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A volta dos gringos? Brasil retorna ao radar de investidores estrangeiros

Eleições nos Estados Unidos e coronavírus na China provocam atratividade gigantesca para as economias de países emergentes, dizem grandes investidores

Por Victor Irajá - Atualizado em 4 fev 2020, 19h26 - Publicado em 4 fev 2020, 18h22

O ano de 2019 foi especialmente ruim quando se olha para o fluxo de dólares que foram embora do país. Embora as políticas econômicas fossem acertadas, os investidores estrangeiros não estavam com um apetite tão grande assim para abocanhar maiores fatias de empresas daqui. Não à toa, janeiro deste ano marcou o momento em que a balança entre investidores brasileiros e estrangeiros se inverteu. Agora, o peso do dinheiro nacional é maior do que o do internacional na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3. Aparentemente, o ano de 2020 pode contar uma outra história: o humor do “gringo” está mudando.

Duas das principais empresas de gestão de recursos mundo afora, a UBS e a BlackRock, apontaram, em relatórios divulgados nesta terça-feira, 4, que os mercados emergentes oferecem expectativas de retorno superiores aos mercados consolidados, como o dos Estados Unidos e da China. “Nos últimos anos, os mercados emergentes tiveram uma desempenho inferior aos países desenvolvidos”, escreveu o chefe de investimentos da UBS, Mark Haefele. “Acreditamos que o crescimento está começando a mudar a chave. É hora dos investidores realocarem seus recursos para os mercados emergentes”, concluiu.

A diferença de ritmo de crescimento entre economias consolidadas e de países em desenvolvimento tornou mercados como o do Brasil alvo de investimentos viáveis, dentro de um cenário de instabilidade global. A valorização das ações destes países, destacam as instituições, está se tornando ainda mais atrativa do que o seguro mercado norte-americano e se tornaram um poço de oportunidades. A queda da economia chinesa por causa da crise de coronavírus e as incertezas que envolvem as eleições nos Estados Unidos neste ano fazem os investidores buscarem outros destinos para seus investimentos. O crescimento de 29% das maiores empresas listadas no mercado americano no ano passado — um recorde — também atingiu seu ápice, deixando pouco espaço para continuar crescendo, apontam as instituições.

Como VEJA demonstrou, o movimento de saída de capital estrangeiro da bolsa apavorou a equipe econômica no início da gestão de Jair Bolsonaro. Em 2019, foram embora do Brasil 44,7 bilhões de dólares do sistema financeiro — setor que inclui bolsa, bancos e aplicações em renda fixa. Tal ritmo de retirada, calculado pelo Banco Central, foi o maior desde que a marolinha da crise internacional de 2008 se transformou num tsunami que varreu a economia do Brasil em 2013.

O que motivou a saída dos dólares do país está relacionada com as mesmas razões pelas quais eles retornarão. A queda da taxa de juros para os menores níveis da história. Os investimentos em renda fixa perderam o brilho e deixaram de pagar “prêmios” aos investidores que se aventuravam em mercados emergentes. Acostumados com o dinheirinho pingando na conta mês a mês, sem muito esforço ou risco, fundos e gestoras internacionais — como o UBS e a Blackrock — viram esse cotidiano ser transformado pela nova realidade econômica. Desde o início da agenda de cortes na taxa básica de juros, a Selic, ainda na gestão do ex-presidente Michel Temer, em 2016, a taxa caiu de 14,25% para 4,5%. Essa redução drástica só foi possível devido aos planos de contingência fiscal — mais especificamente a implementação do Teto de Gastos —, à aprovação da reforma da Previdência e à boa vontade do Congresso Nacional de se empenhar em mudanças estruturais. Isso tudo permitiu que a bolsa brasileira registrasse recordes no ano passado e também referenda a reinclusão do país no rol de investimentos dos estrangeiros.

Enquanto o gringo volta a olhar com mais carinho para o Brasil, os investidores nacionais aproveitam para lucrar. Pelo segundo dia seguido, após o pânico global que acometeu as bolsas por conta da disseminação do coronavírus, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou em alta, desta vez de 0,81%, alcançando 115.556. O dólar, por sua vez, avançou 0,22% e terminou o dia cotado a 4,26 reais. A bolsa, caso os fundos e gestoras internacionais realmente retornem e passem a investir suas “verdinhas” por aqui, será a maior beneficiária. Resta, contudo, o governo brasileiro inserir de vez o país no contexto internacional, que está pautado em integração comercial, políticas pró­-empreendedorismo, desenvolvimento de tecnologia e sustentabilidade — pré-requisitos obrigatórios para atrair o Big Money.

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