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Implantação do ‘Pix’ europeu avança para reduzir dependência americana

Wero, sistema de pagamento instantâneo criado por um consórcio de bancos da Europa, entra em nova fase de implantação

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 fev 2026, 16h18 • Atualizado em 8 fev 2026, 18h40
  • A Europa acordou tardiamente para uma realidade que o Brasil já conhece há cinco anos: a vantagem de ser dono de um sistema de pagamento eficiente, competitivo e universal. Com tensões geopolíticas crescentes – especialmente com aquele que deveria ser seu maior aliado, os Estados Unidos, que dominam a infraestrutura financeira global –, o continente europeu acelera a implantação do Wero, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pela European Payments Initiative (EPI) e que representa a mais ambiciosa tentativa europeia de criar uma alternativa às bandeiras Visa e Mastercard e meios de pagamento de big techs americanas, como o Apple Pay, o PayPal e o Google Pay.

    Neste início de 2026, o Wero começa a deixar de ser apenas uma resposta teórica para se tornar um sistema plenamente operacional, presente em aplicativos bancários de diversos países da zona do euro e cada vez mais visível nos carrinhos de e-commerce. Construído sobre a infraestrutura do SEPA Instant Credit Transfer, o sistema processa pagamentos diretamente entre contas bancárias, liquidando transações em segundos e mantendo a governança nas mãos de um consórcio de bancos europeus.

    Após doze meses de operação oficial, iniciada em 2024, o Wero acumulou mais de 43 milhões de usuários registrados e processou mais de 7,5 bilhões de euros em transferências pessoa-a-pessoa na Alemanha, na França e na Bélgica. Grandes bancos europeus como Deutsche Bank, BNP Paribas e KBC já incorporaram o sistema em seus ecossistemas digitais. Em 2026, dois novos países se juntam à iniciativa: Luxemburgo, a partir de junho, e Holanda, onde a migração do tradicional sistema iDEAL para o Wero já está em andamento.

    A transição holandesa é particularmente emblemática. Para os consumidores, que já tinham um sistema parecido, a experiência permanece praticamente inalterada: selecionar o banco, aprovar o pagamento e receber confirmação instantânea. Para os comerciantes, no entanto, a mudança é estrutural — transações antes liquidadas em um sistema puramente doméstico agora passam por infraestrutura digital que cruza fronteiras.

    Alex Hoffmann, CEO e cofundador da PagBrasil, empresa brasileira especializada em infraestrutura de pagamentos e interoperabilidade entre sistemas, acompanha de perto os esforços europeus. “A Europa está extremamente vulnerável, mais do que outros continentes. Eu diria que é o continente mais vulnerável em pagamentos”, disse Hoffmann em entrevista à coluna.

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    Ele observa que a francesa Aurore Lalucq, que preside a Comissão de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu, recentemente criticou a dependência financeira do bloco em relação aos Estados Unidos, não apenas por conta das bandeiras de cartão, mas também em relação ao sistema SWIFT – que faz transações internacionais. “Ela disse que a verdade é que o presidente americano pode interromper os pagamentos na Europa, e que todo o resto é poesia. Ela fez uma analogia com a Airbus, grande fabricante de aviões: disse que a Europa precisa criar um Airbus de pagamentos.” A comparação não é exagero. Enquanto o Brasil desenvolveu o Pix, a África conta com o M-Pesa e a Ásia dispõe de WeChat Pay e Alipay, a Europa permaneceu dependente da infraestrutura americana.

    Apesar das óbvias semelhanças, Wero e Pix apresentam diferenças estruturais significativas. A primeira e mais fundamental está na origem: o Pix foi criado e é operado pelo Banco Central brasileiro, enquanto o Wero é obra de um consórcio de bancos privados europeus. Essa distinção não é apenas institucional — ela afeta a velocidade de adoção e o escopo do sistema.

