Implantação do ‘Pix’ europeu avança para reduzir dependência americana
Wero, sistema de pagamento instantâneo criado por um consórcio de bancos da Europa, entra em nova fase de implantação
A Europa acordou tardiamente para uma realidade que o Brasil já conhece há cinco anos: a vantagem de ser dono de um sistema de pagamento eficiente, competitivo e universal. Com tensões geopolíticas crescentes – especialmente com aquele que deveria ser seu maior aliado, os Estados Unidos, que dominam a infraestrutura financeira global –, o continente europeu acelera a implantação do Wero, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pela European Payments Initiative (EPI) e que representa a mais ambiciosa tentativa europeia de criar uma alternativa às bandeiras Visa e Mastercard e meios de pagamento de big techs americanas, como o Apple Pay, o PayPal e o Google Pay.
Neste início de 2026, o Wero começa a deixar de ser apenas uma resposta teórica para se tornar um sistema plenamente operacional, presente em aplicativos bancários de diversos países da zona do euro e cada vez mais visível nos carrinhos de e-commerce. Construído sobre a infraestrutura do SEPA Instant Credit Transfer, o sistema processa pagamentos diretamente entre contas bancárias, liquidando transações em segundos e mantendo a governança nas mãos de um consórcio de bancos europeus.
Após doze meses de operação oficial, iniciada em 2024, o Wero acumulou mais de 43 milhões de usuários registrados e processou mais de 7,5 bilhões de euros em transferências pessoa-a-pessoa na Alemanha, na França e na Bélgica. Grandes bancos europeus como Deutsche Bank, BNP Paribas e KBC já incorporaram o sistema em seus ecossistemas digitais. Em 2026, dois novos países se juntam à iniciativa: Luxemburgo, a partir de junho, e Holanda, onde a migração do tradicional sistema iDEAL para o Wero já está em andamento.
A transição holandesa é particularmente emblemática. Para os consumidores, que já tinham um sistema parecido, a experiência permanece praticamente inalterada: selecionar o banco, aprovar o pagamento e receber confirmação instantânea. Para os comerciantes, no entanto, a mudança é estrutural — transações antes liquidadas em um sistema puramente doméstico agora passam por infraestrutura digital que cruza fronteiras.
Alex Hoffmann, CEO e cofundador da PagBrasil, empresa brasileira especializada em infraestrutura de pagamentos e interoperabilidade entre sistemas, acompanha de perto os esforços europeus. “A Europa está extremamente vulnerável, mais do que outros continentes. Eu diria que é o continente mais vulnerável em pagamentos”, disse Hoffmann em entrevista à coluna.
Ele observa que a francesa Aurore Lalucq, que preside a Comissão de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu, recentemente criticou a dependência financeira do bloco em relação aos Estados Unidos, não apenas por conta das bandeiras de cartão, mas também em relação ao sistema SWIFT – que faz transações internacionais. “Ela disse que a verdade é que o presidente americano pode interromper os pagamentos na Europa, e que todo o resto é poesia. Ela fez uma analogia com a Airbus, grande fabricante de aviões: disse que a Europa precisa criar um Airbus de pagamentos.” A comparação não é exagero. Enquanto o Brasil desenvolveu o Pix, a África conta com o M-Pesa e a Ásia dispõe de WeChat Pay e Alipay, a Europa permaneceu dependente da infraestrutura americana.
Apesar das óbvias semelhanças, Wero e Pix apresentam diferenças estruturais significativas. A primeira e mais fundamental está na origem: o Pix foi criado e é operado pelo Banco Central brasileiro, enquanto o Wero é obra de um consórcio de bancos privados europeus. Essa distinção não é apenas institucional — ela afeta a velocidade de adoção e o escopo do sistema.
