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Histórias de Sucesso

Por Fabiana Monteiro Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Chairman & CEO | Editora Global Partners; especialista em liderança, educação e impacto ESG. Lideranças que formam o futuro

Decidir sem esperar

Elpidio Dell Aversana, CEO da MEC3 do Brasil, defende ação, coragem emocional e liderança baseada em ética e gente curiosa

Por Fabiana Monteiro 5 Maio 2026, 18h03 | Atualizado em 5 Maio 2026, 18h24

Não espere o cenário ideal: não adie decisões importantes nem a busca por seus objetivos. A recomendação é do executivo italiano Elpidio Dell Aversana. Ele nasceu em 1977 e cresceu em Pádua, cidade próxima a Veneza, no norte da Itália. Vindo de uma família de classe média, é filho de Basilio, militar da Aeronáutica, e de Nadia, funcionária dos correios italianos. Teve uma infância simples, compartilhada com a irmã Myriam, hoje residente no Canadá, e marcada pela forte presença dos avós maternos, Francesco e Dorina. Eles foram responsáveis por transmitir valores éticos — como responsabilidade, disciplina, cultura de trabalho e a necessidade de conquistar tudo sem depender de ninguém — que moldariam sua trajetória.

Naquele período, os recursos financeiros eram limitados. Chegou a ter, no máximo, dois pares de sapatos, adquirindo um novo apenas quando o anterior já não apresentava condições de uso — essa realidade de consumo restrito contribuiu para o desenvolvimento de disciplina e senso de responsabilidade.

A disciplina começa quando o recurso é escasso

Aos 14 anos, iniciou sua vida profissional como operário na empresa Tudertechnica, durante períodos sazonais — experiência em que teve contato direto com o ambiente produtivo e que marcaria sua formação. Nos recessos escolares, que na Itália podem durar até três meses, trabalhava com um objetivo claro: financiar suas próprias viagens pela Europa, conciliando esforço e recompensa desde cedo.

Formou-se em Direito pela Universidade de Ferrara em 2003. A escolha não foi motivada pela intenção de seguir uma carreira jurídica tradicional, mas pelo desejo de desenvolver um pensamento estruturado. Na visão de Elpidio, o Direito é uma ferramenta para analisar problemas de forma lógica — desmontar, compreender, reconstruir e solucionar desafios — seja nos tribunais ou no ambiente corporativo, contexto em que decisões exigem clareza e método.

Responsabilidade não espera estabilidade

No início da vida profissional, ainda jovem, enfrentou um dos maiores desafios pessoais: a paternidade. Tornou-se pai aos 27 anos, antes mesmo de conquistar estabilidade financeira, momento em que precisou amadurecer rapidamente. Sem recursos ou experiência, passou a lidar com forte pressão. Precisou aprender a se adaptar, gerar resultados e assumir responsabilidades que impactavam diretamente sua vida pessoal.

Ainda na Itália, trabalhou no escritório Di Franco e Associados, mas percebeu que aquela não era sua vocação. Sempre valorizou o contato com pessoas e encontrou maior identificação ao atuar como gerente de exportação na East West Style Group, empresa especialista em manufatura têxtil e desenvolvimento de produtos, focada em públicos masculino e feminino, passando a lidar com mercados internacionais. Nesse período, enfrentou o desafio dos idiomas e, com dedicação, aprendeu inglês, espanhol e português em curto espaço de tempo.

Mudar de país é recomeçar do zero

A decisão de deixar a Itália não ocorreu por uma única razão, mas pela combinação de fatores pessoais e profissionais. Naquele momento, Elpidio atuava como gerente de exportação na East West Style Group, empresa especialista em manufatura têxtil e desenvolvimento de produtos, focada em públicos masculino e feminino, quando sua esposa manifestou o desejo de retornar ao Brasil. Durante um período de férias, seu filho, Edoardo, então com 9 anos, foi descoberto por uma agência e iniciou a carreira como ator mirim na novela Passione, exibida em 2010 pela Rede Globo. Esse foi o impulso que faltava para a mudança.

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Eles vieram na frente. Cerca de um ano depois, em setembro de 2012, Elpidio foi contratado ainda na Itália pela Icoper, empresa italiana do setor industrial, sendo transferido para o Brasil com a missão de estruturar a operação local.

Ao chegar ao país, assumiu o desafio de montar um escritório comercial em São Paulo. Em 2014, a empresa passou por mudanças estruturais. Havia um desalinhamento estratégico sobre a forma de desenvolver o mercado na região, especialmente no que dizia respeito ao modelo de distribuição. Diante disso, o ciclo foi encerrado de forma profissional. A interrupção do vínculo o deixou desempregado em um momento delicado, quando precisava sustentar a esposa, Roberta, e o filho.

Em 2017, assumiu a posição de gerente para a América Latina na MEC3, empresa italiana com mais de 40 anos de história, atuação global e faturamento de cerca de 260 milhões de euros, dedicada à produção de ingredientes para gelateria e confeitaria. Naquele momento, a operação na região ainda era pequena, com 12 colaboradores.

Com o passar dos anos, a atuação se expandiu. Hoje, abrange toda a América Latina e também os Estados Unidos. A operação reúne mais de 130 colaboradores no Brasil e saiu de um faturamento inferior a 10 milhões para quase 200 milhões de reais. Para ele, nenhuma trajetória é construída de forma isolada, e seu maior senso de realização está no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de equipes.

