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ANÁLISE-Realismo da Vale agrada, mas atraso assusta mercado

Por Sabrina Lorenzi

RIO DE JANEIRO (Reuters) – A Vale agradou o mercado ao anunciar um critério considerado mais realista para informar seus investimentos, mas assustou analistas ao explicitar atrasos e aumento de custos em seus projetos.

A taxa de retorno de projetos de crescimento da mineradora medida pelo Valor Presente Líquido (NPV, na sigla em inglês) recuou mais de 50 por cento entre o plano divulgado na segunda-feira e o anunciado anteriormente, há um ano, segundo cálculos do Bank of America Merrill Lynch.

Juntos, os projetos previstos no plano atual da Vale somam investimentos totais de 59,1 bilhões de dólares ao longo de sua execução, de acordo com o banco de investimentos. No plano de 2011, somavam cerca de 44 bilhões de dólares, mas esses valores não podem ser comparáveis, visto que o programa anterior não tinha projetos que constam no atual.

O maior projeto da Vale e de toda a indústria de minério de ferro, por exemplo, foi postergado em dois anos e apresentou um aumento de custo de 72 por cento em relação à estimativa anterior, considerando toda a infraestrutura, disse o BOFAML.

A combinação negativa desses dois fatores levou o banco de investimento a reduzir em mais da metade o NPV que Serra Sul deverá acrescentar à Vale, de 20 bilhões de dólares para 8 bilhões de dólares.

Serra Sul é um projeto com capacidade de produção de 90 milhões de toneladas anuais de minério de ferro, com perspectiva de entrar em operação em 2016 – a projeção apontava anteriormente para 2014.

Entre outros projetos adiados estão Conceição Itabiritos II, Vargem Grande Itabiritos, Salobo e Rio Colorado.

“É um visão mais realista do crescimento da Vale, a companhia decidiu afastar o excesso de otimismo do passado e isto é uma mudança positiva desta nova gestão”, avaliam especialistas do City em relatório ao mercado.

A mineradora mudou a metodologia para definir seu orçamento e agora inclui no portfólio apenas projetos com encaminhamento para aprovação de licenças.

Ao considerar no seu plano de investimento anual apenas obras com potencial de passar pelo crivo de órgãos ambientais, a Vale reduziu o orçamento de gastos de 2012 em relação ao previsto inicialmente para 2011.

PRODUÇÃO ESTAGNADA

A maior produtora de minério de ferro do mundo, anunciou investimento de 21,4 bilhões de dólares para o próximo ano, valor cerca de 11 por cento inferior ao previsto há um ano para 2011, de 24 bilhões de dólares. Dificuldades na obtenção de licenças ambientais, bens e serviços atrasaram alguns projetos e reduziram este valor para cerca de 18 bilhões de dólares.

De acordo com a analista Daniella Maia, da Ativa Corretora, o plano de investimentos veio em linha com o que esperava o mercado.

“Não adianta ter metas de investimentos ambiciosas se não se consegue cumpri-las”, elogiou.

A especialista avalia que o adiamento de alguns projetos devem reduzir as metas de produção da empresa no longo prazo, com menor ritmo no aumento da capacidade.

A Vale estimou produção de 312 milhões de toneladas de minério de ferro em 2012.

Segundo o City, a capacidade de produção da companhia deverá estacionar entre 300 milhões de toneladas e 320 milhões de toneladas em 2013.

RECoMENDAÇÃO

Ao contrário da maioria dos bancos de investimentos, o Barclays e o Société Générale reduziram seus preços-alvo para os recibos de ações (ADRs) da Vale.

O Barclays reduziu o preço-alvo de 37 para 34 dólares, mas reiterou a recomendação “outperform” (desempenho acima da média do mercado), enquanto o Société Générale cortou o valor de 36 para 28 dólares, mantendo indicação de “compra”.

O Barclays atribuiu a decisão aos dados apresentados pela companhia na segunda-feira, mas o analista Jordi Dominguez, do Société Générale, justificou o corte no preço-alvo pelo risco de a Vale ser afetada pela recessão na Europa e pela redução na demanda por minério de ferro em outras partes do mundo.

Os papéis da Vale recuaram nesta terça-feira 1,65 por cento, em linha com o Ibovespa.

(Reportagem adicional de Roberta Vilas Boas)