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Professor e coordenador do Programa Avançado em Finanças do Insper. Fatos, dados e histórias do mundo do dinheiro

O sistema financeiro está preparado para os investidores 70+?

Por que o Brasil e o mercado financeiro precisam se preparar para o aumento da população idosa em meio às transformações digitais

Por Ricardo Humberto Rocha
23 mar 2026, 16h10 • Atualizado em 24 mar 2026, 10h32
  • Caros leitores de VEJA e VEJA NEGÓCIOS, J.R.R. Tolkien escreveu que “um mago nunca se atrasa, nem se adianta; ele chega exatamente quando pretende”. Gandalf era velho, muito velho. E, ainda assim, símbolo de lucidez, prudência e autoridade moral. Na literatura, a velhice costuma ser associada à sabedoria. Na vida real, ela é mais complexa, mais exigente e mais desafiadora. Envelhecer não é perder valor, mas pode significar enfrentar limites invisíveis, especialmente em um mundo que se tornou digital, acelerado e tecnicamente sofisticado.

    É sobre isso que precisamos falar com clareza, com responsabilidade e sem ilusões. Agora, imagine-se com mais de 80 anos, quando terá um patrimônio construído ao longo de décadas. Você atravessou hiperinflação, crises cambiais, mudanças de moeda, impeachment, pandemia. Você trabalhou, poupou, investiu. Aprendeu com erros, diversificou, protegeu sua família.

    Agora, quase tudo está concentrado em telas, aplicativos, tokens, senhas, reconhecimento facial, contratos digitais aceitos com um único toque. Você ainda decide, conversa, assina. Mas algo mudou. Vejamos:

    – Pequenos esquecimentos;

    – Maior dificuldade para avaliar riscos complexos;

    – Cansaço ao ler contratos extensos na tela do celular;

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    – Confiança excessiva em quem parece ajudar demais.

    É aqui que começa o problema. Não de forma abrupta mas silenciosa, progressiva e quase imperceptível.

    “Levanta-te diante dos cabelos brancos, honra a pessoa do idoso.” (Levítico 19:32) O respeito aos mais velhos sempre foi considerado sinal de civilização. No Brasil que envelhece rapidamente, essa honra precisa sair do discurso e entrar nos protocolos do sistema financeiro.

    O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 os brasileiros com 60 anos ou mais representavam cerca de 11% da população. Em 2022 já superavam 15%. Em 2030 ultrapassarão o número de crianças de até 14 anos. Em 2040, aproximadamente um em cada quatro brasileiros terá mais de 60 anos.

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    A expectativa de vida supera 76 anos e continuará avançando. Isso significa que uma parcela crescente da riqueza nacional estará concentrada em investidores acima de 70 anos. Não é hipótese distante, não é exercício acadêmico, é matemática demográfica.

    A Organização Mundial da Saúde projeta que o número de pessoas vivendo com demência deve triplicar globalmente até 2050. A Doença de Alzheimer representa entre 60% e 70% dos casos de demência. O Brasil possui cerca de 1,7 milhão de pessoas vivendo com demência atualmente.

    Mas o ponto central não é a demência diagnosticada, é o período anterior ao diagnóstico, é o intervalo invisível, a zona cinzenta. Doenças cognitivas são progressivas e silenciosas e o declínio pode começar anos antes de qualquer laudo formal. Nesse intervalo, o investidor continua juridicamente capaz, continua assinando contratos, continua movimentando patrimônio mas sua capacidade de julgamento pode já estar comprometida.

    Estudos acadêmicos conduzidos por Sumit Agarwal, John Driscoll, Xavier Gabaix e David Laibson demonstram que erros financeiros aumentam com a idade, mesmo antes de diagnóstico formal. Pesquisas baseadas no Health and Retirement Study (HRS) indicam deterioração patrimonial já nos estágios iniciais da Doença de Alzheimer. O declínio é gradual e atinge funções executivas essenciais:

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    – Julgamento de risco;

    – Cálculo probabilístico;

    – Resistência à manipulação;

    – Compreensão contratual.