A mente também precisa de liderança

A mudança de país foi um dos maiores desafios de sua vida. Inserir-se em um novo ambiente, sem rede de contatos ou histórico reconhecido, exigiu a reconstrução completa de sua trajetória, situação em que a resiliência se tornou indispensável, já que ninguém conhecia sua história.

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Nesse processo, enfrentou crises de pânico em 2015, fase em que precisou lidar com limites emocionais. Optou, naquele momento, por não recorrer a medicamentos, buscando compreender o processo de forma mais profunda. Com o tempo, reconheceu a importância da terapia. Após encontros com a terapeuta Luisa Rehder, recebeu um retorno positivo sobre sua capacidade de elaborar experiências de forma estruturada, o que fortaleceu sua confiança no autoconhecimento.

Hoje demonstra maior estabilidade emocional e lida com adversidades com serenidade. Para ele, a mente tem papel determinante na forma como enfrentamos a vida, e buscar apoio profissional é também um gesto de coragem.

Errar faz parte. Parar é o risco

Ao longo da carreira, identificou três comportamentos que comprometem o sucesso: o medo de errar, a acomodação e a arrogância. O erro, embora desconfortável, faz parte do crescimento. Já a acomodação impede o avanço, mantendo profissionais em uma zona de mediocridade, cenário em que oportunidades são perdidas. A arrogância, por sua vez, bloqueia o aprendizado e o debate.

Defende que líderes precisam estar abertos ao questionamento, ambiente em que o contraditório fortalece decisões. Evita formar equipes compostas apenas por “homens do sim” e valoriza profissionais que tragam contrapontos, inclusive visões mais críticas, por contribuírem para decisões mais equilibradas.

Liderar é ouvir o contraditório

Para Elpidio, o sucesso está ligado à autonomia, e a ter tempo para pensar e fazer escolhas, condição em que a liberdade se torna prática. Com o tempo, esse conceito deixou de ser apenas financeiro e passou a representar equilíbrio emocional, liberdade e independência de pensamento.

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Valoriza trabalhar com pessoas curiosas, independentemente de títulos acadêmicos, perfil em que a inquietação gera inovação. A curiosidade, em sua visão, é um motor de transformação. Também considera essencial inteligência emocional e capacidade de trabalho em equipe. Para ele, dois fatores são determinantes de resultados consistentes: relações saudáveis e ética como princípio inegociável.

A motivação não vem de fora

Elpidio defende que a motivação é uma construção individual. Cada pessoa precisa desenvolver sua automotivação e manter-se aberta às mudanças, e à adaptação contínua. Na gestão, prioriza um ambiente de confiança e defende que uma equipe bem remunerada tende a performar melhor. Sempre que possível, busca oferecer salários acima da média, acreditando que esse investimento retorna em resultados.

Adotou desde cedo uma postura proativa, assumindo desafios antes mesmo de dominar totalmente o assunto, situação em que o aprendizado ocorre na prática, sendo compensado com dedicação e aprendizado contínuo. Para ele, a confiança interna é essencial, assim como a capacidade de não se deixar paralisar pelo julgamento externo.

Disciplina também é saber parar

Hoje, aos 48 anos, mantém uma rotina disciplinada, mas com limites claros: após as 20h, desconecta-se, uma prática para preservar o equilíbrio pessoal. Considera esse um valor inegociável e incentiva sua equipe a fazer o mesmo, priorizando família e descanso.

Defensor da leitura, observa que muitos substituíram livros pelo consumo constante de redes sociais, movimento em que a profundidade dá lugar à superficialidade. Entre suas leituras está Meditações, obra clássica da filosofia estoica, que considera um guia prático sobre autocontrole e liderança ética.

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Mantém um círculo restrito de confiança com perfis diversos, grupo no qual busca visões complementares. Em decisões importantes, recorre a esse grupo, embora reconheça que a responsabilidade final é sempre individual. Para ele, liderar envolve ouvir, mas também agir, mesmo sem todas as respostas.

Na MEC3, esse princípio se reflete no dia a dia. Lançar novos produtos exige inovação constante. No setor alimentício, embora os sabores permaneçam, a forma de apresentação evolui continuamente, dinâmica em que a diferenciação é essencial. O relacionamento com clientes, nesse contexto, torna-se diferencial competitivo.

A reputação é construída, não declarada

Elpidio considera que a reputação é um ativo construído ao longo do tempo e fundamentado em ética, processo em que a consistência é determinante. Quando o comportamento é consistente, o reconhecimento surge como consequência.

Não teve um único mentor, mas construiu sua formação observando diferentes lideranças, numa trajetória em que o aprendizado veio da prática. Hoje, prioriza relações humanas de qualidade, baseadas em respeito e confiança.

Defende equilíbrio entre afeto e firmeza. Para ele, o papel dos pais é transmitir valores e preparar os filhos para lidar com frustrações, processo em que limites são necessários. Quando tudo é oferecido sem esforço, perde-se a noção de valor.

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A decisão vem antes da certeza

Para quem ainda busca direção, deixa um conselho direto: não espere pelo cenário ideal. Em sua visão, ele não existe. A vida se constrói a partir do momento em que se assume responsabilidade pelas próprias escolhas.

Ao comparar gerações, observa mudanças significativas. Pai de um jovem de 20 anos, estudante de Medicina na Unisa, reconhece que o cenário atual é mais complexo, contexto em que as pressões são distintas. Chama a atenção para fenômenos como o dos “nem-nem”, jovens que não estudam nem trabalham, e acredita que parte desse comportamento está ligada à forma como são educados. É uma visão que serve para todos os aspectos da vida, profissional e pessoal.

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