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Professor e coordenador do Programa Avançado em Finanças do Insper. Fatos, dados e histórias do mundo do dinheiro

A inflação nasce no mapa

Como as guerras no Oriente Médio moldam o preço do petróleo, os juros globais e o bolso do brasileiro

Por Ricardo Humberto Rocha 10 mar 2026, 10h53 •
  • Se você está lendo esta coluna em meio a mais uma escalada da guerra no Oriente Médio, talvez já tenha sentido os efeitos antes mesmo de terminar o café da manhã.

    O petróleo sobe em Londres. O dólar oscila em Nova York. Os mercados futuros reagem em minutos. Dias depois, a gasolina encarece, o frete pressiona alimentos e os bancos centrais recalculam juros.

    Pode parecer distante. Não é.

    Para o leitor de VEJA e VEJA NEGÓCIOS, o conflito entre Israel, Irã e a presença estratégica dos Estados Unidos não é apenas um evento militar. É uma variável macroeconômica. Mas, para entender isso, precisamos voltar ainda mais no tempo.

    Desde a Revolução Industrial, o comércio internacional deixou de ser apenas troca entre portos e passou a ser motor de crescimento, expansão territorial e influência global. Produzir mais significava vender mais. Vender mais significava garantir acesso a mercados e matérias-primas. E garantir acesso exigia poder naval, rotas seguras e domínio estratégico.

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    A disputa por rotas comerciais, colônias e recursos industriais foi um dos combustíveis invisíveis da Primeira Guerra Mundial. Impérios industriais competiam por mercados consumidores e por suprimentos estratégicos.

    Na Segunda Guerra Mundial, essa lógica tornou-se ainda mais explícita. O acesso a petróleo passou a ser questão de sobrevivência militar e econômica. Nenhuma potência militar operava sem combustível. Os Estados Unidos produziam mais de 60% do petróleo mundial no início dos anos 1940. A Alemanha buscou os campos do Cáucaso, na União Soviética. O Japão, que dependia em 80% de petróleo dos Estados Unidos, avançou no Sudeste Asiático após o embargo americano de 1941. O comércio internacional deixou de ser apenas fluxo econômico e tornou-se instrumento de poder.

    As duas guerras mundiais demonstraram que crescimento econômico, logística, energia e estratégia militar são partes do mesmo sistema. É nesse ponto que a energia passa a ocupar o centro da geopolítica moderna.

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    “Controlar o mar é controlar o destino.” — Almirante Chester W. Nimitz (Nomeado comandante da frota americana no Pacífico em dezembro de 1941, após os Estados Unidos sofrerem o ataque à base de Pearl Harbor, foi o responsável pela assinatura de seu país no documento de rendição do Japão, em setembro de 1945.)

    Ali consolidou-se uma verdade permanente: segurança energética é segurança econômica. No pós-guerra, o eixo da produção deslocou-se para o Oriente Médio. Arábia Saudita, Irã, Iraque e Kuwait consolidaram-se como produtores de baixo custo. Europa e Japão tornaram-se estruturalmente dependentes dessas importações.

    A Guerra de Independência de Israel (1947–1949) teve impacto econômico limitado, mas inaugurou rivalidades regionais que moldariam o ambiente energético das décadas seguintes. A Crise de Suez (1956) revelou que não são apenas reservas que importam, mas rotas estratégicas. O fechamento do canal de Suez reorganizou fluxos globais e mostrou que gargalos geográficos podem se transformar em choques macroeconômicos.

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    Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, produtores árabes coordenaram embargo e consolidaram o uso político do petróleo. Mas foi em 1973 que o mundo mudou. Durante a Guerra do Yom Kippur, o preço do barril quadruplicou. A inflação americana superou 11% ao ano. A Europa mergulhou em estagflação. O petróleo se tornou arma diplomática. Em 1979, novo choque. Barril acima de US$ 35. Inflação americana acima de 13%. Juros superiores a 15%.

    A guerra Irã–Iraque consolidou o prêmio geopolítico estrutural. A invasão do Kuwait em 1990 mostrou que o medo antecipa a escassez. Geopolítica e crescimento chinês levaram o barril a US$ 147 em 2008. A Primavera Árabe reforçou que instabilidade é variável permanente.

    Hoje, cerca de 20% do petróleo mundial passa por Ormuz, o estreito que une o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Quando tensões entre Israel e Irã escalam, o mercado reage em minutos. Escalada militar. Ameaça a rotas. Alta do petróleo. Pressão inflacionária. Dilema monetário.

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    O Brasil ocupa posição ambígua. Como produtor relevante graças ao pré-sal, beneficia-se de preços elevados via exportações, royalties e arrecadação. Mas combustíveis pressionam o IPCA. O diesel encarece fretes. Fertilizantes sobem. Cadeias produtivas absorvem choques. O Banco Central enfrenta dilema complexo: reagir para preservar credibilidade ou acomodar um choque externo. A transição energética é gradual. Enquanto gargalos estratégicos existirem, o prêmio geopolítico permanecerá embutido no barril.

    Clausewitz escreveu que a guerra é a continuação da política por outros meios. No século XXI, a inflação muitas vezes é a continuação da guerra por outros meios. O mundo opera sob risco estrutural. A pergunta não é se haverá novos choques energéticos. A pergunta é se as economias estão preparadas para conviver com petróleo estruturalmente volátil.

    O general George Patton (um dos líderes das forças americanas durante a reconquista da Europa na Segunda Guerra Mundial) dizia que “um bom plano, executado com vigor agora, é melhor do que um plano perfeito executado na próxima semana”. Em geopolítica energética, isso é advertência econômica.

    E o Copom, diante da guerra?

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