Hoffmann explica que as iniciativas europeias anteriores ao Wero, como o MBWay, em Portugal, e o Bizum na Espanha, costumam ser limitadas a transferências entre pessoas. Já o Pix serve para muitas outras funções, incluindo pagamentos de produtos e serviços. A limitação prática é evidente no cotidiano. “Eu não consigo pagar em uma loja na Europa com esses sistemas. Não consigo ir na Zara e dizer que quero pagar com Bizum — não compete com cartão de crédito”, compara Hoffmann.
Além disso, os sistemas europeus operam com limites de valor baixos — entre 1.000 e 2.000 euros — que inviabilizam transações comerciais maiores. O Pix, por sua vez, não possui limite mínimo nem máximo. É possível, por exemplo, comprar imóveis via Pix. O Banco Central já registrou um Pix com o incrível valor de 2 bilhões de reais. Essa versatilidade permite que o sistema brasileiro seja usado tanto para dividir uma conta de bar quanto para fechar aquisições empresariais.
Outra diferença é em relação ao custo do sistema de pagamento. Tanto Pix quanto o Wero são gratuitos para as pessoas físicas. No Brasil, é permitida a cobrança para as empresas, mas muitas instituições de fato isentam as transações comerciais. Já o Wero cobra algo em torno de 0,7% ou 0,8% dos lojistas, o que ainda assim está bem abaixo do que cobram as bandeiras de cartões de crédito, por exemplo.
O roteiro de implantação do Wero inclui a expansão para pagamentos em comércio eletrônico e, posteriormente, para pontos de venda físicos. A solução de pagamento online para varejo foi lançada primeiro na Alemanha no final de 2025 e deve chegar à Bélgica e à França este ano. A EPI planeja oferecer funcionalidades de “tap-to-pay” (pagamento por aproximação) no varejo físico, checkout com um clique e reembolsos instantâneos. No entanto, a adoção permanece desigual fora da Holanda. Na Alemanha, o PayPal continua profundamente enraizado no pagamento online; na França, os cartões dominam o comércio físico e eletrônico.
A principal barreira enfrentada pelo Wero é de hábito, não de infraestrutura. Essa assimetria reforça uma lição que a experiência brasileira já demonstrou: sistemas de pagamento só vencem quando caem nas graças da população, ou seja, quando realmente facilitam a vida das pessoas. Regulação pode habilitar infraestrutura, mas não pode forçar preferência.
Hoffmann defende uma visão que vai além da criação de sistemas nacionais ou regionais isolados. A PagBrasil trabalha em algo que ele chama de “camada de interoperabilidade”, que permite conectar diferentes sistemas de pagamento ao redor do mundo. Empresas como a PagBrasil podem conectar sistemas instantâneos de diferentes regiões do globo, formando uma infraestrutura global de pagamentos. Essa é a interoperabilidade. Na prática, isso significa que um argentino pode pagar com Pix em Florianópolis usando seu banco local, enquanto o lojista brasileiro recebe normalmente em reais.
A própria Wero já demonstrou interesse nessa abordagem. “Eles entraram em contato conosco, acho que uns dois, três anos atrás, para aprender mais sobre o Pix, para ver o que eles poderiam fazer”, diz Hoffmann. O executivo argumenta que a solução para a fragmentação não virá de um novo sistema global, mas de uma rede de sistemas regionais conectados. “Não adianta a União Europeia criar um sistema e resolver que não depende mais de Visa e Mastercard. Como os estrangeiros vão pagar nessa forma de pagamento quando estiverem na Europa? Ou como os europeus, quando viajam para a Ásia, vão pagar sem usar cartões?”.
A EPI busca agora colaboração com a European Payments Alliance (EuroPA), que reúne a portuguesa SIBS (responsável pelo MB Way), a espanhola Bizum e a italiana Bancomat. Martina Weimert, CEO da EPI, confirmou essas negociações recentemente. O ano de 2026 será decisivo para determinar se o Wero será capaz de revolucionar a infraestrutura financeira europeia ou permanecerá como uma alternativa geograficamente limitada. Esse resultado será decidido não por anúncios ou alianças, mas pelo comportamento dos consumidores.