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    No mercado financeiro, essas funções são a própria base da decisão de investimento e, quando começam a falhar, o patrimônio se torna vulnerável – e vulnerabilidade, em finanças, é risco concreto.

    O mercado financeiro, por sua vez, tornou-se exponencialmente mais complexo. COEs estruturados com múltiplas barreiras. Fundos multimercado com derivativos sofisticados. Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs). Tokenização de ativos. Estruturas com riscos combinados de crédito, mercado e liquidez. São instrumentos legítimos, são instrumentos sofisticados, mas são instrumentos complexos. Complexidade exige compreensão e compreensão exige integridade cognitiva. Enquanto isso, a transformação digital avança, é rápida, é irreversível, é implacável.

    Dados do Banco Central do Brasil mostram redução consistente no número de agências físicas de bancos na última década, enquanto mais de 80% das transações bancárias já ocorrem por meios digitais. A agência do bairro fechou, o gerente virou chat, o contrato virou botão “aceitar”. Decisões que envolvem centenas de milhares, às vezes milhões de reais, são tomadas em telas de cinco ou seis polegadas.

    A presbiopia afeta praticamente todas as pessoas acima de 45 anos, a acuidade visual diminui, a leitura desacelera, a sensibilidade ao contraste se reduz. Some-se a isso o declínio cognitivo leve e, com a menor familiaridade tecnológica, o risco aumenta silenciosamente e gradualmente, mas aumenta. Golpes digitais contra idosos crescem de forma consistente. Engenharia social, falsos atendentes, links maliciosos e fraudes por telefone atingem especialmente os mais velhos.

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    A digitalização é avanço. Mas, sem adaptação, pode se tornar exclusão silenciosa. Se oferecemos salas VIP para determinados segmentos, por que não oferecer tablets configurados com acessibilidade para investidores idosos? Se exigimos certificações técnicas para quem vende produtos complexos, por que não estabelecer protocolos reforçados quando o comprador é 80+? Entre plena capacidade e interdição judicial existe uma zona cinzenta. O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) tipifica como crime a exploração financeira. O Código Civil consagra a boa-fé objetiva. A Constituição assegura dignidade da pessoa humana.

    Ignorar sinais evidentes de vulnerabilidade pode, no futuro, ser interpretado como negligência institucional. Nos Estados Unidos, a Financial Industry Regulatory Authority (Finra) permite retenção temporária de transações suspeitas envolvendo investidores vulneráveis. A Securities and Exchange Commission (SEC) incentiva o cadastro de trusted contact persons. No Reino Unido, a Financial Conduct Authority (FCA) exige políticas formais para tratamento de clientes vulneráveis.

    No Brasil, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central do Brasil possuem maturidade técnica para estruturar diretrizes específicas voltadas a investidores acima de 70 anos. Não por caridade. Não por marketing. Mas por responsabilidade sistêmica.

    Estamos preparados para um país onde grande parte da riqueza estará concentrada em investidores acima de 75 anos? Ou estamos transferindo para o Judiciário o custo da omissão institucional?

    Machado de Assis escreveu em Iaiá Garcia que “a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal”. O envelhecimento não é mal. É conquista. Mas exige maturidade institucional. Exige consciência. Exige coragem regulatória.

    C.S. Lewis afirmou que “você nunca sabe o quão forte é até que ser forte seja a única escolha que você tem”.

    O Brasil está diante dessa escolha agora e não no futuro. Quando você envelhecer, e todos nós, se tivermos sorte, envelheceremos, desejará que o sistema financeiro tenha sido não apenas eficiente, mas civilizado, consciente e responsável.

    Não é apenas uma questão de direito, não é apenas uma questão de mercado, mas, sim, uma questão de civilização.

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