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Maílson da Nóbrega

Por Coluna
Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história
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Quem é especulador?

Em última análise, ele financia atividades que geram riqueza

Por Maílson da Nóbrega Atualizado em 4 jun 2024, 11h00 - Publicado em 17 dez 2022, 08h00

Em fala correta, Lula disse que “não adianta só pensar em responsabilidade fiscal, temos de pensar em responsabilidade social”. As duas ideias não são antagônicas. Depois vieram equívocos e preconceitos. “Para cumprir teto fiscal, geralmente é preciso desmontar políticas sociais e não se mexe com o mercado financeiro. Vai aumentar o dólar e cair a bolsa? Paciência. Mas o dólar não aumenta ou a bolsa cai por causa das pessoas sérias, e sim dos especuladores.” Parece ter defendido a penalização do mercado financeiro, ou seja, não pagar a dívida pública. Um calote, pois.

A segunda fala contém dois erros. Primeiro, os bancos não são o único nem o maior credor do Tesouro. Representam 28,7% da dívida pública mobiliária federal. Os outros 71,3%, ainda que em parte geridos por instituições financeiras, são fundos de investimento, fundos de pensão, previdência privada e Tesouro Direto (pequenos investidores). Trata-se de poupanças individuais ou contribuições para a aposentadoria de milhões de brasileiros. O calote seria arrasador.

O segundo erro: afirmar que especuladores não são pessoas sérias. Lula não esteve só. A presidente do PT, Gleisi Hofmann, tratou a oscilação do dólar e da bolsa como “um movimento especulativo, o que é muito ruim para o país”. Na verdade, houve uma reação típica de mercados maduros, que fogem de ativos ao menor sinal de risco de perdas.

“Especulação, para os brasileiros, é sinônimo de má-fé, uma situação que não acontece em mercados maduros”

A maioria dos brasileiros vê com maus olhos o especulador. No dicionário Aurélio, diz-se que ele é um “indivíduo que age de má-fé, procurando tirar proveito de uma situação, de determinada coisa”. Nos dicionários de língua inglesa, especulador é quem “investe em ações, propriedades e outros riscos, na expectativa de ganhar, sob o risco de perder”.

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Quando vista apropriadamente, especulação é coisa de gente séria. Pode ser nociva, mas isso costuma ocorrer em mercados disfuncionais, mal regulados e por isso muito voláteis. Na maior parte do tempo, funciona bem. A especulação caracterizada por compra e venda de ativos forma preços. Emite sinais indispensáveis ao bom funcionamento da economia. Cotações em bolsas de mercadorias orientam decisões de agricultores, pecuaristas e das áreas de recursos naturais. Mudanças no clima influenciam movimentos especulativos que emanam sinais para o setor rural.

Há outras formas de definir especulação. Segundo o dicionário Cambridge, ela pode ser entendida como “atividade que imagina possíveis respostas para uma questão sobre a qual não se dispõe de informações seguras”. Pode-se especular sobre rumores de demissão de um ministro ou sobre o desenlace de uma crise conjugal. No campo da ciência, especulação pode referir-se a conjecturas sem evidência firme.

Ao falarem de modo inapropriado sobre especuladores, Lula e Gleisi não percebem que grande parte do dinheiro que eles movimentam é canalizada para financiar atividades que geram riqueza, renda, emprego e bem-estar. Em última análise, somos todos especuladores.

Publicado em VEJA de 21 de dezembro de 2022, edição nº 2820

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