    Hoffmann explica que as iniciativas europeias anteriores ao Wero, como o MBWay, em Portugal, e o Bizum na Espanha, costumam ser limitadas a transferências entre pessoas. Já o Pix serve para muitas outras funções, incluindo pagamentos de produtos e serviços. A limitação prática é evidente no cotidiano. “Eu não consigo pagar em uma loja na Europa com esses sistemas. Não consigo ir na Zara e dizer que quero pagar com Bizum — não compete com cartão de crédito”, compara Hoffmann.

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    Além disso, os sistemas europeus operam com limites de valor baixos — entre 1.000 e 2.000 euros — que inviabilizam transações comerciais maiores. O Pix, por sua vez, não possui limite mínimo nem máximo. É possível, por exemplo, comprar imóveis via Pix. O Banco Central já registrou um Pix com o incrível valor de 2 bilhões de reais. Essa versatilidade permite que o sistema brasileiro seja usado tanto para dividir uma conta de bar quanto para fechar aquisições empresariais.

    Outra diferença é em relação ao custo do sistema de pagamento. Tanto Pix quanto o Wero são gratuitos para as pessoas físicas. No Brasil, é permitida a cobrança para as empresas, mas muitas instituições de fato isentam as transações comerciais. Já o Wero cobra algo em torno de 0,7% ou 0,8% dos lojistas, o que ainda assim está bem abaixo do que cobram as bandeiras de cartões de crédito, por exemplo.

    O roteiro de implantação do Wero inclui a expansão para pagamentos em comércio eletrônico e, posteriormente, para pontos de venda físicos. A solução de pagamento online para varejo foi lançada primeiro na Alemanha no final de 2025 e deve chegar à Bélgica e à França este ano. A EPI planeja oferecer funcionalidades de “tap-to-pay” (pagamento por aproximação) no varejo físico, checkout com um clique e reembolsos instantâneos. No entanto, a adoção permanece desigual fora da Holanda. Na Alemanha, o PayPal continua profundamente enraizado no pagamento online; na França, os cartões dominam o comércio físico e eletrônico.

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    A principal barreira enfrentada pelo Wero é de hábito, não de infraestrutura. Essa assimetria reforça uma lição que a experiência brasileira já demonstrou: sistemas de pagamento só vencem quando caem nas graças da população, ou seja, quando realmente facilitam a vida das pessoas. Regulação pode habilitar infraestrutura, mas não pode forçar preferência.

    Hoffmann defende uma visão que vai além da criação de sistemas nacionais ou regionais isolados. A PagBrasil trabalha em algo que ele chama de “camada de interoperabilidade”, que permite conectar diferentes sistemas de pagamento ao redor do mundo. Empresas como a PagBrasil podem conectar sistemas instantâneos de diferentes regiões do globo, formando uma infraestrutura global de pagamentos. Essa é a interoperabilidade. Na prática, isso significa que um argentino pode pagar com Pix em Florianópolis usando seu banco local, enquanto o lojista brasileiro recebe normalmente em reais.

    A própria Wero já demonstrou interesse nessa abordagem. “Eles entraram em contato conosco, acho que uns dois, três anos atrás, para aprender mais sobre o Pix, para ver o que eles poderiam fazer”, diz Hoffmann. O executivo argumenta que a solução para a fragmentação não virá de um novo sistema global, mas de uma rede de sistemas regionais conectados. “Não adianta a União Europeia criar um sistema e resolver que não depende mais de Visa e Mastercard. Como os estrangeiros vão pagar nessa forma de pagamento quando estiverem na Europa? Ou como os europeus, quando viajam para a Ásia, vão pagar sem usar cartões?”.

    A EPI busca agora colaboração com a European Payments Alliance (EuroPA), que reúne a portuguesa SIBS (responsável pelo MB Way), a espanhola Bizum e a italiana Bancomat. Martina Weimert, CEO da EPI, confirmou essas negociações recentemente. O ano de 2026 será decisivo para determinar se o Wero será capaz de revolucionar a infraestrutura financeira europeia ou permanecerá como uma alternativa geograficamente limitada. Esse resultado será decidido não por anúncios ou alianças, mas pelo comportamento dos consumidores.

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