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Grandes negócios e tendências do mercado imobiliário. Renata Firpo é publicitária, consultora imobiliária e advogada pós-graduada em Direito imobiliário

O cruzamento cotado para ser a Times Square paulistana

Proposta da prefeitura tem potencial para valorizar ponto histórico do centro da cidade

Por Renata Firpo 3 fev 2026, 11h22 • Atualizado em 3 fev 2026, 11h40
  • Durante anos, São Paulo conviveu com uma paisagem urbana marcada pelo excesso. Fachadas disputavam atenção com letreiros gigantes, empenas viravam painéis improvisados e a publicidade exterior se espalhava sem qualquer critério, criando uma metrópole visualmente saturada. A Lei Cidade Limpa, que entrou em vigor em 2006, mudou radicalmente esse panorama. Ao retirar anúncios, padronizar comunicações e devolver protagonismo à arquitetura, São Paulo não apenas “limpou” suas ruas como reorganizou sua identidade visual e reposicionou o valor simbólico e econômico de muitas regiões.

    É justamente nesse contexto que a proposta de transformar o cruzamento das avenidas São João e Ipiranga em uma espécie de “Times Square” paulistana chama atenção. A ideia, anunciada pela Prefeitura para começar a ser implantada no próximo mês, não surge como uma ruptura com a Cidade Limpa, mas como uma tentativa de reinterpretá-la. Em vez da publicidade caótica do passado, o projeto aposta em luz, arte e tecnologia como instrumentos de reativação urbana, inseridos dentro de regras claras e sob avaliação da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana.

    O centro de São Paulo, especialmente a região da República, carrega uma força simbólica enorme. Ali, a cidade se reconhece na música, no cinema, na arquitetura e na memória coletiva. A proposta de criar um boulevard iluminado, com painéis artísticos e projeções em edifícios tombados, busca ativar esse potencial sem repetir os erros de outras épocas. Não se trata de vender espaço visual, mas de criar uma experiência urbana contínua, capaz de atrair pessoas, estimular o uso do espaço público e devolver vitalidade a uma área historicamente subutilizada fora do horário comercial.

    Do ponto de vista imobiliário, esse tipo de intervenção costuma produzir efeitos diretos. Regiões que passam a concentrar fluxo, cultura e permanência tendem a se valorizar, não apenas pelo metro quadrado, mas pelo significado que passam a carregar. O mercado já aprendeu que paisagem organizada, iluminação qualificada e identidade urbana clara são ativos. Não por acaso, bairros que se beneficiaram da Cidade Limpa viram edifícios ganharem destaque, fachadas serem redescobertas e empreendimentos se reposicionarem a partir do entorno.

    A discussão sobre a modernização da própria Lei Cidade Limpa, que avança na Câmara Municipal, adiciona uma camada importante a esse debate. Entre preservar conquistas e abrir espaço para novos formatos, a cidade parece buscar um equilíbrio delicado. A diferença, agora, está na consciência de que publicidade e intervenção urbana não podem ser sinônimos de poluição visual. Quando bem reguladas, podem se tornar parte de uma estratégia maior de qualificação do espaço e de valorização territorial.

    Se o antigo cenário paulistano ensinou algo, foi que excesso desorganiza e desvaloriza. A aposta atual sugere o oposto: curadoria, intenção e respeito ao ambiente urbano. Se bem executado, o novo boulevard pode não apenas iluminar uma esquina histórica, mas sinalizar um novo capítulo na relação entre cidade, imagem, cultura e mercado imobiliário, se tornando um capítulo em que ruído visual planejado gera mais valor.

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