis elevados.
Parte do mercado teme a escolha da Casa Branca para o próximo presidente do Fed. O receio é de que o indicado de Trump busque atender às demandas do presidente, como ele promete, ao invés de se guiar pela análise econômica. O futuro da política monetária é uma das frentes em que os Estados Unidos não estão transmitindo muita confiança ao mercado. O dólar tem perdido valor globalmente neste início de ano, com desvalorização de 5,5% em relação ao real em menos de um mês. A moeda americana está cotada em praticamente 5,20 reais na tarde desta quarta-feira, o menor valor em cerca de dois anos.





