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As razões para Rubem Novaes deixar o Banco do Brasil

'Presente de aniversário' do ministro Paulo Guedes, a saída foi articulada em maio e a sucessão ainda é incerta

Por Victor Irajá - 25 jul 2020, 15h53

Nascido em agosto, o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, pediu um presente de aniversário ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Prestes a completar 75 anos, Novaes está cansado. Defensor ferrenho da privatização do banco e escolha pessoal do ministro desde a transição, Rubem Novaes alegou a Guedes que não tem mais idade para administrar o Banco do Brasil em um período tão difícil, com a pandemia da Covid-19 assolando os planos iniciais dele, e as polêmicas envolvendo posicionamentos recentes da instituição. Impedido de viajar ao Rio de Janeiro, sua cidade natal, para ficar com os netos e a esposa, a saudade de casa também pesou na decisão. “Ele estava de saco cheio”, diz um auxiliar do ministro. Defensor ferrenho da privatização, Novaes tinha como cerne de sua gestão no BB a preparação da empresa para a desestatização, mas viu o assunto passar a ser vetado pelo presidente Jair Bolsonaro.

A carta de demissão de Novaes foi entregue a Paulo Guedes em maio e a confirmação da saída foi dada pelo próprio banco em comunicado aos investidores na noite da sexta-feira 24. Em uma transmissão ao vivo realizada pela Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, no último dia 17, ele disse que sentia-se “um vírus do bem tentando enfrentar um organismo do mal”, em referência às ingerências políticas na instituição. “É muito difícil para um grupo de liberais trabalhar aqui no ambiente de Brasília”, declarou na ocasião. Auxiliares diretos do presidente confirmam que o ambiente inóspito para quem veio da iniciativa privada tocar seus trabalhos em Brasília também pesou para a decisão de saída.

No Ministério da Economia, auxiliares de Guedes afirmam que, pelo debate ter sido censurado por Bolsonaro desde o início da gestão, os técnicos da pasta não puderam sequer estruturar estudos para a concessão do Banco do Brasil. “Seria trabalho à toa. Os levantamentos e estudos iriam chegar ao Planalto e voltar para cá”, diz um executivo da Economia. Na fatídica reunião ministerial de 22 de abril, a vocação privatista de Guedes foi entoada – de forma boquirrota, é verdade. Na ocasião, o ministro disse que, apesar de ter “um liberal lá”, em referência a Novaes, não conseguira redesenhar a estruturação da instituição. “Tem que vender logo essa p…”, afirmou. Por diversas vezes, o presidente do banco corroborava com a ideia do ministro, mas afirmava que o assunto havia sido vetado por Bolsonaro.

Entre os cotados nos burburinhos do Ministério da Economia para substituir Novaes estão Pedro Guimarães, atual presidente da Caixa Econômica Federal, e Hélio Magalhães, atual presidente do conselho da instituição. Ambos são benquistos por Paulo Guedes. Guimarães, por sua vez, é queridinho do presidente Jair Bolsonaro. Segundo auxiliares diretos de Novaes, ambos são considerados bons nomes pelo atual presidente para substitui-lo, mas a escolha cabe ao ministro e ao presidente. Novaes deve deixar a instituição no mês que vem.

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Amigo do ministro, a gestão de Novaes foi marcada por polêmicas. Já começou com a suspensão de uma campanha do Banco do Brasil que abordava a diversidade, destinada ao público jovem, a pedido de Bolsonaro. Recentemente, o Tribunal de Contas da União, o TCU, suspendeu contratos de publicidade da instituição com portais marcados pela veiculação de notícias falsas, depois de o perfil Sleeping Giants alertar o banco da veiculação de anúncios em sites bolsonaristas. “Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado. Repudiamos qualquer disseminação de fake news”, publicou a conta da instituição em maio, para a fúria do filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). “Marketing do Banco do Brasil pisoteia em mídia alternativa que traz verdades omitidas”, vociferou. Depois da prensa, a instituição voltou a veicular propaganda no site.

Apesar do flerte dos partidos do Centrão com cargos polpudos no Executivo, Guedes tem se mantido firme em blindar as instituições sob seu guarda-chuva. O ministro tem argumentado ao presidente Bolsonaro que os ministérios técnicos, como o dele, o da Infraestrutura, tocado por Tarcísio Gomes de Freitas; e da Agricultura, Tereza Cristina, devem ser protegidos da ingerência da política para que o mercado continue a creditar os louros aos trabalhos, angariando investimentos em um momento tão necessário. Até agora, o presidente concordou com a leitura.

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